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quinta-feira, 26 de junho de 2014

O premio - 45

Chegou o seu dia na Academia Sueca de Ciências. Brzil foi até lá de taxi, sendo recebido à porta pelo doutor Björn B, que acompanhou-o até o interior da Casa; quanto ao alfaiate, ele já deixara no vestiário as vestes talares a serem usadas por Ildefonso que, na hora prevista, entrou  no salão acompanhado de Björn. Feita uma breve apresentação do convidado;  Brzil começou por olhar detidamente as estantes de livros centenários que circundavam o salão, enfatizando a circunstância do lugar. Os onze membros da Turma, indicada pela alta direção do Nobel, já aguardavam-lhe sentados em seus lugares. Depois do seu anúncio e estando presentes todos os componentes da "Alta Comissão para Análise dos Argumentos do Sr. Ildefonso de Alencar"; começou a defesa oral do brasileiro.  Preparado ele estava, desde o Brasil, vinha organizando dois tipos de defesas orais. A primeira era o que chamava de "via plena", pela qual faria uma defesa extensiva de suas teses. A outra só aconteceria se percebesse que a plateia não tinha condições, ou em verdade não queria, acompanhar uma dissertação extensa. Ao perceber que a maioria dos Conselheiros mostrava  desinteresse, decidiu pelo que já tinha chamado de "via rápida", sintética mesmo, mas que apesar de resumida, não deixava escapar nada da essência da obra de cada um dos representados.

Começou comparando  tacitamente  o trabalho premiado no  Nobel de Economia do ano de 1993 , com  o que - a seu ver -  deveria ter ganhado ,  afirmando ser uma " desconsideração incompreensível o prêmio não ter ido para os economistas que criaram o plano econômico que estabilizou a economia brasileira . Aquele que ,   segundo Ildefonso  -  "  resolveu o problema , que foi para o Brasil, a maior inflação da história humana". E prosseguiu : " Doutores,  desconheço o resultado futuro destas minhas solicitações , ou mesmo se elas vão resultar em algo de bom , de justo .  Mas ; ainda que só venha a restar desta minha oração os sons de minha voz cravados nestas paredes, a clamar por justiça aos criadores da verdadeira moeda brasileira : André ,  Clovis ,Edmar , Gustavo , Pedro , Persio  e Winston ;  mesmo  assim  peço-lhes  que reflitam sobre a feliz possibilidade de ainda  estarmos no  tempo natural ,  dentro das estipulações do Doutor Alfred Nobel , de que somente pessoas vivas  recebessem a láurea.  Convenhamos que, se um desagravo tardio  é  lamentável, o que jamais chega  é muito pior do que  todas as afrontas juntas . Sendo assim, sugiro que  Vossas Excelências, a qualquer tempo, desde que a tempo ,  busquem a  reparação do lamentável lapso: aproveitem a sorte de todos os honoráveis estarem aptos - e muito aptos - a  cumprir a estipulação do fundador ,  para conferir-lhes a honra maior outorgada por  suas pátrias !  . Mãos a obra , Doutores ! "

Logo a seguir passou a examinar as  obras  dos diversos literatos anteriormente mencionados por ele à Björn B.

Foi neste instante que ouviu o ronco de um dos membros da mesa. Até agora Brzil tem certeza de que o homem não dormia, só roncava para diminuí-lo, para depreciá-lo. Mas ele não se intimidou. Foi em frente.  E estava tão atento que ouviu claramente o arroto de um dos examinadores. Mas, "graças a Deus" ( pensou )  que contrapondo-se à grosseria, notou que tinham dois ouvintes  que torciam por ele. O primeiro era o doutor Björn B, que com meneios de cabeça aprovava tudo o que o seu amigo brasileiro dizia.  O outro era o doutor Dag Hammar que, totalmente voltado para o brasileiro,  acompanhava toda a fala, chegando a -  de vez em quando - conferir  as  citações de Brzil  com os textos que Ildefonso trouxera do Brasil para a Academia . Assim, Brzil falava como aquele músico que, ao tocar para uma plateia desatenta, ou mesmo hostil, descobre no auditório uma pessoa curtindo a sua arte; passando a apresentar-se tão somente para o ouvinte que o reconhece, suprimindo do cérebro as pessoas que lhe são adversárias .

" ..  pelo menos estou conseguindo ser ouvido por alguém. "  Festejava  Brzil .    

Ainda que sua defesa  não estivesse sendo um sucesso de público  -  alguns dormiam solenemente - Brzil continuou firme, e sempre obstinado. A seguir, falou longamente sobre os escritores brasileiros que, a seu entender, foram esquecidos pela premiação do Nobel .

Foi quando um dos Conselheiros aparteou :

"Apesar de estarmos muito honrados com vossa presença, Doutor Ildefonso;  apesar disto, devo informá-lo que a escolha do prêmio Nobel é feita por um comitê independente, denominado de "Comitê do Nobel"; ou seja, quase inexiste responsabilidade nossa, sobre os resultados, eis que a pré-eleição é feita - como eu disse - por um comitê independente . "

"Excelência, informo também conhecer o iter da premiação, mas  posso dar-lhe a minha certeza de que o fato do raio não cair duas vezes no mesmo lugar torna  lógico que ele deva - em algum tempo bem razoável; eu diria, num tempo relativo -  cair, ainda que aleatoriamente, pelo menos uma vez em todos os rincões. Mormente porque não é pequena a quantidade de raios que cai anualmente . O que venho aqui instar-lhes, é que já é passada a hora de Vossas Excelências explicarem por quê vosso raio nunca caiu no Brasil. Senhores, pelo que me é dado a saber, as triagens são finalizadas a cada mês de Agosto, gerando uma lista dos candidatos que é submetida ao voto do Comitê do Nobel, tendo este a missão de apontar os vencedores . Donde se pode concluir que , é  do Comitê do Nobel  o  condão de apontar o lídimo vencedor. Por isto,  prepondera sim - Excelências -  a vontade desta Casa na escolha do Prêmio Nobel. "

Neste momento o conselheiro que dormia, acordou: " Pelo que eu ouvi , o senhor esqueceu do Paulo Coelho . "

"Não foi esquecimento, Ilustre Doutor. É que o rol aqui trazido originou-se em um sorteio feito pela minha própria pessoa com a finalidade de limitar  ao razoável a imensa relação de  notáveis , selecionados por mim , como merecedores do prêmio."

"Veja, então, que o seu raio nunca acertou o Paulo Coelho . "

Neste momento, como que se contrapondo ao que ouvira , Dag  Hammar, aquele conselheiro atento,  levantou a voz . 

"Preclaro Dr. Alencar, vou formular uma pergunta ; a qual , desde já aviso , não está dentre os assuntos da pauta proposta por Vossa Excelência ... "

" O que este cara foi descobrir de mim , meu Deus ?"  ;   mas ficou calado, esperançoso de que o que viesse de Dag fosse algo sem maior importância .

"Doutor Alencar; o senhor conhece o livro " Obrigado por não ter dito adeus ? ". Foi quando todos os Conselheiros acordaram, surpreendidos que foram  pelo inusitado da pergunta. E levantaram os olhos diretamente para Brzil.  Mas, entre os que mais se admiraram foi Björn, que se voltou todo para o amigo com  um golpe seco de pescoço; mas logo aquietando-se, quase que enrodilhando-se no assento, para exteriorizar que queria  permanecer calado para assim expressar sua  falsa tranquilidade quanto ao resultado da inquisição .

Quanto  a Ildefonso,  ele permaneceu calado , olhando para o chão próximo  e sem responder .
 
"Ilustre Convidado, sou obrigado a repetir minha pergunta ... "  disse o conselheiro, passando a levantar a voz, e marcando os esses e erres de sua fala:  "...  o senhor conhece o livro " "Obrigado por não ter dito adeus"  ? "

E Brzil ,  com as feições hígidas,  respondeu :  " Desculpe-me ,  Excelência , mas este tema não está dentre os que eu me propus  a dissertar ... "

"Talvez infelizmente, mas eu necessito agora lembrar-lhe de uma das particularidades do nosso regulamento é que todo aquele que pede para ser ouvido por esta Casa deve estar preparado para responder a todas as questões  - ainda que não diretamente ligadas ao tema principal - desde que não sejam de cunho pessoal possam, ser livremente  perguntadas por quaisquer dos Conselheiros. Enfim, tudo que possa conduzir-nos a avaliar o que for necessário, e na maior amplitude possível, para o conhecimento não só do que é reclamado; mas, também sobre a que vem o reclamante. É por assim estar no artigo 128 do regulamento criado pelo próprio fundador  desta Casa; o Ilustríssimo Doutor Alfred Nobel. Por isso, e com as vênias de estilo, pergunto-lhe pela terceira vez : " O senhor conhece o livro  Obrigado por não ter dito adeus ? "  

A pequena plateia estava paralisada.  "Qual importância poderia ter aquele livro dentre os muitos milhares de originais já trazido às Comissões do Nobel de Literatura nestes cem anos ? " 

Brzil, naquele momento, só fazia pensar. Na verdade procurava ganhar tempo, para achar uma saída. " Creio que este velho quer que eu repita São Pedro. Quer que eu negue por três vezes a resposta pela qual anseia. Não vou chegar a tanto ... vou contra-atacar com uma negativa geral ...  "

E quebrou o seu silêncio: "Mas isto foi a tanto tempo ... lembro-me que foi na época da guerra das Malvinas, eu era muito jovem ... eu tinha só vinte e dois anos, mas lembro que já era uma pessoa preocupada com a posteridade ... "

" Agradeço por ter confirmado ser o  autor  de  " Obrigado por não ter dito adeus", Senhor Ildefonso Alencar.  "

"Sim  ... Excelência ... fui eu quem o escreveu ... Ilustre Conselheiro ...  Fiz pretendendo diminuir  minha culpa , por não ter  tido um filho - e por já saber que nunca viria a tê-lo ;  e também porque  - apesar de ter plantado algumas árvores - elas não chegaram a prosperar. Talvez  por não as ter regado ou porque, 
tampouco, pus o adubo necessário, a tempo de pegarem. O certo é que todas elas acabaram morrendo. Com o livro pretendi diminuir meu remorso. Foi por isto que o escrevi . "  

Seu devaneio foi quebrado pela volta da voz gutural do bom conselheiro: " Pois saiba que eu fazia parte da Comissão de escolha em 1983 -  ano em que seu livro foi indicado ao Nobel; e o senhor teve em mim um dos seus poucos votos. Permita-me uma pergunta, para mim esclarecedora do seu íntimo, Doutor Ildefonso. E o  apotegma ?   Sim qual era o apotegma com que abriu sua importante obra ? "

Brzil gelou, ao mesmo tempo em que se regozijava por ter feito o retiro espiritual no Zu Lai, e por ter praticado incansavelmente nos quartos  dos hotéis onde dormia  agora o "método de limitação forçada de exteriorização de sentimentos emotivos" .  Sim !  Os céus fariam com que  conseguisse permanecer altivo ,  superior aos seus inquisidores ,  afinal - ali ele era o Brasil. "Sem tremer ou chorar seu  ... seu ... seu Ildefonso! E com cara alegre, seu bosta ! "  falou consigo mesmo .

Tais pensamentos serviram, pontualmente, para reforçar a autoestima de Brzil ;  descontraindo suas  feições. Mas foi  por pouco tempo; voltando  logo a falar tão baixo que alguns conselheiros tiveram que botar  as mãos em concha nos ouvidos na tentativa de decifrarem o que dizia .

" Sou muito grato pelo seu voto para  que eu viesse a vencer o Nobel , doutor Dag !  Lembro-me ,  ainda, o que o meu personagem afirmava sobre a ética :  Que , segundo ele ;  a partir de algum momento histórico  futuro e próximo - e estamos agora no ano de 1972  ,  o termo ética não mais poderia ser expressado  em sua  forma  até  então conhecida como natural .  Ou seja ,  dissociada  de um complemento  para que , então ,  pudesse  levar uma ideia  possível de ser entendida pelo receptor dela ... "

"É isto ... é isto mesmo !  ... lembro-me que seu personagem dava exemplos do termo ética, que - segundo ele - a partir de um tempo que aconteceria brevemente, só poderia ser entendido quando associado a um complemento, um outro significante, algo como" ética relativa "  ...     "ética possível ". Uma que não esqueci era a ética  boomerang; que seria aquela que depois de um breve voo volta-se  contra os interesse do  praticante. Mas o que o personagem queria mesmo marcar é que tal era a dureza desses tempos que de agora em diante uma parte só poderia ser ética na medida em que o outro lado  também fosse; sem o que não conseguiria sobreviver em qualquer ambiente, fosse ele o de um pequeno nicho, ou o do universo inteiro."  Festejou o Conselheiro Dag .  

Foi quando o próprio Dag Hammar, interrompeu  a sua  explanação, para continuar batendo na mesma tecla:

"Doutor Ildefonso é comum, quando escolhemos um apotegma para a abertura de uma nova obra ... é  comum  que o saibamos de cor. Isto posto, solicito-lhe que  - se  souber de cor -  declame-o para esta Comissão as breves palavras de abertura de seu livro ? "

Brzil pensou: " E esta agora ?   Onde este anão de jardim quer chegar ? "   Mas seu pensamento foi logo interrompido por Dag Hammar :

"Por favor, Doutor Ildefonso, não nos faça esperar. Aproveito para avisar-lhe de que não deixar perguntas sem respostas pesará a seu favor em todos os momentos que, estou certo, estão por vir. Declame o apotegma, Doutor  Ildefonso !!  " disse, levantando a voz .

" ... Enquanto caminhava pelo deserto, um homem encontrou uma mulher solitária, parada, de olhos voltados para o chão , e lhe perguntou: " Quem é você ? "   E ela: " A Verdade ".  " E por que motivo deixou a cidade e está morando no deserto ? ", tornou ele .  Ela respondeu: " É que , em tempos passados, a mentira era companheira de poucas pessoas, mas hoje, sempre que você quer falar ou ouvir alguma coisa , ela está com todos os homens . "

Trata-se de uma fábula de Esopo -  " O viandante e a Verdade " que muito me impressionou , Doutor Dag Hammar . "

" E Sua  Excelência  teria algo a mais a nos informar sobre o seu livro ?  "  

" Também recordo-me que o meu personagem principal , de Obrigado por não ter dito adeus, negava a possibilidade de que -  em qualquer tempo -  alguém pudesse segurar duas bandeiras  que contivessem ideias antagônicas, conflitantes mesmo; e, ainda assim, ser considerada uma pessoa proba . "

Neste momento pigarreou, para logo depois, ainda falando quase que imperceptivelmente, recompor-se : " Sim , mais uma vez confirmo que fui eu quem redigiu tal escrito. Mas, logo depois de publicá-lo arrependi-me por tal criação. E passei a tomar todas as providências para retira-lo de venda. Comprei , em todos  os pontos onde os encontrasse a venda, todos os exemplares. Sim, todos os que estavam em comércio. "

Neste ponto suas feições fecharam-se  mais , como se isto ainda fosse possível . 

"Só restaram - pelo que sei - os de um sebo de Nova Iorque, porque o valor pedido pelo livreiro era alto demais para o meu bolso. "     

Dag aparteou :

"É isto !  É isto mesmo !   seu personagem dava o exemplo de que  o termo ética, dali para frente, só poderia vir adjetivado ,  ou com um aposto que permitisse, enfim, a possibilidade de sua compreensão, como  ética relativa, por exemplo. Ou melhor,  o que o senhor queria passar  é que, dali para frente, as pessoas só podiam ser éticas na razão direta do quão ético fosse o seu concorrente. "

Disse o Conselheiro Doutor, quase que festejando o fato de estar a pouco de decifrar a obra do brasileiro.  Mas foi ele, Ildefonso, quem voltou a falar.

"Sim, reitero que fui eu mesmo quem redigiu tal escrito ;  e , logo depois de publicá-lo me arrependi de tal criação. E tomei muitas providências para purgar meu erro, dentre elas a de excluir da internet todas as referências a tal manuscrito; a outra foi tentar recomprar os livros, por onde os encontrasse a venda.  Cegamente eu os recomprava  - para serem incinerados logo a seguir - . E com  grande satisfação queimei todos os exemplares que achei disponíveis e pude adquirir. Só não consegui os de um sebo de Nova Iorque, porque a quantia estava muito além de minhas possibilidades.  Talvez porque era um momento em que a moeda brasileira estava muito desvalorizada . Sei lá ...  "

Voltando-se para o Conselheiro Dag Hammar: " Aproveito para  confessar  , Ilustre Doutor  Hammar , que  eu teria uma grande  alegria  , inesquecível mesmo ,  caso o senhor aceitasse vender-me o exemplar que, penso, ainda está em seu poder. "

Dag respondeu com voz extremamente educada: " Doutor  Ildefonso , sinto muitíssimo , mas meu exemplar não está a venda.   Aproveito para informar-lhe  que eu ingressarei com o recurso cabível junto à Comissão do Nobel  para que sua obra seja reexaminada pela Academia. E quase concluo minhas manifestações  com mais uma pergunta que; -  como sempre -, o senhor responderá se quiser: " Qual o motivo do senhor renegar com tanta determinação a sua bela obra Obrigado por não ter dito adeus;  Doutor Alencar ? "  

Neste momento as faces de Brzil ruborizaram-se; para, então, com voz ainda menos audível, balbuciar: "É que ... é que ... em tal livro - na verdade uma quase ficção - eu relatei o envolvimento profundo do personagem principal com uma senhora ilustre da alta sociedade de um país escandinavo. Mas tal personagem, é claro que fictícia,  era casada . Com o passar do tempo , certas semelhanças foram aflorando ; e foram estas  mesmas  coincidências que  trouxeram-me remorsos que, só diminuem quando  eu consigo  retirar das livrarias mais exemplares do opúsculo , e - tão imediatamente quanto possível - queimá-los. De 3000  já queimei ...   "    neste momento pegou uma pequeníssima agenda negra do bolso ...  "sim, já queimei 2.973 exemplares . "Mas, desgraçadamente 27 ainda estão por aí, mundo afora, ainda que eu tenha jurado solenemente que resgataria.  Todos. "

" Quantos estão em Nova Iorque ,  doutor Ildefonso ? "

"Bom, até quando pude acompanhar , 18  estão no livreiro de lá . "

"E o senhor poderia pormenorizar  o motivo , provavelmente  o fator econômico  que o levou a não adquirir os quase últimos  18 exemplares fora de suas mãos;  e em poder  do livreiro americano ,  preclaro Doutor ? "

"Foi o meu olhar ... sim, foi pelo meu olhar que perdi a chance .. " 

Os conselheiros miraram-se como  se tivessem dizendo: " E essa agora ? "

Com a voz cada vez  menos intensa, Dag Hammar interferiu novamente: " O que poderia ter a ver o seu olhar com a impossibilidade de resgatar,  das mãos do livreiro , os 18 exemplares que ele detém, doutor  Ildefonso ? "

"Sim ,  ...  veja, quando voltei para o Brasil, restou  aquele espinho fincado em minha garganta: Por que o comerciante cobrou  o estratosférico preço de 439 dólares por exemplar , meu Deus ?   Por que ? "                       "  Por isso tive, tão prontamente quanto me foi possível, de  voltar à Nova Iorque: para perguntar-lhe sobre o motivo  do preço enlouquecido ;  "

"E daí Doutor  De  Alencar ??   O que o seu olhar tem a ver com tais 439 dólares por exemplar, homem de Deus ? ? " 
Atacou Dag Hammar , como se fosse uma caninana .

"Perguntei-lhe ... e ele me respondeu: "percebi que eras um novato ... senhor ...  porque, quando os meus clientes mais antigos -  os que já me conhecem - desejavam muito um determinado livro, tentavam enganar-me sobre seus mais profundos desejos ao misturarem o exemplar  ambicionado entre diversos outros exemplares que me apresentavam; estes, sem qualquer importância para tais compradores. Tudo isso  na tentativa de camuflar a compra,  impossibilitando-me de valorizar o livro na razão direta de suas necessidades. Sim ! queriam que eu confundisse qual, dentre tantos exemplares, seria aquele o seu real objeto de desejo. Daí eu ter tomado, dentre outras, a providência de proibir que pessoas entrassem com óculos de sol em minha loja. É que os  tais 
óculos de sol, impediam que eu percebesse os seus olhares. Andaram dizendo que esta teria sido uma medida ditatorial da minha parte, e talvez o fosse mesmo. Mas ela muito ajudou-me a que conseguisse - pelo brilho nos olhos - perceber qual era o livro ansiado; para - assim -  valoriza-lo na razão direta do interesse do comprador  ... tudo porque, quando chegava a vez do livro perseguido, seus olhos brilham muito mais intensamente do que para  os demais volumes  ...  . " E concluiu sua fala afirmando que, com o advento dos e.books ele, o mercador de livros , sentia muito, inclusive pela perda de importância  de  certas técnicas aperfeiçoadas através dos séculos.  "Foi quando respondi  ao esperto:  Mas e comigo, que quis adquirir  somente livros verdadeiramente pretendidos ... ,  que não misturei  exemplar algum aos que eu de fato quero  comprar  ?  Se não havia qualquer diferenciação nos meus olhos, por que aumentar o preço de cada exemplar para 439 dólares .

"Com o senhor  ... foi o olhar. Foi o seu olhar, cavalheiro.  Assim é que, mesmo tendo percorrido somente a metade do processo , mesmo assim  o seu olhar foi como uma aurora boreal numa noite de inverno, serpenteando selvagemente por todos os 18 exemplares ...  e, pela escala de  fulgor que mantenho catalogada, tal brilho  mostrava a quase infinita vontade de o senhor obter todos os exemplares, todos eles em suas mãos ...  o que pela mesma classificação, chegava a 439 dólares por exemplar. Tenho certeza de que por este preço; mais dia, menos dia, o senhor pagará  mesmo os 439  dólares.  E comprará todos os que eu não tiver vendido . "

E Brzil arrematou entre dentes: " É o que eu tenho a dizer.Agradeço a atenção de tão ilustre plateia,  dando  por concluída a minha intervenção . "

Foi quando o presidente da mesa encerrou a audiência: " Senhores Conselheiros, ao declarar encerrada esta seção prometo ao ilustre visitante que suas solicitações - todas elas - serão levadas ao nosso Colegiado Maior, que é o tribunal competente para decidir sobre tais indagações. A Seção está terminada ."

Os ouvintes ainda estavam atônitos quando Björn B foi quase que  catapultado de sua cadeira ; mas só para abraçar o amigo: "Por que você nunca me contou do livro ? "

" Foi como ter confessado um crime ."   Respondeu Brzil .

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