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domingo, 23 de setembro de 2012

Julietinha e o Oficial do vapor .



Nesta sessão Julietinha viera de banho recém tomado . De cabelos molhados penteados junto à cabeça ; mas , como sempre , de saia ( esta era plissada )  com altura respeitosa  e de blusa quase que totalmente abotoada .  A única coisa que mudara é que naquele dia ela viera de sandálias que deixavam boa parte dos pés a  mostra  fazendo  com que  Pedro se fixasse neles ainda que em luta íntima para não fazê-lo .  Bom , pensou Pedro , tenho que manter-me como o profissional que sou , um  memorialista , um biógrafo  do interior.  "Chega de olhar tanto para os pés da balzaquiana !  ". Balzaquiana eram todas as que passassem ( um dia que fosse ) dos trinta anos .  Julietinha fizera trinta há dois meses , a viagem á Europa fora presente do irmão Paulo pelos trinta .  Começou  a narrativa  contando  a aproximação do navio ao porto de Vigo na Espanha .  Só a aproximação , não chegando  a  falar do desembarque . Contou que muitas pessoas  no navio começaram -  ali mesmo -  namoros , até mesmo envolvimentos mais sérios  .  Depois das particularidades do dia  ( shows de piano e mágicos ,  longos drinques , para ela sempre de frutas com um pouquinho de algum licor )  Julietinha  jantou e  foi para o convés pegar o vento do mar. Foi  quando se aproximou o Oficial .  Neste momento Pedro perguntou  se ele era inglês , talvez alemão , ou sueco ...  estas nacionalidades têm tradição no moderno transporte  marítimo ;  "não é Dona Julietinha ?"          " Não"  , respondeu ;    " Giancarlo é  italiano , Pedro"  ,  que deu uma tossida mais forte . "O que foi  ? "  , perguntou ela .  " Não , eu acho que estou com a garganta irritada , Dona Julietinha " .  Neste momento Pedro , como de outras vezes , pediu para ir ao banheiro e foi avisado de que hoje deveria usar o banheiro da alcova ( assim eram denominados os quartos de casas de gente com dinheiro )  da moça porque o banheiro da sala estava sendo arrumado por Quita .  Julietinha acompanhou-o  e Pedro ao fechar a porta olhou  e  ficou  extasiado vendo a  calça de baixo  estendida num porta-toalhas  ( sim naquela época era " calça de baixo "  a peça mais íntima das mulheres ).   Pedro olhava por longos momentos  apoiado na parede  . Chegou mesmo  a esquecer-se do que viera fazer no banheiro .  A calça de baixo  era de um branco muito alvo , com delicadíssimas rendas branquinhas nos locais mais mais adequados para tanto  .  Pensou rápido   "...   a renda é de Sevilha , ela pode ter parado nas Canárias , sei lá ; e comprou a calça de baixo com rendas de Sevilha " . E ele,  que sempre pensara que Nelson Gonçalves quando cantava "tinha rendas de Sevilha a pequena maravilha que seu corpinho adornava " mencionava Sevilha  só  para  conseguir uma boa  rima para maravilha .... quanto engano ... ali  estava ele frente a frente - já não tinha dúvidas - alem de existirem mesmo, eram lindas  as rendas  Sevilha  !    Pedro continuava muito mais do que sufocado , ele tremia por dentro e por fora quando ; sem saber porque ,  seu nariz passou perto , mais do que perto da tal "pequena maravilha  que seu corpinho adornara " .   Só que - ainda bem - foi despertado pelo forte cheiro de sabão , que   deveria ser da UFE  carioca .  Pedro  detestava qualquer cheiro vindo de sabão de côco .  Enfim desperto , deu uma falsa descarga no vaso e lavou as  mãos . Já na sala , de novo  reflexivamente  olhou para os pés de Julietinha .   Pensou ... meu Deus , porque isto agora ....   Despertou com  a pergunta : tudo bem Pedro ?   Sim , Dona Julietinha , vamos continuar ?

" Bem ....  acho que o Gian obedecia a  regras rígidas , próprias da marinha  porque  ........   ( " Pedro , tal já  é a nossa fraternal convivência ,  já me acostumei tanto com você  que  vou confidenciar-te  , ainda que pedindo que isto não seja  colocado no jornal " )  ... ele  nunca chegava a passar  o tempo que eu ansiava .... que eu precisava que ele ficasse comigo .... "  . Novamente Pedro tossiu , agora ainda mais nervosamente que antes .      "  Eu  estava cada vez mais apaixonada pelo Giancarlo e , ainda  mais .  pelo distanciamento de todos estes limites que temos por aqui ;  minha cabeça girava , girava só de pensar nele ,  e não  pelos longos  drinques  que eu tomava cada vez mais frequentemente ".    

Pedro ainda quis atravessar um pensamento , uma palavra  que se opusesse aquilo que achava ser uma  insensatez  própria da  idade de Julietinha ... " mas ele era italiano Dona Julietinha ,  italianos ....  assim como estes colonos italianos que andam pelas ruas em farrapos ,  fedendo  " .   " Não !  Mas não mesmo , Pedro !  "   Giancarlo é alto e esbelto como um toureiro espanhol . E tinha os olhos mais azuis do que as águas do Mediterrâneo , tinha a  cara do Mastroiani .... rescendia  a campos de  outono  na Toscana .... "



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