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quarta-feira, 31 de julho de 2013

77 - Julietinha e o Oficial do vapor - final B

Se olhassemos com uma lente que pegasse a amplitude do plano dos Mosqueteiros veria-se que boa parte dele estava fechado .  Tudo vinha acontecendo como fora previsto .  Pituca veio mesmo conversar com Aramis , que mostrou-se hábil na dissimulação de que estaria absolutamente comprometida com o estancieiro , inclusive mostrando-se muito feliz pelo prêmio que receberia .  Mesmo assim , alguns problemas permaneciam .   Um dos seguranças , dos Capa-Pretas , não bebia álcool .  A questão agora  -   de Pituca e Aramis - era como embebeda-lo .  Aramis  lembrou  que , apesar  de  beber somente sucos de frutas  ,  sobressaia a fama dele ser muito interessado em sexo - nas suas formas mais , digamos , originais e excêntricas .   Pelo menos foi o que confidenciou Prendoca , que era  a moça que  atendia  o vigilante .
Foi quando Pituca sugeriu que um sonífero fosse jogado no suco que o  homem beberia .   Aramis lembrou-se  que D´Artagnan certamente não concordaria com o artifício , eis que o alívio de excessos pecuniários  só admitia  meios naturais para a  requisição deles .  Também lembrou-se que  Prendoca segredou que por mais de uma vez o amante sugerira que ela chamasse  outras meninas para  participarem  de sexo a três , ou quantas mais quisessem  divertir-se com  a orgia .  

Pituca exultou   , dizendo que  :   " Contratarei  desde já  moças dispostas a  tudo que  passar pela  cabeça do quéra ! "     Prendoca , mais  duas , teriam a missão  mantê-lo  totalmente  envolvido  no bacanal .

Fechando mais um pouco o foco :   D ´Artagnan  ,  sabendo que  o  acesso de carros ao  Boca de Ouro  ( que , aliás , estava de há muito tempo fechado  para  funcionamento exclusivo  dos planos de Pituca )   concluiu que  o pequeno caminhão adquirido por  Athos deveria chegar com o motor desligado .  Logo a seguir  , já com os  Capa-Pretas anestesiados  pela atuação das prostitutas ,     D ´ Artagnan   se apossaria da chave do caminhão , onde estava o dinheiro , deixando  a chave do caminhão  falso  para  que , em breves minutos ,  fosse  furtado por Pituca , que também  as chaves entregues por  Aramis .  A  Mosqueteira  informaria  o Pituca  da hora  prevista para ele chegar  , momento em que os  seguranças  estariam fora de combate .

D ´ Artagnan ,  por sua vez , também   desceria  a  rua  com o motor  apagado  ,  vindo a  ligá-lo somente quando  o  ruído do motor  já não pudesse ser  ouvido pelos seguranças .

Aramis seguiria com Pituca , que  tomaria  a direção da República Oriental onde - ainda que fosse feriado  - teria  Don Paniagua  a esperar-lhe , com  funcionários de sua estrita confiança ,  prontos para conferir , receber  e dar recibo do depósito .

Don Paniagua  dissera à  Pituca que tão logo o depósito fosse noticiado , e  desde que o  telex passado por  Paniagua fosse  recebido no paraíso fiscal , tudo isto resultaria em  que tudo estivesse  praticamente consumado :  Sim ,  o dinheiro estando  lá na Europa  já seria  , praticamente ,  uma  propriedade de Pituca ; que mesmo assim , perguntou ao banqueiro :

" Vou ser franco , Don Paniagua ... não gostei do senhor ter usado duas vezes o tal de "praticamente "  Minha pergunta  é :  e quando eu serei  teórica - além de praticamente - totalmente dono do dinheiro ? "

" Usted solamente será dueño de la plata  , en toda la plenitud del termo ,  después que se passar um dia , um dia de veinte e quatro horas pasadas  , um dia  después del  dinero estar  em mis manos ,  niño Pituca . "

Por tal aviso , Pituca soube que o dinheiro seria verdadeiramente seu  somente depois de  dormir por vinte e quatro horas  com os banqueiros .  Naquele  momento  o dinheiro seria definitivamente propriedade sua , nada mais podendo ser feito por quem quer que fosse para modificar tal estado de propriedade .

Aramis  despediria-se de Pituca na entrada de  Rivera , e desapareceria no interior  do  país . A moça  seguiria para o pueblo onde nascera ;  totalmente distanciado de qualquer novidade que  pudesse ser  filtrada ,  de Rivera  para o pueblo  .  Além disto , em  po ali  ninguém sabia da profissão de Aramis  .

Sim ,  o tesouro  seria sepultado em  trigo , dentro de um grande silo , onde o pequeno caminhão hibernaria temporariamente .  Até mesmo as marcas dos pneus do verdadeiro carro  transportador seriam  apagadas , confundidas ,  de forma a impossibilitar a quem  que - por  remota possibilidade - ali passasse ,  mesmo que fosse  no outro dia ,  pudesse perceber  qualquer  marca do carro pagador desaparecido  .

Logo para o outro dia ,  D Ártagnan - com suas amizades  aos  gaúchos daquele  fim de mundo ,  já   programara  a chegada de quatro grandes carretas de trigo  a ser depositado no silo ,  que - por sinal - já  estava limpo ,  tão somente com o pequeno caminhão  que  , não por acaso , ficaria  exatamente  onde a esteira despejaria o cereal .

Os Mosqueteiros sabiam que riscos  sempre existiriam .  Mas esta alternativa de esconderijo  foi a escolhida  porque concluiu-se que  nenhum dos que se sentiriam prejudicados poderiam reclamar a perda  do tesouro ;   para quem quer que fosse ,  na República Oriental ,  ou mesmo no Brasil .

Restaria  aos Mosqueteiros  a  missão de ocultação do alívio de realizações pecuniárias ,  até que a toda  a areia  passasse pelo buraco da ampulheta .


quinta-feira, 25 de julho de 2013

74 - Julieitnha e o Oficial do vapor - Final B

Dois planos seguiam a um só tempo : o de Pituca ,  e o dos Novos Mosqueteiros .  O plano de Paulo Becerra tinha duas pessoas infiltradas nele :  os mosqueteiros Quita ,  e  Aramis .  Quanto à Aramis , Pituca entendeu que ela , sendo  pessoa da maior importância para o furto que planejava ,  ofereceu-lhe  a participação de  cem mil dólares ; quantia que foi imediatamente aceita pela rapariga .  Aramis raciocinou prontamente que se desse uma resposta  al tiro  , isto aumentaria a confiança de Pedro , incentivando-o para que falasse ainda mais de seus planos .



Julitetinha reclamou de Pedro por ele não ter contado que fora à Caçapava .  É que Pedro fora  àquela cidadezinha , segundo contou gora à Julietinha , para informar-se de certas incursões de espeleólogos que estavam explorando algumas grutas que haviam na cidade . 

Julietinha : " Mas por que não me dissestes ,  Pedro ? "  

Pedro :  "Na verdade no dia que eu fui lá tu estavas visitando o Pituca em Porto Alegre .  Ou melhor ,  fostes ajudar a Valéria nas compras , nos preparativos para o casamento .  Depois disto eu até cheguei a me esquecer de que tinha ido à Caçapava . " 

Foi verdade . Pedro também interessava-se por espeleologia , e foi à cidadezinha fazer um contato com os exploradores de cavernas .



D ´Artagnan , que estava sempre atento aos detalhes ,  achou que o fato  de Aramis  morar do lado de lá da fronteira ,  na República Oriental , isto  era  algo bem  importante para eles  todos.  Tudo porque no plano que começava a cristalizar-se em sua cabeça ;  Aramis  seria  a pessoa sobre a qual recairiam todas as suspeitas e ,  evadir-se de pronto para o país vizinho garantiria totalmente o seu total distanciamento do alívio que os Novos Mosqueteiros fariam  ante os acumuladores de realizações pecuniárias . Bastaria-lhes manter  Aramis  distante de tudo e de todos para que  todas as suspeitas morressem no nascedouro .



Valéria  confidenciou  à Quita que Pituca teria fraquejado na mútua decisão  de  ambos voltarem  ao estado de quase reconstrução das virgindades .  Ante ao argumento do noivo de que por faltar tão pouco tempo para as núpcias  terminada estaria  a necessidade de manterem  a  candura  , Valéria  agarrou-se  à promessa como um náufrago  a um salva-vidas :

" Se esperamos até aqui , se sofremos juntos as maiores tentações , por que haveremos de  quebrar a promessa de nos mantermos alvos como a  neve ,  limpos como águas  que descem das montanhas , claros  com as  luz das estrelas .  Não , amado Pituca ,  o que você quer , o que me pede , só terá depois do casamento ... e aí sim , serei toda tua ... e para sempre .  "

Pituca , que estava ajoelhado aos pés da amada , levantou-se e , sem despedir-se , caminhou  para o seu apartamento parecendo que estava  algo assim  meio  curvado .


sábado, 13 de julho de 2013

72 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B

Pituca  e Valeria  casariam-se  na cidade  em que  ela  nascera .  Decidiu-se  que , do lado de Paulo,   somente os  parentes , e  os amigos  mais íntimos  seriam convidados  . Meses atrás ,  Paulo Becerra fora  , com Julietinha ,  Pedro  e o filho ;  até a cidadezinha de  Dom Feliciano , que era a região onde instalara-se  a  Família Milczarek , originária de Malbork  , cidade polonesa  bem próxima da fronteira com a Rússia , tendo  esta vizinha  dominado  a região  por volta de 1890 ,  momento  em que o clã  familiar  imigrara para o Brasil . O motivo da visita  era o de Paulo de pedir Valeria em casamento . O  pai de Valéria disse à Pituca que nunca se conformara com a saída da filha de casa , para ir estudar na capital .  Mas não pode evitar a sua partida em razão de uma enchente de grandes proporções na região que lhe fez perder todas as plantações ,  tendo mesmo a água da chuva levado rio abaixo  as criações  de porcos , galinhas  e até mesmo gado leiteiro .  A mãe da moça emocionou-se  ao ouvir de Pituca que ele tinha grande honra em ingressar na família  Mielczarek , caso lhe aceitassem como genro .  É claro que o gaúcho da fronteira foi aceito ;  tendo  , inclusive , proposto uma data  do casório ,  e  bem próxima .  Foram servidas comidas ,  e doces  da tradição polaca que fizeram grande sucesso entre todos os  Becerra / Fagundes . Mas  Pituca  quase botou tudo a perder quando ,  em conversa apartada com o Sr. Milczarek ,  ofereceu ajuda em dinheiro para os gastos com as bodas ;  grosseria  considerada  humilhante pelo Senhor ;  mas Pituca  foi socorrido pela irmã  que afirmou  , em evidente  remendo ,  ser a oferta uma tradição na sua região de origem , argumento que - muito a contragosto - foi aceito pelo futuro sogro .  Foi quando Pituca tirou do bolso o anel de compromisso mandado fazer em joalheiro de sua família , dizendo  a todos que  as alianças foram forjadas de numa única pepita de ouro  com o propósito de que a união  fosse tão indissolúvel como aquele  ouro  guardado  nas  eras  passadas ,  unido ,  atado como ele queria que fosse seu casamento com Valéria .  À  mesa também  muitos licores ,  grapas , vinhos  e  cervejas ,  bebidas  feitas  ali mesmo  em Dom Fernando , pelas  mãos dos convidados  daquele jantar ,  quase todos tendo  algum grau de parentesco  com os Milczarek .

A única pessoa que parecia não respirar a alegria geral  era Pedro que , mesmo querendo  participar ,  fazendo força  para  alegrar-se  de verdade ,  mesmo assim  não conseguia  entregar-se  à festa como é sempre preciso  para que todos vibrem .  Julietinha ,  percebendo, disse-lhe : " Pedro , o que é que tu tens ? "         " Nada , nada ,  não é nada querida .  Estou com dúvidas num contrato de edição do meu livro e ,  ainda que eu não queira ,  isto tomou por um momento  o meu pensamento . Mas eu já melhorei ... "   Foi quando Pedro  levantou o  copo de grapa  num brinde  entoando belas palavras  de boa sorte ao casal  e longa vida a todos  presentes . "

terça-feira, 9 de julho de 2013

71 - Julietinha e Oficial do vapor . final B

Os Novos Mosqueteiros reuniram-se para estudos dos planos .  A novidade de Quita caíra como uma bomba : Paulo Becerra ,  o Pituca ,  fora chamado ao Rio de Janeiro onde serão combinadas remessas  de  valores  ainda maiores .  Os  Novos Mosqueteiros , todos eles , exultaram .  D ´Artagnan  expôs as dificuldades  que era fazer desaparecer  um carro do porte necessário para este novo , e ainda maior , volume de papel moeda norte-americano .  Algumas premissas já eram consensuais :  a  carga ficaria escondida ,  intocada  pelo tempo suficiente para sentar a poeira . Por um bom tempo  Os Novos Mosqueteiros continuariam  em suas atividades comuns .  Como a confiança era total ,  D ´ Artagnan  adiantou  a sua ideia sobre a principal alternativa de esconderijo do caminhão pagador.  Pensava  primeiramente em   ( dentro do tempo necessário  e esperável  que teriam para fazer o caminhão desaparecer com segurança )  usar as minas de carvão abandonadas  . Outra alternativa  seria  usar  um silo de cereal  existente em terras  muito confiáveis ,  e que servia para guardar  o que era conhecido como "estoque regulador"  comprado  pelo governo  quando - como acontecia naquele momento -  colhia-se  uma grande safra . Nesta hipótese , seria possível - usando somente a mão de obra dos próprios mosqueteiros -envolver totalmente o carro em soja .  E como havia  super-produção , ninguém haveria de resgatar a soja pelo tempo necessário para  os gansos voltarem à calma .  E o melhor : D´Artagnan  era  quem tinha a exclusividade da posse da chave do silo .

Foi neste ponto que  D´ Artagnan  mudou de tom  para explicar a todos - ainda que nem tudo fosse compreendido pelos novos mosqueteiros -  a importância de que Pituca também entrasse na posse do dinheiro , mas tão somente  por um curtíssimo  espaço de tempo .  Só assim os mosqueteiros teriam a  segurança de que , pelo menos pela moral judaico-cristã em que todos foram criados , somente  o  duplo-perdão daria-lhes a  ampla garantia de que até mesmo os seus descendentes não arderiam nas chamas eternas por aquilo que estavam fazendo agora . E foi isto que  D´Artagnan tentou explicar à Aramis e Quita :   que os dois mosqueteiros primitivos - ele próprio , e  Athos -  não queriam  simplesmente roubar , ou mesmo , furtar ; mas sim promover um desapossamento que  fosse , a um tempo só ,  original e natural  ;  e , para tanto ,  a  subtração da coisa teria que observar determinados requisitos , dentre eles a certeza absoluta de que o  dinheiro  viria de um duplo furto - se não , de uma cadeia interminável de furtos . A questão estava em que ele , D´ Artagnan , não aceitava afirmações genéricas, desprovidas de comprovação , como a de  J. Proudhon  que dizia  que a propriedade é um roubo .

Ora ,  ao ver de D ´Artagnan , a propriedade poderia , ou não , ser um roubo .  Daí  , também o desapossamento  -   que recebeu dele a denominação técnica de  " alívio de excessos de realizações " -  ,  ser  a  espécie  única do gênero  " propriedade originária advinda de obtenção secundária . "

Reflitamos :   a herança cultural de D´Artagnan ,  o líder natural  de tais  futuros aliviadores de excesso de realizações  ,  viria  - certamente -   de Portugal .  Tudo porque aquele lugar onde a ação se desenrolava era , dentre todos do mundo  , a colônia  mais influenciada pelo Tratado de Tordesilhas - de 1494 -  em que Espanha  e Portugal dividiram entre si o mundo .  Em verdade , tudo levava a crer que  D´ Artagnan vinha  de nobres  portugueses .   Somente um português  daria tanta importância a esta questão limítrofe até mesmo para  a Lógica mais aprofundada :  A possibilidade de existir alívio de pecúnia  sem que o ato possa ser confundido com furto ;  ou ,  muito menos ,  roubo .  Mesmo assim a questão ainda comportava a preocupação com a bifurcação existente entre a ciência e a moral  , principalmente a religiosa  .  Se a lógica estava , para D Ártagnan ,   satisfeita  -  (  " Por Deus !  é claro que  a propriedade  poderia  ser - ou não ser -  um roubo "  )    ;  subsistiu por um momento a questão religiosa . E esta , o primeiro mosqueteiro resolvera  ao observar o dito popular  ( era  a voz do povo que vinha em seu socorro ; tudo porque   a voz  do povo era  -  para ele -   verdadeiramente  a  Voz   de  Deus )  . E a voz do povo dizia-lhe que  "Ladrão que rouba ladrão , tem cem anos de perdão . "

Por fim  a que se registrar que  mesmo Athos  ( o segundo dos Novos Mosqueteiros )    muito pouco entendia destes limites da racionalidade levantados  por  D ´Artagnan ;  quanto à   Aramis  e  Quita  , estas  ficaram totalmente sem saber  do que estava o primeiro mosqueteiro falando , ainda  que o  ouvissem  tão respeitosamente quanto lhes era possível  assim  ouvir  .  E  todos estes respiraram  aliviados quando D ´ Artagnan  , certo  que  a semente daquela sabedoria toda  estava plantada  em nos  demais companheiros , concordaram  em  marcar  uma nova reunião para tão logo Quita ou Aramis tivessem novidades .

quarta-feira, 3 de julho de 2013

70 - Julieitinha e o oficial do vapor - Final B

Quita ,  no apartamento de Valéria e Paulo Becerra  na capital  do estado , limpava a poeira dos móveis com um pano umedecido  ,  ao mesmo tempo que ouvia  Pituca  falar  ao telefone ,  com Zé  Arataca  em Recife  .

Pituca :  "  Se  tú achas que é tão importante assim ... ? 

   Mas tudo não está  tão bem , Chê  ....  ?  "

.......

Pituca :  " Mas bááh  Tchê .... então é em razão de tudo estar dando  certo que o pessoal quer ampliar as remessas ... mas isto é tri-legal , Tchê  ! "

......

Pituca : " Tá bom barbaridade , eu estarei  no Rio no dia e hora combinada ,  lá  na Churrascaria  Gaúcha  ....  "


Quita ,   a Mosqueteira ,  não só ouvia , mas também gravava em seu cérebro o que acabara de presenciar .  A negra lembrou naquele instante que sua família trabalhava há décadas para os Becerras  sem  que tivessem um salário que lhes proporcionasse quaisquer confortos ou mesmo  possibilidades de ter uma família normal , uma família cujo destino na  fosse  continuar  servindo de mão de obra barata para os patrões.   "Enquanto isto  , os Becerras enriqueciam  , multiplicavam  sua fortuna ,  "  pensava a preta  .   "Não , eu  não vou tremer ...  eu  vou conseguir deixar de lado o servilismo que se abate sobre a minha raça desde que nos trouxeram acorrentados da  África . "

Por incrível que pareça ,  Quita  notou que Pituca  também  refletia  ... decidia intimamente alguma coisa que ela  , porém , imaginava do que se tratava  .  Na verdade  , Paulo também  vacilara um pouco em   dar continuidade  no plano de apropriar-se de uma das remessas .   Pensava ,  pensava  ... até que seu semblante desanuviou-se , momento em que chamou , quase gritando , Valéria ....  :  " Polaquinha ....;. Polaquinhaaaa ...  meus planos estão se concretizando ...  ligaram-me  para uma reunião no Rio ,  e  será para fechar  um negócio que eu esperava a meses . "

Como  Valéria  não respondesse ,  Pituca  abriu de vagar  a porta do quarto  e viu - nada menos do que  a sua polaquinha  dormindo , ou pelo menos fazendo que dormia .  A inércia  da mulher -  estática  como  se fosse  um quadro do  D´Orsay -    despertou  no Gaúcho  vontades  e desejos  que , de  pronto ,  fizeram-no  ajoelhar-se  e  beijar  , lamber mesmo , um a um os dedos dos pés de sua  Pipoquinha , que  mexeu o corpo  acusando  a carícia  , mas  sem tirar o pé  da boca do  amante .

quinta-feira, 27 de junho de 2013

68 - Julietinha e o Oficial do vapor . - Final B .

Um ano se passara e quatro remessas de valores tinham chegado do centro do país .  A maior parte deles seguira para a Europa , quantias de menor monta ficaram  mesmo na República Oriental .  Como Pituca previra  , os capa-pretas fizeram-se íntimos das moças do Boca de Ouro  .  O que Paulo não sabia  é  que  a  jovenzinha  , que praticamente amigara-se com  Silvério  o capa-preta chefe ,  fora  convidada  pelos Mosqueteiros a fazer parte do grupo . E  aceitara  juntar-se  à  D´ Artagnan  e  Athos  adquirindo  o codinome de  Aramis ; aliás , o único dos mosqueteiros que falava o idioma  Espanhol .  Assim ,  Aramis  recebeu  a promessa de que quaisquer  desapropriações , qualquer lucro vindo daquela sociedade, seria dividia  de forma igual entre os mosqueteiros .  Reviveriam  o   "Um por todos , todos por um " .
O certo é que a moça  era  nacional da República Oriental  e ,   se antes de pertencer aos Mosqueteiros  já se esforçava em agradar Silvério (  aliás , ele confidenciou-lhe numa noite  daquelas  que "Silvério"  era um codinome ;  que seu nome de batismo seria Dirceu  . Mas  foi  preciso  de muito uísque irlandês na cabeça  para que Dirceu  revelasse  este seu segredo  maior  )  agora ela  se aplicava  mais e mais nos jogos de amor .  Ainda  que  a jovem  exercesse  a  antiga profissão , é certo que ela  não o fazia  tão somente  por interesse  pecuniário .  Assim ,  ampliar os limites das possibilidades amorosas era não só um desafio na missão de agradar  totalmente Silvério ;  a verdade é que  uma possibilidade  - a de  trabalhar em prol do ideal do Mosqueteiros -  não anulava  a chance de  entregar-se aos prazeres que  quase sempre  co-habitam com os demais resultados práticos de seu ofício .   Aramis soltava-se  e  imergia  no clima ;  e , se proporcionava a Silvério tudo o que a imaginação do capa-preta  criava  ,  ela também aproveitava  a sede , misturada com fome mesmo  , com que o homem chegava ao Boca de Ouro .  Nada , mas nada mesmo , do que constava do menu dos amantes , fossem eles franceses , tailandeses , indianos ou de qualquer outra nacionalidade tida como íntima do erotismo mais profundo  era deixado de lado . Silvério trazia-lhe  fotos ,  cadernos  pornográficos com  as  posições eróticas mais  intensas para  reforçar os laços amorosos  , mas cuidava  de levá-los todos de volta quando  , quase ao amanhecer ,  seguia  para Rivera .  O fato é que  Aramis , com  Silvério , sentia  de verdade quase todo o prazer que exteriorizava ;  e  que  com outros clientes ,   fingia sentir .  Por isto , se  do seu lado Silvério  gemia sem sentir dor  em cima  Aramis  cortava o silêncio daqueles pampas só povoado de gado  bramindo de prazer.  Para  o bem de todos  , a moça convencera o capa-preta  de que  ele  nascera para dar prazer aquela  sua amante .  E  é bem possível que isto fosse verdade .   Só o que  Silvério não sabia , era que a mulher , além do prazer que proporcionava e desfrutava  -além disto - ela  ficava  com  olho de águia  nos hábitos  de  Dirceu   ;  como e onde  guardava as chaves da caminhonete que trazia o tesouro ,  por quanto tempo a quantidade  bebida  naqueles encontros  o mantinha  quase anestesiado  .   Todas as informações eram  passadas  para   D´ Ártagnan e Athos  .

Por sua vez , Paulo - o Pituca -  ao perceber que Silvério  caíra mais  e mais  o beiço  por Aramis  ,   aumentou  substancialmente o cachê  da  prostituta .  Ao mesmo tempo que lhe criara um problema  : quanto mais pagava ,   mais   informações sobre os costumes do capa-preta  exigia ; que , não por acaso , eram  os mesmos detalhes  que  D´ Artagnan  e  Athos  pedidos .

Aramis  , assim que pode , pediu uma reunião com D Ártagnan e Athos  para que os três avaliassem qual seriam as melhores  respostas  que ela teria que dar ao Pituca ,  que  em vez de aproximá-lo  da fortuna  que ambos os lados  disputavam ,  deixassem-no cada vez mais distante da dinheirama .


sexta-feira, 21 de junho de 2013

67 - Julietinha e o Oficial do Vapor . Final B

Quanto à produção literária , Pedro Santiago vivia o melhor tempo de sua vida .  Estava terminando um livro de poesias  que dava ao ex-jornalista grande satisfação .  Julietinha engravidara , e recolhera-se ao lar em razão  de que os médicos de Boca do Monte prevenirem  que sua  gravidez era de risco em razão de que  a gestante já  tinha uma certa idade ,  o que  poderia ampliar as complicações possíveis na gravidez .

Quanto  às  estâncias ,  percebia-se que Bandido fazia todo o possível - na verdade , quase o impossível -  para que as propriedades  dessem resultado econômico positivo .  Ainda que não comentasse , por diversas vezes  Bandido lançava mão de suas reservas  conseguidas em muitos anos de trabalho na Austrália .
Tudo para que  Pituca  tivesse a segurança econômica que -  em  derradeira análise - garantiria todo mundo.    E , quem sabe , muito especialmente ,  o futuro  dele e  de Almerinda . Bandido sabia que se a mesada de Pituca , que equivalia a dez mil dólares mensais,  tivesse a regularidade de relojoaria européia tudo seguiria conforme estava planejando . O certo é que pouco a pouco  Bandido passava a ser o senhor de todo  império dos Becerras.  Lembre-se mais uma vez que Bandido era de verdade uma pessoa honesta , polida  .   - e  , se  não fosse pouco -  de impressionante bom humor .

Almerinda assumira  a gerência da casa dos Becerras,  em Boca do Monte ,  e cuidava de Julietinha como só as mães cuidam das filhas quando prenhas.

Quita , que era solteira ,  e  que  praticamente já era uma pessoa da família ,  foi para o apartamento de Pituca na capital onde fazia de bom grado toda a lida doméstica  liberando  Valéria para dedicar-se toda para os cuidados e necessidades de Pituca .

As chegadas de remessas , do Rio  para Rivera ,  tornaram-se habituais ; ainda que  entre uma e outra  transcorressem  dois ou três meses .  Pituca  , que vivia muito bem com a mesada que Bandido lhe enviava ,  liberara  entradas das participações no contrabando de dinheiro ,  para a formação de uma poupança lá no país dos queijos furados .

Julietinha  recebia a metade do que Pituca .  Bandido a convencera que a outra metade estava sendo capitalizada contabilmente a seu favor .  Na verdade  Bandido  , só com os resultados das estâncias , não conseguiria  pagar à Julietinha o mesmo que mandava para Pituca .

Enfim ,  o núcleo  familiar  Becerra/Santiago saboreava um raro apogeu que poucos clãs um dia alcançam .

Quanto aos capa-pretas , pouco a pouco eles acostumaram-se a  aceitar a parada , que cada vez era mais demorada ,  no  Boca de Ouro .  Cada um deles  já tinha a sua favorita , que jurava que esperavam-lhes  fiéis  ,   mentira esta que reforçava consideravelmente o cachê , já que - pelo menos em tese - teria que aguentar até a  próxima  vinda de seus , digamos , sultões cariocas.

Já  Paulo Becerra ; ele ,  no mais completo silêncio , preparava a surpresa , que era a de  apropriar-se  de uma das remessas .  De preferência uma das maiores .  E depois ,  ( quem sabe ?  )  , ganhar o mundo com sua polaquinha . 



 ,

terça-feira, 18 de junho de 2013

64 - Julietinha e o oficial do vapor - Final B

Bandido decidiu fazer um projeto igual ao que fizera  na Austrália :  plantar videiras  francesas  ; agora ,  com castas de uvas já adaptadas ao hemisfério sul . Para tanto usou seus contatos feitos quando ainda trabalhava para Tião .  Junto  com a plantação de parreiras foi também fazendo as instalações para a produção de vinho de qualidade .  Dentre tantas escolhas ,  já  pensara em não usar tonéis de carvalho para o envelhecimento do vinho ; mas sim , valer-se das novas técnicas , iniciadas no hemisfério sul ,  de  jogar pedaços da madeira dentro dos  reservatórios do vinho - que seriam de aço -  promovendo a impregnação do  sabor deixado pelo carvalho , mas sem os custos de , a cada  safra ,  ter que adquirir  tonéis  de verdadeiro carvalho .  Seria uma tentativa de preservar alguma qualidade , ao mesmo tempo que diminuiria os custos .

Paulo : " A tua ideia é excelente .  "   Mas será que não poderíamos ,  antes mesmo disto tudo estar pronto;  e como estamos na fronteira , antecipar a nossa produção trazendo vinho da Argentina ,  e , por que não ?  ,  da  República Oriental ... "

Bandido : "  É que eu queria fazer  as coisas de modo direito , menino Pituca .  Eu sei que trazer vinho da Argentina por meio de contrabando  anteciparia  a entrada de dinheiro   Mas a minha intenção é formar  uma nova fonte de renda ,  não só para a tua estância ; mas  - com a experiência que adquiri na Austrália -   criar uma alternativa de ocupação da mão de obra ,  que agora depende basicamente da pecuária . E se a pecuária dá algum lucro para os estancieiros ,  sejamos francos , para a peonada ela é um desastre .  Já  a  videira é diferente  ;  com  vinho ,  com sua indústria , o ciclo todo garante emprego  para muita gente .  E se nos voltássemos para o contrabando ,  o negócio seria só  mais um tipo de ilegalidade  por estas  plagas ..."

Paulo : " Me desculpe ,  amigo velho  ;  me desculpe e segue  este projeto como tua vontade mandar .. .  Mas , mudando de assunto , eu quero dizer que resolvi mesmo não vir para Boca do Monte com a minha Valéria .

E mais ,  estou pensando seriamente em fazer um longa viagem , para muito  longe  mesmo ....  Para tanto , estou pensando em deixar para ti um mandato , uma procuração , a  mais ampla possível para que possas ,  amigo Bandido , fazer tudo o que for preciso para dar continuidade às tuas idéias ,  aos teus muito projetos ... como vens fazendo ... melhor , muito melhor do que eu próprio .   Só que  mandando  uma mesada , tão generosa quanto possível  fosse , para  eu e a  Polaca  termos  como  curtir  a vida  lá onde estivermos "   Como sempre  nestes momentos ,  Paulo explodiu numa gargalhada de sincera admiração ao amigo .


segunda-feira, 17 de junho de 2013

63 - Julietinha e o Oficial do Vapor - Final B

"  Eu fiz como tu pedistes ... segui o Pituca sem  ser notado ....  na verdade ele foi à  Rivera para conversar com o Sr. Paniágua , do Banco da República . Sentei de costas para  eles na cervejaria  . Não me notaram .   Paniágua conhece Pituca desde guri . Era ele quem gerenciava as contas do pai , e mesmo quem pagava-lhe  o que recebia das exportações de couro .   Mas agora me pareceu que o Pituca quer  mesmo é saber como funciona o recebimento de dólares  que , como disse Paniágua  , estão chegando aos  montes , com medo de que as esquerdas  ganhem  importância  e - como fizeram com os dólares do Adhemar -  passem a perseguir e assaltar  estas nova fortunas  nascidas das grandes negociatas com a construção de Brasilia . "

" Bem dizem que cachorro que come ovelha ... só matando .  Parecia que o Paulo Becerra tinha se emendado , que deixara de lado as espertezas , as sociedades criminosas que sabemos que ele sempre teve ... e agora ele aparece perguntando sobre estes descaminhos de fortunas para a República Oriental ... "


Os dois homens eram íntimos ,  e  ficara claro que ficariam  "hojo ! "   com Paulo Becerra .    Ambos pareciam  totalmente dispostos a descobrir  totalmente o que passava na cabeça do Pituca .

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Julietinha e o oficial do vapor - 13

Paulo Gomes , o irmão ,  era pessoa forjada na dureza de muitos  acasos e adversidades  .  Pituca , seu pai , trocou quase que totalmente a criação de ovelhas pelo gado . Tudo porque logo depois da guerra a invenção e vulgarização de fibras sintéticas , o nylon ,  arrasaram com o preço da lã . Agora , ovelha para tosquiar era pouca .  Quase nada .  O forte mesmo era a produção de gado de corte .  Mesmo  antes de comprar  as terras da fazenda Curunilha  , os pais de Pituca  já tinham uma charqueada na Hulha, que  agora definhava . Tudo porque a conservação da carne com sal  , que vinha de 1860 ,  quase que chegara ao fim de seu ciclo .  Atualmente , a carne  agora poderia ser vendida  enlatada com o nome de corned beef ;  ou , no idioma local : presuntada .   Grande parte dela , também , era  frigorificada seguindo por estrada de ferro até o porto do Rio Grande  e daí  para os mais distantes lugares .  A frigorificação ficou sendo possível por causa  de uma usina elétrica movida a óleo de petróleo .  Assim  era a vida de  Paulo ,  ainda quase um menino - mas  já participante  do dia a dia da propriedade .  Forjava-se  o caráter  da criança ,  dentro dos limites que a vida pastoril  permitiam .  Quando fez dezoito anos Pituca mandou-o para a capital , matriculando-o  num  bem afamado colégio  .  Paulo nunca deu maior atenção aos estudos , variando  entre  aproveitamentos  escolares  medíocres  e outros  ainda piores do que esta classificação  . Desentendeu-se logo com os familiares  -  um tio distante -  que Pituca  pediu  para com eles morarem ,  e logo procurou um lugar totalmente diferente  onde podia respirar - ainda que cedo demais - os ares da independência .  Buscou  com cuidado um lugar para morar  , já demonstrando  -  desde aquela idade -  que  tinha algum  conhecimento de  negociação .  A  dona da casa , de nome Flora , Dona Flora ,  caiu  na história  do menino :   "  vim  desde a fronteira estudar aqui na capital , posso adiantar uns dois meses de aluguel  desde que a senhora me dê  um bom desconto ,  meu pai me manda dinheiro todos os meses , vem pelo ônibus , a senhora pode ficar tranquila " .  O quartinho era nos altos da casa  numa  rua mal afamada ;  duas pessoas , em dois  pequenos  - mas independentes -  cubículos  dividindo  um pequeno banheiro .  O  quarto do  Paulo  era o do  lado do banheiro e surpreendeu-se com o bom estado de sua  limpeza .  Como o contrato  fosse sem  mobília ,  comprou  ali  por perto  uma  cama  com  colchão  e um guarda roupa . Tudo sem gastar  muito da boa  mesada  que Pituca mandava  religiosamente.  Já estava na segunda noite que dormia no quartinho e não aparecera o vizinho do quarto ao lado .  A noite fechava-se a chave , mas na última  ouviu por mais de uma vez alguém subindo  e descendo a escada . Na verdade  subiam duas pessoas , para depois  descer  uma só.  Na manhã do terceiro dia ,  por acaso  ou curiosidade , deixara  entre-aberta a porta de seu quarto , que era no pequeníssimo - uns dois passos -  corredor   .  Dava mais de dez horas da manhã quando ouviu os passos  como  pés quase saltitando.  Vinha  do vizinho  a  visão  que o fez tremer muito , da cabeça aos pés :  mas não era vizinho não , era  sim uma vizinha ,  loira bem alta ; muito ,  muito jovem ,  cabelo meio cor de fogo ,  que  passara  para o banheiro vestida apenas de uma camisa  de  pijama  bege,  para voltar daí a poucos minutos .  O menino  rescém chegado da fronteira nunca tivera - nem de longe - uma visão como aquela  e não sabia o que fazer . Se corria para o quarto dela ( mas ela poderia ser casada e só ter saído com o casaco do pijama por um descuido , eis que Paulo só estava ali há dois dias ) .    O melhor , o mais sensato era fechar a porta  , respirar bem fundo  e dedicar-se de corpo e alma a única alternativa a qual poderia  se  entregar  num momento daqueles  .



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