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domingo, 17 de novembro de 2013

97 - Julietinha e o Oficial do Vapor - final B

Levaram  os dólares para o Caverá .   No mais  esquecido e distante cerro , praticamente enterraram  o furgão numa fenda de pedra do monte .   Não foi por acaso ,  Athos  criara-se por ali .
Estava decidido  que contariam tão somente três caixas de dólares . As demais  só  seriam abertas para que o conteúdo fosse constatado por todos .  Quanto ao destino  , o lugar em que cada um guardaria seu tesouro , isto ainda não estava resolvido .  Poucas horas depois chegara ,  montado ,  o pastor  Gualter que  novamente ficou  de guarda - agora a dois quilômetros de distância -  na única estrada existente e , mesmo já sendo noite ,  andava incessantemente de um ponto a outro  para  que assim  pudesse perceber qualquer modificação  nas cercanias do local onde se dava a reunião . Gualter  olhava  não só para onde era possível alguém chegar ,  mas também para o ponto onde a reunião acontecia , eis que mesmo que quase não fosse possível  avistar-se  aquele  acampamento ,  mesmo assim isto não o desobrigava de  manter  os sentidos totalmente ligados aos riscos representados  - independentemente de outros - pela simples passagem por aqueles ermos de quantia  tão grande :  algo em torno de vinte milhões de dólares .Três horas se passaram para que a primeira parte do plano fosse concluída , momento em que D ´ Artagnan pediu  a palavra. "Caros irmãos ,  confirmadas nossas melhores expectativas  sobre a  quantia  existente nas primeiras caixas que empacotavam os  Excessos  de Realizações Pecuniárias  ,  cabe agora decidirmos sobre o destino  de montante tão valioso ... "

"Peço a palavra !  "   quase berrou  Quita   para  surpresa de todos !

"É evidente , Mosqueteira Quita , que  eu passo-lhe  a palavra . E com um misto de honra  e prazer  mosqueteiros ! "   Completou  D ´Artagnan .

" Irmãos ,  quantas serão as partes  em que serão divididos os Excessos  que  aqui temos ? "

Tão óbvia era a resposta que ninguém atreveu-se  a dá-la ,  ganhando  a noite  escura só  silêncio  como réplica . O pouco tempo que passou pareceu  algo que tendia a perpetuar-se  , até  que  Athos arriscou-se  :

" É claro que somos quatro  a repartir o monte  de dólares , irmã  Quita .  Você ,  Aramis , D ´Artagnan  e eu .   Então , desculpe-me , mas  não percebo qual seja a  sua dúvida . "

" Não ,  valente mosqueteiro Athos . Não somos quatro .  E , a manter-se  seu prognóstico  estaremos cometendo o que tanto  criticamos ... uma  injustiça  a mais ....  afinal , Novos Mosqueteiros , a que vem esta irmandade ?  "

Um  óóó  geral  de dúvida e exclamação   quebrou o súbito silêncio ...

sábado, 26 de outubro de 2013

96 - Julietinha e o oficial do vapor - final B

Gualter avisou que naquele dia chegara uma patrulha do exército para , com pesadas máquinas fotográficas , documentarem o silo onde estavam os alívios de excessos de realizações pecuniárias ; que , aliás , já estavam sendo chamados por D Ártagnan , pela sigla de AERP . Como sempre , a sorte estava do lado dos Novos Mosqueteiros . Naquela noite . quando já estavam com tudo pronto para retiraram do silo , tudo que lhes pertencia , alguém também preparava-lhes uma péssima surpresa . Mas os Mosqueteiros estavam com todos os preparativos prontos . Principalmente os que trariam o furgão de novo à mobilidade . Traziam bomba para encher os pneus movida por gerador móvel ; bateria nova , para fazer a transferência de uma para outra bateria , gasolina de alta octanagem para facilitar a ignição rápida , luzes de emergência , contados elétrico , tudo o que poderia ser necessário para fazerem o automóvel andar . Naquele momento o grupo era formado sem Quita , que não pudera vir por não ter uma desculpa razoável para seus patrões . Abriram o silo e viram que a montanha de soja estava intacta . Apressaram-se , porque tudo teria que ser feito naquela noite , e mesmo nela , o mais rapidamente possível . Para o bem de todos , era uma noite de inverno , as que escuridão é muito mais longa do que os momentos de luz solar . O pastor Gualter estava sempre por perto , ajudando . Desta feita , ele ficou com uma lanterna a cerca de mil metros , para avisar com sinais luminosos , a aproximação de intrusos . Foi quando os Mosqueteiros começaram a remover o soja que cobria o automóvel . Quanto ao pastor de ovelhas Gualter , a fidelidade canina em relação a D ´Artagnan ampliara-se quando o Mosqueteiro , anos atrás , levara Dna . Prendoca - mãe de Gualter -, até a Argentina para uma operação médica que salvou-lhe a vida . Com Juan Domingo Perón presidindo o país , qualquer necessitado de cuidados médicos que lá chegassem - ainda que cidadão brasileiro ou uruguaio recebia de graça todos os cuidados médicos , que - em última análise - eram patrocinados pelos lucros da Argentina com a exportação de trigo , carne e lã para a Europa - eis que Perón habilmente não tomara partido na segunda guerra para obter o máximo de vantagens nas trocas internacionais . A devastação da Europa gerou ~fartura de dinheiro nunca vista no Pais . E , porque não, na vizinhança próxima da fronteira . Foi assim que D´Artagnan aumentou a amizade de Gualter para ele . Encheram os pneus , deram carga na bateria e o auto respondeu como todos esperavam . Ainda faltavam umas três horas para o sol nascer quando , entre vivas , urros de alegria , o furgão movimentou-se , saiu de seu sepulcro de soja . Mas , naquele momento isnsitentes sinais de luz de Gualter anunciavam que chagava alguma visita . Rapidamente os homens tiveram o cuidado de novamente re-empilhar a soja da forma msid lógica e natural possível . Quando acabaram de fechar o cadeado viram , longe , muito longe , uma luz em começo bruxuleante , ir aumentado no horizonte da estrada . Quanto à Gualter , ele já estava pré-avisado de que deveria devria voltar para a ermida que passsara a viver depois que os AERP ´s chegaram por ali , para descobrir tudo sobre de quem era a visita que chegara no veículo da luz que crescia rapidamente , agora já muito mais próxima . Sem acender qualquer tipo de iluminação o furgão dos Mosqueteiros afastou-se tão rapidamente quanto lhes era possível para que não permitisse ser percebido por quem quer que fosse . Em cima da mais alta coxilha - sempre com as luzes apagadas - viram claramente que o que chegara ao silo era , nada menos do que uma patrulha de soldados . Sempre com o maior cuidado ligaram o motor do furgão e desapareceram na ainda noite , na direção do  Alegrete , só que pararam muito antes de lá chegar .




Prezados Leitores . A partir deste episódio estarei em ( creio eu  ) merecidas férias . Prometo firmemente não perturbá-los , de la´- onde eu estiver ( talvez em Colcabamba , quem sabe ... - com meus escritos , agora centrados em como os Novos Mosqueteiros tomarão posse efetiva de seus AERP´ s . Serão uns vinte e cinco dias de descanso para vocês , queridos leitores . Aproveitem , pois a volta será plena de ação , amor , dinheiro - muito dinheiro para os Mosqueteiros , e paixão para Paulo e sua Polaquinha ( que, lembro a vocês , estão no Taythi ) . Até a volta , e sorte para todos ! D ´Artagnan , e os demais Mosqueteiros , com a escuridão total não perceberam que outrso boletos da Casa Piano , com valores impressos das operações de câmbio negro de dólares dispersaram-se , dentro e fora do silo , podendo negar , para um atento observador , que o soja estava tão bem empilhado em razão de que alguem tentara camuflar algo de estranho , grave mesmo , acontecido por ali .

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

95- Julietinha e o oficial do vapor - Final B

A palavra foi dada ao Mosqueteiro Athos , que não decepcionou quanto as espectativas dos demais evolucionários. " Estimada Aramis . Tão firme é a união entre nós , que até chegamos a esquecer do gênero que nossos codinomes representam na literatura universal . Você mesmo , Aramis , recebeu - aqui em nossa confraria - um nome masculino , Aramis . Mas - confesso com muito prazer - tornou-se para mim o mais belo nome que uma mulher pode ter. Desde que abracei esta causa , a de recuperar para nós , pessoas comuns , pobres e antes sem perspectivas pessoais - eu mesmo sou um professor , e ensinar crianças no nosso país é sinônimo de quase indigência - eu mesmo , repito , percebi - logo que fui convocado por D ´Artagnan - que a minha única chance de viver num futuro de dignidade seria buscar no dinheiro dos corruptos que construiram Brasilia , os que vinham desovar os seus ERP s qui na nossa vizinha , a República Oriental . Sim , buscar a nossa parte aliviando-os do dinheiro que apropriaram-se ilicitamente , para não dizer criminosamente . Mas mesmo usando todo o meu esforço na obtenção do sucesso do nosso plano , confesso que eu desde o começo olhei a irmã de armas de um modo que , tanta era a atração inexplicável , não poucas vezes geravam em mim uma quase ruptura da realidade ; prá pegá-la em meus braços e perder-me nos encantos que tu possuis . Mesmo , sendo um Mosqueteiro da primeira hora , digo-lhes que não tive suficiente coragem para dizer-te , como digo agora ... eu te amo , Aramis . Te amo desde o momento que meus olhos tiveram a alegria de pousar nos seus , no seu corpo , nos seus cabelos . Mas see não fui eu quem teve a coragem de primeiro pedir-te em casamento , mesmo assim eu te digo agora , renovo o convite a mim feito : Aramis , queres entregar-te aos meus cuidados , casar-se comigo - ainda que isto va´ acontecer no teu Uruguay ? Quanto a mim , eu estou maravihado com o teu convite , Aramis . E , se tambem renovares o "sim" tenho certeza que farei de ti a mulher mais feliz no mundo . "

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

94 - Julietinha e o oficial do vapor - final B

Chegou a vez de Aramis falar . Athos , que tinha arranjado uma forma de sentar do lado dela , por baixo da mesa colou sua perna na da bela descendente dos indios guaranis. Ela , por sua vez , não fugiu do singelo assédio de Athos . Admitiu que , por baixo da mesa se tocassem cada vez com mais ansiedade. Acostumada à realidade crua da vida , Aramis não tremeu . " Todos sabem a minha origem neste país . Mas nem todos reconhecem que uma bailarina de cabaret , como eu fui antes de que os Novos Mosqueteiros cruzassem meus caminhos , não vive para dançar nos muitos Bocas de Ouro , pelo mundo afora . Mas sim , dança para viver . Athos , quando foi ao meu pluebo , Colcabamba , no interior do meu país viu a nossa realidade de pobreza . Minha mãe , ainda criança foi trazida para o Brasil , sendo forçada a relacionar-se com o estancieiro para quem trabalhava. Grávida , foi novamente forçada a deixar por lá uma hija que , todavia , nunca esqueceu um minuto sequer . Sem pai , restou-me a alternativa de sobrevivência que vocês , irmãos Mosqueteiros , conhecem . Hoje eu , como todos vocês , sinto-me digna de poder receber a minha parte destes alívios de excessos realizados . Nunca passou pela minha cabeça , convencida que fui por vocês , estar fazendo algo que fosse ainda que de longe , errado . Estamos , estou lançando mão do que é meu , do que é nosso no grande latifúndio chamado mundo . Mas nem tudo foram tristezas . Há não muito tempo conheci uma pessoa que me tratou com amor e respeito . Assim é que eu penso receber a minha parte e - tão rapidamente quanto me for possível - procurar tal pessoa , tal senhor que , pelo que eu sei é um homem desquitado neste país , portanto livre para receber-me - se assim quiser . E é com ele que eu irei dividir a minha parte , os meus dólares . " D ´Artagnan nem pediu a palavra , interrompeu firmemente : " Irmã de armas Aramis , este é o risco que eu sempre temi . Um de nós afeiçoar-se por pessoa de fora do nosso grupo e , por amor - talvez até por carência - abrir para o terceiro os nossos segredos . Sendo assim , eu volto a enfatizar o risco que é liberarmos os alivios para qualquer dos Mosqueteiros . O que os irmãos acham ? Foi Aramis quem voltou a falar , eis que ela tinha sido abruptamente interrompida por D ´Artagnan : " Que me desculpe o primeiro dos mosqueteiros . Mas o que eu vou dizer contraria suas conclusões . Eu pretendo mesmo abrir minhas conquistas pecuniárias ao meu escolhido . Que sequer sabe que eu o escolhi " Neste momento Athos , ao ver que Aramis já era comprometida com alguém recolheu-se , com o rosto totalmente retráido . O Mosqueteiro Athos teve uma última dúvida : " Mas será que ela não notou que , ao roçar a minha coxa na dela , eu estava passando a ela que eu a queria muito ? " Athos retariu-se ainda mais , como se fosse possível vontar-se totalmente para dentro de si mesmo . Mas Aramis continuou : " Não , Novo Mosqueteiro D ´Artagnan . Eu não vou revelar a quem quer que seja a nossa aventura , que - esperamos - resultará na nossa própria ventura . A pessoa que tocou o meu coração , está aqui presente e a ele eu entregarei de bom grado o meu dote : " Athos , você quer casar comigo ? "

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

82 - Julietinha e o Oficial do vapor - final B

Quando  cessou  a rolagem do carro , que  até  então descia  somente pela inércia , D´ Artagnan  virou  a chave certo de que a distância que o separava do Boca de Ouro era suficiente para que  ruido algum do motor chegasse  aos ouvidos  de quem ficara no bordel .

A noite ajudava na retirada do furgão que , verdadeiramente , estava com o tesouro .  Nem a lua apareceu no céu .   Pouco antes  da  escapada  de  D ´  Artagnan  e Aramis  ,   Athos ,  serviu-lhes de  batedor  . Tudo  na tentativa  de afastar  o  mais do que improvável  risco  de que alguém  percebesse o automóvel que ia com a dinheirama .  Também por isto , fizeram um caminho muito mais longo . Na verdade atravessaram - pelo campos - a Serra de Caçapava ,  um  lugar absolutamente despovoado , e ainda sem arames farpados .  Aliás  , sobre arames farpados os pobres do lugar diziam , como outros tantos ,  que  "Deus criou  a terra e o diabo o arame farpado. " 

Até  que  D ´Artagnan   chegou  ao silo  pelo lado contrário  à  única estrada  de acesso  para  quem ali  pudesse chegar .   Só assim  conseguiram  que  na estrada  normal ,  no caminho comum a todos , não restasse  qualquer rastro dos  seus  automóveis .  Os  que , enfim ,  chegaram  no fim do mundo onde ficava o silo .

 D Ártagnan e  Athos   levaram  em conta  que  a região  é  de  árvores esparsas , e baixas  , entremeadas  de  grama  ,  que também é  vegetação nativa naqueles campos  que vão  do Sul do país  , atravessam  o Uruguai todo ,  e entram  na Argentina, tudo praticamente com a  mesma topografia ;  de  planície  imensa  , os chamados pampas  .  Por ser  um quase infinito gramado , naquele  ponto só  interrompido  por árvores de pequeno porte ;  é  comum aos  que conhecem  seus  segredos que  -  desde que tenham  boa  orientação -   atravessem-na  de carro ,  que segue sempre costeando  a mata  que - aqui e ali -  compõe a  natureza  viva que só existe naquele lugar .  Foi assim que  D ´Artagnan  chegou  ao galpão em que o furgão viria a ser  inteiramente  coberto  de soja .  O  silo estava no pé da serra , no  seu limite  onde  começa a  planura  total . Dali em diante já  encontrariam  tão somente fazendas . Ou , como chamavam os nativos dali , as  estâncias . Este  era o termo  mais indicado , talvez em razão de ser comum a ambos idiomas : espanhol e português .  Já  o vocábulo  "fazenda"  era um pouco diferente em espanhol : hacienda .

Estância , estancieiros ... tudo igual , dos dois lados da fronteira .

D ´ Artagnan   tinha ido  atrás - e conseguiu -  de  um novo cadeado para o portão  do silo . Seu problema foi encontrar um cadeado novo em seu segredo  , mas igualmente velho na  sua aparência  , eis que um  cadeado  totalmente   novo poderia evidenciar que algo ocorrera de diferente no galpão , que era  quase abandonado .  E usar o mesmo cadeado de antes , o cadeado velho ,   traria um risco a mais : o de que alguém  , que também tivesse a chave velha e , por razões  desconhecidas , até mesmo o de ir  procurar uma enchada  ,  poderia  descobrir  o carro  bilionário . O fato é que  Mas  D ´Artagnan  achou um velho cadeado numa cidadezinha  do Uruguai  de nome estranho : Treinta  e tres .  Mui  provavelmente , trintra e três  foram os espanhóis que resistiram  bravamente  aos portugueses .  É comum  que  nestes casos  , digam  as lendas  que os trinta e três heróis  enfrentaram - e venceram ! -  centenas  de inimigos .  Neste caso hipotético , portugueses .   Não é a toa que o hino da República Cisplatina ,  depois  República  Oriental do Uruguai ,  diz  " orientales , o la pátria o la tumba " .    Mas esta escolha , entre a hipotética honra  e  a morte ,  é  um mote  comum  a quase todos os hinos daquelas paragens  tordesilhanas .

O  furgão foi  estacionado  ,  e fechado a chave ,  exatamente  embaixo  da bica  ,  que com soja ,   na segunda-feira de manhã inundaria o carro transformando-o  numa  montanha  de soja  totalmente recheada de notas de cem dólares .  Tudo levava a crer que  a soja  só   voltaria  a ser  solicitada  na próxima safra . E mesmo assim , se esta resultasse em uma  colheita  ruim .  Ao contrário ,  se  as safras permanecessem  favoráveis ,  a soja sequer seria  lembrada.  Ficaria  ali mesmo , como  estoque regulador do governo 

Mas restava  um problema :   D Ártagnan  ; ou melhor ,  um  seu bem- mandado  ,  deveria  vigiar para que durante todo o tempo não fosse aceso  o  secador  de grãos  . Os motivos eram óbvios :  o calor que serviria para secar a soja  poderia  danificar  os muito prováveis  vinte milhões de dólares .

E aqui tem-se que lembrar  do que representa o dólar do norteamericano naquele ponto do planeta .
Pelas condições especialíssimas de ser a região carente de algum outro meio de reserva efetiva - e fungível -  de valor ; por ali o dólar  era de garantia e praticidade únicas .

Sim , o dólar  que , se não tinha o antigo brilho das libras esterlinas ,  consistia  numa libra  de papel tão aceita com  a  inglesa um dia  foi e , por motivos de que em sua essência ser tão somente um papel  , tornava-o  muito mais fácil de ser internacionalizado .  Principalmente porque  ele  trazia  uma jura  , tão solene como podem sera as juras  americanas ,  a de  que qualquer um poderia exigir  o seu valor  em ouro.  Ou , por outra , um  papel filosofal  fungível  em ouro 999,99 % .

Além  de tantos cuidados ,  mais um eles  tomaram :  Athos  ficou  encarregado de ,  já  no  dia seguinte  - um domingo ,   passar  um  fecho  de chirca  nas prováveis , ou hipotéticas ,   marcas que os pneus poderiam ter  deixado ,  na terra  do solo que - porventura -   estivesse sem pasto ( assim é denominada  a grama naqueles confins )  .

Nenhum  rastro poderia  ser percebido , ainda que  por um gaudério  desgarrado -  destes  que conhecem  as pegadas  como a palma da própria mão -  que porventura  andasse  a esmo como eles tanto gostam de  vadear .

A distância dos  dez últimos  quilômetros  seria  no outro dia  batida pelo próprio  Athos  que ,   no último dia do feriadão de fim de ano , com um vassourão de chirca  ,  varreria  os lugares que tivessem sido em algo modificados pelos  carros  ;    a menos chovesse .  Aí  as hipotéticas pegadas seriam apagadas pela chuva mesmo .

O cuidado era mesmo extremo :  mesmo sendo certo que o caminho comumente não seria usado por quem quer que fosse ; mesmo assim eventuais rastros deveriam ser apagados .  Este  seriam ,  daí  para frente   os cuidados  próprios  d ´ Os novos Mosqueteiros .

Somente a título de  curiosidade , no dia em que  Athos  passava  a vassoura de chirca apareceu  , já a  uns três quilômetros  do lugar onde entrara o furgão , que muito estranhou  a atitude de Athos .

Era  um cavaleiro que por acaso  pegara aquele atalho , que depois dos cumprimentos de praxe perguntou :

- Que pasa  ?   Por que  estás  hoje  aqui  pelas Palmas ?

-  Te olvidastes  de que é no primeiro do ano que nós  , lá  de  Camaquã ,  viemos  para os campos para pegar  as ervas que usaremos nas nossas macacoas , nas enxaquecas ?

- Pois eu te juro que não  me lembrava disto . É que nós , lá das Palmas  ,  pegamos as ervas na Semana Santa ... sendo assim  ... buenas  tardes  indio velho !

- Buenas !     Respondeu  Athos  para o cavaleiro que começava a se afastar .

81 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B .

Como  o furgão entrou no Uruguai pela estância de Pituca ele chegou até a praça dos bancos de Rivera como se tivesse realmente vindo do Uruguai .  Se entrasse pela chamada Fronteira da Amizade ele viria do lado contrário . Contornou  a praça General Artigas passando pela igreja , depois pela prefeitura ,  a chefatura de polícia , cruzou a esquina  e parou na frente do Banco NRBZ .  Ali na porta do banco  Paulo Becerra Filho despediria-se de Aramis , que  - com sangue frio -  disse  que esperaria  pela praça , até que o dinheiro fosse conferido , para que Pituca lhe desse a sua parte .  Tranquilizou-o  dizendo que ele não se preocupasse ;  que conhecia bem a cidade , os lugares onde poderia fazer um lanche .

Com um ar contido , mas de vitória , Aramis  afastou-se do estancieiro ,   que por sua vez  virou as costas para bater na porta - ou melhor - na garagem do banco .  Em ato contínuo  Aramis  virou a esquina  onde , na  Calle San Martin , já lhe esperava uma bicicleta .  O banco era numa  casa antiga, mas bem pintada e com a marca internacional do banco estrategicamente fixada na esquina que confrontava com a praça General Artigas.

Quanto a topografia , o Uruguai é uma grande planície onde de bicicleta  pode  ir-se  muito longe . E Aramis foi de pronto para o seu Pueblo ,  Colcabamba .

Na porta do NRBZ  apareceu Don Paniagua , que cumprimentou Pituca , desejando-lhe um Feliz Ano Novo.  Pituca abriu os braços e , eufórico , deu um abraço no banqueiro .

Entraram com o furgão na pequena garagem do banco , momento em que Pituca pegou o chaveiro - que até há pouco , para ele ,  estivera em poder de Silvério -  experimentou  chave por chave até que achou a que de fato virou a fechadura .



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

80 - Julietinha e o Oficial do vapor . Final B

Silvério , só para confirmar o que já percebera , vestiu as calças e a camisa e foi até a porta do Boca de Ouro . Ali não tinha carro forte  algum .  Nada , além de um cachorro ovelheiro que olhou amistosamente para aquele que até ontem fora um segurança que escoltava as grandes somas de dinheiro  que trazia do centro do país .

Mas se o mundo desabara , a vida continuava .  Como sabia que seria inútil tentar encontrar , perseguir mesmo ,  Aramis ;  porque,  mais do que certamente ela fugira para o Uruguay ; e sendo ela  uma nacional da República Oriental , inviabilizada estava qualquer perseguição "àquela vagabunda" .

Foi ao quarto de Carlão , bateu na porta quase derrubando-a : " Carlão , Carlão .... acabou tudo ... "  .   Foi quando  apareceu no pequeníssimo corredor o terceiro  capa preta ,  o  Cabrito , já  totalmente vestido ,,, " O que é isto Silvério ?   Tu não estás parecendo um dos nossos .... "

Silvério  foi direto : "  Não somos mais o que fomos até ontem , Cabrito .  Não somos mais nada .  Roubaram  a encomenda toda ,  até  o carro  foi levado ... "

Os dois correram para  verem com os próprios olhos que nada mais havia que pudesse  sequer  oferecer  alguma lembrança da profissão que os três  tiveram até momentos atrás .

Um deles ,  o Carlão chorava  em altos brados , mas foi Silvério  quem tentou  trazer-lhes para a realidade :  " Esta era  a maior das remessas; mesmo se fosse a menor delas , nem assim seríamos compreendidos , desculpados . Quer dizer que agora  só nos resta nos dividirmos , porque juntos seremos presas ainda mais fáceis  da vingança que daqui a pouco será  mandada contra nós .  Só nos resta fugir , sair daqui  o mais depressa possível .  Como  hoje é fim de ano  ,  o dia primeiro do ano , isto deve nos dar uma luz , um tempo de vantagem sobre os nossos perseguidores .

Silvério botou a mão no bolso e retirou todo o dinheiro  que tinha , dividindo-o  com exatidão para  logo depois entregar  a cada um dos outros dois o que restara .

" De agora em diante é  cada um por si .  Quanto mais longe daqui , mais  próximos  estaremos da salvação de nossas vidas .  Eu dei uma olhada no mapa e  já sei onde vou tentar  me esconder .  Bem que eu poderia  dar uma opinião , um palpite  de para onde vocês poderiam fugir . Mas só vou falar sobre isto por alto . Acho mesmo que vocês   vocês poderiam  mudar de cara ,  de jeito de falar ,  mas nada  vou  impor . Só sei que a partir de agora teremos que  nos  camuflar  . E fugir . Fugir  para salvar nossas vidas . Fugir , se quisermos  nos salvar .  Não se esqueçam que temos uma vantagem de um dia sobre nossos perseguidores .  E  não devemos deixar que esta vantagem  diminua .
Pelos meus cálculos ,  este dia  de vantagem é crucial .  Também  não se esqueçam que teremos , cada um  ter uma história  que seja aceitável , na ponta da língua . "

A seguir  ,  Silvério narrou  a passagem do Velho Testamento que falava da mulher que  , por  arriscar sentir saudades  da vida anterior  que levava,  foi por Deus castigada , transformando-a numa estátua de sal .  Enfatizou que todos era jovens ,  e que  também isto seria um fator que facilitaria  as coisas .

Ainda que não quisesse algo determinar , lembrou que estavam  há  umas seis a oito horas  do porto de Rio Grande , e que a marinha mercante não costumava fazer muitas perguntas aos voluntários dispostos a trabalhar dentro de suas duras condições .  Disse-lhes , ainda , que o Paraguai  também estava há poucas horas dali , com um tráfego ininterrupto  de caminhões  para  os país  guarani  , lugar  espetacularmente  desorganizado , em que , certamente não faltariam chances de manter alguém  distanciado do risco maior :  ser  abatido  pelos justiceiros que logo estariam em  seu  encalço  .  Por fim ,  Silvério lembrou-lhes que numa cidade grande , como a capital do estado , não seria difícil  esconder-se .













sábado, 10 de agosto de 2013

79 - Julietinha e o Oficial do Vapor - Final B

Naquele  momento ,  fronteiriço  entre o dormir e o  estar desperto ,  Silvério , o chefe dos Capa-Pretas  ,  esticou o braço na altura de onde deveria estar a  concha de Aramis . Já era hábito que no despertar os amantes renovassem  os votos da paixão que os unia com uma  reiteração matinal do seu intenso amor  .  Não foi preciso  uma segunda tentativa de apalpar sua amada para que , num estalo ,   percebesse  a traição  da  uruguaia .  Não , não era uma intuição .  A  cama  , vazia  da amante , era um sinal claro de que aquela vida que Silvério vivera até  ali tinha se acabado .

Lembrou-se que uma das exigências que os corruptos fizeram ao montar o time de capa-pretas que guardaria os valores em suas realocações para o paraíso fiscal  era que os guardas fossem solteiros .  Achavam  , tais pessoas , que sendo solteiro o homem que escoltaria os valores teria ,  na possibilidade de precisar resistir a  um assalto , muito mais  desprendimento  para  arriscar verdadeiramente sua vida na defesa dos bens que jurou  transportar .

Assim , quis o destino que os três capa-pretas desfrutassem agora ,  que a montanha de dólares batera as asas para outros donos ,  da possibilidade única para as suas sobrevivências :  desaparecerem  na poeira da estrada que os trouxera até o Boca de Ouro .

Nos demais quartinhos do bordel , as moças permaneceram com seus companheiros , era  a confirmação  de que quem traíra fora Aramis .

Na  mesinha  do pequeno quarto uma folha de papel  com a bela letra de Aramis :  " La mujer tiene alas en la punta del corazón " .   Silvério  leu  e chorou como nunca tinha chorado em toda a sua vida .


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

78 - Julietinha e o Oficial do vapor . Final B

No meio da madrugada - e pouco depois de  D´Artagnan  aliviar  o  furgão original  -  Pituca e Aramis escorregaram ladeira abaixo  o furgão  deles .  Pouco a pouco , muito devagar mesmo,   o carro foi ganhando alguma velocidade - mas só pela lei da gravidade -  na descida  da baixada .  Os pretensos sócios - Pituca e Aramis -   rezavam para que nenhum dos capa-pretas aparecesse  na porta , certamente  de  arma na mão , provavelmente  dando tiros na direção  daqueles  que furtavam  a  que  seria  a maior das remessas de dólares -  estimava-se que estariam ali vinte milhões deles  -  que  , em princípio , deveriam estar guardados pelos Capa Pretas   até  que fossem  entregues à  agência  cisplatina do banco  nos Alpes .

Enfim Pituca colocou a  segunda marcha  para  com ela  dar o tranco no carro  que fez  o motor  pegar .   Ainda que olhasse no retrovisor  -  e como ele  olhava !  -   o estancieiro nada via , só  a escuridão  do  momento  mais escuro da madrugada . Além disto ,  ele também nada ouvia , sinal evidente de que os Capa-Pretas  dormiam  não  representando  perigo algum  para quem  fugiu  com  , ou  melhor , sem  a carga   dólares .  Pituca e Aramis  deram altas gargalhadas  ao  pensarem  como os guardas  despertariam . Será que  entrariam em choque  ?
Era provável ;   muito provável  ,  que  eles queimariam as próprias  naves para  - então -  estabelecerem-se  naqueles pampas, porque se voltassem para o Rio de Janeiro os  espertos ,  os  que  furtaram  os dólares    que  acabaram  de  vazar ladeira abaixo ,  os construtores de Brasilia   não perdoariam  aqueles  capa-pretas que  sempre foram pagos  regiamente  pelo serviços que prometeram  fazer  com total  dedicação .

Mas foi  o amor ,  a paixão  por  àquelas belas gauchas que  modificou  o caráter  dos seguranças , vindo-se  mais uma vez confirmar o dito popular daquelas plagas  que diz que mais puxa um  par de pentelhos do que uma junta de boi  brazino .

Como acontece com os muito ricos , Pituca não chegou a perceber que o dinheiro que ofereceu à Aramis era insignificante .  Tudo porque sabia que  Aramis era do Taquarembó  -  um pueblo perdido  no interior  da República  Oriental  -  também conhecida como república cisplatina .  Pela sua forma de ver a vida , as pessoas ,  e o mundo ,    Pituca  pensou que Aramis  se  emocionaria tanto ,   ao ver em suas mãos cem mil dólares  , que  não se daria conta  da  relatividade  entre  os valores  que restariam para  cada um dos hipotéticos sócios .  Ele ganharia - caso os vinte milhões de dólares viessem a ser confirmados -  ,  duzentas vezes o que  caberia  á  Aramis .

O certo  é que  Pituca  nunca  desconfiou  que isto  poderia  o seu  plano  ao fracasso .  E , certamente , ajudou  no seu  fracasso  .  Imaginemos que  Pituca dividisse  meio a meio  os  vinte milhões  . Provavelmente , nem assim Aramis  trairia  Os Mosqueteiros . Provavelmente .

Amanhecia quando - por dentro daquela estância de Pituca - chegaram à Rivera .

Aramis despediu-se de  Pituca ,  ficando  certo que daí há duas horas encontrariam-se  no  saguão do hotel  , ficando implícito que a sua hipotética parte seria-lhe paga neste encontro .

O dinheiro de Brasilia tornou-se  agora a esperança  de  Pituca  entrar numa bolada federal .






quarta-feira, 31 de julho de 2013

77 - Julietinha e o Oficial do vapor - final B

Se olhassemos com uma lente que pegasse a amplitude do plano dos Mosqueteiros veria-se que boa parte dele estava fechado .  Tudo vinha acontecendo como fora previsto .  Pituca veio mesmo conversar com Aramis , que mostrou-se hábil na dissimulação de que estaria absolutamente comprometida com o estancieiro , inclusive mostrando-se muito feliz pelo prêmio que receberia .  Mesmo assim , alguns problemas permaneciam .   Um dos seguranças , dos Capa-Pretas , não bebia álcool .  A questão agora  -   de Pituca e Aramis - era como embebeda-lo .  Aramis  lembrou  que , apesar  de  beber somente sucos de frutas  ,  sobressaia a fama dele ser muito interessado em sexo - nas suas formas mais , digamos , originais e excêntricas .   Pelo menos foi o que confidenciou Prendoca , que era  a moça que  atendia  o vigilante .
Foi quando Pituca sugeriu que um sonífero fosse jogado no suco que o  homem beberia .   Aramis lembrou-se  que D´Artagnan certamente não concordaria com o artifício , eis que o alívio de excessos pecuniários  só admitia  meios naturais para a  requisição deles .  Também lembrou-se que  Prendoca segredou que por mais de uma vez o amante sugerira que ela chamasse  outras meninas para  participarem  de sexo a três , ou quantas mais quisessem  divertir-se com  a orgia .  

Pituca exultou   , dizendo que  :   " Contratarei  desde já  moças dispostas a  tudo que  passar pela  cabeça do quéra ! "     Prendoca , mais  duas , teriam a missão  mantê-lo  totalmente  envolvido  no bacanal .

Fechando mais um pouco o foco :   D ´Artagnan  ,  sabendo que  o  acesso de carros ao  Boca de Ouro  ( que , aliás , estava de há muito tempo fechado  para  funcionamento exclusivo  dos planos de Pituca )   concluiu que  o pequeno caminhão adquirido por  Athos deveria chegar com o motor desligado .  Logo a seguir  , já com os  Capa-Pretas anestesiados  pela atuação das prostitutas ,     D ´ Artagnan   se apossaria da chave do caminhão , onde estava o dinheiro , deixando  a chave do caminhão  falso  para  que , em breves minutos ,  fosse  furtado por Pituca , que também  as chaves entregues por  Aramis .  A  Mosqueteira  informaria  o Pituca  da hora  prevista para ele chegar  , momento em que os  seguranças  estariam fora de combate .

D ´ Artagnan ,  por sua vez , também   desceria  a  rua  com o motor  apagado  ,  vindo a  ligá-lo somente quando  o  ruído do motor  já não pudesse ser  ouvido pelos seguranças .

Aramis seguiria com Pituca , que  tomaria  a direção da República Oriental onde - ainda que fosse feriado  - teria  Don Paniagua  a esperar-lhe , com  funcionários de sua estrita confiança ,  prontos para conferir , receber  e dar recibo do depósito .

Don Paniagua  dissera à  Pituca que tão logo o depósito fosse noticiado , e  desde que o  telex passado por  Paniagua fosse  recebido no paraíso fiscal , tudo isto resultaria em  que tudo estivesse  praticamente consumado :  Sim ,  o dinheiro estando  lá na Europa  já seria  , praticamente ,  uma  propriedade de Pituca ; que mesmo assim , perguntou ao banqueiro :

" Vou ser franco , Don Paniagua ... não gostei do senhor ter usado duas vezes o tal de "praticamente "  Minha pergunta  é :  e quando eu serei  teórica - além de praticamente - totalmente dono do dinheiro ? "

" Usted solamente será dueño de la plata  , en toda la plenitud del termo ,  después que se passar um dia , um dia de veinte e quatro horas pasadas  , um dia  después del  dinero estar  em mis manos ,  niño Pituca . "

Por tal aviso , Pituca soube que o dinheiro seria verdadeiramente seu  somente depois de  dormir por vinte e quatro horas  com os banqueiros .  Naquele  momento  o dinheiro seria definitivamente propriedade sua , nada mais podendo ser feito por quem quer que fosse para modificar tal estado de propriedade .

Aramis  despediria-se de Pituca na entrada de  Rivera , e desapareceria no interior  do  país . A moça  seguiria para o pueblo onde nascera ;  totalmente distanciado de qualquer novidade que  pudesse ser  filtrada ,  de Rivera  para o pueblo  .  Além disto , em  po ali  ninguém sabia da profissão de Aramis  .

Sim ,  o tesouro  seria sepultado em  trigo , dentro de um grande silo , onde o pequeno caminhão hibernaria temporariamente .  Até mesmo as marcas dos pneus do verdadeiro carro  transportador seriam  apagadas , confundidas ,  de forma a impossibilitar a quem  que - por  remota possibilidade - ali passasse ,  mesmo que fosse  no outro dia ,  pudesse perceber  qualquer  marca do carro pagador desaparecido  .

Logo para o outro dia ,  D Ártagnan - com suas amizades  aos  gaúchos daquele  fim de mundo ,  já   programara  a chegada de quatro grandes carretas de trigo  a ser depositado no silo ,  que - por sinal - já  estava limpo ,  tão somente com o pequeno caminhão  que  , não por acaso , ficaria  exatamente  onde a esteira despejaria o cereal .

Os Mosqueteiros sabiam que riscos  sempre existiriam .  Mas esta alternativa de esconderijo  foi a escolhida  porque concluiu-se que  nenhum dos que se sentiriam prejudicados poderiam reclamar a perda  do tesouro ;   para quem quer que fosse ,  na República Oriental ,  ou mesmo no Brasil .

Restaria  aos Mosqueteiros  a  missão de ocultação do alívio de realizações pecuniárias ,  até que a toda  a areia  passasse pelo buraco da ampulheta .


domingo, 28 de julho de 2013

76 - Julietinha e o oficial do vapor - final B

D - Artagnan  , ao  voltarem  do almoço na reunião de Santa Maria ,  fez mais  uma  preleção aos Mosqueteiros  , o que ele chamava de  "base moral  para os atos de alívio "  .

" Não pensem  , Mosqueteiros , que  vocês serão os primeiros a porem em prática esta espécie de  obtenção de propriedade  numa de suas  formas de aquisição originária .  Não , muitos outros já o fizeram através dos séculos .  Daí eu ter que , agora , fazer uma distinção  entre  o que diz o aforismo " Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão "  e  o alívio que vamos em breves dias praticar.  Embora nos seus aspectos religiosos o  dito popular  sirva para uma expiação prévia de algo - o roubo -  defeso , eis que proibido pela  leis da Santa Madre Igreja ; por isto  é preciso diferenciar , separar mesmo ,  o joio do trigo . Companheiros , neste  balaio  , o  roubo é o joio  ;   mas  o trigo ...  o trigo  é o justo ,  é o  natural  alívio de excessos de realizações pecuniárias .   A propósito : um  exemplo recente , mas que já  se tornou um clássico , deu-se quando um dos mais grandes  maiorais  de Brasilia - agora mesmo , com a construção da nova capital  -  usou  daquilo que a gíria chama de  "laranja"  , para  ampliar suas realizações excessivas .
Tal  Maioral  (  por sinal , de graduação máxima na hierarquia  de tais peixes grandes )  tinha  um preposto ,  uma terceira pessoa de sua absoluta confiança ; repito : um laranja .  Sabe-se que o Maioral  recebeu um edifício  , de muitos andares ,  naquilo  que chama  de  "dação em pagamento" , só que de origem  corrupta . Ganhou  , como parte de pagamento de uma excessiva  realização pecuniária , um prédio numa das ruas mais valorizadas do Bairro de Ipanema ,  no Rio de Janeiro .   Mas como o nome do Maioral não podia aparecer  na  transação ,  pediu para o terceiro de sua confiança  receber como se fosse seu o imóvel ,  no que foi atendido pelo preposto sem maiores indagações . Tudo  sob o juramento tácito de  que o edifício ficasse às ordens do Maioral ,  inclusive para eventual transferência do domínio a quem ele mandasse .  E não é que o preposto morreu logo depois e , vindo um terceiro moço de recados  informar - a mando do Maioral -  à viúva que  ele queria que o imóvel fosse transferido a outro preposto .  Mas  a viúva respondeu que desconhecia qualquer acordo ou combinação de seu finado marido com quem quer que fosse ; e , que para todos os fins  , o imóvel pertencia ao marido ,  mas também a ela própria , eis que casados em regime de comunhão universal de bens .  É claro que o Maioral teve que comer com casca e tudo o fruto servido pela viúva . Pergunto-lhes , corajosos  Mosqueteiros : o que fez a viúva ?  Como pode ser classificado o ato praticado pela senhora ? "

Foi  Athos o primeiro a responder : " Ela  praticou  um alívio de excessos de realizações " .  O que foi confirmado pelos demais mosqueteiros com um balançar afirmativo  de cabeça  muito bem  explicitado .

"Certo , Mosqueteiro Athos !   a viúva  agiu como nós deveremos agir :  sem violência - eis que o uso da força bruta  descaracteriza o alívio , que  jamais pode ser confundido com qualquer outra forma de aquisição da propriedade .  Obter  propriedade  pela força  caracteriza o roubo .  Mas  consegui-la  - quando excessiva -  pelo alívio ,  aí  tem-se  - seguramente -  uma forma lícita de adquirir  o que foi  obtido  - aí sim - de forma  ilícita ,  criminosa  mesmo .  E , para concluir , pergunto : por que  o objeto dos alívios  tem que - antes - serem  tisnados pelo crime , pela ilicitude ?   "

D´Artagnan não demorou a  ,  ele próprio ,  responder :  " Porque também a obtenção da propriedade tem condicionantes a serem respeitadas . E se isto não acontecer de forma criteriosa ,  e - além disto  - ela  for excessiva ,   pode  ser  -  tranquilamente -  aliviada .  "   Concluiu  D ´Artagnan  sob  aplauso dos companheiros.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

75 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B

Em reunião , os Novos Mosqueteiros decidiram que haveria    a cada dois dias ,  e por telefone ,  a  coleta das novidades aliviantes .  Os esgrimistas  daqueles pampas  usariam  os aparelhos  comunitários  que a empresa de telefonia colocara nas ruas  que permitiam  o recebimento de ligações   por  quem estivesse por perto deles. Com este meio , D´ Artagnan  saberia  as novidades  e  daria  as novas diretrizes aos colegas.

De agora  para frente  o  mais importante  seria que  todos se recordassem de suas experiências de vida para que as soluções dos problemas  tivessem  base na realidade de cada um dos Mosqueteiros .

Foi para  incentivarem-se mutuamente que marcaram  a  reunião de  Santa Maria ,  uma cidade situada bem no centro do estado .  Naquela  reunião ,  D ´Artagnan  mostrou  o progresso nos planos ,  por ele denominado ,  agora  oficialmente ,  de  " Plano Geral do Alívio de Excessos de Realizações Pecuniárias " .

Por sua vez ,  o primeiro mosqueteiro  refletiu interiormente sobre o amadurecimento mental por que passavam  todos os outros . Mesmo os de origem mais humilde  agora raciocinavam  com grande lógica , o que vinha confirmar o que ele já desconfiara ;  que  a exclusividade na  singeleza de idéias - ma maioria das vezes -  é  própria  do  ambiente de pobreza que cada um vive .  A proximidade - ainda que como potência -  da pecúnia ; a possibilidade de que cada uma daquelas pessoas  viesse a - em breve - tornar-se  alguém de  posses  fazia com que cada um deles  raciocinasse como gente das altas finanças .    Mas , é claro ,  a correção deste  pensamento a que chegara  D Ártagnan  só seria  comprovada com o sucesso do  alívio de  excessos  pecuniários que estava em curso .

Athos  informou  que , ainda  que usando seus últimos recursos ,  compraria na República Oriental  um pequeno caminhão totalmente  idêntico  ao que os Capa Pretas chegavam com os dólares .  Como Athos dispunha de  um derradeiro dinheiro no exterior , e sendo a República Oriental um paraíso fiscal , isto facilitaria  a compra .  Outro ponto importante :  Athos  compraria o caminhão em nome de um terceiro , na verdade tal  estratégia era algo comum  entre os comerciantes do lado de lá da fronteira .  Muito brasileiros faziam negócios , abriam contas bancárias ,  compravam bens com nomes chamados por eles mesmos de "frios" .  Era um costume já pacificado nos usos e costumes locais . 

Por sua vez ,  Aramis disse que o seu acompanhante costumava dedicar  as duas primeiras horas de seus encontros para os jogos de amor ,  só depois deles entregava-se  à bebida ,  tomando dois , quase três copos de uísque ,  passando logo a dormir  com sono completamente  profundo nas próximas  três  horas .  A  jovem propôs   - a título de ideia possível de ser  executada  -  o  artifício usado por  um cliente seu , um jovem - quase menino - que  , apesar de ter pouquíssimos recursos ,  queria  dispor de seus serviços amorosos . O jovem combinou o preço ,  chegando a mostra-lhe o dinheiro com que , certamente , honraria  o contratado .   Já no leito , o rapaz pôs o dinheiro da paga debaixo do travesseiro .   Tudo aconteceu normalmente , tendo mesmo Aramis tecido algum elogio  ao cliente.  Admitido  a permanecer  no leito ,   o soldado , que por sinal  cumpria  o  tempo de serviço militar obrigatório ,  avisou que teria que ir embora muito  cedo . Assim foi ,  o  sol  ainda não se levantara quando o jovem propôs  - e foi aceito por Aramis -  um  novo enlace -  , agora  matinal .  Logo depois vestiu-se  apressadamente  e saiu  quase correndo em direção ao quartel ;  mas não sem antes puxar  pelo lado  de fora da janela o  fio  que amarrara ao dinheiro do hipotético pagamento .  Ao acordar , a moça  tateou , procurando  o dinheiro embaixo do travesseiro do freguês ,  mas nada encontrou .  Revistou  o quarto , quando notou  a janela  estrategicamente entreaberta .    Foi ao lado de fora e encontrou  o fio de linha  jogado ao chão ,  sendo ele  a prova  que  permitiu que ela  descobrisse  a trama  do gentil  soldadinho .
Concluindo ,   Aramis informou que fora  despertada  para aquela solução do recruta  pelo hábito do seu  Capa Preta  que , assim como soldado,   guardava  a chave do caminhão de dólares embaixo  do próprio travesseiro.  Sendo assim , ela lembrou-se que também  os Mosqueteiros poderiam  valerem-se da criatividade do recruta . Ela bem que poderia dar  um jeito de amarrá-la a um barbante para que D Artagnan , ou mesmo Porthos , puxassem- nas  para fora do quarto .

D ´Artagnan achou  a ideia muito  criativa .  E disse que seria levada em conta na elaboração final do plano.

Neste momento interromperam  a reunião para almoçarem .

quinta-feira, 25 de julho de 2013

74 - Julieitnha e o Oficial do vapor - Final B

Dois planos seguiam a um só tempo : o de Pituca ,  e o dos Novos Mosqueteiros .  O plano de Paulo Becerra tinha duas pessoas infiltradas nele :  os mosqueteiros Quita ,  e  Aramis .  Quanto à Aramis , Pituca entendeu que ela , sendo  pessoa da maior importância para o furto que planejava ,  ofereceu-lhe  a participação de  cem mil dólares ; quantia que foi imediatamente aceita pela rapariga .  Aramis raciocinou prontamente que se desse uma resposta  al tiro  , isto aumentaria a confiança de Pedro , incentivando-o para que falasse ainda mais de seus planos .



Julitetinha reclamou de Pedro por ele não ter contado que fora à Caçapava .  É que Pedro fora  àquela cidadezinha , segundo contou gora à Julietinha , para informar-se de certas incursões de espeleólogos que estavam explorando algumas grutas que haviam na cidade . 

Julietinha : " Mas por que não me dissestes ,  Pedro ? "  

Pedro :  "Na verdade no dia que eu fui lá tu estavas visitando o Pituca em Porto Alegre .  Ou melhor ,  fostes ajudar a Valéria nas compras , nos preparativos para o casamento .  Depois disto eu até cheguei a me esquecer de que tinha ido à Caçapava . " 

Foi verdade . Pedro também interessava-se por espeleologia , e foi à cidadezinha fazer um contato com os exploradores de cavernas .



D ´Artagnan , que estava sempre atento aos detalhes ,  achou que o fato  de Aramis  morar do lado de lá da fronteira ,  na República Oriental , isto  era  algo bem  importante para eles  todos.  Tudo porque no plano que começava a cristalizar-se em sua cabeça ;  Aramis  seria  a pessoa sobre a qual recairiam todas as suspeitas e ,  evadir-se de pronto para o país vizinho garantiria totalmente o seu total distanciamento do alívio que os Novos Mosqueteiros fariam  ante os acumuladores de realizações pecuniárias . Bastaria-lhes manter  Aramis  distante de tudo e de todos para que  todas as suspeitas morressem no nascedouro .



Valéria  confidenciou  à Quita que Pituca teria fraquejado na mútua decisão  de  ambos voltarem  ao estado de quase reconstrução das virgindades .  Ante ao argumento do noivo de que por faltar tão pouco tempo para as núpcias  terminada estaria  a necessidade de manterem  a  candura  , Valéria  agarrou-se  à promessa como um náufrago  a um salva-vidas :

" Se esperamos até aqui , se sofremos juntos as maiores tentações , por que haveremos de  quebrar a promessa de nos mantermos alvos como a  neve ,  limpos como águas  que descem das montanhas , claros  com as  luz das estrelas .  Não , amado Pituca ,  o que você quer , o que me pede , só terá depois do casamento ... e aí sim , serei toda tua ... e para sempre .  "

Pituca , que estava ajoelhado aos pés da amada , levantou-se e , sem despedir-se , caminhou  para o seu apartamento parecendo que estava  algo assim  meio  curvado .


quinta-feira, 18 de julho de 2013

73 - Julietinha e o Oficial do Vapor - Final B .

Conforme já  tinham combinado , foi a mosqueteira Quita que convocou uma reunião para informar o  grupo sobre as  novidades colhidas  .  Desta vez ficou acertado que o encontro seria em  Caçapava  , uma cidadezinha no alto de uma pequena serra ,  que vive  da mineração de calcário , com paisagens das mais tranquilas de todo o planeta Terra .   Quita não bebia álcool ; assim ,   o brinde em que todos os Mosqueteiros levantavam as taças , para ela foi com refrigerante .  Para os demais foi com um excelente vinho da Campanha   .

Quita passou por um tempo de amadurecimento . Se antes só pensava em servir seus senhores , agora sua auto-estima  crescera ,  ela sabia que era uma pessoa como as outras , que tinha  suas prerrogativas ,  por isto queria sacar o seu quinhão que , sem dúvida ,  estava em outras  mãos . Nela  viviam  duas pessoas . Uma  ,  a antiga ,  era a que  gostava de mexericos ,  de  fofocas .  E foi  este lado que contou aos colegas dois fatos que ela achou inusitados :  Pituca  ,  nesta segunda vez que co-habitava com Valéria ,  adquirira  o apartamento ao lado do que já possuía para ali  abrigar  sua amada . Paulo Becerra nunca esqueceu que ambos prometeram-se mutuamente que sem o casamento eles não se pertenceriam , tivessem a vontade que tivessem um do outro .

E , se acariciavam-se  por longos momentos , tais carícias , acreditem , não transpunham os limites de afagos mas  sem que - como Valéria confidenciou à Quita -  chegassem sequer a masturbar-se .  Ambos respeitavam a palavra  empenhada . E num determinado momento depois de cearem juntos ,   despediam-se .  Cada um para o seu apartamento . Para ambos , aquele resistir , ainda que a paixão explodisse neles ,  era assim como  a expiação necessária  à purificação de seus espíritos . E  corpos .  Guardavam-se  para as núpcias que - segundo Pituca vinha comentando -   seriam  - nada mais , nada menos - do que no Tahiti .  Mais precisamente  , em Pappete .  

Mas ainda sobravam  outros segredos ,  também captados por Quita :  O nome verdadeiro de Valéria não era este , mas sim Valeska .  E  agora  Pituca começara uma campanha para que Valéria  , no dia do casamento , no instante em que juraria fidelidade ao marido ,  voltasse  ao seu verdadeiro nome  . Assim , o ritual do casamento teria  mais  uma purificação .  Ali morreria Valéria e  renasceria  Valeska.

Quita encerraria sua  fala  com mais duas novidades . Paulo já estava na posse dos passaportes e , ainda mais intrigante : Quita presenciou um telefonema de Pituca para  um corretor de imóveis no qual  tratava da venda dos dois apartamentos ,  e  que o comprador  fosse  avisado  que  o vendedor  permaneceria no imóvel por mas  algum tempo - não muito .

Se os demais Mosqueteiros estavam  boquiabertos , D ´Artagnan  não demonstrou  surpresa .  E ,   novamente , fez um  discurso  pelo qual quis clarear  ainda mais  a cabeça dos companheiros :  "  Acho que já  não temos dúvida de que a  propriedade  também pode vir sem máculas .   Mesmo assim  cabe uma observação :    as coisas  industrializadas ,   e vendidas ,  têm nelas  bens  extraídos da  natureza  que são   propriedade de todos , de todo mundo .  Ou seja  (  e D ´Artagnan levantou as voz , ainda que os companheiros já estivessem-no bem  escutando  )   aqui  nestes confins da nação - se não no País  inteiro , no mundo inteiro -  as classes que mandam ficam não só com aquilo  que elas  agregam  nais coisas que  produzem . Mas , também ,  com  aquilo que seria de todos por  virem  das entranhas da terra , de  antes mesmo que o homem se conhecesse como tal . "

Quita   e  Porthos  se entreolharam ,  mas foi  Aramis quem arriscou uma pergunta :  " Mas os impostos  ?   ; eles  não servem  para que esta parte  que é  de todos , a que é  retirada da natureza , eles não são para  que ela  se volte para  os que não participam diretamente da  industrialização  ? "

D ´ Artagnan  , que jurava que  os motivos que sempre  o levavam  a  enfatizar para os outros Mosqueteiros o lado filosófico/religioso  do alívio de  excessos de realidades  que  fariam  deveria  servir  tão somente para que todos não ficassem com sentimentos de culpa  pela  requisição que fariam  ;  completou : " pode até ser que em outras plagas , em outros países , os impostos sirvam como paga deste quinhão natural e coletivo  . Só que aqui ,  nestas paragens , os mais  hábeis  ficam não só com o que eles porventura agregam  às coisas ; mas também , com  os benefícios  originados na quase totalidade dos impostos  que sobre elas  incidem  .  Enfim , apropriam-se também  ,  pelo exercício das mais diversas formas de poder , da quase totalidade das riquezas naturais .  Não ;  a propriedade nem sempre é um  roubo  , Aramis . Mas por aqui , quase sempre é  . "

" Tudo bem ". respondeu Porthos . Mas voltemos  à nossa causa primeira :  quanto hoje  progredimos no nosso plano de ir buscar - como sempre me diz  D ´Artagnan ...  o nosso quinhão ... ao  ,   tão somente ,   aliviar  os excessos de realizações  perpetradas por terceiros ?  "

D ´Artagnan  respondeu :  " Posso garantir que hoje andamos muito , mosqueteiro  Porthos . "

Foi Aramis quem abortou  a aridez da falação  que , certamente , iniciaria o primeiro mosqueteiro  ( "primeiro"  por que foi quem organizou  o grupo , eis que entre  Os Novos Mosqueteiros não  existia qualquer hierarquia ) :  " Eu estava esperando um tempo para dizer que Pituca  convocou todas as meninas do Boca de Ouro  para a semana que vai do Natal  até  o dia 2  de janeiro .  Ele quer todas a postos neste período. "

Depois  de  Aramis ,  Quita aproveitou para dar mais uma notícia :  "  Ouvi o Seu Pituca dizendo para Valéria que estava cada vez mais satisfeito com o trabalho do Seu Bandido ;  que , até agora ,  Bandido não atrasara um dia sequer no pagamento de sua mesada de dez mil dólares  . Eu ainda não sei bem  o que isto tem a ver com  tudo que nós queremos . Mas  a intuição me diz que em alguma coisa isto é bom para nós todos .  "

Foi o próprio  D ´Artagnan quem  completou .  "  Todos nós devemos ficar  atentos ,  mas também felizes ! Diversos passos  já foram dados por nós ,  Porthos .  E todos com absoluta  precisão .   Nem que eu quisesse  só olhar para o lado frio da lógica ,  despindo-o  de  interpretações  que pudessem nos favorecer ;  nem assim  eu poderia  esquecer que temos boa parte do caminho andado .   Tudo  joga a nosso favor !  Vejam  a alegria de Pituca quando confirma que o senhor Bandido  paga com absoluta pontualidade o que lhe prometeu .  Qual a leitura disto , Novos Mosqueteiros ?  Qual ?   :    Pituca , já decidiu  que  mudará de vida  no momento em que casar-se .  E quer ter uma dupla garantia :  o pinga-pinga  , pelo menos para ele ,  de  dez mil dólares por mês depositados em sua conta   ,  mais um depósito de nada menos do que vinte  milhões de dólares . Tudo depositado  no pais da cruz branca . Posso garantir que  todas as terras , todas as estâncias  de de Pituca  não valem a metade disto ."

Foi Porthos quem cortou  D ´Artagnan :  " Vinte milhões de dólares ....  de onde tu tirastes este número  ? "

" É fácil , Porthos .  Tantos avisos , tantas preparações levam a uma conclusão  evidente :  O pequeno caminhão  virá lotado .  Eu me dei ao trabalho de calcular  , pelo volume do caminhão , quantas notas de cem dólares cabem ali .  Dá mais de vinte milhões de dólares .  Outra  evidência é que a situação política está  dia a dia se complicando .  Eu  me convenci  que  os  detentores  da pecúnia  concluream que  chegou a hora dos excessos de realizações serem retirados do país .  E  o quanto antes  .  Vejam ,  companheiros  ,   temos que  agir como um relógio inglês ,  com exatidão ,   sem  titubeios . Absolutamente precisos nos alívios pecuniários a que nos propomos ;  se o casamento de Pituca  está marcado para o dia 15 de Dezembro ; e , se além disto , ele  vendeu os apartamentos , é porque quer abandonar a região .   Como ouvimos nossos pais dizer : Pituca quer ver o anoitecer , mas não o  amanhecer  .  Quer  desaparecer na calada da noite . E por que Pituca faz isto ? :  porque  a maior parte de seu plano  também, já  deu certo .  Recordam  que eu disse que todos os carregamentos de dólares chegaram num  feriado de longa duração ?    Este é o motivo de  Pituca  botar  o Boca de Ouro de prontidão  geral  na semana de fim de ano .  "   Todos os mosqueteiros balançaram a cabeça afirmativamente , quando   D ´Artagnan  voltou  à  sua explanação : "  Pois bem , daqui a  40  dias  teremos  um grande feriado , o maior de todos :  a semana  de Natal , sempre colada  nas festas de passagem do ano .  E , como neste  ano o  Natal cai  numa terça-feira teremos  praticamente a  junção  de dois grandes feriados .  Tem-se aí  um momento mágico em que as estradas param ,  os postos policiais fecham  por completo seus postos logo depois que acham que todo o tráfego  vazou  para seu  destino  final .  Companheiros ,   a  polícia também para , recolhe-se  a seus lares .  E não só no Brasil .  Tudo  para  nos dois lados da fronteira .  Para todos que estão nesta  aventura  o  final  do ano  é a hora .   O dia é este :  o primeiro do ano . "

Porthos aproveitou para levantar uma dúvida :  " Pensei , pensei  e  percebi ,  D ´Artagnan , que não precisamos  de que  exista um  duplo furto .  Ora ,  se  a nossa  fé  aponta para que o dito  de "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão "   seja  suficiente - pelo menos quanto ao tempo  necessário para uma ampla anistia  divina  ; e ,  considerando-se  os  obstáculos  que teríamos  ao ter que esperar que Pituca  faça  o seu  desapossamento ; para , aí sim ,  aliviarmos  o  gauchão  ;  digo com certeza que não vale a pena o risco originado  nesse  duplo perdão .  Diante disto eu peço a  Democrática para que seja resolvido este incidente :  se  poderemos  promover um alívio simples  , mesmo que com isto só tenhamos a garantia de tão somente  cem anos de perdão ,  não existe motivos lógicos ou religiosos  para  que o risco  se multiplique .  Ou  , então ,  se for da vontade do Grupo , esperemos  que Pituca  furte  os dólares , para - depois dele  delinquir -  aí sim  aliviar  o Paulo  Becerra  . "

D ´Artagnan   pediu que , pela ordem , ele  esclarecesse : "  Muito bem , Porthos .  Já vi que nosso convívio tem  feito  sua cabeça se abrir  aos clássicos  .  Você tem razão !   O que Pituca faria seria um furto ;  isto mesmo ,  o estancieiro  não dispõe de status  filosófico  , ou mesmo religioso , que todos nós  ,  Os Novos Mosqueteiros , dispomos .   Tudo porque nós , qualquer um dos  Novos Mosqueteiros , nada têm  de acumulação ,  real  ou pecuniária .  Inexiste , para Pituca , qualquer possibilidade do perdão divino . Isto  nem de longe vale para Pituca .   Ele é um grande proprietário de terras ;  e  , o que para nós será  um aliviar de excessos de realizações , para ele seria  mais uma  acumulação  ampliadora de realizações .  Parabéns , Athos !   E eu espero que  Aramis  e Quita  estejam  abrindo suas consciências para o fato de que não nos interessa  ser igual aos outros acumuladores insaciáveis . O que queremos é a nossa parte nas  apropriações de bens naturais embolsados ao longo das eras ,  das  gerações .  "

Desta vez , Quita foi a única pessoa que não demonstrou  segurança no balançar  a cabeça afirmativamente . Mesmo assim , balançou-a .

Foi quando   D ´Artagnan  completou :  "  Por mim , eu  - por mais que isto  nos custasse  -  consumaria  compulsoriamente o duplo alívio .   Por mais que nos custasse ,  deixaria que  Pituca furtasse os Capa-Pretas  para  só então  aliviá-lo ;  para  com isto garantir  uma  anistia celestial  de duzentos anos .  Mas  eu não vou quebrar a jura que fiz : submeto-me à Democrática . "

Foi quando D ´ Artagnan completou : " Companheira Quita ... você lembra o que seria a  Democrática ? "

Quita , que todos os dias lia o Guia dos Novos Mosqueteiros  que tão bem escondia nos seus guardados,  não titubeou  . Trazia  na ponta da língua  a definição do  Manual  elaborado  por  D ´  Artagnan : "  A Democrática  é  o pedido oficial posto por um dos  Mosqueteiros de que a vexata quaestio seja  colocada  em  votação aberta . "

D ´ Artagnan  não se conteve :  " Para concluir ,  companheira Quita : e o que viria a ser vexata quaestio ? "

Quita :  " Vexata quaestio , para nós , os  Novos Mosqueteiros , é  uma  como  chamamos  as questões   sumamente intrincadas ."

D ´Artagnan :  " Parabéns Mosqueteiro Quita !    Vamos à  Democrática ... "

D ´ Artagnan  :  " Mosqueteiro  Quita  ,  em que tu votas ,  no duplo  perdão , que nos garantiria duzentos anos de indulto  divino ,  ou  no  alívio  uno , representado  num só  passo aliviante ? "

Quita : "  Concordo com Athos . Nossas vidas não chegarão a  cem anos .  E , pelo que ouvi dizer , pelo menos no campo terreno , a penalização de alguém não pode ser transferida para a sua família . 'A  nossa descendência só   restaria  os bônus de  uma pequena montanha de dólares . "

D ´Artagnan : "  Submeto-me à vontade da maioria , mas devo esclarecer que quando pedi  a comprovação de dois roubos para a quantia almejada que será  aliviada,  eu me referia tão somente  aos  limites religiosos que a questão compreende ...    Aramis ,  qual o seu voto ?  "

Aramis :  " Mais do que ninguém , eu compreendo as preocupações político/ filosóficas/religiosas  do primeiro Mosqueteiro . Mas , como na profissão que abracei ,  devo ser prática :  não vale a pena a relação custo/benefício de termos que correr o risco de dois alívios seguidos ,  não vale a pena .  Voto com o Mosqueteiro Athos . "

Assim , democraticamente , foi decidido que somente um alívio era suficiente para livrar  os Mosqueteiros dos  desdobramentos terrestres  esperáveis  . E ,  por que não ?  com o rigor lógico  adotado desde o início por D ´Artagnan ,  que também os impedia moralmente de correr riscos de estarem perpetrando  algum furto .  Algum roubo .

D´Artagnan foi complacente ao calar-se para a questão relativa à eternidade das almas no tempo posterior ao Juízo Final .  Até D ´Artagnan  convenceu-se que seria um excesso abrir mais uma discussão para , nela ,  discutir  o tempo ulterior ao dia do Juízo Final . E , imediatamente , bateu o martelo .








sábado, 13 de julho de 2013

72 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B

Pituca  e Valeria  casariam-se  na cidade  em que  ela  nascera .  Decidiu-se  que , do lado de Paulo,   somente os  parentes , e  os amigos  mais íntimos  seriam convidados  . Meses atrás ,  Paulo Becerra fora  , com Julietinha ,  Pedro  e o filho ;  até a cidadezinha de  Dom Feliciano , que era a região onde instalara-se  a  Família Milczarek , originária de Malbork  , cidade polonesa  bem próxima da fronteira com a Rússia , tendo  esta vizinha  dominado  a região  por volta de 1890 ,  momento  em que o clã  familiar  imigrara para o Brasil . O motivo da visita  era o de Paulo de pedir Valeria em casamento . O  pai de Valéria disse à Pituca que nunca se conformara com a saída da filha de casa , para ir estudar na capital .  Mas não pode evitar a sua partida em razão de uma enchente de grandes proporções na região que lhe fez perder todas as plantações ,  tendo mesmo a água da chuva levado rio abaixo  as criações  de porcos , galinhas  e até mesmo gado leiteiro .  A mãe da moça emocionou-se  ao ouvir de Pituca que ele tinha grande honra em ingressar na família  Mielczarek , caso lhe aceitassem como genro .  É claro que o gaúcho da fronteira foi aceito ;  tendo  , inclusive , proposto uma data  do casório ,  e  bem próxima .  Foram servidas comidas ,  e doces  da tradição polaca que fizeram grande sucesso entre todos os  Becerra / Fagundes . Mas  Pituca  quase botou tudo a perder quando ,  em conversa apartada com o Sr. Milczarek ,  ofereceu ajuda em dinheiro para os gastos com as bodas ;  grosseria  considerada  humilhante pelo Senhor ;  mas Pituca  foi socorrido pela irmã  que afirmou  , em evidente  remendo ,  ser a oferta uma tradição na sua região de origem , argumento que - muito a contragosto - foi aceito pelo futuro sogro .  Foi quando Pituca tirou do bolso o anel de compromisso mandado fazer em joalheiro de sua família , dizendo  a todos que  as alianças foram forjadas de numa única pepita de ouro  com o propósito de que a união  fosse tão indissolúvel como aquele  ouro  guardado  nas  eras  passadas ,  unido ,  atado como ele queria que fosse seu casamento com Valéria .  À  mesa também  muitos licores ,  grapas , vinhos  e  cervejas ,  bebidas  feitas  ali mesmo  em Dom Fernando , pelas  mãos dos convidados  daquele jantar ,  quase todos tendo  algum grau de parentesco  com os Milczarek .

A única pessoa que parecia não respirar a alegria geral  era Pedro que , mesmo querendo  participar ,  fazendo força  para  alegrar-se  de verdade ,  mesmo assim  não conseguia  entregar-se  à festa como é sempre preciso  para que todos vibrem .  Julietinha ,  percebendo, disse-lhe : " Pedro , o que é que tu tens ? "         " Nada , nada ,  não é nada querida .  Estou com dúvidas num contrato de edição do meu livro e ,  ainda que eu não queira ,  isto tomou por um momento  o meu pensamento . Mas eu já melhorei ... "   Foi quando Pedro  levantou o  copo de grapa  num brinde  entoando belas palavras  de boa sorte ao casal  e longa vida a todos  presentes . "

terça-feira, 9 de julho de 2013

71 - Julietinha e Oficial do vapor . final B

Os Novos Mosqueteiros reuniram-se para estudos dos planos .  A novidade de Quita caíra como uma bomba : Paulo Becerra ,  o Pituca ,  fora chamado ao Rio de Janeiro onde serão combinadas remessas  de  valores  ainda maiores .  Os  Novos Mosqueteiros , todos eles , exultaram .  D ´Artagnan  expôs as dificuldades  que era fazer desaparecer  um carro do porte necessário para este novo , e ainda maior , volume de papel moeda norte-americano .  Algumas premissas já eram consensuais :  a  carga ficaria escondida ,  intocada  pelo tempo suficiente para sentar a poeira . Por um bom tempo  Os Novos Mosqueteiros continuariam  em suas atividades comuns .  Como a confiança era total ,  D ´ Artagnan  adiantou  a sua ideia sobre a principal alternativa de esconderijo do caminhão pagador.  Pensava  primeiramente em   ( dentro do tempo necessário  e esperável  que teriam para fazer o caminhão desaparecer com segurança )  usar as minas de carvão abandonadas  . Outra alternativa  seria  usar  um silo de cereal  existente em terras  muito confiáveis ,  e que servia para guardar  o que era conhecido como "estoque regulador"  comprado  pelo governo  quando - como acontecia naquele momento -  colhia-se  uma grande safra . Nesta hipótese , seria possível - usando somente a mão de obra dos próprios mosqueteiros -envolver totalmente o carro em soja .  E como havia  super-produção , ninguém haveria de resgatar a soja pelo tempo necessário para  os gansos voltarem à calma .  E o melhor : D´Artagnan  era  quem tinha a exclusividade da posse da chave do silo .

Foi neste ponto que  D´ Artagnan  mudou de tom  para explicar a todos - ainda que nem tudo fosse compreendido pelos novos mosqueteiros -  a importância de que Pituca também entrasse na posse do dinheiro , mas tão somente  por um curtíssimo  espaço de tempo .  Só assim os mosqueteiros teriam a  segurança de que , pelo menos pela moral judaico-cristã em que todos foram criados , somente  o  duplo-perdão daria-lhes a  ampla garantia de que até mesmo os seus descendentes não arderiam nas chamas eternas por aquilo que estavam fazendo agora . E foi isto que  D´Artagnan tentou explicar à Aramis e Quita :   que os dois mosqueteiros primitivos - ele próprio , e  Athos -  não queriam  simplesmente roubar , ou mesmo , furtar ; mas sim promover um desapossamento que  fosse , a um tempo só ,  original e natural  ;  e , para tanto ,  a  subtração da coisa teria que observar determinados requisitos , dentre eles a certeza absoluta de que o  dinheiro  viria de um duplo furto - se não , de uma cadeia interminável de furtos . A questão estava em que ele , D´ Artagnan , não aceitava afirmações genéricas, desprovidas de comprovação , como a de  J. Proudhon  que dizia  que a propriedade é um roubo .

Ora ,  ao ver de D ´Artagnan , a propriedade poderia , ou não , ser um roubo .  Daí  , também o desapossamento  -   que recebeu dele a denominação técnica de  " alívio de excessos de realizações " -  ,  ser  a  espécie  única do gênero  " propriedade originária advinda de obtenção secundária . "

Reflitamos :   a herança cultural de D´Artagnan ,  o líder natural  de tais  futuros aliviadores de excesso de realizações  ,  viria  - certamente -   de Portugal .  Tudo porque aquele lugar onde a ação se desenrolava era , dentre todos do mundo  , a colônia  mais influenciada pelo Tratado de Tordesilhas - de 1494 -  em que Espanha  e Portugal dividiram entre si o mundo .  Em verdade , tudo levava a crer que  D´ Artagnan vinha  de nobres  portugueses .   Somente um português  daria tanta importância a esta questão limítrofe até mesmo para  a Lógica mais aprofundada :  A possibilidade de existir alívio de pecúnia  sem que o ato possa ser confundido com furto ;  ou ,  muito menos ,  roubo .  Mesmo assim a questão ainda comportava a preocupação com a bifurcação existente entre a ciência e a moral  , principalmente a religiosa  .  Se a lógica estava , para D Ártagnan ,   satisfeita  -  (  " Por Deus !  é claro que  a propriedade  poderia  ser - ou não ser -  um roubo "  )    ;  subsistiu por um momento a questão religiosa . E esta , o primeiro mosqueteiro resolvera  ao observar o dito popular  ( era  a voz do povo que vinha em seu socorro ; tudo porque   a voz  do povo era  -  para ele -   verdadeiramente  a  Voz   de  Deus )  . E a voz do povo dizia-lhe que  "Ladrão que rouba ladrão , tem cem anos de perdão . "

Por fim  a que se registrar que  mesmo Athos  ( o segundo dos Novos Mosqueteiros )    muito pouco entendia destes limites da racionalidade levantados  por  D ´Artagnan ;  quanto à   Aramis  e  Quita  , estas  ficaram totalmente sem saber  do que estava o primeiro mosqueteiro falando , ainda  que o  ouvissem  tão respeitosamente quanto lhes era possível  assim  ouvir  .  E  todos estes respiraram  aliviados quando D ´ Artagnan  , certo  que  a semente daquela sabedoria toda  estava plantada  em nos  demais companheiros , concordaram  em  marcar  uma nova reunião para tão logo Quita ou Aramis tivessem novidades .

quarta-feira, 3 de julho de 2013

70 - Julieitinha e o oficial do vapor - Final B

Quita ,  no apartamento de Valéria e Paulo Becerra  na capital  do estado , limpava a poeira dos móveis com um pano umedecido  ,  ao mesmo tempo que ouvia  Pituca  falar  ao telefone ,  com Zé  Arataca  em Recife  .

Pituca :  "  Se  tú achas que é tão importante assim ... ? 

   Mas tudo não está  tão bem , Chê  ....  ?  "

.......

Pituca :  " Mas bááh  Tchê .... então é em razão de tudo estar dando  certo que o pessoal quer ampliar as remessas ... mas isto é tri-legal , Tchê  ! "

......

Pituca : " Tá bom barbaridade , eu estarei  no Rio no dia e hora combinada ,  lá  na Churrascaria  Gaúcha  ....  "


Quita ,   a Mosqueteira ,  não só ouvia , mas também gravava em seu cérebro o que acabara de presenciar .  A negra lembrou naquele instante que sua família trabalhava há décadas para os Becerras  sem  que tivessem um salário que lhes proporcionasse quaisquer confortos ou mesmo  possibilidades de ter uma família normal , uma família cujo destino na  fosse  continuar  servindo de mão de obra barata para os patrões.   "Enquanto isto  , os Becerras enriqueciam  , multiplicavam  sua fortuna ,  "  pensava a preta  .   "Não , eu  não vou tremer ...  eu  vou conseguir deixar de lado o servilismo que se abate sobre a minha raça desde que nos trouxeram acorrentados da  África . "

Por incrível que pareça ,  Quita  notou que Pituca  também  refletia  ... decidia intimamente alguma coisa que ela  , porém , imaginava do que se tratava  .  Na verdade  , Paulo também  vacilara um pouco em   dar continuidade  no plano de apropriar-se de uma das remessas .   Pensava ,  pensava  ... até que seu semblante desanuviou-se , momento em que chamou , quase gritando , Valéria ....  :  " Polaquinha ....;. Polaquinhaaaa ...  meus planos estão se concretizando ...  ligaram-me  para uma reunião no Rio ,  e  será para fechar  um negócio que eu esperava a meses . "

Como  Valéria  não respondesse ,  Pituca  abriu de vagar  a porta do quarto  e viu - nada menos do que  a sua polaquinha  dormindo , ou pelo menos fazendo que dormia .  A inércia  da mulher -  estática  como  se fosse  um quadro do  D´Orsay -    despertou  no Gaúcho  vontades  e desejos  que , de  pronto ,  fizeram-no  ajoelhar-se  e  beijar  , lamber mesmo , um a um os dedos dos pés de sua  Pipoquinha , que  mexeu o corpo  acusando  a carícia  , mas  sem tirar o pé  da boca do  amante .

terça-feira, 2 de julho de 2013

69 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B

Os  raros selecionados para ser um Mosqueteiro haveriam  de passar  por um severíssimo ritual de entrada  . Uma das últimas provações a serem  vencidas era a da  "brasa na língua" , que consistia em que alguém contasse um mexerico ( o que em Boca do Monte começava a ser chamado de  "fofoca" )  sob solicitação de que o dito maldoso não fosse passado adiante .  Dias depois o segredo  era  , de alguma forma , conferido pelo Mosqueteiro que  fora  designado para aplicação do " brasa na língua". Assim  era  testado o candidato conferindo  se  dispunha - ou não -  da  capacidade de guardar as  importantes confidências que , certamente ,  chegariam-lhe aos ouvidos por ser um Mosqueteiro .  As tais  "fofocas"  .  Quanto à coragem , necessária à um Mosqueteiro ,  para os naturais medos das muitas quase-ficções originadas na metafísica regional ; ela seria posta  em cheque na  derradeira prova , e consistia em que o  pré-escolhido  passasse sozinho a meia-noite de uma sexta-feria na Lagoa da Música , na Hulha Negra .  Ainda que distanciadamente ,  um dos Mosqueteiros declarou  que entendeu como macabra tal  exigência .  Mesmo assim a prova  não foi abolida.  Para  para serem sagrados  "Mosqueteiro"  os  futuros irmãos de espada  teriam mesmo que continuarem a  serem testados  em  "Sexta-Feiras  da  Lagoa da Música " .  Assim é   que o noviço era informado pelos  iniciados  de que  teria que ficar toda a  aziaga noitada  meditando margens da lagoa sobre os meandros da morte ,  sem  que  - pelo que ele soubesse -  pessoa viva  permanecesse  a menos de  uma légua de sesmaria dali .  Em  verdade ,  os demais Mosqueteiros ficavam por perto, no meio da escuridão  geral . Tão logo transcorresse a meia-noite -   momento em que os gritos dos degolados eram ouvidos com muito mais nitidez  ; e  ,   se  o  noviço  permanecesse  - ainda que minimamente -  no  controle  de  seu corpo e  de sua mente  ; se  conseguisse manter  a  calma  ante as lembranças ,  aflições  e sons que até então emanavam do fundo da lagoa onde ainda jaziam os despojos  da matança  acontecida naquele exato  de  centenas ;  transposto estes momento logo chegariam os  irmãos de capa-e-espada  ;  enfim ,  os  demais  mosqueteiros -  que em verdade  ficavam  por perto -  ante os riscos inerentes àquele  quase limite da resistência humana ao sobrenatural  ; e ,  saindo-se o candidato vencedor ,  eles cortavam o silêncio da madrugada  entoando cânticos greogorianos ,  repartindo o  pão ,  o queijo e  o vinho  e  ,  - vencida a provação -  sagravam ali mesmo o novo  Mosqueteiro .

Pasme , mas o certo é que o mais novo dos Três  Mosqueteiros  (  diga-se  que  passou  com louvor  em todas  as provas  foi , ninguém menos ,  do que  a  Quita  ; de quem - a bem da verdade - nenhum dos irmãos esperava  a coragem  por ela demonstrada .  Sequer  tremeu uma fibra do seu corpo ao ouvir  o de sempre : gritos lancinantes dos  espíritos  dos corpos  penadas ali  degolados

Talvez , sejamos francos , por uma resquício  do quase permanente  preconceito  contra  os  negros que  naquela época   ainda era muito mais intenso  do que  hoje  .









quinta-feira, 27 de junho de 2013

68 - Julietinha e o Oficial do vapor . - Final B .

Um ano se passara e quatro remessas de valores tinham chegado do centro do país .  A maior parte deles seguira para a Europa , quantias de menor monta ficaram  mesmo na República Oriental .  Como Pituca previra  , os capa-pretas fizeram-se íntimos das moças do Boca de Ouro  .  O que Paulo não sabia  é  que  a  jovenzinha  , que praticamente amigara-se com  Silvério  o capa-preta chefe ,  fora  convidada  pelos Mosqueteiros a fazer parte do grupo . E  aceitara  juntar-se  à  D´ Artagnan  e  Athos  adquirindo  o codinome de  Aramis ; aliás , o único dos mosqueteiros que falava o idioma  Espanhol .  Assim ,  Aramis  recebeu  a promessa de que quaisquer  desapropriações , qualquer lucro vindo daquela sociedade, seria dividia  de forma igual entre os mosqueteiros .  Reviveriam  o   "Um por todos , todos por um " .
O certo é que a moça  era  nacional da República Oriental  e ,   se antes de pertencer aos Mosqueteiros  já se esforçava em agradar Silvério (  aliás , ele confidenciou-lhe numa noite  daquelas  que "Silvério"  era um codinome ;  que seu nome de batismo seria Dirceu  . Mas  foi  preciso  de muito uísque irlandês na cabeça  para que Dirceu  revelasse  este seu segredo  maior  )  agora ela  se aplicava  mais e mais nos jogos de amor .  Ainda  que  a jovem  exercesse  a  antiga profissão , é certo que ela  não o fazia  tão somente  por interesse  pecuniário .  Assim ,  ampliar os limites das possibilidades amorosas era não só um desafio na missão de agradar  totalmente Silvério ;  a verdade é que  uma possibilidade  - a de  trabalhar em prol do ideal do Mosqueteiros -  não anulava  a chance de  entregar-se aos prazeres que  quase sempre  co-habitam com os demais resultados práticos de seu ofício .   Aramis soltava-se  e  imergia  no clima ;  e , se proporcionava a Silvério tudo o que a imaginação do capa-preta  criava  ,  ela também aproveitava  a sede , misturada com fome mesmo  , com que o homem chegava ao Boca de Ouro .  Nada , mas nada mesmo , do que constava do menu dos amantes , fossem eles franceses , tailandeses , indianos ou de qualquer outra nacionalidade tida como íntima do erotismo mais profundo  era deixado de lado . Silvério trazia-lhe  fotos ,  cadernos  pornográficos com  as  posições eróticas mais  intensas para  reforçar os laços amorosos  , mas cuidava  de levá-los todos de volta quando  , quase ao amanhecer ,  seguia  para Rivera .  O fato é que  Aramis , com  Silvério , sentia  de verdade quase todo o prazer que exteriorizava ;  e  que  com outros clientes ,   fingia sentir .  Por isto , se  do seu lado Silvério  gemia sem sentir dor  em cima  Aramis  cortava o silêncio daqueles pampas só povoado de gado  bramindo de prazer.  Para  o bem de todos  , a moça convencera o capa-preta  de que  ele  nascera para dar prazer aquela  sua amante .  E  é bem possível que isto fosse verdade .   Só o que  Silvério não sabia , era que a mulher , além do prazer que proporcionava e desfrutava  -além disto - ela  ficava  com  olho de águia  nos hábitos  de  Dirceu   ;  como e onde  guardava as chaves da caminhonete que trazia o tesouro ,  por quanto tempo a quantidade  bebida  naqueles encontros  o mantinha  quase anestesiado  .   Todas as informações eram  passadas  para   D´ Ártagnan e Athos  .

Por sua vez , Paulo - o Pituca -  ao perceber que Silvério  caíra mais  e mais  o beiço  por Aramis  ,   aumentou  substancialmente o cachê  da  prostituta .  Ao mesmo tempo que lhe criara um problema  : quanto mais pagava ,   mais   informações sobre os costumes do capa-preta  exigia ; que , não por acaso , eram  os mesmos detalhes  que  D´ Artagnan  e  Athos  pedidos .

Aramis  , assim que pode , pediu uma reunião com D Ártagnan e Athos  para que os três avaliassem qual seriam as melhores  respostas  que ela teria que dar ao Pituca ,  que  em vez de aproximá-lo  da fortuna  que ambos os lados  disputavam ,  deixassem-no cada vez mais distante da dinheirama .


sexta-feira, 21 de junho de 2013

67 - Julietinha e o Oficial do Vapor . Final B

Quanto à produção literária , Pedro Santiago vivia o melhor tempo de sua vida .  Estava terminando um livro de poesias  que dava ao ex-jornalista grande satisfação .  Julietinha engravidara , e recolhera-se ao lar em razão  de que os médicos de Boca do Monte prevenirem  que sua  gravidez era de risco em razão de que  a gestante já  tinha uma certa idade ,  o que  poderia ampliar as complicações possíveis na gravidez .

Quanto  às  estâncias ,  percebia-se que Bandido fazia todo o possível - na verdade , quase o impossível -  para que as propriedades  dessem resultado econômico positivo .  Ainda que não comentasse , por diversas vezes  Bandido lançava mão de suas reservas  conseguidas em muitos anos de trabalho na Austrália .
Tudo para que  Pituca  tivesse a segurança econômica que -  em  derradeira análise - garantiria todo mundo.    E , quem sabe , muito especialmente ,  o futuro  dele e  de Almerinda . Bandido sabia que se a mesada de Pituca , que equivalia a dez mil dólares mensais,  tivesse a regularidade de relojoaria européia tudo seguiria conforme estava planejando . O certo é que pouco a pouco  Bandido passava a ser o senhor de todo  império dos Becerras.  Lembre-se mais uma vez que Bandido era de verdade uma pessoa honesta , polida  .   - e  , se  não fosse pouco -  de impressionante bom humor .

Almerinda assumira  a gerência da casa dos Becerras,  em Boca do Monte ,  e cuidava de Julietinha como só as mães cuidam das filhas quando prenhas.

Quita , que era solteira ,  e  que  praticamente já era uma pessoa da família ,  foi para o apartamento de Pituca na capital onde fazia de bom grado toda a lida doméstica  liberando  Valéria para dedicar-se toda para os cuidados e necessidades de Pituca .

As chegadas de remessas , do Rio  para Rivera ,  tornaram-se habituais ; ainda que  entre uma e outra  transcorressem  dois ou três meses .  Pituca  , que vivia muito bem com a mesada que Bandido lhe enviava ,  liberara  entradas das participações no contrabando de dinheiro ,  para a formação de uma poupança lá no país dos queijos furados .

Julietinha  recebia a metade do que Pituca .  Bandido a convencera que a outra metade estava sendo capitalizada contabilmente a seu favor .  Na verdade  Bandido  , só com os resultados das estâncias , não conseguiria  pagar à Julietinha o mesmo que mandava para Pituca .

Enfim ,  o núcleo  familiar  Becerra/Santiago saboreava um raro apogeu que poucos clãs um dia alcançam .

Quanto aos capa-pretas , pouco a pouco eles acostumaram-se a  aceitar a parada , que cada vez era mais demorada ,  no  Boca de Ouro .  Cada um deles  já tinha a sua favorita , que jurava que esperavam-lhes  fiéis  ,   mentira esta que reforçava consideravelmente o cachê , já que - pelo menos em tese - teria que aguentar até a  próxima  vinda de seus , digamos , sultões cariocas.

Já  Paulo Becerra ; ele ,  no mais completo silêncio , preparava a surpresa , que era a de  apropriar-se  de uma das remessas .  De preferência uma das maiores .  E depois ,  ( quem sabe ?  )  , ganhar o mundo com sua polaquinha . 



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