Os raros selecionados para ser um Mosqueteiro haveriam de passar por um severíssimo ritual de entrada . Uma das últimas provações a serem vencidas era a da "brasa na língua" , que consistia em que alguém contasse um mexerico ( o que em Boca do Monte começava a ser chamado de "fofoca" ) sob solicitação de que o dito maldoso não fosse passado adiante . Dias depois o segredo era , de alguma forma , conferido pelo Mosqueteiro que fora designado para aplicação do " brasa na língua". Assim era testado o candidato conferindo se dispunha - ou não - da capacidade de guardar as importantes confidências que , certamente , chegariam-lhe aos ouvidos por ser um Mosqueteiro . As tais "fofocas" . Quanto à coragem , necessária à um Mosqueteiro , para os naturais medos das muitas quase-ficções originadas na metafísica regional ; ela seria posta em cheque na derradeira prova , e consistia em que o pré-escolhido passasse sozinho a meia-noite de uma sexta-feria na Lagoa da Música , na Hulha Negra . Ainda que distanciadamente , um dos Mosqueteiros declarou que entendeu como macabra tal exigência . Mesmo assim a prova não foi abolida. Para para serem sagrados "Mosqueteiro" os futuros irmãos de espada teriam mesmo que continuarem a serem testados em "Sexta-Feiras da Lagoa da Música " . Assim é que o noviço era informado pelos iniciados de que teria que ficar toda a aziaga noitada meditando margens da lagoa sobre os meandros da morte , sem que - pelo que ele soubesse - pessoa viva permanecesse a menos de uma légua de sesmaria dali . Em verdade , os demais Mosqueteiros ficavam por perto, no meio da escuridão geral . Tão logo transcorresse a meia-noite - momento em que os gritos dos degolados eram ouvidos com muito mais nitidez ; e , se o noviço permanecesse - ainda que minimamente - no controle de seu corpo e de sua mente ; se conseguisse manter a calma ante as lembranças , aflições e sons que até então emanavam do fundo da lagoa onde ainda jaziam os despojos da matança acontecida naquele exato de centenas ; transposto estes momento logo chegariam os irmãos de capa-e-espada ; enfim , os demais mosqueteiros - que em verdade ficavam por perto - ante os riscos inerentes àquele quase limite da resistência humana ao sobrenatural ; e , saindo-se o candidato vencedor , eles cortavam o silêncio da madrugada entoando cânticos greogorianos , repartindo o pão , o queijo e o vinho e , - vencida a provação - sagravam ali mesmo o novo Mosqueteiro .
Pasme , mas o certo é que o mais novo dos Três Mosqueteiros ( diga-se que passou com louvor em todas as provas foi , ninguém menos , do que a Quita ; de quem - a bem da verdade - nenhum dos irmãos esperava a coragem por ela demonstrada . Sequer tremeu uma fibra do seu corpo ao ouvir o de sempre : gritos lancinantes dos espíritos dos corpos penadas ali degolados
Talvez , sejamos francos , por uma resquício do quase permanente preconceito contra os negros que naquela época ainda era muito mais intenso do que hoje .
Nenhum comentário:
Postar um comentário