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terça-feira, 9 de julho de 2013

71 - Julietinha e Oficial do vapor . final B

Os Novos Mosqueteiros reuniram-se para estudos dos planos .  A novidade de Quita caíra como uma bomba : Paulo Becerra ,  o Pituca ,  fora chamado ao Rio de Janeiro onde serão combinadas remessas  de  valores  ainda maiores .  Os  Novos Mosqueteiros , todos eles , exultaram .  D ´Artagnan  expôs as dificuldades  que era fazer desaparecer  um carro do porte necessário para este novo , e ainda maior , volume de papel moeda norte-americano .  Algumas premissas já eram consensuais :  a  carga ficaria escondida ,  intocada  pelo tempo suficiente para sentar a poeira . Por um bom tempo  Os Novos Mosqueteiros continuariam  em suas atividades comuns .  Como a confiança era total ,  D ´ Artagnan  adiantou  a sua ideia sobre a principal alternativa de esconderijo do caminhão pagador.  Pensava  primeiramente em   ( dentro do tempo necessário  e esperável  que teriam para fazer o caminhão desaparecer com segurança )  usar as minas de carvão abandonadas  . Outra alternativa  seria  usar  um silo de cereal  existente em terras  muito confiáveis ,  e que servia para guardar  o que era conhecido como "estoque regulador"  comprado  pelo governo  quando - como acontecia naquele momento -  colhia-se  uma grande safra . Nesta hipótese , seria possível - usando somente a mão de obra dos próprios mosqueteiros -envolver totalmente o carro em soja .  E como havia  super-produção , ninguém haveria de resgatar a soja pelo tempo necessário para  os gansos voltarem à calma .  E o melhor : D´Artagnan  era  quem tinha a exclusividade da posse da chave do silo .

Foi neste ponto que  D´ Artagnan  mudou de tom  para explicar a todos - ainda que nem tudo fosse compreendido pelos novos mosqueteiros -  a importância de que Pituca também entrasse na posse do dinheiro , mas tão somente  por um curtíssimo  espaço de tempo .  Só assim os mosqueteiros teriam a  segurança de que , pelo menos pela moral judaico-cristã em que todos foram criados , somente  o  duplo-perdão daria-lhes a  ampla garantia de que até mesmo os seus descendentes não arderiam nas chamas eternas por aquilo que estavam fazendo agora . E foi isto que  D´Artagnan tentou explicar à Aramis e Quita :   que os dois mosqueteiros primitivos - ele próprio , e  Athos -  não queriam  simplesmente roubar , ou mesmo , furtar ; mas sim promover um desapossamento que  fosse , a um tempo só ,  original e natural  ;  e , para tanto ,  a  subtração da coisa teria que observar determinados requisitos , dentre eles a certeza absoluta de que o  dinheiro  viria de um duplo furto - se não , de uma cadeia interminável de furtos . A questão estava em que ele , D´ Artagnan , não aceitava afirmações genéricas, desprovidas de comprovação , como a de  J. Proudhon  que dizia  que a propriedade é um roubo .

Ora ,  ao ver de D ´Artagnan , a propriedade poderia , ou não , ser um roubo .  Daí  , também o desapossamento  -   que recebeu dele a denominação técnica de  " alívio de excessos de realizações " -  ,  ser  a  espécie  única do gênero  " propriedade originária advinda de obtenção secundária . "

Reflitamos :   a herança cultural de D´Artagnan ,  o líder natural  de tais  futuros aliviadores de excesso de realizações  ,  viria  - certamente -   de Portugal .  Tudo porque aquele lugar onde a ação se desenrolava era , dentre todos do mundo  , a colônia  mais influenciada pelo Tratado de Tordesilhas - de 1494 -  em que Espanha  e Portugal dividiram entre si o mundo .  Em verdade , tudo levava a crer que  D´ Artagnan vinha  de nobres  portugueses .   Somente um português  daria tanta importância a esta questão limítrofe até mesmo para  a Lógica mais aprofundada :  A possibilidade de existir alívio de pecúnia  sem que o ato possa ser confundido com furto ;  ou ,  muito menos ,  roubo .  Mesmo assim a questão ainda comportava a preocupação com a bifurcação existente entre a ciência e a moral  , principalmente a religiosa  .  Se a lógica estava , para D Ártagnan ,   satisfeita  -  (  " Por Deus !  é claro que  a propriedade  poderia  ser - ou não ser -  um roubo "  )    ;  subsistiu por um momento a questão religiosa . E esta , o primeiro mosqueteiro resolvera  ao observar o dito popular  ( era  a voz do povo que vinha em seu socorro ; tudo porque   a voz  do povo era  -  para ele -   verdadeiramente  a  Voz   de  Deus )  . E a voz do povo dizia-lhe que  "Ladrão que rouba ladrão , tem cem anos de perdão . "

Por fim  a que se registrar que  mesmo Athos  ( o segundo dos Novos Mosqueteiros )    muito pouco entendia destes limites da racionalidade levantados  por  D ´Artagnan ;  quanto à   Aramis  e  Quita  , estas  ficaram totalmente sem saber  do que estava o primeiro mosqueteiro falando , ainda  que o  ouvissem  tão respeitosamente quanto lhes era possível  assim  ouvir  .  E  todos estes respiraram  aliviados quando D ´ Artagnan  , certo  que  a semente daquela sabedoria toda  estava plantada  em nos  demais companheiros , concordaram  em  marcar  uma nova reunião para tão logo Quita ou Aramis tivessem novidades .

sexta-feira, 21 de junho de 2013

67 - Julietinha e o Oficial do Vapor . Final B

Quanto à produção literária , Pedro Santiago vivia o melhor tempo de sua vida .  Estava terminando um livro de poesias  que dava ao ex-jornalista grande satisfação .  Julietinha engravidara , e recolhera-se ao lar em razão  de que os médicos de Boca do Monte prevenirem  que sua  gravidez era de risco em razão de que  a gestante já  tinha uma certa idade ,  o que  poderia ampliar as complicações possíveis na gravidez .

Quanto  às  estâncias ,  percebia-se que Bandido fazia todo o possível - na verdade , quase o impossível -  para que as propriedades  dessem resultado econômico positivo .  Ainda que não comentasse , por diversas vezes  Bandido lançava mão de suas reservas  conseguidas em muitos anos de trabalho na Austrália .
Tudo para que  Pituca  tivesse a segurança econômica que -  em  derradeira análise - garantiria todo mundo.    E , quem sabe , muito especialmente ,  o futuro  dele e  de Almerinda . Bandido sabia que se a mesada de Pituca , que equivalia a dez mil dólares mensais,  tivesse a regularidade de relojoaria européia tudo seguiria conforme estava planejando . O certo é que pouco a pouco  Bandido passava a ser o senhor de todo  império dos Becerras.  Lembre-se mais uma vez que Bandido era de verdade uma pessoa honesta , polida  .   - e  , se  não fosse pouco -  de impressionante bom humor .

Almerinda assumira  a gerência da casa dos Becerras,  em Boca do Monte ,  e cuidava de Julietinha como só as mães cuidam das filhas quando prenhas.

Quita , que era solteira ,  e  que  praticamente já era uma pessoa da família ,  foi para o apartamento de Pituca na capital onde fazia de bom grado toda a lida doméstica  liberando  Valéria para dedicar-se toda para os cuidados e necessidades de Pituca .

As chegadas de remessas , do Rio  para Rivera ,  tornaram-se habituais ; ainda que  entre uma e outra  transcorressem  dois ou três meses .  Pituca  , que vivia muito bem com a mesada que Bandido lhe enviava ,  liberara  entradas das participações no contrabando de dinheiro ,  para a formação de uma poupança lá no país dos queijos furados .

Julietinha  recebia a metade do que Pituca .  Bandido a convencera que a outra metade estava sendo capitalizada contabilmente a seu favor .  Na verdade  Bandido  , só com os resultados das estâncias , não conseguiria  pagar à Julietinha o mesmo que mandava para Pituca .

Enfim ,  o núcleo  familiar  Becerra/Santiago saboreava um raro apogeu que poucos clãs um dia alcançam .

Quanto aos capa-pretas , pouco a pouco eles acostumaram-se a  aceitar a parada , que cada vez era mais demorada ,  no  Boca de Ouro .  Cada um deles  já tinha a sua favorita , que jurava que esperavam-lhes  fiéis  ,   mentira esta que reforçava consideravelmente o cachê , já que - pelo menos em tese - teria que aguentar até a  próxima  vinda de seus , digamos , sultões cariocas.

Já  Paulo Becerra ; ele ,  no mais completo silêncio , preparava a surpresa , que era a de  apropriar-se  de uma das remessas .  De preferência uma das maiores .  E depois ,  ( quem sabe ?  )  , ganhar o mundo com sua polaquinha . 



 ,

quinta-feira, 30 de maio de 2013

56 - Julietinha e o Oficial do Vapor - final B .

Bandido :  "  Mas tá de renguiá cusco , menino Pituca "       [  O minuano cortava a pele e gelava os ossos .   No galpão da  estância  ,  Bandido e  Paulo Becerra  se aboletaram à beira da fogueira em  pequenos bancos toscos  em  meio de bois ,  e ovelhas  que  de vez em quando roçavam  os mourões de   angico que ,  de tanto  o gado  ali  esfregar-se  ,  já estavam  lustrados como se  alguém os fizessem  brilhar diariamente com  pano de  flanela ;   Bandido passou a cuia do mate amargo fumegando  para Paulo Becerra .  "De renguiá cusco "  era a expressão com que o homem  do campo exortava o frio ,  mormente quando  a temperatura descia  abaixo de zero . A expressão  " de renguiá cusco " - se é que isto  pode ser  explicado  com exatidão   -  origina-se  da  percepção do  gaúcho de quando o frio é intenso  faz  com que os cachorros de pequeno porte  - chamados pelo povo de "cuscos"  -   andem somente em três patas ( ficando "rengos" , mancos  portanto ), ocasionando  esta  quase atrofia no andar dos animaizinhos  , mas que se desfaz logo que a temperatura  aumenta  .  ]     "  É isto mesmo ... "      esfregava as mãos tentando aquecê-las  .   É isto mesmo  "  ...   tá  do carancho comer os filhos ... "   [ já esta fala  refere-se a uma espécie de toupeira - o carancho -   que , quando o frio é demasiado , não sai da toca para comer ,  alimentando-se dos próprios filhotes ]    " Na verdade  eu queria falar contigo  menino Pituca  sobre as  experiências  e modificações  no trabalho  , no  manejo  em geral , que tenho feito  em diversos setores  das propriedades . Mas te digo que  não estou me dando mal com tais experimentos , muitos deles  aprendidos na Austrália ... "


Paulo Becerra , o Pituca  :  " Ninguém mais do que eu admira o sucesso de sua administração ,  Amigo Bandido .  Estou de boca aberta com o senhor eis que sempre pensei que só eu - e ninguém mais -  poderia  tirar o melhor resultado econômico de nossas terras .  Para te falar a verdade , concluí  que  sem a minha presença nas estâncias  as coisas andam melhor do que quando  eu estou  por lá  ... "   Disse Pituca abrindo-se numa gargalhada .


Bandido :  " Eu agradeço tuas palavras ,  Pituca  -  mormente por vir de ti  , filho  de  uma das melhores almas que Deus pôs em meu caminho , o saudoso  amigo Paulo Becerra . "


Pituca : " Da minha parte eu fico feliz em termos , nós os Becerras ,  unido as  nossas famílias :  Becerras  e  Santiagos ,  também agora pelos laços do matrimônio de  Julietinha  com o seu filho  Pedro  ,   tão  correto  ,  sempre tão gentil  ,   de tantos  bons princípios morais   ... "

Dito isto devolveu a cuia à Bandido que deu uma cevada na erva mate , enchendo novamente a cuia com a água que assobiava na chaleira ...


Pituca : " Mas amigo Bandido ... "   (  re- começou  Pituca já com os olhos mareados )    " ....  eu quero aproveitar o momento para  confessar-lhe algo que eu só diria  a meu próprio pai se vivo estivesse . Tudo porque  que estou numa situação complicada e preciso desabafar com alguém ... "


Bandido : " Pode confiar , como se eu fosse mesmo o teu querido  Pai ,  guri Pituca ! "

Paulo contou em detalhes ,  o fato de a  sociedade local , preconceituosa  como poucas , não estar  preparada para - de forma tranquila -  receber a mulher que ele tanto amava : a sua Valéria .


Pituca :   " E vou confessar ,  Amigo Bandido ,   eu não sei do que seria  capaz se alguém , pelo mínimo que fosse  , viesse  a  desfeitear  a minha polaquinha . "

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