Os Novos Mosqueteiros reuniram-se para estudos dos planos . A novidade de Quita caíra como uma bomba : Paulo Becerra , o Pituca , fora chamado ao Rio de Janeiro onde serão combinadas remessas de valores ainda maiores . Os Novos Mosqueteiros , todos eles , exultaram . D ´Artagnan expôs as dificuldades que era fazer desaparecer um carro do porte necessário para este novo , e ainda maior , volume de papel moeda norte-americano . Algumas premissas já eram consensuais : a carga ficaria escondida , intocada pelo tempo suficiente para sentar a poeira . Por um bom tempo Os Novos Mosqueteiros continuariam em suas atividades comuns . Como a confiança era total , D ´ Artagnan adiantou a sua ideia sobre a principal alternativa de esconderijo do caminhão pagador. Pensava primeiramente em ( dentro do tempo necessário e esperável que teriam para fazer o caminhão desaparecer com segurança ) usar as minas de carvão abandonadas . Outra alternativa seria usar um silo de cereal existente em terras muito confiáveis , e que servia para guardar o que era conhecido como "estoque regulador" comprado pelo governo quando - como acontecia naquele momento - colhia-se uma grande safra . Nesta hipótese , seria possível - usando somente a mão de obra dos próprios mosqueteiros -envolver totalmente o carro em soja . E como havia super-produção , ninguém haveria de resgatar a soja pelo tempo necessário para os gansos voltarem à calma . E o melhor : D´Artagnan era quem tinha a exclusividade da posse da chave do silo .
Foi neste ponto que D´ Artagnan mudou de tom para explicar a todos - ainda que nem tudo fosse compreendido pelos novos mosqueteiros - a importância de que Pituca também entrasse na posse do dinheiro , mas tão somente por um curtíssimo espaço de tempo . Só assim os mosqueteiros teriam a segurança de que , pelo menos pela moral judaico-cristã em que todos foram criados , somente o duplo-perdão daria-lhes a ampla garantia de que até mesmo os seus descendentes não arderiam nas chamas eternas por aquilo que estavam fazendo agora . E foi isto que D´Artagnan tentou explicar à Aramis e Quita : que os dois mosqueteiros primitivos - ele próprio , e Athos - não queriam simplesmente roubar , ou mesmo , furtar ; mas sim promover um desapossamento que fosse , a um tempo só , original e natural ; e , para tanto , a subtração da coisa teria que observar determinados requisitos , dentre eles a certeza absoluta de que o dinheiro viria de um duplo furto - se não , de uma cadeia interminável de furtos . A questão estava em que ele , D´ Artagnan , não aceitava afirmações genéricas, desprovidas de comprovação , como a de J. Proudhon que dizia que a propriedade é um roubo .
Ora , ao ver de D ´Artagnan , a propriedade poderia , ou não , ser um roubo . Daí , também o desapossamento - que recebeu dele a denominação técnica de " alívio de excessos de realizações " - , ser a espécie única do gênero " propriedade originária advinda de obtenção secundária . "
Reflitamos : a herança cultural de D´Artagnan , o líder natural de tais futuros aliviadores de excesso de realizações , viria - certamente - de Portugal . Tudo porque aquele lugar onde a ação se desenrolava era , dentre todos do mundo , a colônia mais influenciada pelo Tratado de Tordesilhas - de 1494 - em que Espanha e Portugal dividiram entre si o mundo . Em verdade , tudo levava a crer que D´ Artagnan vinha de nobres portugueses . Somente um português daria tanta importância a esta questão limítrofe até mesmo para a Lógica mais aprofundada : A possibilidade de existir alívio de pecúnia sem que o ato possa ser confundido com furto ; ou , muito menos , roubo . Mesmo assim a questão ainda comportava a preocupação com a bifurcação existente entre a ciência e a moral , principalmente a religiosa . Se a lógica estava , para D Ártagnan , satisfeita - ( " Por Deus ! é claro que a propriedade poderia ser - ou não ser - um roubo " ) ; subsistiu por um momento a questão religiosa . E esta , o primeiro mosqueteiro resolvera ao observar o dito popular ( era a voz do povo que vinha em seu socorro ; tudo porque a voz do povo era - para ele - verdadeiramente a Voz de Deus ) . E a voz do povo dizia-lhe que "Ladrão que rouba ladrão , tem cem anos de perdão . "
Por fim a que se registrar que mesmo Athos ( o segundo dos Novos Mosqueteiros ) muito pouco entendia destes limites da racionalidade levantados por D ´Artagnan ; quanto à Aramis e Quita , estas ficaram totalmente sem saber do que estava o primeiro mosqueteiro falando , ainda que o ouvissem tão respeitosamente quanto lhes era possível assim ouvir . E todos estes respiraram aliviados quando D ´ Artagnan , certo que a semente daquela sabedoria toda estava plantada em nos demais companheiros , concordaram em marcar uma nova reunião para tão logo Quita ou Aramis tivessem novidades .
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terça-feira, 9 de julho de 2013
sexta-feira, 21 de junho de 2013
67 - Julietinha e o Oficial do Vapor . Final B
Quanto à produção literária , Pedro Santiago vivia o melhor tempo de sua vida . Estava terminando um livro de poesias que dava ao ex-jornalista grande satisfação . Julietinha engravidara , e recolhera-se ao lar em razão de que os médicos de Boca do Monte prevenirem que sua gravidez era de risco em razão de que a gestante já tinha uma certa idade , o que poderia ampliar as complicações possíveis na gravidez .
Quanto às estâncias , percebia-se que Bandido fazia todo o possível - na verdade , quase o impossível - para que as propriedades dessem resultado econômico positivo . Ainda que não comentasse , por diversas vezes Bandido lançava mão de suas reservas conseguidas em muitos anos de trabalho na Austrália .
Tudo para que Pituca tivesse a segurança econômica que - em derradeira análise - garantiria todo mundo. E , quem sabe , muito especialmente , o futuro dele e de Almerinda . Bandido sabia que se a mesada de Pituca , que equivalia a dez mil dólares mensais, tivesse a regularidade de relojoaria européia tudo seguiria conforme estava planejando . O certo é que pouco a pouco Bandido passava a ser o senhor de todo império dos Becerras. Lembre-se mais uma vez que Bandido era de verdade uma pessoa honesta , polida . - e , se não fosse pouco - de impressionante bom humor .
Almerinda assumira a gerência da casa dos Becerras, em Boca do Monte , e cuidava de Julietinha como só as mães cuidam das filhas quando prenhas.
Quita , que era solteira , e que praticamente já era uma pessoa da família , foi para o apartamento de Pituca na capital onde fazia de bom grado toda a lida doméstica liberando Valéria para dedicar-se toda para os cuidados e necessidades de Pituca .
As chegadas de remessas , do Rio para Rivera , tornaram-se habituais ; ainda que entre uma e outra transcorressem dois ou três meses . Pituca , que vivia muito bem com a mesada que Bandido lhe enviava , liberara entradas das participações no contrabando de dinheiro , para a formação de uma poupança lá no país dos queijos furados .
Julietinha recebia a metade do que Pituca . Bandido a convencera que a outra metade estava sendo capitalizada contabilmente a seu favor . Na verdade Bandido , só com os resultados das estâncias , não conseguiria pagar à Julietinha o mesmo que mandava para Pituca .
Enfim , o núcleo familiar Becerra/Santiago saboreava um raro apogeu que poucos clãs um dia alcançam .
Quanto aos capa-pretas , pouco a pouco eles acostumaram-se a aceitar a parada , que cada vez era mais demorada , no Boca de Ouro . Cada um deles já tinha a sua favorita , que jurava que esperavam-lhes fiéis , mentira esta que reforçava consideravelmente o cachê , já que - pelo menos em tese - teria que aguentar até a próxima vinda de seus , digamos , sultões cariocas.
Já Paulo Becerra ; ele , no mais completo silêncio , preparava a surpresa , que era a de apropriar-se de uma das remessas . De preferência uma das maiores . E depois , ( quem sabe ? ) , ganhar o mundo com sua polaquinha .
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Quanto às estâncias , percebia-se que Bandido fazia todo o possível - na verdade , quase o impossível - para que as propriedades dessem resultado econômico positivo . Ainda que não comentasse , por diversas vezes Bandido lançava mão de suas reservas conseguidas em muitos anos de trabalho na Austrália .
Tudo para que Pituca tivesse a segurança econômica que - em derradeira análise - garantiria todo mundo. E , quem sabe , muito especialmente , o futuro dele e de Almerinda . Bandido sabia que se a mesada de Pituca , que equivalia a dez mil dólares mensais, tivesse a regularidade de relojoaria européia tudo seguiria conforme estava planejando . O certo é que pouco a pouco Bandido passava a ser o senhor de todo império dos Becerras. Lembre-se mais uma vez que Bandido era de verdade uma pessoa honesta , polida . - e , se não fosse pouco - de impressionante bom humor .
Almerinda assumira a gerência da casa dos Becerras, em Boca do Monte , e cuidava de Julietinha como só as mães cuidam das filhas quando prenhas.
Quita , que era solteira , e que praticamente já era uma pessoa da família , foi para o apartamento de Pituca na capital onde fazia de bom grado toda a lida doméstica liberando Valéria para dedicar-se toda para os cuidados e necessidades de Pituca .
As chegadas de remessas , do Rio para Rivera , tornaram-se habituais ; ainda que entre uma e outra transcorressem dois ou três meses . Pituca , que vivia muito bem com a mesada que Bandido lhe enviava , liberara entradas das participações no contrabando de dinheiro , para a formação de uma poupança lá no país dos queijos furados .
Julietinha recebia a metade do que Pituca . Bandido a convencera que a outra metade estava sendo capitalizada contabilmente a seu favor . Na verdade Bandido , só com os resultados das estâncias , não conseguiria pagar à Julietinha o mesmo que mandava para Pituca .
Enfim , o núcleo familiar Becerra/Santiago saboreava um raro apogeu que poucos clãs um dia alcançam .
Quanto aos capa-pretas , pouco a pouco eles acostumaram-se a aceitar a parada , que cada vez era mais demorada , no Boca de Ouro . Cada um deles já tinha a sua favorita , que jurava que esperavam-lhes fiéis , mentira esta que reforçava consideravelmente o cachê , já que - pelo menos em tese - teria que aguentar até a próxima vinda de seus , digamos , sultões cariocas.
Já Paulo Becerra ; ele , no mais completo silêncio , preparava a surpresa , que era a de apropriar-se de uma das remessas . De preferência uma das maiores . E depois , ( quem sabe ? ) , ganhar o mundo com sua polaquinha .
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quinta-feira, 30 de maio de 2013
56 - Julietinha e o Oficial do Vapor - final B .
Bandido : " Mas tá de renguiá cusco , menino Pituca " [ O minuano cortava a pele e gelava os ossos . No galpão da estância , Bandido e Paulo Becerra se aboletaram à beira da fogueira em pequenos bancos toscos em meio de bois , e ovelhas que de vez em quando roçavam os mourões de angico que , de tanto o gado ali esfregar-se , já estavam lustrados como se alguém os fizessem brilhar diariamente com pano de flanela ; Bandido passou a cuia do mate amargo fumegando para Paulo Becerra . "De renguiá cusco " era a expressão com que o homem do campo exortava o frio , mormente quando a temperatura descia abaixo de zero . A expressão " de renguiá cusco " - se é que isto pode ser explicado com exatidão - origina-se da percepção do gaúcho de quando o frio é intenso faz com que os cachorros de pequeno porte - chamados pelo povo de "cuscos" - andem somente em três patas ( ficando "rengos" , mancos portanto ), ocasionando esta quase atrofia no andar dos animaizinhos , mas que se desfaz logo que a temperatura aumenta . ] " É isto mesmo ... " esfregava as mãos tentando aquecê-las . É isto mesmo " ... tá do carancho comer os filhos ... " [ já esta fala refere-se a uma espécie de toupeira - o carancho - que , quando o frio é demasiado , não sai da toca para comer , alimentando-se dos próprios filhotes ] " Na verdade eu queria falar contigo menino Pituca sobre as experiências e modificações no trabalho , no manejo em geral , que tenho feito em diversos setores das propriedades . Mas te digo que não estou me dando mal com tais experimentos , muitos deles aprendidos na Austrália ... "
Paulo Becerra , o Pituca : " Ninguém mais do que eu admira o sucesso de sua administração , Amigo Bandido . Estou de boca aberta com o senhor eis que sempre pensei que só eu - e ninguém mais - poderia tirar o melhor resultado econômico de nossas terras . Para te falar a verdade , concluí que sem a minha presença nas estâncias as coisas andam melhor do que quando eu estou por lá ... " Disse Pituca abrindo-se numa gargalhada .
Bandido : " Eu agradeço tuas palavras , Pituca - mormente por vir de ti , filho de uma das melhores almas que Deus pôs em meu caminho , o saudoso amigo Paulo Becerra . "
Pituca : " Da minha parte eu fico feliz em termos , nós os Becerras , unido as nossas famílias : Becerras e Santiagos , também agora pelos laços do matrimônio de Julietinha com o seu filho Pedro , tão correto , sempre tão gentil , de tantos bons princípios morais ... "
Dito isto devolveu a cuia à Bandido que deu uma cevada na erva mate , enchendo novamente a cuia com a água que assobiava na chaleira ...
Pituca : " Mas amigo Bandido ... " ( re- começou Pituca já com os olhos mareados ) " .... eu quero aproveitar o momento para confessar-lhe algo que eu só diria a meu próprio pai se vivo estivesse . Tudo porque que estou numa situação complicada e preciso desabafar com alguém ... "
Bandido : " Pode confiar , como se eu fosse mesmo o teu querido Pai , guri Pituca ! "
Paulo contou em detalhes , o fato de a sociedade local , preconceituosa como poucas , não estar preparada para - de forma tranquila - receber a mulher que ele tanto amava : a sua Valéria .
Pituca : " E vou confessar , Amigo Bandido , eu não sei do que seria capaz se alguém , pelo mínimo que fosse , viesse a desfeitear a minha polaquinha . "
Paulo Becerra , o Pituca : " Ninguém mais do que eu admira o sucesso de sua administração , Amigo Bandido . Estou de boca aberta com o senhor eis que sempre pensei que só eu - e ninguém mais - poderia tirar o melhor resultado econômico de nossas terras . Para te falar a verdade , concluí que sem a minha presença nas estâncias as coisas andam melhor do que quando eu estou por lá ... " Disse Pituca abrindo-se numa gargalhada .
Bandido : " Eu agradeço tuas palavras , Pituca - mormente por vir de ti , filho de uma das melhores almas que Deus pôs em meu caminho , o saudoso amigo Paulo Becerra . "
Pituca : " Da minha parte eu fico feliz em termos , nós os Becerras , unido as nossas famílias : Becerras e Santiagos , também agora pelos laços do matrimônio de Julietinha com o seu filho Pedro , tão correto , sempre tão gentil , de tantos bons princípios morais ... "
Dito isto devolveu a cuia à Bandido que deu uma cevada na erva mate , enchendo novamente a cuia com a água que assobiava na chaleira ...
Pituca : " Mas amigo Bandido ... " ( re- começou Pituca já com os olhos mareados ) " .... eu quero aproveitar o momento para confessar-lhe algo que eu só diria a meu próprio pai se vivo estivesse . Tudo porque que estou numa situação complicada e preciso desabafar com alguém ... "
Bandido : " Pode confiar , como se eu fosse mesmo o teu querido Pai , guri Pituca ! "
Paulo contou em detalhes , o fato de a sociedade local , preconceituosa como poucas , não estar preparada para - de forma tranquila - receber a mulher que ele tanto amava : a sua Valéria .
Pituca : " E vou confessar , Amigo Bandido , eu não sei do que seria capaz se alguém , pelo mínimo que fosse , viesse a desfeitear a minha polaquinha . "
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