- Onde tu andavas , Quita ?
- Dona Julietinha , eu fui na ponte do Guilain , fui ver a enchente ... á água já tá a mais de metro do vau .
- Há dois dias que não vejo o Paulo , você sabe onde ele foi ?
- Pela galena o Salustiano disse que tem uma vaca que não consegue parir ... parece que o terneiro já tá morto .... ele tá lá ja faz dois dias , levou o Doutor ..
- Hoje não é dia do Pedro vir ?
- É sim , Dona Julietinha ,
- Você sabe como ele se arrumou .....
- Não , ninguém mais viu ele por lá .... até o Boleto que ele nunca largavam ele deixou com a Dona Marica , que ele sabe que gosta muito de cachorro ...
......
Pedro chegou e , ao contrário do que pensava Julietinha , veio com o olhar distante , como quem mira um cerro no horizonte .
- "Bom dia Dona Julietinha ..."
"- Bom dia Pedro .... tu me pareces tão tranquilo .....`"
"- Embora não pareça , eu procuro ser profissional , não posso trazer sentimentos pessoais para o trabalho ..."
Julietinha vestia-se ainda mais comportadamente . A única coisa diferente de antes foi que ela neste dia ousou cruzar as pernas deixando à mostra , de vez em quando , uns dez centímetros para cima dos joelhos .
A simples mirada de tais dez centímetros já era o bastante para quebrar a determinação de Pedro de tratá-la com a maior distância possível .
Outra coisa deixou Pedro com a pulga atrás da orelha ..... em cima da mesinha que aparava copos ao lado do sofá estava nada mais , nada menos do que um livro de Jorge Luis Borges ..... Jorge Luis Borges ..... logo Borges .... Não havia a menor possibilidade de Paulo ler Borges ..... além de Paulo só Julietinha ..... não , não é possível que ela estivesse lendo aquele volume .... mas ..
"- Dona Julietinha , quem está lendo este livro ....
" - Sou eu , Pedro , comprei em Madri , eu já tinha lido do Borges A História da Infâmia .... "
Mas como ? Eu só via por lá fotonovelas ..... que mistério é este . .... Julietinha lendo Borges ... ?
"Dona Julietinha .... Jorge Luis Borges ...? "
"Comprei porque gostei da capa ...... "
Pedro virou o olhar para a mesinha .... o incrível livro de Borges , mas logo voltou os olhos para frente , as coxas de Julietinha parece que cresciam , que tomavam o espaço de toda a sala .... mas como eram lindas ...
" Começamos ? .... " " Sim , começamos , Pedro "
"Estávamos no momento em que a senhora percebera que estava cada vez mais atraída pelo tal italiano ..."
Julietinha sabia o quanto Pedro estava sofrendo com tantas necessidades de dinheiro ... sabe lá em que desvão de escada dormira .... por dentro aquela enorme vontade de abraçá-lo em seu colo até que ficasse calmo ... Mas ela não poderia mentir ; e não sabia enganar que estivera pronta para Giancarlo ...
" Pedro , naquele momento eu pensei .... o navio vai atracar em Vigo .... doze dias perto dele , perto do seu corpo , do seu cheiro , mas nada acontecera ..... eu , já na Europa , com trinta anos , e do mesmo jeito que nasci .... era demais ... Quando parecia que estávamos a ponto de nos unirmos .... ele escapava como água , pelo meio dos dedos ... Foi assim que planejei , para antes de chegarmos a Vigo , uma surpresa . Vigiei até quando ele ficou no comando na torre e fiquei certa , convencida de que se eu fosse a cabine dele as nove da manhã ele estaria só , totalmente sozinho ... Comprei , na loja do navio uma garrafa de Moet Chandon que coube exatamente no pequeno congelador da geladeira do camarote , o perfume era Chanel número cinco , Pedro , mas meu corpo - confesso - rescendia a um outro perfume muito mais acre , natural , pleno de ansiedades ... de necessidades ... Botei meu vestido mais bonito , os sapatos de salto bem altos que eu já planejara para aquele momento ... estudei cada passo dos camareiros para que eles não me flagrassem quase assaltando a cabine de Gian , eu tremia , mas acho que não era de medo , não ... Bati na porta , uma duas , diversas vezes .. até que ele apareceu muito mais lindo do que Adonis ...
Primeiramente ficou sem saber o que estava acontecendo , mas logo pegou o champanhe , as duas flutes , pegou-me pela cintura colando-me a ele .... e aí , aí Pedro o inesperado , o que era impossível de acontecer .... aconteceu .....