Levaram os dólares para o Caverá . No mais esquecido e distante cerro , praticamente enterraram o furgão numa fenda de pedra do monte . Não foi por acaso , Athos criara-se por ali .
Estava decidido que contariam tão somente três caixas de dólares . As demais só seriam abertas para que o conteúdo fosse constatado por todos . Quanto ao destino , o lugar em que cada um guardaria seu tesouro , isto ainda não estava resolvido . Poucas horas depois chegara , montado , o pastor Gualter que novamente ficou de guarda - agora a dois quilômetros de distância - na única estrada existente e , mesmo já sendo noite , andava incessantemente de um ponto a outro para que assim pudesse perceber qualquer modificação nas cercanias do local onde se dava a reunião . Gualter olhava não só para onde era possível alguém chegar , mas também para o ponto onde a reunião acontecia , eis que mesmo que quase não fosse possível avistar-se aquele acampamento , mesmo assim isto não o desobrigava de manter os sentidos totalmente ligados aos riscos representados - independentemente de outros - pela simples passagem por aqueles ermos de quantia tão grande : algo em torno de vinte milhões de dólares .Três horas se passaram para que a primeira parte do plano fosse concluída , momento em que D ´ Artagnan pediu a palavra. "Caros irmãos , confirmadas nossas melhores expectativas sobre a quantia existente nas primeiras caixas que empacotavam os Excessos de Realizações Pecuniárias , cabe agora decidirmos sobre o destino de montante tão valioso ... "
"Peço a palavra ! " quase berrou Quita para surpresa de todos !
"É evidente , Mosqueteira Quita , que eu passo-lhe a palavra . E com um misto de honra e prazer mosqueteiros ! " Completou D ´Artagnan .
" Irmãos , quantas serão as partes em que serão divididos os Excessos que aqui temos ? "
Tão óbvia era a resposta que ninguém atreveu-se a dá-la , ganhando a noite escura só silêncio como réplica . O pouco tempo que passou pareceu algo que tendia a perpetuar-se , até que Athos arriscou-se :
" É claro que somos quatro a repartir o monte de dólares , irmã Quita . Você , Aramis , D ´Artagnan e eu . Então , desculpe-me , mas não percebo qual seja a sua dúvida . "
" Não , valente mosqueteiro Athos . Não somos quatro . E , a manter-se seu prognóstico estaremos cometendo o que tanto criticamos ... uma injustiça a mais .... afinal , Novos Mosqueteiros , a que vem esta irmandade ? "
Um óóó geral de dúvida e exclamação quebrou o súbito silêncio ...
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domingo, 17 de novembro de 2013
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
94 - Julietinha e o oficial do vapor - final B
Chegou a vez de Aramis falar . Athos , que tinha arranjado uma forma de sentar do lado dela , por baixo da mesa colou sua perna na da bela descendente dos indios guaranis. Ela , por sua vez , não fugiu do singelo assédio de Athos . Admitiu que , por baixo da mesa se tocassem cada vez com mais ansiedade. Acostumada à realidade crua da vida , Aramis não tremeu . " Todos sabem a minha origem neste país . Mas nem todos reconhecem que uma bailarina de cabaret , como eu fui antes de que os Novos Mosqueteiros cruzassem meus caminhos , não vive para dançar nos muitos Bocas de Ouro , pelo mundo afora . Mas sim , dança para viver . Athos , quando foi ao meu pluebo , Colcabamba , no interior do meu país viu a nossa realidade de pobreza . Minha mãe , ainda criança foi trazida para o Brasil , sendo forçada a relacionar-se com o estancieiro para quem trabalhava. Grávida , foi novamente forçada a deixar por lá uma hija que , todavia , nunca esqueceu um minuto sequer . Sem pai , restou-me a alternativa de sobrevivência que vocês , irmãos Mosqueteiros , conhecem . Hoje eu , como todos vocês , sinto-me digna de poder receber a minha parte destes alívios de excessos realizados . Nunca passou pela minha cabeça , convencida que fui por vocês , estar fazendo algo que fosse ainda que de longe , errado . Estamos , estou lançando mão do que é meu , do que é nosso no grande latifúndio chamado mundo . Mas nem tudo foram tristezas . Há não muito tempo conheci uma pessoa que me tratou com amor e respeito . Assim é que eu penso receber a minha parte e - tão rapidamente quanto me for possível - procurar tal pessoa , tal senhor que , pelo que eu sei é um homem desquitado neste país , portanto livre para receber-me - se assim quiser . E é com ele que eu irei dividir a minha parte , os meus dólares . " D ´Artagnan nem pediu a palavra , interrompeu firmemente : " Irmã de armas Aramis , este é o risco que eu sempre temi . Um de nós afeiçoar-se por pessoa de fora do nosso grupo e , por amor - talvez até por carência - abrir para o terceiro os nossos segredos . Sendo assim , eu volto a enfatizar o risco que é liberarmos os alivios para qualquer dos Mosqueteiros . O que os irmãos acham ? Foi Aramis quem voltou a falar , eis que ela tinha sido abruptamente interrompida por D ´Artagnan : " Que me desculpe o primeiro dos mosqueteiros . Mas o que eu vou dizer contraria suas conclusões . Eu pretendo mesmo abrir minhas conquistas pecuniárias ao meu escolhido . Que sequer sabe que eu o escolhi " Neste momento Athos , ao ver que Aramis já era comprometida com alguém recolheu-se , com o rosto totalmente retráido . O Mosqueteiro Athos teve uma última dúvida : " Mas será que ela não notou que , ao roçar a minha coxa na dela , eu estava passando a ela que eu a queria muito ? " Athos retariu-se ainda mais , como se fosse possível vontar-se totalmente para dentro de si mesmo . Mas Aramis continuou : " Não , Novo Mosqueteiro D ´Artagnan . Eu não vou revelar a quem quer que seja a nossa aventura , que - esperamos - resultará na nossa própria ventura . A pessoa que tocou o meu coração , está aqui presente e a ele eu entregarei de bom grado o meu dote : " Athos , você quer casar comigo ? "
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
82 - Julietinha e o Oficial do vapor - final B
Quando cessou a rolagem do carro , que até então descia somente pela inércia , D´ Artagnan virou a chave certo de que a distância que o separava do Boca de Ouro era suficiente para que ruido algum do motor chegasse aos ouvidos de quem ficara no bordel .
O cuidado era mesmo extremo : mesmo sendo certo que o caminho comumente não seria usado por quem quer que fosse ; mesmo assim eventuais rastros deveriam ser apagados . Este seriam , daí para frente os cuidados próprios d ´ Os novos Mosqueteiros .
Somente a título de curiosidade , no dia em que Athos passava a vassoura de chirca apareceu , já a uns três quilômetros do lugar onde entrara o furgão , que muito estranhou a atitude de Athos .
Era um cavaleiro que por acaso pegara aquele atalho , que depois dos cumprimentos de praxe perguntou :
- Que pasa ? Por que estás hoje aqui pelas Palmas ?
- Te olvidastes de que é no primeiro do ano que nós , lá de Camaquã , viemos para os campos para pegar as ervas que usaremos nas nossas macacoas , nas enxaquecas ?
- Pois eu te juro que não me lembrava disto . É que nós , lá das Palmas , pegamos as ervas na Semana Santa ... sendo assim ... buenas tardes indio velho !
- Buenas ! Respondeu Athos para o cavaleiro que começava a se afastar .
A noite ajudava na retirada do furgão que , verdadeiramente , estava com o tesouro . Nem a lua apareceu no céu . Pouco antes da escapada de D ´ Artagnan e Aramis , Athos , serviu-lhes de batedor . Tudo na tentativa de afastar o mais do que improvável risco de que alguém percebesse o automóvel que ia com a dinheirama . Também por isto , fizeram um caminho muito mais longo . Na verdade atravessaram - pelo campos - a Serra de Caçapava , um lugar absolutamente despovoado , e ainda sem arames farpados . Aliás , sobre arames farpados os pobres do lugar diziam , como outros tantos , que "Deus criou a terra e o diabo o arame farpado. "
Até que D ´Artagnan chegou ao silo pelo lado contrário à única estrada de acesso para quem ali pudesse chegar . Só assim conseguiram que na estrada normal , no caminho comum a todos , não restasse qualquer rastro dos seus automóveis . Os que , enfim , chegaram no fim do mundo onde ficava o silo .
D Ártagnan e Athos levaram em conta que a região é de árvores esparsas , e baixas , entremeadas de grama , que também é vegetação nativa naqueles campos que vão do Sul do país , atravessam o Uruguai todo , e entram na Argentina, tudo praticamente com a mesma topografia ; de planície imensa , os chamados pampas . Por ser um quase infinito gramado , naquele ponto só interrompido por árvores de pequeno porte ; é comum aos que conhecem seus segredos que - desde que tenham boa orientação - atravessem-na de carro , que segue sempre costeando a mata que - aqui e ali - compõe a natureza viva que só existe naquele lugar . Foi assim que D ´Artagnan chegou ao galpão em que o furgão viria a ser inteiramente coberto de soja . O silo estava no pé da serra , no seu limite onde começa a planura total . Dali em diante já encontrariam tão somente fazendas . Ou , como chamavam os nativos dali , as estâncias . Este era o termo mais indicado , talvez em razão de ser comum a ambos idiomas : espanhol e português . Já o vocábulo "fazenda" era um pouco diferente em espanhol : hacienda .
Estância , estancieiros ... tudo igual , dos dois lados da fronteira .
D Ártagnan e Athos levaram em conta que a região é de árvores esparsas , e baixas , entremeadas de grama , que também é vegetação nativa naqueles campos que vão do Sul do país , atravessam o Uruguai todo , e entram na Argentina, tudo praticamente com a mesma topografia ; de planície imensa , os chamados pampas . Por ser um quase infinito gramado , naquele ponto só interrompido por árvores de pequeno porte ; é comum aos que conhecem seus segredos que - desde que tenham boa orientação - atravessem-na de carro , que segue sempre costeando a mata que - aqui e ali - compõe a natureza viva que só existe naquele lugar . Foi assim que D ´Artagnan chegou ao galpão em que o furgão viria a ser inteiramente coberto de soja . O silo estava no pé da serra , no seu limite onde começa a planura total . Dali em diante já encontrariam tão somente fazendas . Ou , como chamavam os nativos dali , as estâncias . Este era o termo mais indicado , talvez em razão de ser comum a ambos idiomas : espanhol e português . Já o vocábulo "fazenda" era um pouco diferente em espanhol : hacienda .
Estância , estancieiros ... tudo igual , dos dois lados da fronteira .
D ´ Artagnan tinha ido atrás - e conseguiu - de um novo cadeado para o portão do silo . Seu problema foi encontrar um cadeado novo em seu segredo , mas igualmente velho na sua aparência , eis que um cadeado totalmente novo poderia evidenciar que algo ocorrera de diferente no galpão , que era quase abandonado . E usar o mesmo cadeado de antes , o cadeado velho , traria um risco a mais : o de que alguém , que também tivesse a chave velha e , por razões desconhecidas , até mesmo o de ir procurar uma enchada , poderia descobrir o carro bilionário . O fato é que Mas D ´Artagnan achou um velho cadeado numa cidadezinha do Uruguai de nome estranho : Treinta e tres . Mui provavelmente , trintra e três foram os espanhóis que resistiram bravamente aos portugueses . É comum que nestes casos , digam as lendas que os trinta e três heróis enfrentaram - e venceram ! - centenas de inimigos . Neste caso hipotético , portugueses . Não é a toa que o hino da República Cisplatina , depois República Oriental do Uruguai , diz " orientales , o la pátria o la tumba " . Mas esta escolha , entre a hipotética honra e a morte , é um mote comum a quase todos os hinos daquelas paragens tordesilhanas .
O furgão foi estacionado , e fechado a chave , exatamente embaixo da bica , que com soja , na segunda-feira de manhã inundaria o carro transformando-o numa montanha de soja totalmente recheada de notas de cem dólares . Tudo levava a crer que a soja só voltaria a ser solicitada na próxima safra . E mesmo assim , se esta resultasse em uma colheita ruim . Ao contrário , se as safras permanecessem favoráveis , a soja sequer seria lembrada. Ficaria ali mesmo , como estoque regulador do governo
Mas restava um problema : D Ártagnan ; ou melhor , um seu bem- mandado , deveria vigiar para que durante todo o tempo não fosse aceso o secador de grãos . Os motivos eram óbvios : o calor que serviria para secar a soja poderia danificar os muito prováveis vinte milhões de dólares .
E aqui tem-se que lembrar do que representa o dólar do norteamericano naquele ponto do planeta .
Pelas condições especialíssimas de ser a região carente de algum outro meio de reserva efetiva - e fungível - de valor ; por ali o dólar era de garantia e praticidade únicas .
Sim , o dólar que , se não tinha o antigo brilho das libras esterlinas , consistia numa libra de papel tão aceita com a inglesa um dia foi e , por motivos de que em sua essência ser tão somente um papel , tornava-o muito mais fácil de ser internacionalizado . Principalmente porque ele trazia uma jura , tão solene como podem sera as juras americanas , a de que qualquer um poderia exigir o seu valor em ouro. Ou , por outra , um papel filosofal fungível em ouro 999,99 % .
Além de tantos cuidados , mais um eles tomaram : Athos ficou encarregado de , já no dia seguinte - um domingo , passar um fecho de chirca nas prováveis , ou hipotéticas , marcas que os pneus poderiam ter deixado , na terra do solo que - porventura - estivesse sem pasto ( assim é denominada a grama naqueles confins ) .
Nenhum rastro poderia ser percebido , ainda que por um gaudério desgarrado - destes que conhecem as pegadas como a palma da própria mão - que porventura andasse a esmo como eles tanto gostam de vadear .
A distância dos dez últimos quilômetros seria no outro dia batida pelo próprio Athos que , no último dia do feriadão de fim de ano , com um vassourão de chirca , varreria os lugares que tivessem sido em algo modificados pelos carros ; a menos chovesse . Aí as hipotéticas pegadas seriam apagadas pela chuva mesmo .
E aqui tem-se que lembrar do que representa o dólar do norteamericano naquele ponto do planeta .
Pelas condições especialíssimas de ser a região carente de algum outro meio de reserva efetiva - e fungível - de valor ; por ali o dólar era de garantia e praticidade únicas .
Sim , o dólar que , se não tinha o antigo brilho das libras esterlinas , consistia numa libra de papel tão aceita com a inglesa um dia foi e , por motivos de que em sua essência ser tão somente um papel , tornava-o muito mais fácil de ser internacionalizado . Principalmente porque ele trazia uma jura , tão solene como podem sera as juras americanas , a de que qualquer um poderia exigir o seu valor em ouro. Ou , por outra , um papel filosofal fungível em ouro 999,99 % .
Além de tantos cuidados , mais um eles tomaram : Athos ficou encarregado de , já no dia seguinte - um domingo , passar um fecho de chirca nas prováveis , ou hipotéticas , marcas que os pneus poderiam ter deixado , na terra do solo que - porventura - estivesse sem pasto ( assim é denominada a grama naqueles confins ) .
Nenhum rastro poderia ser percebido , ainda que por um gaudério desgarrado - destes que conhecem as pegadas como a palma da própria mão - que porventura andasse a esmo como eles tanto gostam de vadear .
A distância dos dez últimos quilômetros seria no outro dia batida pelo próprio Athos que , no último dia do feriadão de fim de ano , com um vassourão de chirca , varreria os lugares que tivessem sido em algo modificados pelos carros ; a menos chovesse . Aí as hipotéticas pegadas seriam apagadas pela chuva mesmo .
O cuidado era mesmo extremo : mesmo sendo certo que o caminho comumente não seria usado por quem quer que fosse ; mesmo assim eventuais rastros deveriam ser apagados . Este seriam , daí para frente os cuidados próprios d ´ Os novos Mosqueteiros .
Somente a título de curiosidade , no dia em que Athos passava a vassoura de chirca apareceu , já a uns três quilômetros do lugar onde entrara o furgão , que muito estranhou a atitude de Athos .
Era um cavaleiro que por acaso pegara aquele atalho , que depois dos cumprimentos de praxe perguntou :
- Que pasa ? Por que estás hoje aqui pelas Palmas ?
- Te olvidastes de que é no primeiro do ano que nós , lá de Camaquã , viemos para os campos para pegar as ervas que usaremos nas nossas macacoas , nas enxaquecas ?
- Pois eu te juro que não me lembrava disto . É que nós , lá das Palmas , pegamos as ervas na Semana Santa ... sendo assim ... buenas tardes indio velho !
- Buenas ! Respondeu Athos para o cavaleiro que começava a se afastar .
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
78 - Julietinha e o Oficial do vapor . Final B
No meio da madrugada - e pouco depois de D´Artagnan aliviar o furgão original - Pituca e Aramis escorregaram ladeira abaixo o furgão deles . Pouco a pouco , muito devagar mesmo, o carro foi ganhando alguma velocidade - mas só pela lei da gravidade - na descida da baixada . Os pretensos sócios - Pituca e Aramis - rezavam para que nenhum dos capa-pretas aparecesse na porta , certamente de arma na mão , provavelmente dando tiros na direção daqueles que furtavam a que seria a maior das remessas de dólares - estimava-se que estariam ali vinte milhões deles - que , em princípio , deveriam estar guardados pelos Capa Pretas até que fossem entregues à agência cisplatina do banco nos Alpes .
Enfim Pituca colocou a segunda marcha para com ela dar o tranco no carro que fez o motor pegar . Ainda que olhasse no retrovisor - e como ele olhava ! - o estancieiro nada via , só a escuridão do momento mais escuro da madrugada . Além disto , ele também nada ouvia , sinal evidente de que os Capa-Pretas dormiam não representando perigo algum para quem fugiu com , ou melhor , sem a carga dólares . Pituca e Aramis deram altas gargalhadas ao pensarem como os guardas despertariam . Será que entrariam em choque ?
Era provável ; muito provável , que eles queimariam as próprias naves para - então - estabelecerem-se naqueles pampas, porque se voltassem para o Rio de Janeiro os espertos , os que furtaram os dólares que acabaram de vazar ladeira abaixo , os construtores de Brasilia não perdoariam aqueles capa-pretas que sempre foram pagos regiamente pelo serviços que prometeram fazer com total dedicação .
Mas foi o amor , a paixão por àquelas belas gauchas que modificou o caráter dos seguranças , vindo-se mais uma vez confirmar o dito popular daquelas plagas que diz que mais puxa um par de pentelhos do que uma junta de boi brazino .
Como acontece com os muito ricos , Pituca não chegou a perceber que o dinheiro que ofereceu à Aramis era insignificante . Tudo porque sabia que Aramis era do Taquarembó - um pueblo perdido no interior da República Oriental - também conhecida como república cisplatina . Pela sua forma de ver a vida , as pessoas , e o mundo , Pituca pensou que Aramis se emocionaria tanto , ao ver em suas mãos cem mil dólares , que não se daria conta da relatividade entre os valores que restariam para cada um dos hipotéticos sócios . Ele ganharia - caso os vinte milhões de dólares viessem a ser confirmados - , duzentas vezes o que caberia á Aramis .
O certo é que Pituca nunca desconfiou que isto poderia o seu plano ao fracasso . E , certamente , ajudou no seu fracasso . Imaginemos que Pituca dividisse meio a meio os vinte milhões . Provavelmente , nem assim Aramis trairia Os Mosqueteiros . Provavelmente .
Amanhecia quando - por dentro daquela estância de Pituca - chegaram à Rivera .
Aramis despediu-se de Pituca , ficando certo que daí há duas horas encontrariam-se no saguão do hotel , ficando implícito que a sua hipotética parte seria-lhe paga neste encontro .
O dinheiro de Brasilia tornou-se agora a esperança de Pituca entrar numa bolada federal .
Enfim Pituca colocou a segunda marcha para com ela dar o tranco no carro que fez o motor pegar . Ainda que olhasse no retrovisor - e como ele olhava ! - o estancieiro nada via , só a escuridão do momento mais escuro da madrugada . Além disto , ele também nada ouvia , sinal evidente de que os Capa-Pretas dormiam não representando perigo algum para quem fugiu com , ou melhor , sem a carga dólares . Pituca e Aramis deram altas gargalhadas ao pensarem como os guardas despertariam . Será que entrariam em choque ?
Era provável ; muito provável , que eles queimariam as próprias naves para - então - estabelecerem-se naqueles pampas, porque se voltassem para o Rio de Janeiro os espertos , os que furtaram os dólares que acabaram de vazar ladeira abaixo , os construtores de Brasilia não perdoariam aqueles capa-pretas que sempre foram pagos regiamente pelo serviços que prometeram fazer com total dedicação .
Mas foi o amor , a paixão por àquelas belas gauchas que modificou o caráter dos seguranças , vindo-se mais uma vez confirmar o dito popular daquelas plagas que diz que mais puxa um par de pentelhos do que uma junta de boi brazino .
Como acontece com os muito ricos , Pituca não chegou a perceber que o dinheiro que ofereceu à Aramis era insignificante . Tudo porque sabia que Aramis era do Taquarembó - um pueblo perdido no interior da República Oriental - também conhecida como república cisplatina . Pela sua forma de ver a vida , as pessoas , e o mundo , Pituca pensou que Aramis se emocionaria tanto , ao ver em suas mãos cem mil dólares , que não se daria conta da relatividade entre os valores que restariam para cada um dos hipotéticos sócios . Ele ganharia - caso os vinte milhões de dólares viessem a ser confirmados - , duzentas vezes o que caberia á Aramis .
O certo é que Pituca nunca desconfiou que isto poderia o seu plano ao fracasso . E , certamente , ajudou no seu fracasso . Imaginemos que Pituca dividisse meio a meio os vinte milhões . Provavelmente , nem assim Aramis trairia Os Mosqueteiros . Provavelmente .
Amanhecia quando - por dentro daquela estância de Pituca - chegaram à Rivera .
Aramis despediu-se de Pituca , ficando certo que daí há duas horas encontrariam-se no saguão do hotel , ficando implícito que a sua hipotética parte seria-lhe paga neste encontro .
O dinheiro de Brasilia tornou-se agora a esperança de Pituca entrar numa bolada federal .
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quinta-feira, 18 de julho de 2013
73 - Julietinha e o Oficial do Vapor - Final B .
Conforme já tinham combinado , foi a mosqueteira Quita que convocou uma reunião para informar o grupo sobre as novidades colhidas . Desta vez ficou acertado que o encontro seria em Caçapava , uma cidadezinha no alto de uma pequena serra , que vive da mineração de calcário , com paisagens das mais tranquilas de todo o planeta Terra . Quita não bebia álcool ; assim , o brinde em que todos os Mosqueteiros levantavam as taças , para ela foi com refrigerante . Para os demais foi com um excelente vinho da Campanha .
" Tudo bem ". respondeu Porthos . Mas voltemos à nossa causa primeira : quanto hoje progredimos no nosso plano de ir buscar - como sempre me diz D ´Artagnan ... o nosso quinhão ... ao , tão somente , aliviar os excessos de realizações perpetradas por terceiros ? "
D ´Artagnan respondeu : " Posso garantir que hoje andamos muito , mosqueteiro Porthos . "
Foi Aramis quem abortou a aridez da falação que , certamente , iniciaria o primeiro mosqueteiro ( "primeiro" por que foi quem organizou o grupo , eis que entre Os Novos Mosqueteiros não existia qualquer hierarquia ) : " Eu estava esperando um tempo para dizer que Pituca convocou todas as meninas do Boca de Ouro para a semana que vai do Natal até o dia 2 de janeiro . Ele quer todas a postos neste período. "
Depois de Aramis , Quita aproveitou para dar mais uma notícia : " Ouvi o Seu Pituca dizendo para Valéria que estava cada vez mais satisfeito com o trabalho do Seu Bandido ; que , até agora , Bandido não atrasara um dia sequer no pagamento de sua mesada de dez mil dólares . Eu ainda não sei bem o que isto tem a ver com tudo que nós queremos . Mas a intuição me diz que em alguma coisa isto é bom para nós todos . "
Foi o próprio D ´Artagnan quem completou . " Todos nós devemos ficar atentos , mas também felizes ! Diversos passos já foram dados por nós , Porthos . E todos com absoluta precisão . Nem que eu quisesse só olhar para o lado frio da lógica , despindo-o de interpretações que pudessem nos favorecer ; nem assim eu poderia esquecer que temos boa parte do caminho andado . Tudo joga a nosso favor ! Vejam a alegria de Pituca quando confirma que o senhor Bandido paga com absoluta pontualidade o que lhe prometeu . Qual a leitura disto , Novos Mosqueteiros ? Qual ? : Pituca , já decidiu que mudará de vida no momento em que casar-se . E quer ter uma dupla garantia : o pinga-pinga , pelo menos para ele , de dez mil dólares por mês depositados em sua conta , mais um depósito de nada menos do que vinte milhões de dólares . Tudo depositado no pais da cruz branca . Posso garantir que todas as terras , todas as estâncias de de Pituca não valem a metade disto ."
Foi Porthos quem cortou D ´Artagnan : " Vinte milhões de dólares .... de onde tu tirastes este número ? "
" É fácil , Porthos . Tantos avisos , tantas preparações levam a uma conclusão evidente : O pequeno caminhão virá lotado . Eu me dei ao trabalho de calcular , pelo volume do caminhão , quantas notas de cem dólares cabem ali . Dá mais de vinte milhões de dólares . Outra evidência é que a situação política está dia a dia se complicando . Eu me convenci que os detentores da pecúnia concluream que chegou a hora dos excessos de realizações serem retirados do país . E o quanto antes . Vejam , companheiros , temos que agir como um relógio inglês , com exatidão , sem titubeios . Absolutamente precisos nos alívios pecuniários a que nos propomos ; se o casamento de Pituca está marcado para o dia 15 de Dezembro ; e , se além disto , ele vendeu os apartamentos , é porque quer abandonar a região . Como ouvimos nossos pais dizer : Pituca quer ver o anoitecer , mas não o amanhecer . Quer desaparecer na calada da noite . E por que Pituca faz isto ? : porque a maior parte de seu plano também, já deu certo . Recordam que eu disse que todos os carregamentos de dólares chegaram num feriado de longa duração ? Este é o motivo de Pituca botar o Boca de Ouro de prontidão geral na semana de fim de ano . " Todos os mosqueteiros balançaram a cabeça afirmativamente , quando D ´Artagnan voltou à sua explanação : " Pois bem , daqui a 40 dias teremos um grande feriado , o maior de todos : a semana de Natal , sempre colada nas festas de passagem do ano . E , como neste ano o Natal cai numa terça-feira teremos praticamente a junção de dois grandes feriados . Tem-se aí um momento mágico em que as estradas param , os postos policiais fecham por completo seus postos logo depois que acham que todo o tráfego vazou para seu destino final . Companheiros , a polícia também para , recolhe-se a seus lares . E não só no Brasil . Tudo para nos dois lados da fronteira . Para todos que estão nesta aventura o final do ano é a hora . O dia é este : o primeiro do ano . "
Porthos aproveitou para levantar uma dúvida : " Pensei , pensei e percebi , D ´Artagnan , que não precisamos de que exista um duplo furto . Ora , se a nossa fé aponta para que o dito de "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão " seja suficiente - pelo menos quanto ao tempo necessário para uma ampla anistia divina ; e , considerando-se os obstáculos que teríamos ao ter que esperar que Pituca faça o seu desapossamento ; para , aí sim , aliviarmos o gauchão ; digo com certeza que não vale a pena o risco originado nesse duplo perdão . Diante disto eu peço a Democrática para que seja resolvido este incidente : se poderemos promover um alívio simples , mesmo que com isto só tenhamos a garantia de tão somente cem anos de perdão , não existe motivos lógicos ou religiosos para que o risco se multiplique . Ou , então , se for da vontade do Grupo , esperemos que Pituca furte os dólares , para - depois dele delinquir - aí sim aliviar o Paulo Becerra . "
D ´Artagnan pediu que , pela ordem , ele esclarecesse : " Muito bem , Porthos . Já vi que nosso convívio tem feito sua cabeça se abrir aos clássicos . Você tem razão ! O que Pituca faria seria um furto ; isto mesmo , o estancieiro não dispõe de status filosófico , ou mesmo religioso , que todos nós , Os Novos Mosqueteiros , dispomos . Tudo porque nós , qualquer um dos Novos Mosqueteiros , nada têm de acumulação , real ou pecuniária . Inexiste , para Pituca , qualquer possibilidade do perdão divino . Isto nem de longe vale para Pituca . Ele é um grande proprietário de terras ; e , o que para nós será um aliviar de excessos de realizações , para ele seria mais uma acumulação ampliadora de realizações . Parabéns , Athos ! E eu espero que Aramis e Quita estejam abrindo suas consciências para o fato de que não nos interessa ser igual aos outros acumuladores insaciáveis . O que queremos é a nossa parte nas apropriações de bens naturais embolsados ao longo das eras , das gerações . "
Desta vez , Quita foi a única pessoa que não demonstrou segurança no balançar a cabeça afirmativamente . Mesmo assim , balançou-a .
Foi quando D ´Artagnan completou : " Por mim , eu - por mais que isto nos custasse - consumaria compulsoriamente o duplo alívio . Por mais que nos custasse , deixaria que Pituca furtasse os Capa-Pretas para só então aliviá-lo ; para com isto garantir uma anistia celestial de duzentos anos . Mas eu não vou quebrar a jura que fiz : submeto-me à Democrática . "
Foi quando D ´ Artagnan completou : " Companheira Quita ... você lembra o que seria a Democrática ? "
Quita , que todos os dias lia o Guia dos Novos Mosqueteiros que tão bem escondia nos seus guardados, não titubeou . Trazia na ponta da língua a definição do Manual elaborado por D ´ Artagnan : " A Democrática é o pedido oficial posto por um dos Mosqueteiros de que a vexata quaestio seja colocada em votação aberta . "
D ´ Artagnan não se conteve : " Para concluir , companheira Quita : e o que viria a ser vexata quaestio ? "
Quita : " Vexata quaestio , para nós , os Novos Mosqueteiros , é uma como chamamos as questões sumamente intrincadas ."
D ´Artagnan : " Parabéns Mosqueteiro Quita ! Vamos à Democrática ... "
D ´ Artagnan : " Mosqueteiro Quita , em que tu votas , no duplo perdão , que nos garantiria duzentos anos de indulto divino , ou no alívio uno , representado num só passo aliviante ? "
Quita : " Concordo com Athos . Nossas vidas não chegarão a cem anos . E , pelo que ouvi dizer , pelo menos no campo terreno , a penalização de alguém não pode ser transferida para a sua família . 'A nossa descendência só restaria os bônus de uma pequena montanha de dólares . "
D ´Artagnan : " Submeto-me à vontade da maioria , mas devo esclarecer que quando pedi a comprovação de dois roubos para a quantia almejada que será aliviada, eu me referia tão somente aos limites religiosos que a questão compreende ... Aramis , qual o seu voto ? "
Aramis : " Mais do que ninguém , eu compreendo as preocupações político/ filosóficas/religiosas do primeiro Mosqueteiro . Mas , como na profissão que abracei , devo ser prática : não vale a pena a relação custo/benefício de termos que correr o risco de dois alívios seguidos , não vale a pena . Voto com o Mosqueteiro Athos . "
Assim , democraticamente , foi decidido que somente um alívio era suficiente para livrar os Mosqueteiros dos desdobramentos terrestres esperáveis . E , por que não ? com o rigor lógico adotado desde o início por D ´Artagnan , que também os impedia moralmente de correr riscos de estarem perpetrando algum furto . Algum roubo .
D´Artagnan foi complacente ao calar-se para a questão relativa à eternidade das almas no tempo posterior ao Juízo Final . Até D ´Artagnan convenceu-se que seria um excesso abrir mais uma discussão para , nela , discutir o tempo ulterior ao dia do Juízo Final . E , imediatamente , bateu o martelo .
Quita passou por um tempo de amadurecimento . Se antes só pensava em servir seus senhores , agora sua auto-estima crescera , ela sabia que era uma pessoa como as outras , que tinha suas prerrogativas , por isto queria sacar o seu quinhão que , sem dúvida , estava em outras mãos . Nela viviam duas pessoas . Uma , a antiga , era a que gostava de mexericos , de fofocas . E foi este lado que contou aos colegas dois fatos que ela achou inusitados : Pituca , nesta segunda vez que co-habitava com Valéria , adquirira o apartamento ao lado do que já possuía para ali abrigar sua amada . Paulo Becerra nunca esqueceu que ambos prometeram-se mutuamente que sem o casamento eles não se pertenceriam , tivessem a vontade que tivessem um do outro .
E , se acariciavam-se por longos momentos , tais carícias , acreditem , não transpunham os limites de afagos mas sem que - como Valéria confidenciou à Quita - chegassem sequer a masturbar-se . Ambos respeitavam a palavra empenhada . E num determinado momento depois de cearem juntos , despediam-se . Cada um para o seu apartamento . Para ambos , aquele resistir , ainda que a paixão explodisse neles , era assim como a expiação necessária à purificação de seus espíritos . E corpos . Guardavam-se para as núpcias que - segundo Pituca vinha comentando - seriam - nada mais , nada menos - do que no Tahiti . Mais precisamente , em Pappete .
Mas ainda sobravam outros segredos , também captados por Quita : O nome verdadeiro de Valéria não era este , mas sim Valeska . E agora Pituca começara uma campanha para que Valéria , no dia do casamento , no instante em que juraria fidelidade ao marido , voltasse ao seu verdadeiro nome . Assim , o ritual do casamento teria mais uma purificação . Ali morreria Valéria e renasceria Valeska.
Quita encerraria sua fala com mais duas novidades . Paulo já estava na posse dos passaportes e , ainda mais intrigante : Quita presenciou um telefonema de Pituca para um corretor de imóveis no qual tratava da venda dos dois apartamentos , e que o comprador fosse avisado que o vendedor permaneceria no imóvel por mas algum tempo - não muito .
Se os demais Mosqueteiros estavam boquiabertos , D ´Artagnan não demonstrou surpresa . E , novamente , fez um discurso pelo qual quis clarear ainda mais a cabeça dos companheiros : " Acho que já não temos dúvida de que a propriedade também pode vir sem máculas . Mesmo assim cabe uma observação : as coisas industrializadas , e vendidas , têm nelas bens extraídos da natureza que são propriedade de todos , de todo mundo . Ou seja ( e D ´Artagnan levantou as voz , ainda que os companheiros já estivessem-no bem escutando ) aqui nestes confins da nação - se não no País inteiro , no mundo inteiro - as classes que mandam ficam não só com aquilo que elas agregam nais coisas que produzem . Mas , também , com aquilo que seria de todos por virem das entranhas da terra , de antes mesmo que o homem se conhecesse como tal . "
Quita e Porthos se entreolharam , mas foi Aramis quem arriscou uma pergunta : " Mas os impostos ? ; eles não servem para que esta parte que é de todos , a que é retirada da natureza , eles não são para que ela se volte para os que não participam diretamente da industrialização ? "
D ´ Artagnan , que jurava que os motivos que sempre o levavam a enfatizar para os outros Mosqueteiros o lado filosófico/religioso do alívio de excessos de realidades que fariam deveria servir tão somente para que todos não ficassem com sentimentos de culpa pela requisição que fariam ; completou : " pode até ser que em outras plagas , em outros países , os impostos sirvam como paga deste quinhão natural e coletivo . Só que aqui , nestas paragens , os mais hábeis ficam não só com o que eles porventura agregam às coisas ; mas também , com os benefícios originados na quase totalidade dos impostos que sobre elas incidem . Enfim , apropriam-se também , pelo exercício das mais diversas formas de poder , da quase totalidade das riquezas naturais . Não ; a propriedade nem sempre é um roubo , Aramis . Mas por aqui , quase sempre é . "
" Tudo bem ". respondeu Porthos . Mas voltemos à nossa causa primeira : quanto hoje progredimos no nosso plano de ir buscar - como sempre me diz D ´Artagnan ... o nosso quinhão ... ao , tão somente , aliviar os excessos de realizações perpetradas por terceiros ? "
D ´Artagnan respondeu : " Posso garantir que hoje andamos muito , mosqueteiro Porthos . "
Foi Aramis quem abortou a aridez da falação que , certamente , iniciaria o primeiro mosqueteiro ( "primeiro" por que foi quem organizou o grupo , eis que entre Os Novos Mosqueteiros não existia qualquer hierarquia ) : " Eu estava esperando um tempo para dizer que Pituca convocou todas as meninas do Boca de Ouro para a semana que vai do Natal até o dia 2 de janeiro . Ele quer todas a postos neste período. "
Depois de Aramis , Quita aproveitou para dar mais uma notícia : " Ouvi o Seu Pituca dizendo para Valéria que estava cada vez mais satisfeito com o trabalho do Seu Bandido ; que , até agora , Bandido não atrasara um dia sequer no pagamento de sua mesada de dez mil dólares . Eu ainda não sei bem o que isto tem a ver com tudo que nós queremos . Mas a intuição me diz que em alguma coisa isto é bom para nós todos . "
Foi o próprio D ´Artagnan quem completou . " Todos nós devemos ficar atentos , mas também felizes ! Diversos passos já foram dados por nós , Porthos . E todos com absoluta precisão . Nem que eu quisesse só olhar para o lado frio da lógica , despindo-o de interpretações que pudessem nos favorecer ; nem assim eu poderia esquecer que temos boa parte do caminho andado . Tudo joga a nosso favor ! Vejam a alegria de Pituca quando confirma que o senhor Bandido paga com absoluta pontualidade o que lhe prometeu . Qual a leitura disto , Novos Mosqueteiros ? Qual ? : Pituca , já decidiu que mudará de vida no momento em que casar-se . E quer ter uma dupla garantia : o pinga-pinga , pelo menos para ele , de dez mil dólares por mês depositados em sua conta , mais um depósito de nada menos do que vinte milhões de dólares . Tudo depositado no pais da cruz branca . Posso garantir que todas as terras , todas as estâncias de de Pituca não valem a metade disto ."
Foi Porthos quem cortou D ´Artagnan : " Vinte milhões de dólares .... de onde tu tirastes este número ? "
" É fácil , Porthos . Tantos avisos , tantas preparações levam a uma conclusão evidente : O pequeno caminhão virá lotado . Eu me dei ao trabalho de calcular , pelo volume do caminhão , quantas notas de cem dólares cabem ali . Dá mais de vinte milhões de dólares . Outra evidência é que a situação política está dia a dia se complicando . Eu me convenci que os detentores da pecúnia concluream que chegou a hora dos excessos de realizações serem retirados do país . E o quanto antes . Vejam , companheiros , temos que agir como um relógio inglês , com exatidão , sem titubeios . Absolutamente precisos nos alívios pecuniários a que nos propomos ; se o casamento de Pituca está marcado para o dia 15 de Dezembro ; e , se além disto , ele vendeu os apartamentos , é porque quer abandonar a região . Como ouvimos nossos pais dizer : Pituca quer ver o anoitecer , mas não o amanhecer . Quer desaparecer na calada da noite . E por que Pituca faz isto ? : porque a maior parte de seu plano também, já deu certo . Recordam que eu disse que todos os carregamentos de dólares chegaram num feriado de longa duração ? Este é o motivo de Pituca botar o Boca de Ouro de prontidão geral na semana de fim de ano . " Todos os mosqueteiros balançaram a cabeça afirmativamente , quando D ´Artagnan voltou à sua explanação : " Pois bem , daqui a 40 dias teremos um grande feriado , o maior de todos : a semana de Natal , sempre colada nas festas de passagem do ano . E , como neste ano o Natal cai numa terça-feira teremos praticamente a junção de dois grandes feriados . Tem-se aí um momento mágico em que as estradas param , os postos policiais fecham por completo seus postos logo depois que acham que todo o tráfego vazou para seu destino final . Companheiros , a polícia também para , recolhe-se a seus lares . E não só no Brasil . Tudo para nos dois lados da fronteira . Para todos que estão nesta aventura o final do ano é a hora . O dia é este : o primeiro do ano . "
Porthos aproveitou para levantar uma dúvida : " Pensei , pensei e percebi , D ´Artagnan , que não precisamos de que exista um duplo furto . Ora , se a nossa fé aponta para que o dito de "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão " seja suficiente - pelo menos quanto ao tempo necessário para uma ampla anistia divina ; e , considerando-se os obstáculos que teríamos ao ter que esperar que Pituca faça o seu desapossamento ; para , aí sim , aliviarmos o gauchão ; digo com certeza que não vale a pena o risco originado nesse duplo perdão . Diante disto eu peço a Democrática para que seja resolvido este incidente : se poderemos promover um alívio simples , mesmo que com isto só tenhamos a garantia de tão somente cem anos de perdão , não existe motivos lógicos ou religiosos para que o risco se multiplique . Ou , então , se for da vontade do Grupo , esperemos que Pituca furte os dólares , para - depois dele delinquir - aí sim aliviar o Paulo Becerra . "
D ´Artagnan pediu que , pela ordem , ele esclarecesse : " Muito bem , Porthos . Já vi que nosso convívio tem feito sua cabeça se abrir aos clássicos . Você tem razão ! O que Pituca faria seria um furto ; isto mesmo , o estancieiro não dispõe de status filosófico , ou mesmo religioso , que todos nós , Os Novos Mosqueteiros , dispomos . Tudo porque nós , qualquer um dos Novos Mosqueteiros , nada têm de acumulação , real ou pecuniária . Inexiste , para Pituca , qualquer possibilidade do perdão divino . Isto nem de longe vale para Pituca . Ele é um grande proprietário de terras ; e , o que para nós será um aliviar de excessos de realizações , para ele seria mais uma acumulação ampliadora de realizações . Parabéns , Athos ! E eu espero que Aramis e Quita estejam abrindo suas consciências para o fato de que não nos interessa ser igual aos outros acumuladores insaciáveis . O que queremos é a nossa parte nas apropriações de bens naturais embolsados ao longo das eras , das gerações . "
Desta vez , Quita foi a única pessoa que não demonstrou segurança no balançar a cabeça afirmativamente . Mesmo assim , balançou-a .
Foi quando D ´Artagnan completou : " Por mim , eu - por mais que isto nos custasse - consumaria compulsoriamente o duplo alívio . Por mais que nos custasse , deixaria que Pituca furtasse os Capa-Pretas para só então aliviá-lo ; para com isto garantir uma anistia celestial de duzentos anos . Mas eu não vou quebrar a jura que fiz : submeto-me à Democrática . "
Foi quando D ´ Artagnan completou : " Companheira Quita ... você lembra o que seria a Democrática ? "
Quita , que todos os dias lia o Guia dos Novos Mosqueteiros que tão bem escondia nos seus guardados, não titubeou . Trazia na ponta da língua a definição do Manual elaborado por D ´ Artagnan : " A Democrática é o pedido oficial posto por um dos Mosqueteiros de que a vexata quaestio seja colocada em votação aberta . "
D ´ Artagnan não se conteve : " Para concluir , companheira Quita : e o que viria a ser vexata quaestio ? "
Quita : " Vexata quaestio , para nós , os Novos Mosqueteiros , é uma como chamamos as questões sumamente intrincadas ."
D ´Artagnan : " Parabéns Mosqueteiro Quita ! Vamos à Democrática ... "
D ´ Artagnan : " Mosqueteiro Quita , em que tu votas , no duplo perdão , que nos garantiria duzentos anos de indulto divino , ou no alívio uno , representado num só passo aliviante ? "
Quita : " Concordo com Athos . Nossas vidas não chegarão a cem anos . E , pelo que ouvi dizer , pelo menos no campo terreno , a penalização de alguém não pode ser transferida para a sua família . 'A nossa descendência só restaria os bônus de uma pequena montanha de dólares . "
D ´Artagnan : " Submeto-me à vontade da maioria , mas devo esclarecer que quando pedi a comprovação de dois roubos para a quantia almejada que será aliviada, eu me referia tão somente aos limites religiosos que a questão compreende ... Aramis , qual o seu voto ? "
Aramis : " Mais do que ninguém , eu compreendo as preocupações político/ filosóficas/religiosas do primeiro Mosqueteiro . Mas , como na profissão que abracei , devo ser prática : não vale a pena a relação custo/benefício de termos que correr o risco de dois alívios seguidos , não vale a pena . Voto com o Mosqueteiro Athos . "
Assim , democraticamente , foi decidido que somente um alívio era suficiente para livrar os Mosqueteiros dos desdobramentos terrestres esperáveis . E , por que não ? com o rigor lógico adotado desde o início por D ´Artagnan , que também os impedia moralmente de correr riscos de estarem perpetrando algum furto . Algum roubo .
D´Artagnan foi complacente ao calar-se para a questão relativa à eternidade das almas no tempo posterior ao Juízo Final . Até D ´Artagnan convenceu-se que seria um excesso abrir mais uma discussão para , nela , discutir o tempo ulterior ao dia do Juízo Final . E , imediatamente , bateu o martelo .
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quinta-feira, 27 de junho de 2013
68 - Julietinha e o Oficial do vapor . - Final B .
Um ano se passara e quatro remessas de valores tinham chegado do centro do país . A maior parte deles seguira para a Europa , quantias de menor monta ficaram mesmo na República Oriental . Como Pituca previra , os capa-pretas fizeram-se íntimos das moças do Boca de Ouro . O que Paulo não sabia é que a jovenzinha , que praticamente amigara-se com Silvério o capa-preta chefe , fora convidada pelos Mosqueteiros a fazer parte do grupo . E aceitara juntar-se à D´ Artagnan e Athos adquirindo o codinome de Aramis ; aliás , o único dos mosqueteiros que falava o idioma Espanhol . Assim , Aramis recebeu a promessa de que quaisquer desapropriações , qualquer lucro vindo daquela sociedade, seria dividia de forma igual entre os mosqueteiros . Reviveriam o "Um por todos , todos por um " .
O certo é que a moça era nacional da República Oriental e , se antes de pertencer aos Mosqueteiros já se esforçava em agradar Silvério ( aliás , ele confidenciou-lhe numa noite daquelas que "Silvério" era um codinome ; que seu nome de batismo seria Dirceu . Mas foi preciso de muito uísque irlandês na cabeça para que Dirceu revelasse este seu segredo maior ) agora ela se aplicava mais e mais nos jogos de amor . Ainda que a jovem exercesse a antiga profissão , é certo que ela não o fazia tão somente por interesse pecuniário . Assim , ampliar os limites das possibilidades amorosas era não só um desafio na missão de agradar totalmente Silvério ; a verdade é que uma possibilidade - a de trabalhar em prol do ideal do Mosqueteiros - não anulava a chance de entregar-se aos prazeres que quase sempre co-habitam com os demais resultados práticos de seu ofício . Aramis soltava-se e imergia no clima ; e , se proporcionava a Silvério tudo o que a imaginação do capa-preta criava , ela também aproveitava a sede , misturada com fome mesmo , com que o homem chegava ao Boca de Ouro . Nada , mas nada mesmo , do que constava do menu dos amantes , fossem eles franceses , tailandeses , indianos ou de qualquer outra nacionalidade tida como íntima do erotismo mais profundo era deixado de lado . Silvério trazia-lhe fotos , cadernos pornográficos com as posições eróticas mais intensas para reforçar os laços amorosos , mas cuidava de levá-los todos de volta quando , quase ao amanhecer , seguia para Rivera . O fato é que Aramis , com Silvério , sentia de verdade quase todo o prazer que exteriorizava ; e que com outros clientes , fingia sentir . Por isto , se do seu lado Silvério gemia sem sentir dor em cima Aramis cortava o silêncio daqueles pampas só povoado de gado bramindo de prazer. Para o bem de todos , a moça convencera o capa-preta de que ele nascera para dar prazer aquela sua amante . E é bem possível que isto fosse verdade . Só o que Silvério não sabia , era que a mulher , além do prazer que proporcionava e desfrutava -além disto - ela ficava com olho de águia nos hábitos de Dirceu ; como e onde guardava as chaves da caminhonete que trazia o tesouro , por quanto tempo a quantidade bebida naqueles encontros o mantinha quase anestesiado . Todas as informações eram passadas para D´ Ártagnan e Athos .
Por sua vez , Paulo - o Pituca - ao perceber que Silvério caíra mais e mais o beiço por Aramis , aumentou substancialmente o cachê da prostituta . Ao mesmo tempo que lhe criara um problema : quanto mais pagava , mais informações sobre os costumes do capa-preta exigia ; que , não por acaso , eram os mesmos detalhes que D´ Artagnan e Athos pedidos .
Aramis , assim que pode , pediu uma reunião com D Ártagnan e Athos para que os três avaliassem qual seriam as melhores respostas que ela teria que dar ao Pituca , que em vez de aproximá-lo da fortuna que ambos os lados disputavam , deixassem-no cada vez mais distante da dinheirama .
O certo é que a moça era nacional da República Oriental e , se antes de pertencer aos Mosqueteiros já se esforçava em agradar Silvério ( aliás , ele confidenciou-lhe numa noite daquelas que "Silvério" era um codinome ; que seu nome de batismo seria Dirceu . Mas foi preciso de muito uísque irlandês na cabeça para que Dirceu revelasse este seu segredo maior ) agora ela se aplicava mais e mais nos jogos de amor . Ainda que a jovem exercesse a antiga profissão , é certo que ela não o fazia tão somente por interesse pecuniário . Assim , ampliar os limites das possibilidades amorosas era não só um desafio na missão de agradar totalmente Silvério ; a verdade é que uma possibilidade - a de trabalhar em prol do ideal do Mosqueteiros - não anulava a chance de entregar-se aos prazeres que quase sempre co-habitam com os demais resultados práticos de seu ofício . Aramis soltava-se e imergia no clima ; e , se proporcionava a Silvério tudo o que a imaginação do capa-preta criava , ela também aproveitava a sede , misturada com fome mesmo , com que o homem chegava ao Boca de Ouro . Nada , mas nada mesmo , do que constava do menu dos amantes , fossem eles franceses , tailandeses , indianos ou de qualquer outra nacionalidade tida como íntima do erotismo mais profundo era deixado de lado . Silvério trazia-lhe fotos , cadernos pornográficos com as posições eróticas mais intensas para reforçar os laços amorosos , mas cuidava de levá-los todos de volta quando , quase ao amanhecer , seguia para Rivera . O fato é que Aramis , com Silvério , sentia de verdade quase todo o prazer que exteriorizava ; e que com outros clientes , fingia sentir . Por isto , se do seu lado Silvério gemia sem sentir dor em cima Aramis cortava o silêncio daqueles pampas só povoado de gado bramindo de prazer. Para o bem de todos , a moça convencera o capa-preta de que ele nascera para dar prazer aquela sua amante . E é bem possível que isto fosse verdade . Só o que Silvério não sabia , era que a mulher , além do prazer que proporcionava e desfrutava -além disto - ela ficava com olho de águia nos hábitos de Dirceu ; como e onde guardava as chaves da caminhonete que trazia o tesouro , por quanto tempo a quantidade bebida naqueles encontros o mantinha quase anestesiado . Todas as informações eram passadas para D´ Ártagnan e Athos .
Por sua vez , Paulo - o Pituca - ao perceber que Silvério caíra mais e mais o beiço por Aramis , aumentou substancialmente o cachê da prostituta . Ao mesmo tempo que lhe criara um problema : quanto mais pagava , mais informações sobre os costumes do capa-preta exigia ; que , não por acaso , eram os mesmos detalhes que D´ Artagnan e Athos pedidos .
Aramis , assim que pode , pediu uma reunião com D Ártagnan e Athos para que os três avaliassem qual seriam as melhores respostas que ela teria que dar ao Pituca , que em vez de aproximá-lo da fortuna que ambos os lados disputavam , deixassem-no cada vez mais distante da dinheirama .
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