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sábado, 10 de agosto de 2013

79 - Julietinha e o Oficial do Vapor - Final B

Naquele  momento ,  fronteiriço  entre o dormir e o  estar desperto ,  Silvério , o chefe dos Capa-Pretas  ,  esticou o braço na altura de onde deveria estar a  concha de Aramis . Já era hábito que no despertar os amantes renovassem  os votos da paixão que os unia com uma  reiteração matinal do seu intenso amor  .  Não foi preciso  uma segunda tentativa de apalpar sua amada para que , num estalo ,   percebesse  a traição  da  uruguaia .  Não , não era uma intuição .  A  cama  , vazia  da amante , era um sinal claro de que aquela vida que Silvério vivera até  ali tinha se acabado .

Lembrou-se que uma das exigências que os corruptos fizeram ao montar o time de capa-pretas que guardaria os valores em suas realocações para o paraíso fiscal  era que os guardas fossem solteiros .  Achavam  , tais pessoas , que sendo solteiro o homem que escoltaria os valores teria ,  na possibilidade de precisar resistir a  um assalto , muito mais  desprendimento  para  arriscar verdadeiramente sua vida na defesa dos bens que jurou  transportar .

Assim , quis o destino que os três capa-pretas desfrutassem agora ,  que a montanha de dólares batera as asas para outros donos ,  da possibilidade única para as suas sobrevivências :  desaparecerem  na poeira da estrada que os trouxera até o Boca de Ouro .

Nos demais quartinhos do bordel , as moças permaneceram com seus companheiros , era  a confirmação  de que quem traíra fora Aramis .

Na  mesinha  do pequeno quarto uma folha de papel  com a bela letra de Aramis :  " La mujer tiene alas en la punta del corazón " .   Silvério  leu  e chorou como nunca tinha chorado em toda a sua vida .


quarta-feira, 22 de maio de 2013

48 - Julieitinha e o oficial do vapor. Final B .

O tiro dado em Severino sangrou muito ; mas costurado , logo o pistoleiro ficou novo.  Pelo menos por fora . Por dentro  estava  acabado .

- Por que vosmecê  não acabou de vez com minha raça ?   Por que deixou  para mim o  fim  do trabalho ?

- Prá começá , índio velho ,  tenho que dizer que te devo  desculpas .  Tudo porque vistes de perto  a corcunda da  foice nas costas  , sentistes o bafo de sua boca ,  mas não te entregastes .  Se bem que tivestes sorte  ,  porque se me pegas mal dos  bofes  tinhas entregue a alma aos teus protetores  naquele  mesmo  momento ...

- Quem cuida de minha alma é  Padim Ciço ...  o mesmo da de  Lampião . Só  que não acredito na tal da  sorte que vosmecê  me alude ... se o sinhô não sabia ... eu já recebi a paga pela sua vida ... e  o sinhô tá aí ,  vivinho  como  antes de eu cruzá o  seu caminho ...  isso quer dizer o quê ?

- Já sei , já sei ....  um de nós tem de se ir ... ;   mas com as mesmas ganas  que eu quis dar uma lição ao  atrevimento  ,  eu  digo agora que te  perdoei ,  e  farei o que estiver ao meu alcance para que aproveites este changui  que te dou para que deixes esta vida  de pistoleiro de aluguel ...

-  Dotô ...  ninguém  é assim  tão dono do seu destino  ... e  minha história não começa em mim ...  vem  de familia ...    do  escravo  Belarmino ,  agrilhoado que  estava ,  cortou o próprio pé prá escapá do cativeiro .... e  escapou ....  voltando o capenga  prá  matá o seu dono ... . E  matou .    Desde  lá  nenhum dos  Belarmino  quebrou  a  palavra ...  esse sou eu  Dotô ,   o  Severino  dos Belarmino ...   o  Severino  Belarmino .

- Mas não tá morto quem peleia ,  indio velho !   Eu  proponho o seguinte :  Não me custa tanto assim ir ao norte e procurar o teu  mandante .  Então te pergunto : E se eu me arreglar com ele , isto te libera deste desígnio de que um de nós dois tenha que  ir desta para a melhor ?

- Neste caso , se meu patrão em pessoa me liberar da tarefa eu tô livre do  mandado ...

- Pois tá feito o trato .  Quanto à polícia,  tu digas que és  meu grande amigo ,  que entrastes já meio fora de hora no meu pátio ...  que fostes confundido com ladrão ...  mas que és amigo de verdade  .  Fica tranquilo que eles não perguntarão  demasiado  .

Poucos dias depois Paulo pegou o avião para Recife .






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