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quarta-feira, 31 de julho de 2013

77 - Julietinha e o Oficial do vapor - final B

Se olhassemos com uma lente que pegasse a amplitude do plano dos Mosqueteiros veria-se que boa parte dele estava fechado .  Tudo vinha acontecendo como fora previsto .  Pituca veio mesmo conversar com Aramis , que mostrou-se hábil na dissimulação de que estaria absolutamente comprometida com o estancieiro , inclusive mostrando-se muito feliz pelo prêmio que receberia .  Mesmo assim , alguns problemas permaneciam .   Um dos seguranças , dos Capa-Pretas , não bebia álcool .  A questão agora  -   de Pituca e Aramis - era como embebeda-lo .  Aramis  lembrou  que , apesar  de  beber somente sucos de frutas  ,  sobressaia a fama dele ser muito interessado em sexo - nas suas formas mais , digamos , originais e excêntricas .   Pelo menos foi o que confidenciou Prendoca , que era  a moça que  atendia  o vigilante .
Foi quando Pituca sugeriu que um sonífero fosse jogado no suco que o  homem beberia .   Aramis lembrou-se  que D´Artagnan certamente não concordaria com o artifício , eis que o alívio de excessos pecuniários  só admitia  meios naturais para a  requisição deles .  Também lembrou-se que  Prendoca segredou que por mais de uma vez o amante sugerira que ela chamasse  outras meninas para  participarem  de sexo a três , ou quantas mais quisessem  divertir-se com  a orgia .  

Pituca exultou   , dizendo que  :   " Contratarei  desde já  moças dispostas a  tudo que  passar pela  cabeça do quéra ! "     Prendoca , mais  duas , teriam a missão  mantê-lo  totalmente  envolvido  no bacanal .

Fechando mais um pouco o foco :   D ´Artagnan  ,  sabendo que  o  acesso de carros ao  Boca de Ouro  ( que , aliás , estava de há muito tempo fechado  para  funcionamento exclusivo  dos planos de Pituca )   concluiu que  o pequeno caminhão adquirido por  Athos deveria chegar com o motor desligado .  Logo a seguir  , já com os  Capa-Pretas anestesiados  pela atuação das prostitutas ,     D ´ Artagnan   se apossaria da chave do caminhão , onde estava o dinheiro , deixando  a chave do caminhão  falso  para  que , em breves minutos ,  fosse  furtado por Pituca , que também  as chaves entregues por  Aramis .  A  Mosqueteira  informaria  o Pituca  da hora  prevista para ele chegar  , momento em que os  seguranças  estariam fora de combate .

D ´ Artagnan ,  por sua vez , também   desceria  a  rua  com o motor  apagado  ,  vindo a  ligá-lo somente quando  o  ruído do motor  já não pudesse ser  ouvido pelos seguranças .

Aramis seguiria com Pituca , que  tomaria  a direção da República Oriental onde - ainda que fosse feriado  - teria  Don Paniagua  a esperar-lhe , com  funcionários de sua estrita confiança ,  prontos para conferir , receber  e dar recibo do depósito .

Don Paniagua  dissera à  Pituca que tão logo o depósito fosse noticiado , e  desde que o  telex passado por  Paniagua fosse  recebido no paraíso fiscal , tudo isto resultaria em  que tudo estivesse  praticamente consumado :  Sim ,  o dinheiro estando  lá na Europa  já seria  , praticamente ,  uma  propriedade de Pituca ; que mesmo assim , perguntou ao banqueiro :

" Vou ser franco , Don Paniagua ... não gostei do senhor ter usado duas vezes o tal de "praticamente "  Minha pergunta  é :  e quando eu serei  teórica - além de praticamente - totalmente dono do dinheiro ? "

" Usted solamente será dueño de la plata  , en toda la plenitud del termo ,  después que se passar um dia , um dia de veinte e quatro horas pasadas  , um dia  después del  dinero estar  em mis manos ,  niño Pituca . "

Por tal aviso , Pituca soube que o dinheiro seria verdadeiramente seu  somente depois de  dormir por vinte e quatro horas  com os banqueiros .  Naquele  momento  o dinheiro seria definitivamente propriedade sua , nada mais podendo ser feito por quem quer que fosse para modificar tal estado de propriedade .

Aramis  despediria-se de Pituca na entrada de  Rivera , e desapareceria no interior  do  país . A moça  seguiria para o pueblo onde nascera ;  totalmente distanciado de qualquer novidade que  pudesse ser  filtrada ,  de Rivera  para o pueblo  .  Além disto , em  po ali  ninguém sabia da profissão de Aramis  .

Sim ,  o tesouro  seria sepultado em  trigo , dentro de um grande silo , onde o pequeno caminhão hibernaria temporariamente .  Até mesmo as marcas dos pneus do verdadeiro carro  transportador seriam  apagadas , confundidas ,  de forma a impossibilitar a quem  que - por  remota possibilidade - ali passasse ,  mesmo que fosse  no outro dia ,  pudesse perceber  qualquer  marca do carro pagador desaparecido  .

Logo para o outro dia ,  D Ártagnan - com suas amizades  aos  gaúchos daquele  fim de mundo ,  já   programara  a chegada de quatro grandes carretas de trigo  a ser depositado no silo ,  que - por sinal - já  estava limpo ,  tão somente com o pequeno caminhão  que  , não por acaso , ficaria  exatamente  onde a esteira despejaria o cereal .

Os Mosqueteiros sabiam que riscos  sempre existiriam .  Mas esta alternativa de esconderijo  foi a escolhida  porque concluiu-se que  nenhum dos que se sentiriam prejudicados poderiam reclamar a perda  do tesouro ;   para quem quer que fosse ,  na República Oriental ,  ou mesmo no Brasil .

Restaria  aos Mosqueteiros  a  missão de ocultação do alívio de realizações pecuniárias ,  até que a toda  a areia  passasse pelo buraco da ampulheta .


terça-feira, 9 de julho de 2013

71 - Julietinha e Oficial do vapor . final B

Os Novos Mosqueteiros reuniram-se para estudos dos planos .  A novidade de Quita caíra como uma bomba : Paulo Becerra ,  o Pituca ,  fora chamado ao Rio de Janeiro onde serão combinadas remessas  de  valores  ainda maiores .  Os  Novos Mosqueteiros , todos eles , exultaram .  D ´Artagnan  expôs as dificuldades  que era fazer desaparecer  um carro do porte necessário para este novo , e ainda maior , volume de papel moeda norte-americano .  Algumas premissas já eram consensuais :  a  carga ficaria escondida ,  intocada  pelo tempo suficiente para sentar a poeira . Por um bom tempo  Os Novos Mosqueteiros continuariam  em suas atividades comuns .  Como a confiança era total ,  D ´ Artagnan  adiantou  a sua ideia sobre a principal alternativa de esconderijo do caminhão pagador.  Pensava  primeiramente em   ( dentro do tempo necessário  e esperável  que teriam para fazer o caminhão desaparecer com segurança )  usar as minas de carvão abandonadas  . Outra alternativa  seria  usar  um silo de cereal  existente em terras  muito confiáveis ,  e que servia para guardar  o que era conhecido como "estoque regulador"  comprado  pelo governo  quando - como acontecia naquele momento -  colhia-se  uma grande safra . Nesta hipótese , seria possível - usando somente a mão de obra dos próprios mosqueteiros -envolver totalmente o carro em soja .  E como havia  super-produção , ninguém haveria de resgatar a soja pelo tempo necessário para  os gansos voltarem à calma .  E o melhor : D´Artagnan  era  quem tinha a exclusividade da posse da chave do silo .

Foi neste ponto que  D´ Artagnan  mudou de tom  para explicar a todos - ainda que nem tudo fosse compreendido pelos novos mosqueteiros -  a importância de que Pituca também entrasse na posse do dinheiro , mas tão somente  por um curtíssimo  espaço de tempo .  Só assim os mosqueteiros teriam a  segurança de que , pelo menos pela moral judaico-cristã em que todos foram criados , somente  o  duplo-perdão daria-lhes a  ampla garantia de que até mesmo os seus descendentes não arderiam nas chamas eternas por aquilo que estavam fazendo agora . E foi isto que  D´Artagnan tentou explicar à Aramis e Quita :   que os dois mosqueteiros primitivos - ele próprio , e  Athos -  não queriam  simplesmente roubar , ou mesmo , furtar ; mas sim promover um desapossamento que  fosse , a um tempo só ,  original e natural  ;  e , para tanto ,  a  subtração da coisa teria que observar determinados requisitos , dentre eles a certeza absoluta de que o  dinheiro  viria de um duplo furto - se não , de uma cadeia interminável de furtos . A questão estava em que ele , D´ Artagnan , não aceitava afirmações genéricas, desprovidas de comprovação , como a de  J. Proudhon  que dizia  que a propriedade é um roubo .

Ora ,  ao ver de D ´Artagnan , a propriedade poderia , ou não , ser um roubo .  Daí  , também o desapossamento  -   que recebeu dele a denominação técnica de  " alívio de excessos de realizações " -  ,  ser  a  espécie  única do gênero  " propriedade originária advinda de obtenção secundária . "

Reflitamos :   a herança cultural de D´Artagnan ,  o líder natural  de tais  futuros aliviadores de excesso de realizações  ,  viria  - certamente -   de Portugal .  Tudo porque aquele lugar onde a ação se desenrolava era , dentre todos do mundo  , a colônia  mais influenciada pelo Tratado de Tordesilhas - de 1494 -  em que Espanha  e Portugal dividiram entre si o mundo .  Em verdade , tudo levava a crer que  D´ Artagnan vinha  de nobres  portugueses .   Somente um português  daria tanta importância a esta questão limítrofe até mesmo para  a Lógica mais aprofundada :  A possibilidade de existir alívio de pecúnia  sem que o ato possa ser confundido com furto ;  ou ,  muito menos ,  roubo .  Mesmo assim a questão ainda comportava a preocupação com a bifurcação existente entre a ciência e a moral  , principalmente a religiosa  .  Se a lógica estava , para D Ártagnan ,   satisfeita  -  (  " Por Deus !  é claro que  a propriedade  poderia  ser - ou não ser -  um roubo "  )    ;  subsistiu por um momento a questão religiosa . E esta , o primeiro mosqueteiro resolvera  ao observar o dito popular  ( era  a voz do povo que vinha em seu socorro ; tudo porque   a voz  do povo era  -  para ele -   verdadeiramente  a  Voz   de  Deus )  . E a voz do povo dizia-lhe que  "Ladrão que rouba ladrão , tem cem anos de perdão . "

Por fim  a que se registrar que  mesmo Athos  ( o segundo dos Novos Mosqueteiros )    muito pouco entendia destes limites da racionalidade levantados  por  D ´Artagnan ;  quanto à   Aramis  e  Quita  , estas  ficaram totalmente sem saber  do que estava o primeiro mosqueteiro falando , ainda  que o  ouvissem  tão respeitosamente quanto lhes era possível  assim  ouvir  .  E  todos estes respiraram  aliviados quando D ´ Artagnan  , certo  que  a semente daquela sabedoria toda  estava plantada  em nos  demais companheiros , concordaram  em  marcar  uma nova reunião para tão logo Quita ou Aramis tivessem novidades .
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