Quita passou por um tempo de amadurecimento . Se antes só pensava em servir seus senhores , agora sua auto-estima crescera , ela sabia que era uma pessoa como as outras , que tinha suas prerrogativas , por isto queria sacar o seu quinhão que , sem dúvida , estava em outras mãos . Nela viviam duas pessoas . Uma , a antiga , era a que gostava de mexericos , de fofocas . E foi este lado que contou aos colegas dois fatos que ela achou inusitados : Pituca , nesta segunda vez que co-habitava com Valéria , adquirira o apartamento ao lado do que já possuía para ali abrigar sua amada . Paulo Becerra nunca esqueceu que ambos prometeram-se mutuamente que sem o casamento eles não se pertenceriam , tivessem a vontade que tivessem um do outro .
E , se acariciavam-se por longos momentos , tais carícias , acreditem , não transpunham os limites de afagos mas sem que - como Valéria confidenciou à Quita - chegassem sequer a masturbar-se . Ambos respeitavam a palavra empenhada . E num determinado momento depois de cearem juntos , despediam-se . Cada um para o seu apartamento . Para ambos , aquele resistir , ainda que a paixão explodisse neles , era assim como a expiação necessária à purificação de seus espíritos . E corpos . Guardavam-se para as núpcias que - segundo Pituca vinha comentando - seriam - nada mais , nada menos - do que no Tahiti . Mais precisamente , em Pappete .
Mas ainda sobravam outros segredos , também captados por Quita : O nome verdadeiro de Valéria não era este , mas sim Valeska . E agora Pituca começara uma campanha para que Valéria , no dia do casamento , no instante em que juraria fidelidade ao marido , voltasse ao seu verdadeiro nome . Assim , o ritual do casamento teria mais uma purificação . Ali morreria Valéria e renasceria Valeska.
Quita encerraria sua fala com mais duas novidades . Paulo já estava na posse dos passaportes e , ainda mais intrigante : Quita presenciou um telefonema de Pituca para um corretor de imóveis no qual tratava da venda dos dois apartamentos , e que o comprador fosse avisado que o vendedor permaneceria no imóvel por mas algum tempo - não muito .
Se os demais Mosqueteiros estavam boquiabertos , D ´Artagnan não demonstrou surpresa . E , novamente , fez um discurso pelo qual quis clarear ainda mais a cabeça dos companheiros : " Acho que já não temos dúvida de que a propriedade também pode vir sem máculas . Mesmo assim cabe uma observação : as coisas industrializadas , e vendidas , têm nelas bens extraídos da natureza que são propriedade de todos , de todo mundo . Ou seja ( e D ´Artagnan levantou as voz , ainda que os companheiros já estivessem-no bem escutando ) aqui nestes confins da nação - se não no País inteiro , no mundo inteiro - as classes que mandam ficam não só com aquilo que elas agregam nais coisas que produzem . Mas , também , com aquilo que seria de todos por virem das entranhas da terra , de antes mesmo que o homem se conhecesse como tal . "
Quita e Porthos se entreolharam , mas foi Aramis quem arriscou uma pergunta : " Mas os impostos ? ; eles não servem para que esta parte que é de todos , a que é retirada da natureza , eles não são para que ela se volte para os que não participam diretamente da industrialização ? "
D ´ Artagnan , que jurava que os motivos que sempre o levavam a enfatizar para os outros Mosqueteiros o lado filosófico/religioso do alívio de excessos de realidades que fariam deveria servir tão somente para que todos não ficassem com sentimentos de culpa pela requisição que fariam ; completou : " pode até ser que em outras plagas , em outros países , os impostos sirvam como paga deste quinhão natural e coletivo . Só que aqui , nestas paragens , os mais hábeis ficam não só com o que eles porventura agregam às coisas ; mas também , com os benefícios originados na quase totalidade dos impostos que sobre elas incidem . Enfim , apropriam-se também , pelo exercício das mais diversas formas de poder , da quase totalidade das riquezas naturais . Não ; a propriedade nem sempre é um roubo , Aramis . Mas por aqui , quase sempre é . "
" Tudo bem ". respondeu Porthos . Mas voltemos à nossa causa primeira : quanto hoje progredimos no nosso plano de ir buscar - como sempre me diz D ´Artagnan ... o nosso quinhão ... ao , tão somente , aliviar os excessos de realizações perpetradas por terceiros ? "
D ´Artagnan respondeu : " Posso garantir que hoje andamos muito , mosqueteiro Porthos . "
Foi Aramis quem abortou a aridez da falação que , certamente , iniciaria o primeiro mosqueteiro ( "primeiro" por que foi quem organizou o grupo , eis que entre Os Novos Mosqueteiros não existia qualquer hierarquia ) : " Eu estava esperando um tempo para dizer que Pituca convocou todas as meninas do Boca de Ouro para a semana que vai do Natal até o dia 2 de janeiro . Ele quer todas a postos neste período. "
Depois de Aramis , Quita aproveitou para dar mais uma notícia : " Ouvi o Seu Pituca dizendo para Valéria que estava cada vez mais satisfeito com o trabalho do Seu Bandido ; que , até agora , Bandido não atrasara um dia sequer no pagamento de sua mesada de dez mil dólares . Eu ainda não sei bem o que isto tem a ver com tudo que nós queremos . Mas a intuição me diz que em alguma coisa isto é bom para nós todos . "
Foi o próprio D ´Artagnan quem completou . " Todos nós devemos ficar atentos , mas também felizes ! Diversos passos já foram dados por nós , Porthos . E todos com absoluta precisão . Nem que eu quisesse só olhar para o lado frio da lógica , despindo-o de interpretações que pudessem nos favorecer ; nem assim eu poderia esquecer que temos boa parte do caminho andado . Tudo joga a nosso favor ! Vejam a alegria de Pituca quando confirma que o senhor Bandido paga com absoluta pontualidade o que lhe prometeu . Qual a leitura disto , Novos Mosqueteiros ? Qual ? : Pituca , já decidiu que mudará de vida no momento em que casar-se . E quer ter uma dupla garantia : o pinga-pinga , pelo menos para ele , de dez mil dólares por mês depositados em sua conta , mais um depósito de nada menos do que vinte milhões de dólares . Tudo depositado no pais da cruz branca . Posso garantir que todas as terras , todas as estâncias de de Pituca não valem a metade disto ."
Foi Porthos quem cortou D ´Artagnan : " Vinte milhões de dólares .... de onde tu tirastes este número ? "
" É fácil , Porthos . Tantos avisos , tantas preparações levam a uma conclusão evidente : O pequeno caminhão virá lotado . Eu me dei ao trabalho de calcular , pelo volume do caminhão , quantas notas de cem dólares cabem ali . Dá mais de vinte milhões de dólares . Outra evidência é que a situação política está dia a dia se complicando . Eu me convenci que os detentores da pecúnia concluream que chegou a hora dos excessos de realizações serem retirados do país . E o quanto antes . Vejam , companheiros , temos que agir como um relógio inglês , com exatidão , sem titubeios . Absolutamente precisos nos alívios pecuniários a que nos propomos ; se o casamento de Pituca está marcado para o dia 15 de Dezembro ; e , se além disto , ele vendeu os apartamentos , é porque quer abandonar a região . Como ouvimos nossos pais dizer : Pituca quer ver o anoitecer , mas não o amanhecer . Quer desaparecer na calada da noite . E por que Pituca faz isto ? : porque a maior parte de seu plano também, já deu certo . Recordam que eu disse que todos os carregamentos de dólares chegaram num feriado de longa duração ? Este é o motivo de Pituca botar o Boca de Ouro de prontidão geral na semana de fim de ano . " Todos os mosqueteiros balançaram a cabeça afirmativamente , quando D ´Artagnan voltou à sua explanação : " Pois bem , daqui a 40 dias teremos um grande feriado , o maior de todos : a semana de Natal , sempre colada nas festas de passagem do ano . E , como neste ano o Natal cai numa terça-feira teremos praticamente a junção de dois grandes feriados . Tem-se aí um momento mágico em que as estradas param , os postos policiais fecham por completo seus postos logo depois que acham que todo o tráfego vazou para seu destino final . Companheiros , a polícia também para , recolhe-se a seus lares . E não só no Brasil . Tudo para nos dois lados da fronteira . Para todos que estão nesta aventura o final do ano é a hora . O dia é este : o primeiro do ano . "
Porthos aproveitou para levantar uma dúvida : " Pensei , pensei e percebi , D ´Artagnan , que não precisamos de que exista um duplo furto . Ora , se a nossa fé aponta para que o dito de "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão " seja suficiente - pelo menos quanto ao tempo necessário para uma ampla anistia divina ; e , considerando-se os obstáculos que teríamos ao ter que esperar que Pituca faça o seu desapossamento ; para , aí sim , aliviarmos o gauchão ; digo com certeza que não vale a pena o risco originado nesse duplo perdão . Diante disto eu peço a Democrática para que seja resolvido este incidente : se poderemos promover um alívio simples , mesmo que com isto só tenhamos a garantia de tão somente cem anos de perdão , não existe motivos lógicos ou religiosos para que o risco se multiplique . Ou , então , se for da vontade do Grupo , esperemos que Pituca furte os dólares , para - depois dele delinquir - aí sim aliviar o Paulo Becerra . "
D ´Artagnan pediu que , pela ordem , ele esclarecesse : " Muito bem , Porthos . Já vi que nosso convívio tem feito sua cabeça se abrir aos clássicos . Você tem razão ! O que Pituca faria seria um furto ; isto mesmo , o estancieiro não dispõe de status filosófico , ou mesmo religioso , que todos nós , Os Novos Mosqueteiros , dispomos . Tudo porque nós , qualquer um dos Novos Mosqueteiros , nada têm de acumulação , real ou pecuniária . Inexiste , para Pituca , qualquer possibilidade do perdão divino . Isto nem de longe vale para Pituca . Ele é um grande proprietário de terras ; e , o que para nós será um aliviar de excessos de realizações , para ele seria mais uma acumulação ampliadora de realizações . Parabéns , Athos ! E eu espero que Aramis e Quita estejam abrindo suas consciências para o fato de que não nos interessa ser igual aos outros acumuladores insaciáveis . O que queremos é a nossa parte nas apropriações de bens naturais embolsados ao longo das eras , das gerações . "
Desta vez , Quita foi a única pessoa que não demonstrou segurança no balançar a cabeça afirmativamente . Mesmo assim , balançou-a .
Foi quando D ´Artagnan completou : " Por mim , eu - por mais que isto nos custasse - consumaria compulsoriamente o duplo alívio . Por mais que nos custasse , deixaria que Pituca furtasse os Capa-Pretas para só então aliviá-lo ; para com isto garantir uma anistia celestial de duzentos anos . Mas eu não vou quebrar a jura que fiz : submeto-me à Democrática . "
Foi quando D ´ Artagnan completou : " Companheira Quita ... você lembra o que seria a Democrática ? "
Quita , que todos os dias lia o Guia dos Novos Mosqueteiros que tão bem escondia nos seus guardados, não titubeou . Trazia na ponta da língua a definição do Manual elaborado por D ´ Artagnan : " A Democrática é o pedido oficial posto por um dos Mosqueteiros de que a vexata quaestio seja colocada em votação aberta . "
D ´ Artagnan não se conteve : " Para concluir , companheira Quita : e o que viria a ser vexata quaestio ? "
Quita : " Vexata quaestio , para nós , os Novos Mosqueteiros , é uma como chamamos as questões sumamente intrincadas ."
D ´Artagnan : " Parabéns Mosqueteiro Quita ! Vamos à Democrática ... "
D ´ Artagnan : " Mosqueteiro Quita , em que tu votas , no duplo perdão , que nos garantiria duzentos anos de indulto divino , ou no alívio uno , representado num só passo aliviante ? "
Quita : " Concordo com Athos . Nossas vidas não chegarão a cem anos . E , pelo que ouvi dizer , pelo menos no campo terreno , a penalização de alguém não pode ser transferida para a sua família . 'A nossa descendência só restaria os bônus de uma pequena montanha de dólares . "
D ´Artagnan : " Submeto-me à vontade da maioria , mas devo esclarecer que quando pedi a comprovação de dois roubos para a quantia almejada que será aliviada, eu me referia tão somente aos limites religiosos que a questão compreende ... Aramis , qual o seu voto ? "
Aramis : " Mais do que ninguém , eu compreendo as preocupações político/ filosóficas/religiosas do primeiro Mosqueteiro . Mas , como na profissão que abracei , devo ser prática : não vale a pena a relação custo/benefício de termos que correr o risco de dois alívios seguidos , não vale a pena . Voto com o Mosqueteiro Athos . "
Assim , democraticamente , foi decidido que somente um alívio era suficiente para livrar os Mosqueteiros dos desdobramentos terrestres esperáveis . E , por que não ? com o rigor lógico adotado desde o início por D ´Artagnan , que também os impedia moralmente de correr riscos de estarem perpetrando algum furto . Algum roubo .
D´Artagnan foi complacente ao calar-se para a questão relativa à eternidade das almas no tempo posterior ao Juízo Final . Até D ´Artagnan convenceu-se que seria um excesso abrir mais uma discussão para , nela , discutir o tempo ulterior ao dia do Juízo Final . E , imediatamente , bateu o martelo .