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quinta-feira, 18 de julho de 2013

73 - Julietinha e o Oficial do Vapor - Final B .

Conforme já  tinham combinado , foi a mosqueteira Quita que convocou uma reunião para informar o  grupo sobre as  novidades colhidas  .  Desta vez ficou acertado que o encontro seria em  Caçapava  , uma cidadezinha no alto de uma pequena serra ,  que vive  da mineração de calcário , com paisagens das mais tranquilas de todo o planeta Terra .   Quita não bebia álcool ; assim ,   o brinde em que todos os Mosqueteiros levantavam as taças , para ela foi com refrigerante .  Para os demais foi com um excelente vinho da Campanha   .

Quita passou por um tempo de amadurecimento . Se antes só pensava em servir seus senhores , agora sua auto-estima  crescera ,  ela sabia que era uma pessoa como as outras , que tinha  suas prerrogativas ,  por isto queria sacar o seu quinhão que , sem dúvida ,  estava em outras  mãos . Nela  viviam  duas pessoas . Uma  ,  a antiga ,  era a que  gostava de mexericos ,  de  fofocas .  E foi  este lado que contou aos colegas dois fatos que ela achou inusitados :  Pituca  ,  nesta segunda vez que co-habitava com Valéria ,  adquirira  o apartamento ao lado do que já possuía para ali  abrigar  sua amada . Paulo Becerra nunca esqueceu que ambos prometeram-se mutuamente que sem o casamento eles não se pertenceriam , tivessem a vontade que tivessem um do outro .

E , se acariciavam-se  por longos momentos , tais carícias , acreditem , não transpunham os limites de afagos mas  sem que - como Valéria confidenciou à Quita -  chegassem sequer a masturbar-se .  Ambos respeitavam a palavra  empenhada . E num determinado momento depois de cearem juntos ,   despediam-se .  Cada um para o seu apartamento . Para ambos , aquele resistir , ainda que a paixão explodisse neles ,  era assim como  a expiação necessária  à purificação de seus espíritos . E  corpos .  Guardavam-se  para as núpcias que - segundo Pituca vinha comentando -   seriam  - nada mais , nada menos - do que no Tahiti .  Mais precisamente  , em Pappete .  

Mas ainda sobravam  outros segredos ,  também captados por Quita :  O nome verdadeiro de Valéria não era este , mas sim Valeska .  E  agora  Pituca começara uma campanha para que Valéria  , no dia do casamento , no instante em que juraria fidelidade ao marido ,  voltasse  ao seu verdadeiro nome  . Assim , o ritual do casamento teria  mais  uma purificação .  Ali morreria Valéria e  renasceria  Valeska.

Quita encerraria sua  fala  com mais duas novidades . Paulo já estava na posse dos passaportes e , ainda mais intrigante : Quita presenciou um telefonema de Pituca para  um corretor de imóveis no qual  tratava da venda dos dois apartamentos ,  e  que o comprador  fosse  avisado  que  o vendedor  permaneceria no imóvel por mas  algum tempo - não muito .

Se os demais Mosqueteiros estavam  boquiabertos , D ´Artagnan  não demonstrou  surpresa .  E ,   novamente , fez um  discurso  pelo qual quis clarear  ainda mais  a cabeça dos companheiros :  "  Acho que já  não temos dúvida de que a  propriedade  também pode vir sem máculas .   Mesmo assim  cabe uma observação :    as coisas  industrializadas ,   e vendidas ,  têm nelas  bens  extraídos da  natureza  que são   propriedade de todos , de todo mundo .  Ou seja  (  e D ´Artagnan levantou as voz , ainda que os companheiros já estivessem-no bem  escutando  )   aqui  nestes confins da nação - se não no País  inteiro , no mundo inteiro -  as classes que mandam ficam não só com aquilo  que elas  agregam  nais coisas que  produzem . Mas , também ,  com  aquilo que seria de todos por  virem  das entranhas da terra , de  antes mesmo que o homem se conhecesse como tal . "

Quita   e  Porthos  se entreolharam ,  mas foi  Aramis quem arriscou uma pergunta :  " Mas os impostos  ?   ; eles  não servem  para que esta parte  que é  de todos , a que é  retirada da natureza , eles não são para  que ela  se volte para  os que não participam diretamente da  industrialização  ? "

D ´ Artagnan  , que jurava que  os motivos que sempre  o levavam  a  enfatizar para os outros Mosqueteiros o lado filosófico/religioso  do alívio de  excessos de realidades  que  fariam  deveria  servir  tão somente para que todos não ficassem com sentimentos de culpa  pela  requisição que fariam  ;  completou : " pode até ser que em outras plagas , em outros países , os impostos sirvam como paga deste quinhão natural e coletivo  . Só que aqui ,  nestas paragens , os mais  hábeis  ficam não só com o que eles porventura agregam  às coisas ; mas também , com  os benefícios  originados na quase totalidade dos impostos  que sobre elas  incidem  .  Enfim , apropriam-se também  ,  pelo exercício das mais diversas formas de poder , da quase totalidade das riquezas naturais .  Não ;  a propriedade nem sempre é um  roubo  , Aramis . Mas por aqui , quase sempre é  . "

" Tudo bem ". respondeu Porthos . Mas voltemos  à nossa causa primeira :  quanto hoje  progredimos no nosso plano de ir buscar - como sempre me diz  D ´Artagnan ...  o nosso quinhão ... ao  ,   tão somente ,   aliviar  os excessos de realizações  perpetradas por terceiros ?  "

D ´Artagnan  respondeu :  " Posso garantir que hoje andamos muito , mosqueteiro  Porthos . "

Foi Aramis quem abortou  a aridez da falação  que , certamente , iniciaria o primeiro mosqueteiro  ( "primeiro"  por que foi quem organizou  o grupo , eis que entre  Os Novos Mosqueteiros não  existia qualquer hierarquia ) :  " Eu estava esperando um tempo para dizer que Pituca  convocou todas as meninas do Boca de Ouro  para a semana que vai do Natal  até  o dia 2  de janeiro .  Ele quer todas a postos neste período. "

Depois  de  Aramis ,  Quita aproveitou para dar mais uma notícia :  "  Ouvi o Seu Pituca dizendo para Valéria que estava cada vez mais satisfeito com o trabalho do Seu Bandido ;  que , até agora ,  Bandido não atrasara um dia sequer no pagamento de sua mesada de dez mil dólares  . Eu ainda não sei bem  o que isto tem a ver com  tudo que nós queremos . Mas  a intuição me diz que em alguma coisa isto é bom para nós todos .  "

Foi o próprio  D ´Artagnan quem  completou .  "  Todos nós devemos ficar  atentos ,  mas também felizes ! Diversos passos  já foram dados por nós ,  Porthos .  E todos com absoluta  precisão .   Nem que eu quisesse  só olhar para o lado frio da lógica ,  despindo-o  de  interpretações  que pudessem nos favorecer ;  nem assim  eu poderia  esquecer que temos boa parte do caminho andado .   Tudo  joga a nosso favor !  Vejam  a alegria de Pituca quando confirma que o senhor Bandido  paga com absoluta pontualidade o que lhe prometeu .  Qual a leitura disto , Novos Mosqueteiros ?  Qual ?   :    Pituca , já decidiu  que  mudará de vida  no momento em que casar-se .  E quer ter uma dupla garantia :  o pinga-pinga  , pelo menos para ele ,  de  dez mil dólares por mês depositados em sua conta   ,  mais um depósito de nada menos do que vinte  milhões de dólares . Tudo depositado  no pais da cruz branca . Posso garantir que  todas as terras , todas as estâncias  de de Pituca  não valem a metade disto ."

Foi Porthos quem cortou  D ´Artagnan :  " Vinte milhões de dólares ....  de onde tu tirastes este número  ? "

" É fácil , Porthos .  Tantos avisos , tantas preparações levam a uma conclusão  evidente :  O pequeno caminhão  virá lotado .  Eu me dei ao trabalho de calcular  , pelo volume do caminhão , quantas notas de cem dólares cabem ali .  Dá mais de vinte milhões de dólares .  Outra  evidência é que a situação política está  dia a dia se complicando .  Eu  me convenci  que  os  detentores  da pecúnia  concluream que  chegou a hora dos excessos de realizações serem retirados do país .  E  o quanto antes  .  Vejam ,  companheiros  ,   temos que  agir como um relógio inglês ,  com exatidão ,   sem  titubeios . Absolutamente precisos nos alívios pecuniários a que nos propomos ;  se o casamento de Pituca  está marcado para o dia 15 de Dezembro ; e , se além disto , ele  vendeu os apartamentos , é porque quer abandonar a região .   Como ouvimos nossos pais dizer : Pituca quer ver o anoitecer , mas não o  amanhecer  .  Quer  desaparecer na calada da noite . E por que Pituca faz isto ? :  porque  a maior parte de seu plano  também, já  deu certo .  Recordam  que eu disse que todos os carregamentos de dólares chegaram num  feriado de longa duração ?    Este é o motivo de  Pituca  botar  o Boca de Ouro de prontidão  geral  na semana de fim de ano .  "   Todos os mosqueteiros balançaram a cabeça afirmativamente , quando   D ´Artagnan  voltou  à  sua explanação : "  Pois bem , daqui a  40  dias  teremos  um grande feriado , o maior de todos :  a semana  de Natal , sempre colada  nas festas de passagem do ano .  E , como neste  ano o  Natal cai  numa terça-feira teremos  praticamente a  junção  de dois grandes feriados .  Tem-se aí  um momento mágico em que as estradas param ,  os postos policiais fecham  por completo seus postos logo depois que acham que todo o tráfego  vazou  para seu  destino  final .  Companheiros ,   a  polícia também para , recolhe-se  a seus lares .  E não só no Brasil .  Tudo  para  nos dois lados da fronteira .  Para todos que estão nesta  aventura  o  final  do ano  é a hora .   O dia é este :  o primeiro do ano . "

Porthos aproveitou para levantar uma dúvida :  " Pensei , pensei  e  percebi ,  D ´Artagnan , que não precisamos  de que  exista um  duplo furto .  Ora ,  se  a nossa  fé  aponta para que o dito  de "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão "   seja  suficiente - pelo menos quanto ao tempo  necessário para uma ampla anistia  divina  ; e ,  considerando-se  os  obstáculos  que teríamos  ao ter que esperar que Pituca  faça  o seu  desapossamento ; para , aí sim ,  aliviarmos  o  gauchão  ;  digo com certeza que não vale a pena o risco originado  nesse  duplo perdão .  Diante disto eu peço a  Democrática para que seja resolvido este incidente :  se  poderemos  promover um alívio simples  , mesmo que com isto só tenhamos a garantia de tão somente  cem anos de perdão ,  não existe motivos lógicos ou religiosos  para  que o risco  se multiplique .  Ou  , então ,  se for da vontade do Grupo , esperemos  que Pituca  furte  os dólares , para - depois dele  delinquir -  aí sim  aliviar  o Paulo  Becerra  . "

D ´Artagnan   pediu que , pela ordem , ele  esclarecesse : "  Muito bem , Porthos .  Já vi que nosso convívio tem  feito  sua cabeça se abrir  aos clássicos  .  Você tem razão !   O que Pituca faria seria um furto ;  isto mesmo ,  o estancieiro  não dispõe de status  filosófico  , ou mesmo religioso , que todos nós  ,  Os Novos Mosqueteiros , dispomos .   Tudo porque nós , qualquer um dos  Novos Mosqueteiros , nada têm  de acumulação ,  real  ou pecuniária .  Inexiste , para Pituca , qualquer possibilidade do perdão divino . Isto  nem de longe vale para Pituca .   Ele é um grande proprietário de terras ;  e  , o que para nós será  um aliviar de excessos de realizações , para ele seria  mais uma  acumulação  ampliadora de realizações .  Parabéns , Athos !   E eu espero que  Aramis  e Quita  estejam  abrindo suas consciências para o fato de que não nos interessa  ser igual aos outros acumuladores insaciáveis . O que queremos é a nossa parte nas  apropriações de bens naturais embolsados ao longo das eras ,  das  gerações .  "

Desta vez , Quita foi a única pessoa que não demonstrou  segurança no balançar  a cabeça afirmativamente . Mesmo assim , balançou-a .

Foi quando   D ´Artagnan  completou :  "  Por mim , eu  - por mais que isto  nos custasse  -  consumaria  compulsoriamente o duplo alívio .   Por mais que nos custasse ,  deixaria que  Pituca furtasse os Capa-Pretas  para  só então  aliviá-lo ;  para  com isto garantir  uma  anistia celestial  de duzentos anos .  Mas  eu não vou quebrar a jura que fiz : submeto-me à Democrática . "

Foi quando D ´ Artagnan completou : " Companheira Quita ... você lembra o que seria a  Democrática ? "

Quita , que todos os dias lia o Guia dos Novos Mosqueteiros  que tão bem escondia nos seus guardados,  não titubeou  . Trazia  na ponta da língua  a definição do  Manual  elaborado  por  D ´  Artagnan : "  A Democrática  é  o pedido oficial posto por um dos  Mosqueteiros de que a vexata quaestio seja  colocada  em  votação aberta . "

D ´ Artagnan  não se conteve :  " Para concluir ,  companheira Quita : e o que viria a ser vexata quaestio ? "

Quita :  " Vexata quaestio , para nós , os  Novos Mosqueteiros , é  uma  como  chamamos  as questões   sumamente intrincadas ."

D ´Artagnan :  " Parabéns Mosqueteiro Quita !    Vamos à  Democrática ... "

D ´ Artagnan  :  " Mosqueteiro  Quita  ,  em que tu votas ,  no duplo  perdão , que nos garantiria duzentos anos de indulto  divino ,  ou  no  alívio  uno , representado  num só  passo aliviante ? "

Quita : "  Concordo com Athos . Nossas vidas não chegarão a  cem anos .  E , pelo que ouvi dizer , pelo menos no campo terreno , a penalização de alguém não pode ser transferida para a sua família . 'A  nossa descendência só   restaria  os bônus de  uma pequena montanha de dólares . "

D ´Artagnan : "  Submeto-me à vontade da maioria , mas devo esclarecer que quando pedi  a comprovação de dois roubos para a quantia almejada que será  aliviada,  eu me referia tão somente  aos  limites religiosos que a questão compreende ...    Aramis ,  qual o seu voto ?  "

Aramis :  " Mais do que ninguém , eu compreendo as preocupações político/ filosóficas/religiosas  do primeiro Mosqueteiro . Mas , como na profissão que abracei ,  devo ser prática :  não vale a pena a relação custo/benefício de termos que correr o risco de dois alívios seguidos ,  não vale a pena .  Voto com o Mosqueteiro Athos . "

Assim , democraticamente , foi decidido que somente um alívio era suficiente para livrar  os Mosqueteiros dos  desdobramentos terrestres  esperáveis  . E ,  por que não ?  com o rigor lógico  adotado desde o início por D ´Artagnan ,  que também os impedia moralmente de correr riscos de estarem perpetrando  algum furto .  Algum roubo .

D´Artagnan foi complacente ao calar-se para a questão relativa à eternidade das almas no tempo posterior ao Juízo Final .  Até D ´Artagnan  convenceu-se que seria um excesso abrir mais uma discussão para , nela ,  discutir  o tempo ulterior ao dia do Juízo Final . E , imediatamente , bateu o martelo .








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