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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

95- Julietinha e o oficial do vapor - Final B

A palavra foi dada ao Mosqueteiro Athos , que não decepcionou quanto as espectativas dos demais evolucionários. " Estimada Aramis . Tão firme é a união entre nós , que até chegamos a esquecer do gênero que nossos codinomes representam na literatura universal . Você mesmo , Aramis , recebeu - aqui em nossa confraria - um nome masculino , Aramis . Mas - confesso com muito prazer - tornou-se para mim o mais belo nome que uma mulher pode ter. Desde que abracei esta causa , a de recuperar para nós , pessoas comuns , pobres e antes sem perspectivas pessoais - eu mesmo sou um professor , e ensinar crianças no nosso país é sinônimo de quase indigência - eu mesmo , repito , percebi - logo que fui convocado por D ´Artagnan - que a minha única chance de viver num futuro de dignidade seria buscar no dinheiro dos corruptos que construiram Brasilia , os que vinham desovar os seus ERP s qui na nossa vizinha , a República Oriental . Sim , buscar a nossa parte aliviando-os do dinheiro que apropriaram-se ilicitamente , para não dizer criminosamente . Mas mesmo usando todo o meu esforço na obtenção do sucesso do nosso plano , confesso que eu desde o começo olhei a irmã de armas de um modo que , tanta era a atração inexplicável , não poucas vezes geravam em mim uma quase ruptura da realidade ; prá pegá-la em meus braços e perder-me nos encantos que tu possuis . Mesmo , sendo um Mosqueteiro da primeira hora , digo-lhes que não tive suficiente coragem para dizer-te , como digo agora ... eu te amo , Aramis . Te amo desde o momento que meus olhos tiveram a alegria de pousar nos seus , no seu corpo , nos seus cabelos . Mas see não fui eu quem teve a coragem de primeiro pedir-te em casamento , mesmo assim eu te digo agora , renovo o convite a mim feito : Aramis , queres entregar-te aos meus cuidados , casar-se comigo - ainda que isto va´ acontecer no teu Uruguay ? Quanto a mim , eu estou maravihado com o teu convite , Aramis . E , se tambem renovares o "sim" tenho certeza que farei de ti a mulher mais feliz no mundo . "

quinta-feira, 25 de julho de 2013

74 - Julieitnha e o Oficial do vapor - Final B

Dois planos seguiam a um só tempo : o de Pituca ,  e o dos Novos Mosqueteiros .  O plano de Paulo Becerra tinha duas pessoas infiltradas nele :  os mosqueteiros Quita ,  e  Aramis .  Quanto à Aramis , Pituca entendeu que ela , sendo  pessoa da maior importância para o furto que planejava ,  ofereceu-lhe  a participação de  cem mil dólares ; quantia que foi imediatamente aceita pela rapariga .  Aramis raciocinou prontamente que se desse uma resposta  al tiro  , isto aumentaria a confiança de Pedro , incentivando-o para que falasse ainda mais de seus planos .



Julitetinha reclamou de Pedro por ele não ter contado que fora à Caçapava .  É que Pedro fora  àquela cidadezinha , segundo contou gora à Julietinha , para informar-se de certas incursões de espeleólogos que estavam explorando algumas grutas que haviam na cidade . 

Julietinha : " Mas por que não me dissestes ,  Pedro ? "  

Pedro :  "Na verdade no dia que eu fui lá tu estavas visitando o Pituca em Porto Alegre .  Ou melhor ,  fostes ajudar a Valéria nas compras , nos preparativos para o casamento .  Depois disto eu até cheguei a me esquecer de que tinha ido à Caçapava . " 

Foi verdade . Pedro também interessava-se por espeleologia , e foi à cidadezinha fazer um contato com os exploradores de cavernas .



D ´Artagnan , que estava sempre atento aos detalhes ,  achou que o fato  de Aramis  morar do lado de lá da fronteira ,  na República Oriental , isto  era  algo bem  importante para eles  todos.  Tudo porque no plano que começava a cristalizar-se em sua cabeça ;  Aramis  seria  a pessoa sobre a qual recairiam todas as suspeitas e ,  evadir-se de pronto para o país vizinho garantiria totalmente o seu total distanciamento do alívio que os Novos Mosqueteiros fariam  ante os acumuladores de realizações pecuniárias . Bastaria-lhes manter  Aramis  distante de tudo e de todos para que  todas as suspeitas morressem no nascedouro .



Valéria  confidenciou  à Quita que Pituca teria fraquejado na mútua decisão  de  ambos voltarem  ao estado de quase reconstrução das virgindades .  Ante ao argumento do noivo de que por faltar tão pouco tempo para as núpcias  terminada estaria  a necessidade de manterem  a  candura  , Valéria  agarrou-se  à promessa como um náufrago  a um salva-vidas :

" Se esperamos até aqui , se sofremos juntos as maiores tentações , por que haveremos de  quebrar a promessa de nos mantermos alvos como a  neve ,  limpos como águas  que descem das montanhas , claros  com as  luz das estrelas .  Não , amado Pituca ,  o que você quer , o que me pede , só terá depois do casamento ... e aí sim , serei toda tua ... e para sempre .  "

Pituca , que estava ajoelhado aos pés da amada , levantou-se e , sem despedir-se , caminhou  para o seu apartamento parecendo que estava  algo assim  meio  curvado .


sábado, 13 de julho de 2013

72 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B

Pituca  e Valeria  casariam-se  na cidade  em que  ela  nascera .  Decidiu-se  que , do lado de Paulo,   somente os  parentes , e  os amigos  mais íntimos  seriam convidados  . Meses atrás ,  Paulo Becerra fora  , com Julietinha ,  Pedro  e o filho ;  até a cidadezinha de  Dom Feliciano , que era a região onde instalara-se  a  Família Milczarek , originária de Malbork  , cidade polonesa  bem próxima da fronteira com a Rússia , tendo  esta vizinha  dominado  a região  por volta de 1890 ,  momento  em que o clã  familiar  imigrara para o Brasil . O motivo da visita  era o de Paulo de pedir Valeria em casamento . O  pai de Valéria disse à Pituca que nunca se conformara com a saída da filha de casa , para ir estudar na capital .  Mas não pode evitar a sua partida em razão de uma enchente de grandes proporções na região que lhe fez perder todas as plantações ,  tendo mesmo a água da chuva levado rio abaixo  as criações  de porcos , galinhas  e até mesmo gado leiteiro .  A mãe da moça emocionou-se  ao ouvir de Pituca que ele tinha grande honra em ingressar na família  Mielczarek , caso lhe aceitassem como genro .  É claro que o gaúcho da fronteira foi aceito ;  tendo  , inclusive , proposto uma data  do casório ,  e  bem próxima .  Foram servidas comidas ,  e doces  da tradição polaca que fizeram grande sucesso entre todos os  Becerra / Fagundes . Mas  Pituca  quase botou tudo a perder quando ,  em conversa apartada com o Sr. Milczarek ,  ofereceu ajuda em dinheiro para os gastos com as bodas ;  grosseria  considerada  humilhante pelo Senhor ;  mas Pituca  foi socorrido pela irmã  que afirmou  , em evidente  remendo ,  ser a oferta uma tradição na sua região de origem , argumento que - muito a contragosto - foi aceito pelo futuro sogro .  Foi quando Pituca tirou do bolso o anel de compromisso mandado fazer em joalheiro de sua família , dizendo  a todos que  as alianças foram forjadas de numa única pepita de ouro  com o propósito de que a união  fosse tão indissolúvel como aquele  ouro  guardado  nas  eras  passadas ,  unido ,  atado como ele queria que fosse seu casamento com Valéria .  À  mesa também  muitos licores ,  grapas , vinhos  e  cervejas ,  bebidas  feitas  ali mesmo  em Dom Fernando , pelas  mãos dos convidados  daquele jantar ,  quase todos tendo  algum grau de parentesco  com os Milczarek .

A única pessoa que parecia não respirar a alegria geral  era Pedro que , mesmo querendo  participar ,  fazendo força  para  alegrar-se  de verdade ,  mesmo assim  não conseguia  entregar-se  à festa como é sempre preciso  para que todos vibrem .  Julietinha ,  percebendo, disse-lhe : " Pedro , o que é que tu tens ? "         " Nada , nada ,  não é nada querida .  Estou com dúvidas num contrato de edição do meu livro e ,  ainda que eu não queira ,  isto tomou por um momento  o meu pensamento . Mas eu já melhorei ... "   Foi quando Pedro  levantou o  copo de grapa  num brinde  entoando belas palavras  de boa sorte ao casal  e longa vida a todos  presentes . "

sexta-feira, 31 de maio de 2013

57 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B .

Com seu pai gerenciando os negócios da família  e com Paulo longe das estâncias , sobrava tempo para o Pedro fazer o  que dava-lhe prazer :  escrever , pesquisar , estudar e  , além disto ,  viver os prazeres da lua de mel .

Pedro : " .... que bom que saiu das minhas costas  aquele  peso todo de não saber o porquê das poesias serem publicadas  sem mais nem menos  pelo Francisco Rosa . Só agora eu  sei que meus versos não foram furtados ;  eles saíram  daqui de Boca do Monte por esta traquitana inventada pelo Padre Landell de Moura , este tal de RPGS,  que  envia  para  locais distantes aquilo que for colocado no leitor do seu canhão  de feixes elétricos. "

Julietinha :" E eu que tanto esperei para que este dia chegasse ,  para que pudéssemos aproveitar a nossa mocidade , os prazeres que a juventude que pulsa em nós pudessem brindar-nos com estes momentos de amor intenso , paixão mesmo ... "

Pedro :  " Só que eu tenho que saber separar  o joio do trigo . Uma coisa é a alegria de ver que a minha vida ficou cada dia mais  tranquila ; só que a vida não é um mar de rosas .  O  centro do país  pulsa como nunca.  No Rio de Janeiro comunistas  assaltaram  a casa do  Adhemar de Barros levando o cofre com  20 milhões de  dólares.  Falei com o Luis  Doleiro  que  me disse que outros políticos corruptos estão com medo de também serem  desapropriados . Mas  ladrão que rouba  ladrão  tem  cem anos de perdão .    Eu não sei porque , mas acho que isto ainda vai  acabar  nesta  fronteira com a República Oriental ..."

Julietinha :  " Mas enquanto esta dinheirama não aparece para ocupar todos os teus neurônios em investigações e descobertas ; antes que  possas entrar em campo para investigar ... me dá um beijo  bem gostoso. "   - disse Julietinha ,  não sem  ao mesmo tempo apalpar carinhosamente as partes mais sensíveis do marido  .

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Julietinha e o oficial do vapor . 52 - FIM

"O que ela vem perguntando ?"   Disse o Primeiro Oficial à camareira .
 " O que ela quer mesmo saber é se o senhor é Gianpaolo  ou  Giancarlo . "

" Se é assim , conte a verdade , de novo . "

Tal diálogo , entre os dois tripulantes ,  não causaria surpresa alguma a quem porventura o escutasse  ( e, principalmente,   o  assistisse )  ,  não fosse um -  não mais do que um -   reticente piscar do olho esquerdo de Petrucci  .  Assim mesmo , tal   hipotético observador iria se perguntar  se aquela piscadela  (  - que , convenhamos -  tem a simbologia universal de  quem camufla uma mentiria  )  bem poderia ser um tique nervoso , como devem ter milhões de pessoas na face da Terra a piscar um olho só , ainda que mentiras não estejam querendo sugerir .


" Buon diorno Signora  Giulietinha .... Signora Giulietinha .... buon giorno ! "   ...  repetiu a camareira  para a  estancieira que dormitava ao sol  da  manhã ... "

" Olá Rafella , buon giorno para você  também ! "

" Eu tenho algo para dizer que talvez lhe interesse .... "

" O que é , Rafaella ...., porque este segredo todo ? "

" É que eu descobri qual dos dois  "  G "  é o Primeiro Oficial ? "

"Como é ?    Por Deus , diga logo o que você descobriu .... "

" Eu soube , com certeza , que o Oficial Petrucci  trata-se  de Giancarlo Petrucci . "

Com o coração aos pulos ,  a moça emudeceu , embora seus olhos se voltassem de maneira brusca para  todos os  diversos  pontos  cardeais das vistas .

" Você tem certeza do que me falou agora  ? "

"Tenho mais certeza de que se trata de Giancarlo  do que eu me chamo Rafaella . "

" Obrigada , muito obrigada Rafaella . Não deixe de dar uma passada na minha suite para eu agradecer-lhe ainda mais pelo que agora me dizes . "

" Não será preciso outro agradecimento sobre o que eu revelei  agora  ;  basta que eu venha a saber que  (   nem que tenha sido por um  só  momento  ) que  a senhora  chegou  a  ser  uma mulher verdadeiramente feliz ... "



Julietinha surpreendeu-se ao saber que o atalho por que a levara  ontem  ao  convés   passava pelos corredores das cabines dos tripulantes graduados .

Com o marido no salão de jogos  ,  a morena de Boca do Monte  , vestiu-se  - mais uma vez -  da maneira mais sensual que podia  compor-se   - só que de saltos  baixos -   e foi  para onde sabia   que  Giancarlo  estaria acomodado ;  sob  a  promessa  interior  de que  não  exitaria  em bater em sua porta

Uma surpresa  :  á  distância de  apenas um  passo do ninho do italiano  a porta abriu-se  antes dela  ali chegar  ,  não sendo necessário  diminuir-se  moralmente  por bater naquela porta .  Até  neste detalhe Gian fora um cavalheiro , deixando  claro que não era só ela  quem  esperava  ansiosamente por aquele momento.    Gian envolveu-a num abraço apertado , e ,  num piscar de olhos,  colocou-a  para dentro da cabine .

Desta vez nada de diferente  dos  encontros apaixonados em cabines apertadas , de trens ou navios al mare  e a paixão até então  recolhida  a  , digamos , tão  somente dentro de  seus  corações , explodiu  em carícias que , como disse um poeta ... foram infinitas enquanto duraram .

E duraram até às duas e meia  da madrugada , eis que o cassino fechava sempre às três.

O navio voltou à Barcelona . Foi quando Julietinha sugeriu à Pedro que tivesse  uma tarde sozinha  para comprar lembranças para as amigas , os parentes .  Ele  concordou , dizendo que queria conhecer bares de  comidas típicas da Catalunha .  E , como sempre , beber algumas copas de bom vinho .

Dentro da bela estancieira um prazer a mais . O de saber que o que acontecera tempos atrás , em que Gian não tinha chegado a penetrar nos sonhos de Julietinha ,  agora  tudo acontecera muito mais do que em  suas melhores expectativas .  Ocorre que  a jovem senhora não tinha por Giancarlo somente desejos  ardentes . Ela aprendera a admirá-lo como pessoa , talvez mais bonita por fora do que por dentro . E ela  saber agora que ele tinha recuperado totalmente a sua condição de homem , de amante completo - e não apenas distanciado dos atos de amor propriamente ditos -  trouxe para Julietinha uma calma que há muito tempo não conseguia ter.

Na verdade o que Julietinha fez foi procurar uma igreja  que tivesse a luzinha vermelha acesa , aquelas que identificam  a presença de um confessor .  E a encontrou .  Ajoelhou-se  e , com a confiança das
verdadeiras  católicas   contou tudo ao padre ;  dizendo também  que estava certa de que o que tinha feito não chegava a ser  um pecado ;  abrindo  toda a história trazida na ponta da língua : de que o tempo entre ela e Giancarlo  fora  (  infelizmente para seu marido )   al revés  .  Mas que - apesar da ressalva -   ela e Giancarlo tinham direito pleno - pelo menos por uma única vez -  de se  acostarem , como de fato  aconteceu  .  Sim ,  se fossem à bíblia , se procurassem nos arquivos secretos do Vaticano , lá haveria de estar registrado pelo menos um precedente de que uma entrega naquelas circunstâncias extremas não poderia ser capitulada de pecado .

Foi quando o confessor - com  um evidente sotaque italiano - falou-lhe com uma tranquilidade própria dos monges ....

" Quem  pede perdão sou eu , Senhora Julietinha .... "

" Santo  Deus , como agora este Padre ,  falando este Espanhol capenga,  sabe o meu nome ? "   ( pensou  a  signora ) .

Novamente  o padre interrompeu seus pensamentos :  " Perdão senhora , mas deve haver um engano nisto tudo ; o  que - pressinto  -   no cambiará  o  que eu , em nome de Deus , poderei fazer para aliviar a sua alma ...  pero  ,  eu é que sou  Giancarlo Petrucci  - il vero ! -   ,  aquele  que  -  logo depois de conhece-la naquelas  circunstâncias  -   ... retirou-se  para servir de forma integral ao Senhor.  Prego , Signora , pero  Giancarlo era el mio nombre  civile  , ahora  soy  Fratello  Francesco ...  " .

FIM


  N.d .  A  :   O verso  "que seja infinito enquanto dure "   é de Vinícius de Morais .

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Julietinha e o oficial do vapor -51

Pelo menos em seus  pensamentos noturnos  Julietinha já  resolvera  que se algo acontecesse entre ela e Giancarlo , fosse o que fosse ,   não seria propriamente uma quebra da promessa de fidelidade feita a Pedro no altar da igreja de Nossa Senhora  Auxiliadora  , em Boca do Monte .  Deus haveria de compreender que   o ocorrido teria sido  tão somente uma  acomodação do tempo  assim como os  ajustes  feitos de vez em quando até  pela própria Igreja .   Algo de que  os dois , ela e Gian ,  já  teriam  direito  adquirido e   recíproco ,   desde há muito tempo e ,  se ainda não  posto ,  fora  tão somente  por um detalhe  sem  tanta   importância , que agora , talvez daqui a pouco , já faria parte de um passado a esquecer  . Falhar  todos nós um dia falhamos ,  o que passou ....  passou .   O  direito de  se  encontrarem  afastava  qualquer outra jura que com  ele  conflitasse  com   a paixão ainda não  consumada   que  sobrevivera  , ainda que de  forma latente , como bulbos adormecidos no inverno gelado.

Era claro que tal  exceção  só valiam para paixões verdadeiramente antigas , eis que a desculpa carecia de uma posse distanciada.

Estes pensamentos tomavam seu cérebro , e tanto que  agora  não causavam mais  dúvidas .  Agora só faltava  um nada  para  que  os  destinos  os aproximassem  tanto  que os seus cheiros desaparecessem    tornando  impossível  a cada um de negar-se ao que  mais  ansiavam :   acariciar-se até que as mais  recônditas  fibras de seus corpos  penetrassem-lhes o quanto possível .

E a cada poesia que lia , que lembrava , ou  declamava para si própria , mais Julietinha  se convencia de que se o encontrasse , se se encantasse num estalido   perdidamente por Giancarlo , assim mesmo ,  traindo Pedro ela não  estaria  .

Eram umas onze  horas do penúltimo dia , o decimo quarto  , com  Pedro  de há muito no cassino ,  quando a cabine ficou pequena para ela .  Num salto levantou-se da cama  com os cabelos assim mesmo e buscou o caminho mais curto para o vento do convés,  do que agora precisava muito , mal sabendo que aquele atalho passava justo por outra cabine de alguém igualmente insone , igualmente aflito,    por  espera igualmente cruel .

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Julietinha e o oficial do vapor . 24

Julieitinha e Pedro viviam a felicidade dos  apaixonados .   Sabiam que ninguém na cidade , e muito menos Paulo , aprovaria aquela vontade intensa de estarem juntos , de se tocarem e até mesmo , de se cheirarem .  Foi quando Paulo recebeu uma carta anônima . Nela dizia , com poucas palavras , que a irmã e o amigo estavam se encontrando às escondidas numa casinha de cor verde , quase uma tapera ,  situada no Povo Novo , do lado esquerdo da igrejinha do João Turco.  Paulo sentiu-se logo traído por ambos ; mais  pela irmã porque ela não ouviu  seus conselhos de continuar tentando encontrar um partido de boa família , pertencente ao mesmo nível social que eles . Paulo achava que que era inaceitável  Julietinha  se entregar a uma pessoa da categoria de Pedro .   Bebeu  copos  de conhaque e quanto mais  a bebida  subia , mais ele pensava nas razões de , havendo tantas moças , tantas  mulheres prontas para casar na cidade ,   Pedro  ter  escolhido logo a sua Julinha , a irmã única que ele cuidava com tanta dedicação .  Claro ,  só podia ser pelo dinheiro  . Um pelado daqueles decidira o caminho  mais fácil  de  livrar-se da miséria :  fazer a corte para a moça,  já madura ,   de uma família bem posta ,  com fortuna originada em trabalho honesto ,  desimpedido de qualquer trampa ; dinheiro limpo que lhe estaria disponível no mesmo momento em que se  amarrasse  com ela .  Paulo não se conformava.  Foi  quando resolveu ir até o que pensava ser o  ninho de amor bastardo do casal.   Subiu  na  Caminhonete Chevrolet recém comprada com o dinheiro entrado pela venda  de uma  boiada carneada  no frigorífico construído pela associação dos estancieiros da região e exportada para a Europa ;  e foi para o Povo Novo .  Chegou e  ficou parado por um bom tempo nas proximidades da igreja do João Turco , mirando a pequeníssima casa verde , e logo  percebeu a possibilidade de que naquele momento o  casal estivesse por lá ,  " talvez  atados por largos momentos como fazem os cachorros " .
Na verdade , Julietinha e Pedro aproveitavam o aconchego das pequenas peças para cochilarem um nos braços do outro .  A felicidade apaixonada foi interrompida por batidas fortes na porta ,  o sobressalto  foi imediato . Como alguém poderia bater numa casa de moradores completamente desconhecidos para todo mundo ?   Paulo esticou o braço , já protegendo Julietinha . " Não te preocupes , fiques aí que eu vou atender "  .  Deve ser o cobrador do aluguel que deve ter vencido ontem , ou hoje .  Beijou rapidamente a mulher , vestiu a calça quando ouviu-se  novas batidas ainda mais ameaçadoras .  Pedro abriu a porta e viu Paulo  já  com o braço esticado , com o revólver há não mais do que meio metro do  seu peito :  Te prepares para morrer , canalha !   A distância era suficiente para que Pedro sentisse o cheiro de álcool   que a boca de Paulo exalava fortemente .  "Não faça isto ! "   gritou em vão Pedro .  O meio-pedido ,  a meia-advertência , não foram ouvidos pelo   já  naquele momento quase assassino ...  Paulo puxou o gatilho duas vezes .  Pá !  Pá !

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Julietinha e o oficial do navio - 15

Quarta-feira ,   Pedro bate na porta para a sessão de  colheita de informações do relato da viagem de Julietinha . Ela mesmo vem atender  .

- Pedro , entra ...

- Pedro , que trazia um ramo de  flores do campo  bem  variadas  sorriu  ... Dona Julietinha ... a senhora quer namorar comigo ?

Julietinha ficou séria :  " Tu não achas que é muito cedo " ?

" -  Muito cedo .....  eu estou esperando por este momento há  anos e tu  me  dizes  que é muito cedo ? "

- Por mim eu  daria  o sim  agora , mas antes tenho que falar com o meu irmão  ..

Pedro fechou o rosto ..... " - O que  teu  irmão tem a ver com nós dois ... ? "

"- É que moramos aqui ; desde que  meus pais partiram  o Paulo  assumiu a casa  .... tenho que falar com ele antes de te dar uma resposta "

"- Não Julietinha , não adiantes nada a ele ...  com o Paulo eu falo ... mas eu quero saber é de ti ... aceitas  ter-me como namorado  ? "

"- Não só aceito como sou a pessoa mais feliz  do mundo  por ouvir isto de teus lábios  , só que  quanto ao  Paulo , eu  te peço para que eu mesma fale com ele ...  no mais ,  tudo fica  como antes ...  tá bem ?

Entraram e passaram  à formalidade de sempre .

- Dona Julietinha , em que dia  o vapor aportou em Vigo ?

-  Foi no dia  27 de fevereiro .....

Conversavam  sobre o que agora pareciam  ser  generalidades até que Quita surgiu para perguntar se já poderia ir à feira  da praça do relógio ...

- Sim , Quita , deixei a lista de compras em cima da mesa da cozinha ...


Mal Quita batera a porta  Julietinha  abraçou Pedro com todas as suas forças ...

-  Sim , até que eu tentei  me aproximar de outras moças , mas você sempre aparecia   e  daí para frente nada mais dava certo ....

Ao  ouvir isto lágrimas  praticamente  saltaram  dos olhos  da moça ....  "  não repare ,   eu me contive lá fora ... mas ao ouvir isto ...é que comigo acontecia  o mesmo ,   deves ter percebido a forma que eu olhava para ti  ,   quando  nos aproximávamos  parece que tinhas um imã ao qual  eu tinha  que resistir muito , ainda bem que agora não preciso mais fugir de ti ...  .  desde cedo guris  vinham  conversar  , mas eles eram tão diferentes de ti , todos estancieiros , se bem que nós também somos  proprietários ...  mas é que  eles  desde  meninos  já  se  preocupam  com  o preço da  arroba do boi ...  essas  coisa daqui   .   Mas tu és diferente ... olhas  e falas  o que sempre eu quero ouvir ...  mas vamos mudar de assunto  , eu tenho tanto para  te perguntar ... fiquei preocupada quando contaram que tivestes que ir ao quartel  ... "

" - Sim , foram me buscar e me levaram até  lá  ..."

-  Mas o que eles perguntaram ?   eu nunca soube  que  tinhas  preferências neste assuntos ..

-  São meus escritos no jornal .... eu escrevi no natal uma crônica que eles não gostaram .... foi   A Ceia dos Vira-Latas ....."  ;   em  determinado momento o Bandeira  me perguntou ...  " tu  és  um  dos do contra , não és   ? "    .   Eu respondi ....  "não , e o senhor é ? "    " Ele chegou a levantar  a mão para me dar um tapa , mas o  Orlando segurou-a  já no ar .... "

"- Pedro , por que  responder assim ?     Tu sabes como eles estão .... por qualquer coisa  já  explodem , daí para à  perseguição aberta é um nada ."

.....

"  E  esta camisa  ?    vejo que a tua roupa  é nova ,  um misto do cheiro do corpo com  o do algodão recém    vestido ... "

" -  Consegui  receber  um dinheiro  e aproveitei para comprar duas camisas e mais umas roupas ... afinal  eu vinha te pedir em namoro .... "

" - Mas como estás bonito meu Pedro , ainda mais do que ontem   ...."


Passou um bom tempo ,  ditado  pela  intuição e generosidade de  Quita ,  até que  a porta se abriu .....

- Só não trouxe o mogango , Dona Julietinha   , não me pareceram  estar  bons ....

- Não faz mal Quita ,  espero que tenhas comprado  outra coisa para fazermos o doce ....

- Sim , comprei origones ...


Com Quita por ali  voltou a  conversa sobre a viagem , Pedro  agora fazia  perguntas com duplo sentido , maliciosas mesmo ( pensando que o italiano era mesmo impossibilitado a uma relação mais íntima )  ...

Até que  de repente parou tal assunto  e sua voz  demonstrava  tensão .   Contou  o  que acontecera com seu  caderno ... de suas conclusões sobre uma das suas melhores poesias terem sido publicadas por ninguém menos do que Chico Rosa ...   Julietinha preocupou-se muito .... logo ela que  tanto admirava o príncipe dos poetas .....

" De agora em diante eu preciso  manter um arquivo dos meus escritos em mãos confiáveis ... e quem melhor do que tu para guardá-los ....  ? "

" Sim podes deixar comigo ,   teu trabalho , para mim  valerá tanto como um tesouro ."

" Além disto , eu queria que me ouvisses sobre umas mudanças  acontecidas om o modo de eu escrever  ; é que antes eu  costumava redigir  uma passagem , um texto qualquer e depois sair fazendo aquilo que eu chamo  de catar pulgas ;   revisando-o  até  que ele  me contentasse  totalmente ... "

" Mas isto é assim com  todo mundo ... "

" Mas agora é  diferente .... Julietinha .   Tem determinados escritos que já me vêem prontos à cabeça   sendo inútil tentar melhorá-los .... nesses momentos, não em todos ,  escrevo  num impulso só  ...

Foi quando  chegou Paulo, o que ocasionou  as despedidas do jornalista ...  " eu já estava de saída ... " .

Paulo , que  nas conversas com amigos estancieiros sempre dizia que " o amor pode muito , mas o dinheiro pode tudo "   ,  a  cada  dia se  preocupava mais com aquela aproximação da irmã com um pelado , como  Pedro era  .




segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Julieitinha e o oficial do vapor - 12

Como em toda quarta-feira , Pedro chegou  .   Emagrecido pela vida que vinha levando , mesmo assim estava mais confiante do que nunca . A leitura do sub-título "Eunuco ou Hermafrodita ? "  foi o suficiente para que confiasse totalmente que Julietinha tinha-lhe sido fiel , ainda que por caminhos tortuosos .  Nem de longe Pedro duvidava que a sua cliente pudesse ter mesmo escapado das  temidas garras do italiano.

 Pedro ,  ainda que desconsiderasse que as aparências as vezes enganam , agora estava convencido que , apesar  de existirem tantos jovens e  belos  e disponíveis  italianos ,  franceses  ou  espanhóis  .... apesar  de estar  evidente que Julietinha  queria   novas  amizades  ...  ainda assim Pedro achava que o risco era somente  Giancarlo .  E , tendo como certo que Giancarlo gravitava entre ser  eunuco , ou então hermafrodita , Pedro sentiu-se senhor da situação .

A fixação do jornalista pela  grande proprietária de terras  era conhecida por muitos .  O  obstáculo para que  ele confessasse  o misto de  paixão e  amor era  a diferença  do dinheiro que cada um tinha .  Certa vez Pedro fez uma sondagem junto a Paulo para saber se ele - como chefe da casa , portanto detentor do  poder familiar -  aceitaria um marido pobre para a irmã .  Um amigo comum jogou um verde ...
fez uma pergunta que parecesse meio sem sentido :  e se a sua irmã quisesse casar com um pobre , você aceitaria ?   Paulo não vacilou : só com separação de bens .

O filho de Pituca Gomes  adotara  um tradicionalismo de lá de trás , do século dezoito,  quando começou  a ser formado o pensamento dos fazendeiros .   Dentre as questões fechadas estava  a repulsa  a caçadores de dotes ,  O que castrava Pedro era o  risco  de que o seu amor por Julietinha   fosse tomado por interesse à  grande  fortuna dos dois Gomes ,  Paulo e Julietinha  .

Julietinha era graduada em Ciências Humanas , com especialização em História .  Escrevera uma interessante tese acadêmica sobre o chamado ciclo do charque  que  determinou  conflitos , guerras mesmo , na região .

Julietinha ,  se não sabia em todos os detalhes ,  percebia  a fixação que Pedro tinha por ela , mas  sabia que Paulo desprezava todas as pessoas , ou mesmo famílias , que não conseguissem fazer fortuna .  Não foram poucas as vezes que a morena excitou-se ao pensar em Pedro ao ponto de quase ir procurá-lo para deixar  de lado qualquer limite .

E não foi apenas o  físico de Pedro - que era o que mais perturbava Julietinha  -  mas  a pessoa sensível  que ele era num  lugar em que os homens tinham como única alternativa a de impor-se pela dureza que  a distância de tudo impunha à sobrevivência.

Foi quando  ficou claro  que  a  melhor saída seria a  comum  aos ricaços ; que ,  quando  suas  filhas   não se contentavam com as alternativas naturais dos casamentos  arranjados dentro do círculo de estancieiros ,  despachavam-nas  para uma longa viagem pela  Europa  ; sendo certo , para  eles ,  que diante de tantas alternativas novas voltaria curada da recaída quase sempre ,  de  afeiçoar-se por proletários .

Com Julietinha a saída não resolveu o problema ;  que não chegava a ser dela , mas sim , de Paulo .

Com o fracasso da tentativa européia ,  eles estavam de novo ali ,  sentados  um a frente do outro ,  cada vez  mais  presos  às teias tecidas pelos outros .

A energia elétrica da cidadezinha era instável naquela quarta-feira em que , por compromissos diurnos , Pedro veio à noite .  Estavam sózinhos quando faltou a luz ;  os dois levantaram-se ao mesmo tempo e  se chocaram no escuro . Pedro  , que tinha as mãos a frente como que tentando buscar alguma lamparina ou lampião ainda que não soubesse se , e onde,  poderia encontrar tal socorro ,  na verdade encontrou o vestido  , o corpo de Julietinha e  foi impossível  evitar    que , primeiramente os dedos tateassem-na de forma cada vez mais intensa,  até que se abraçaram  como quem não pretende nunca mais se soltar . Foi Julietinha quem ficou na ponta dos pés para que sua boca colasse de forma absoluta na de Pedro com uma intensidade de quem quer recuperar uma joia rara perdida no mar .... mas  a luz voltou repentinamente , e pior , por duas vias :  Quita entrou na sala com um lampião a querosene na mão direita ,  ao mesmo tempo que a energia elétrica voltara , iluminando a sala como se o sol nascesse as nove horas da noite .  A mesma força que unira os dois na escuridão , repelia um corpo do outro parecendo que nenhum dos dois admitia que a  sociedade soubesse não só que se amavam ,  mas , principalmente , que  já era sabido que não poderiam jamais se aproximar .

Pedro virou o corpo para a janela , olhando a esmo e Julietinha disfarçou mostrando à Quita que , na verdade estaria sentada sozinha no sofá esperando que a luz voltasse .

Pedro  saiu , dando por terminada a sessão daquele dia  e , sem perceber ,  deixou cair  algo com  certa aparência de recentemente  escrito :  O que não conseguem os costumes sociais !  Apenas uma teia de aranha estendida sobre o vulcão , mas ele se contém .



domingo, 23 de setembro de 2012

Julietinha e o Oficial do vapor - Primeira parte .

Eu  naquela época  tinha cinco anos ,  e estas memórias estão entre as coisas mais remotas que tenho registrado na mente .   Paulo era um rico estancieiro ,  formado como advogado e  candidato invicto à  vereador : nunca conseguira  se eleger.  Tinha uma irmã  de nome Julietinha ,   no diminutivo mesmo , como não era incomum naqueles anos idos.  Se Paulo era um estancieiro e candidato a vereador encalhado , Julietinha  - por sua vez -  nunca conseguira casar .  Com meios, com dinheiro  para viajar  o quanto quizesse ,  Paulo  ofertou à irmã  uma  passagem de navio ( que chamavam  de  vapor )  para a Europa. Nestes casos , ao voltarem  da viagem ,  os ricaços  da época ,  como Julietinha  e Pulo Becerra  ,  botavam no jornal da cidade algo como "O diário de bordo" .  O  certo é que  Julietinha  chamou Pedro ( o primeiro ghost writer de que  ouvi falar ) -  para por no papel  as  suas aventuras européias  .   Pedro - além de pretender  conseguir com tal trabalho por os aluguéis atrasados em dia  também  comungava da  curiosidade da cidadezinha  que era a de  saber se Julietinha tinha  - enfim -  se  entregado aos jogos de Eros . Para poder publicar  o diário de bordo , Julietinha teria que se confessar à Pedro  .  Assim foi ...  ela  no começo falou ...  falou ...  mas  nada  de  contar  algo na direção ansiada ;  sobre  se  teria  se entregue  aos jogos de Eros  .   Pedro perguntava , sugeria ,  tentava  cercar Julietinha  , mas ela ... nada . Sem que Pedro soubesse o porque , num belo dia  ela começou  a tangenciar o assunto  por dizer que  " .... conheci o oficial "  .   Pedro aos poucos  descobriu  que se tratava  do  marujo  de patente  inferior  ao Comandante  do navio .  É que o jornalista  já  era   mestre no  ( para ele )   nascente gênero de fantasma escrevedor  ,  dando  corda : - fale  mais , Dona Julietinha ,  fale do tenente  .... do tenente  do navio  , como ele era Dona Julietinha .....

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