- Por que vosmecê não acabou de vez com minha raça ? Por que deixou para mim o fim do trabalho ?
- Prá começá , índio velho , tenho que dizer que te devo desculpas . Tudo porque vistes de perto a corcunda da foice nas costas , sentistes o bafo de sua boca , mas não te entregastes . Se bem que tivestes sorte , porque se me pegas mal dos bofes tinhas entregue a alma aos teus protetores naquele mesmo momento ...
- Quem cuida de minha alma é Padim Ciço ... o mesmo da de Lampião . Só que não acredito na tal da sorte que vosmecê me alude ... se o sinhô não sabia ... eu já recebi a paga pela sua vida ... e o sinhô tá aí , vivinho como antes de eu cruzá o seu caminho ... isso quer dizer o quê ?
- Já sei , já sei .... um de nós tem de se ir ... ; mas com as mesmas ganas que eu quis dar uma lição ao atrevimento , eu digo agora que te perdoei , e farei o que estiver ao meu alcance para que aproveites este changui que te dou para que deixes esta vida de pistoleiro de aluguel ...
- Dotô ... ninguém é assim tão dono do seu destino ... e minha história não começa em mim ... vem de familia ... do escravo Belarmino , agrilhoado que estava , cortou o próprio pé prá escapá do cativeiro .... e escapou .... voltando o capenga prá matá o seu dono ... . E matou . Desde lá nenhum dos Belarmino quebrou a palavra ... esse sou eu Dotô , o Severino dos Belarmino ... o Severino Belarmino .
- Mas não tá morto quem peleia , indio velho ! Eu proponho o seguinte : Não me custa tanto assim ir ao norte e procurar o teu mandante . Então te pergunto : E se eu me arreglar com ele , isto te libera deste desígnio de que um de nós dois tenha que ir desta para a melhor ?
- Neste caso , se meu patrão em pessoa me liberar da tarefa eu tô livre do mandado ...
- Pois tá feito o trato . Quanto à polícia, tu digas que és meu grande amigo , que entrastes já meio fora de hora no meu pátio ... que fostes confundido com ladrão ... mas que és amigo de verdade . Fica tranquilo que eles não perguntarão demasiado .
Poucos dias depois Paulo pegou o avião para Recife .