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segunda-feira, 10 de junho de 2013

60 Julietinha e o Oficial do vapor - final B .

Pedro não parava de pensar ...  o que  Paulo  quis lhe dizer quando  falou  que  "  para que as coisas permaneçam iguais , é preciso que tudo mude "  ?

Sim , pelo que Pedro sabia de Pituca , algo estava para acontecer .     Como numa fita gravada as palavras do cunhado voltavam-lhe à cabeça ...

"  Pedro  , quem poderia dizer que eu próprio , que  ajudei a  polir as pedras destas ruas com meus passos sempre diretos ,  sem  indecisões ,  hoje não tenho ânimo de trazer para a minha Boca do Monte a  mulher que escolhi  para a vida toda  ..."

"  Isto vai passar ...  a Valéria  - que hoje é rejeitada , vai cair nas graças de uns  e outros e com o tempo  tudo estará esquecido , ela  será aceita  e respeitada  como todas as  mães  de  família  bocamontenses  .... "

" Não Pedro ,  eu não posso permanecer  nesta pasmaceira .  Na verdade , estou pensando  em renunciar a isto tudo , aos que desviam o olhar quando passo ,  os  que  pelas pelas minhas  costas  dizerem .... la vai o guampudo  do Pituca ...  .   Cunhado  , eu vou tratar da  minha vida , olhar para frente , respirar  novos ares ... mudar a minha vida para continuar sendo feliz com a minha pipoquinha ,  a polaca que tanto me faz feliz .  E estejas certo que  não sairei daqui   com uma mão na frente outra atrás ....  Sei que a corrupção campeia lá no  planalto central .   É dinheiro  roubado da nação ,  e  - cá para nós -  ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão .... "

Deitados , Pedro  acariciava a mulher  ao mesmo tempo que perguntava     " ...    O que será que está  se passando pela cabeça do Pituca  ? "

"Meu querido marido , Pituca teve  demasiadas responsabilidades quando ainda era um  guri .... agora,   que já não precisa  ficar com tantas preocupações na cabeça , e com a cidade toda falando mal da sua Valéria ,  ele  dá asas a imaginação ... viaja mentalmente para outras plagas para as quais sonha poder levar a sua amada . "

" Só que o Pituca nunca foi de sonhar em vão .  Para mim , atrás destes falsos delírios ele tem um plano bem montado .... não é a primeira vez que ele diz que a corrupção amplia o poder dos burocratas a níveis nunca vistos .  Com estes argumentos , estas desculpas , ele  parece  criar  um álibi prévio  para  algum arte que tem em mente . "

"Pedro ... "   diz Julietinha       "  isto é próprio da nossa gente .... reclamar  ... gritar  ... o próprio   Sepé  Tiarajú  um dia gritou  do alto da coxilha para os invasores    .... "Esta Terra tem dono ! "  , e , no entanto ,  espanhóis e portugueses tomaram-na até a última légua  sem nada de mal acontecer-lhes ...    assim será com o Pituca ... vai reclamar muito , mas  voltará  com sua  amada para Boca do Monte mesmo  ....  e   tudo se acomodará ...  "







segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Julieitinha e o oficial do vapor - 12

Como em toda quarta-feira , Pedro chegou  .   Emagrecido pela vida que vinha levando , mesmo assim estava mais confiante do que nunca . A leitura do sub-título "Eunuco ou Hermafrodita ? "  foi o suficiente para que confiasse totalmente que Julietinha tinha-lhe sido fiel , ainda que por caminhos tortuosos .  Nem de longe Pedro duvidava que a sua cliente pudesse ter mesmo escapado das  temidas garras do italiano.

 Pedro ,  ainda que desconsiderasse que as aparências as vezes enganam , agora estava convencido que , apesar  de existirem tantos jovens e  belos  e disponíveis  italianos ,  franceses  ou  espanhóis  .... apesar  de estar  evidente que Julietinha  queria   novas  amizades  ...  ainda assim Pedro achava que o risco era somente  Giancarlo .  E , tendo como certo que Giancarlo gravitava entre ser  eunuco , ou então hermafrodita , Pedro sentiu-se senhor da situação .

A fixação do jornalista pela  grande proprietária de terras  era conhecida por muitos .  O  obstáculo para que  ele confessasse  o misto de  paixão e  amor era  a diferença  do dinheiro que cada um tinha .  Certa vez Pedro fez uma sondagem junto a Paulo para saber se ele - como chefe da casa , portanto detentor do  poder familiar -  aceitaria um marido pobre para a irmã .  Um amigo comum jogou um verde ...
fez uma pergunta que parecesse meio sem sentido :  e se a sua irmã quisesse casar com um pobre , você aceitaria ?   Paulo não vacilou : só com separação de bens .

O filho de Pituca Gomes  adotara  um tradicionalismo de lá de trás , do século dezoito,  quando começou  a ser formado o pensamento dos fazendeiros .   Dentre as questões fechadas estava  a repulsa  a caçadores de dotes ,  O que castrava Pedro era o  risco  de que o seu amor por Julietinha   fosse tomado por interesse à  grande  fortuna dos dois Gomes ,  Paulo e Julietinha  .

Julietinha era graduada em Ciências Humanas , com especialização em História .  Escrevera uma interessante tese acadêmica sobre o chamado ciclo do charque  que  determinou  conflitos , guerras mesmo , na região .

Julietinha ,  se não sabia em todos os detalhes ,  percebia  a fixação que Pedro tinha por ela , mas  sabia que Paulo desprezava todas as pessoas , ou mesmo famílias , que não conseguissem fazer fortuna .  Não foram poucas as vezes que a morena excitou-se ao pensar em Pedro ao ponto de quase ir procurá-lo para deixar  de lado qualquer limite .

E não foi apenas o  físico de Pedro - que era o que mais perturbava Julietinha  -  mas  a pessoa sensível  que ele era num  lugar em que os homens tinham como única alternativa a de impor-se pela dureza que  a distância de tudo impunha à sobrevivência.

Foi quando  ficou claro  que  a  melhor saída seria a  comum  aos ricaços ; que ,  quando  suas  filhas   não se contentavam com as alternativas naturais dos casamentos  arranjados dentro do círculo de estancieiros ,  despachavam-nas  para uma longa viagem pela  Europa  ; sendo certo , para  eles ,  que diante de tantas alternativas novas voltaria curada da recaída quase sempre ,  de  afeiçoar-se por proletários .

Com Julietinha a saída não resolveu o problema ;  que não chegava a ser dela , mas sim , de Paulo .

Com o fracasso da tentativa européia ,  eles estavam de novo ali ,  sentados  um a frente do outro ,  cada vez  mais  presos  às teias tecidas pelos outros .

A energia elétrica da cidadezinha era instável naquela quarta-feira em que , por compromissos diurnos , Pedro veio à noite .  Estavam sózinhos quando faltou a luz ;  os dois levantaram-se ao mesmo tempo e  se chocaram no escuro . Pedro  , que tinha as mãos a frente como que tentando buscar alguma lamparina ou lampião ainda que não soubesse se , e onde,  poderia encontrar tal socorro ,  na verdade encontrou o vestido  , o corpo de Julietinha e  foi impossível  evitar    que , primeiramente os dedos tateassem-na de forma cada vez mais intensa,  até que se abraçaram  como quem não pretende nunca mais se soltar . Foi Julietinha quem ficou na ponta dos pés para que sua boca colasse de forma absoluta na de Pedro com uma intensidade de quem quer recuperar uma joia rara perdida no mar .... mas  a luz voltou repentinamente , e pior , por duas vias :  Quita entrou na sala com um lampião a querosene na mão direita ,  ao mesmo tempo que a energia elétrica voltara , iluminando a sala como se o sol nascesse as nove horas da noite .  A mesma força que unira os dois na escuridão , repelia um corpo do outro parecendo que nenhum dos dois admitia que a  sociedade soubesse não só que se amavam ,  mas , principalmente , que  já era sabido que não poderiam jamais se aproximar .

Pedro virou o corpo para a janela , olhando a esmo e Julietinha disfarçou mostrando à Quita que , na verdade estaria sentada sozinha no sofá esperando que a luz voltasse .

Pedro  saiu , dando por terminada a sessão daquele dia  e , sem perceber ,  deixou cair  algo com  certa aparência de recentemente  escrito :  O que não conseguem os costumes sociais !  Apenas uma teia de aranha estendida sobre o vulcão , mas ele se contém .



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