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domingo, 28 de julho de 2013

76 - Julietinha e o oficial do vapor - final B

D - Artagnan  , ao  voltarem  do almoço na reunião de Santa Maria ,  fez mais  uma  preleção aos Mosqueteiros  , o que ele chamava de  "base moral  para os atos de alívio "  .

" Não pensem  , Mosqueteiros , que  vocês serão os primeiros a porem em prática esta espécie de  obtenção de propriedade  numa de suas  formas de aquisição originária .  Não , muitos outros já o fizeram através dos séculos .  Daí eu ter que , agora , fazer uma distinção  entre  o que diz o aforismo " Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão "  e  o alívio que vamos em breves dias praticar.  Embora nos seus aspectos religiosos o  dito popular  sirva para uma expiação prévia de algo - o roubo -  defeso , eis que proibido pela  leis da Santa Madre Igreja ; por isto  é preciso diferenciar , separar mesmo ,  o joio do trigo . Companheiros , neste  balaio  , o  roubo é o joio  ;   mas  o trigo ...  o trigo  é o justo ,  é o  natural  alívio de excessos de realizações pecuniárias .   A propósito : um  exemplo recente , mas que já  se tornou um clássico , deu-se quando um dos mais grandes  maiorais  de Brasilia - agora mesmo , com a construção da nova capital  -  usou  daquilo que a gíria chama de  "laranja"  , para  ampliar suas realizações excessivas .
Tal  Maioral  (  por sinal , de graduação máxima na hierarquia  de tais peixes grandes )  tinha  um preposto ,  uma terceira pessoa de sua absoluta confiança ; repito : um laranja .  Sabe-se que o Maioral  recebeu um edifício  , de muitos andares ,  naquilo  que chama  de  "dação em pagamento" , só que de origem  corrupta . Ganhou  , como parte de pagamento de uma excessiva  realização pecuniária , um prédio numa das ruas mais valorizadas do Bairro de Ipanema ,  no Rio de Janeiro .   Mas como o nome do Maioral não podia aparecer  na  transação ,  pediu para o terceiro de sua confiança  receber como se fosse seu o imóvel ,  no que foi atendido pelo preposto sem maiores indagações . Tudo  sob o juramento tácito de  que o edifício ficasse às ordens do Maioral ,  inclusive para eventual transferência do domínio a quem ele mandasse .  E não é que o preposto morreu logo depois e , vindo um terceiro moço de recados  informar - a mando do Maioral -  à viúva que  ele queria que o imóvel fosse transferido a outro preposto .  Mas  a viúva respondeu que desconhecia qualquer acordo ou combinação de seu finado marido com quem quer que fosse ; e , que para todos os fins  , o imóvel pertencia ao marido ,  mas também a ela própria , eis que casados em regime de comunhão universal de bens .  É claro que o Maioral teve que comer com casca e tudo o fruto servido pela viúva . Pergunto-lhes , corajosos  Mosqueteiros : o que fez a viúva ?  Como pode ser classificado o ato praticado pela senhora ? "

Foi  Athos o primeiro a responder : " Ela  praticou  um alívio de excessos de realizações " .  O que foi confirmado pelos demais mosqueteiros com um balançar afirmativo  de cabeça  muito bem  explicitado .

"Certo , Mosqueteiro Athos !   a viúva  agiu como nós deveremos agir :  sem violência - eis que o uso da força bruta  descaracteriza o alívio , que  jamais pode ser confundido com qualquer outra forma de aquisição da propriedade .  Obter  propriedade  pela força  caracteriza o roubo .  Mas  consegui-la  - quando excessiva -  pelo alívio ,  aí  tem-se  - seguramente -  uma forma lícita de adquirir  o que foi  obtido  - aí sim - de forma  ilícita ,  criminosa  mesmo .  E , para concluir , pergunto : por que  o objeto dos alívios  tem que - antes - serem  tisnados pelo crime , pela ilicitude ?   "

D´Artagnan não demorou a  ,  ele próprio ,  responder :  " Porque também a obtenção da propriedade tem condicionantes a serem respeitadas . E se isto não acontecer de forma criteriosa ,  e - além disto  - ela  for excessiva ,   pode  ser  -  tranquilamente -  aliviada .  "   Concluiu  D ´Artagnan  sob  aplauso dos companheiros.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

52 - Julietinha e o Oficial do vapor - final B

Apesar de estar  resolvido  a  dar o sim para Zé Arataca ,  de aceitar  o encargo de proteger  a retirada  do  tesouro,  Paulo Becerra ainda  estudava as alternativas para - se possível -  ganhar ainda mais dinheiro .
Sim , queria cumprir o prazo  de 24 minutos dado pelo Arataca .  Mas que argumentos usar para ampliar a própria participação ?

Conferiu no relógio que 23 minutos se passaram , chamou o negociante e disse sem rodeios :

" Estou certo que sem a minha ajuda vocês sequer entrariam nos meus pagos .  Não é que seriam presos a meio caminho : seriam presos logo na fronteira dos barrigas-verdes .  E vou te ser franco ... eu já estou preparado , já tenho  aqui em Recife os 300 mil que me acertam de vez contigo .  Só que cada coisa em seu lugar , com o ouro estávamos falando de cerca de um milhão , e aqui  com o tesouro é coisa de muito maior valia .  Proponho :  te pago os 300 mil , mas quero  quarenta por cento do que tu vais ganhar nesta empreitada . Se não é melhor ficar fora disto . "

" Mas como vais ter certeza do quanto este Zé Arataca vai ganhar , o cabra da peste ? "

"  Na verdade eu te devo ; tanto que me mandastes aquele estafermo me matar .  Mas se me mentes sobre o quanto vais ganhar , e eu venho a descobrir , as coisas se invertem  e aí o credor serei eu .  Veja , Zé Arataca , a minha boa-fé  está evidente : eu tive o Severino  nas mãos ,  sequer gastar munição eu precisaria porque  ele esteve com o pescoço ao alcance da minha adaga . Mas eu poupei homem não por ele , mas para te mostrar que eu queria mesmo era te pagar .  Honrar a minha palavra .  Mas se as coisas se invertem se não pagares com a mesma moeda da sinceridade .... "

" Ó chente !  ,   não esqueça que  eu  tenho que passar cinco  estados além do teu .  É ter que distribuir dinheiro de boteco em boteco de beira de estrada por onde  vou passar  ....

" Tú não és burro não  Arataca ,    ... o mais difícil, o realmente brabo de fazer  é passar a fronteira com a República Oriental ...  e  só eu posso  resolver a parada ... "

" Gaucho ,  ocê  bem sabe que eu não sou homi  de papa na língua .  Pois então eu digo que ocê nada tem a ver com o quanto eu vou ganhar ,  ou deixar de ganhar .  Como eu te falei ... é pegar ou largar ...

" Pois se é assim , eu aceito ! "    Disse Pedro mirando o infinito , como se naquele momento fosse inoculado por um pensamento  ainda longínquo , muito distante mesmo .          "   Vou  pegar  a criança na entrada da metade Sul , em Santa Maria mais exatamente  ,  e entrego ela  ,  sã e salva ,  em  Rivera ,  a quem tú  indicares ... . "

Paulo  Becerra  sabia  que podia  afirmar com  absoluta  segurança  que teria sucesso  total  na empreita  porque do ponto que  assumiria   o encargo  até  a República Oriental ,  Pituca  só  seguiria   por estradinhas de terra  quase abandonadas que vão de  São Gabriel ,  passam por Rosário do Sul  e , enfim , chegam à  Santana  ...  - sempre cortando arame , como ele dizia -    por onde só passavam  carretas ,  boiadas ...  até que entraria ,   no  país vizinho ,   por uma de suas próprias estâncias ; por terras de sua - de Paulo Becerra !  -   lugares  onde  a única  mensão  a indicar  a troca de pais  era um marco fincado aqui e outro a quilômetros de distância .

Mesmo sem perceber ,  Pituca sorriu levemente ...

Ainda com  o rosto  quase  emocionado  apertou  firmemente  a mão do  Zé Arataca .   " Fechado  , Indio maula ! "
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