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terça-feira, 17 de junho de 2014

O premio - 35

A chegada ao hotel era sempre tensa. Parava primeiro a uns cinquenta metros da porta do Bakfickan e, encostado na parede, dava uma olhada geral. Depois parava a cerca de vinte metros para uma nova olhada, sempre em busca de que alguém da Imigração estivesse por ali, de campana. O motivo das paradas era evidente: se desconfiasse de algo, desapareceria. Dessa vez não foi preciso. Quando chegou à porta de entrada, mas ainda com o corpo do lado de fora do edifício, deu uma mirada geral no lobby do hotel. Até ali, tudo bem; entrou sem que nada de anormal tivesse acontecido . 

Seu medo seria exagerado  ?  " Em verdade , não ! " 
Ele sabia que aquele quase auto-terrorismo  acontecia com os cucarachas, nos Estados Unidos ; com os worms  pelo Reino Unido afora; enfim, em cada país um título mais depreciativo. Ainda que no caso dele se tratasse de uma especialidade, porque a sua intenção não era a de vir ganhar dinheiro trabalhando na Suécia .
A possibilidade dele tirar emprego de um sueco era nenhuma. O que queria é "descobrir", no mais amplo sentido do termo os muito segredos do Nobel.  Mesmo assim, tinha suficiente juízo para saber que Imigração nenhuma, dentre todas elas, haveria de distinguir um viajante do outro .     

Foi quando o telefone tocou  justamente quando ia  para o banheiro.  Nunca alguém tinha-lhe chamado ao telefone do hotel , desde que viera para o Bakfickan.  E isto não era bom.

" Alô ! , o que é ? "

" Mr. Brzil, aqui embaixo tem um senhor que deseja falar-lhe ... "

"  De que se trata ? "

" Ele diz que sua visita refere-se às talares ... "

O nome "Talares" não chegava a ser estranho para Brzil. Deveria ser um lugar com denominação sueca ? " - passou a dar voltas ao próprio  cérebro, como num acelerador de partículas ...  "  Talares , meu Deus ... o que é isto ? ...  logo agora que tudo  ia tão bem  .... sim, Talares deve ser o nome do local, da prisão para onde levam os que são apreendidos pela Imigração. Não, certamente não seria bem uma prisão ; lembrou . É que os ali detidos não chegavam a ser acusados de um delito, de um crime propriamente dito. Na Austrália também era  assim.  " Bateram à porta do quartinho no Kings Cross e levaram-me a força. Sem algemas, mas a força, para a Villa Wood. Sim, Talares é a Villa Wood daqui !   Menos mal que não chegaram a  incluir o meu nome  na lista negra de pessoas devolvidas compulsoriamente a seus países  . "

Se na Austrália aquela  experiência foi válida ,  em razão dele ainda estar na casa dos vinte ;  na Suécia era diferente. Aqui, ele tinha uma missão determinada que, concluída, faria com que ele voltasse para o Brasil;  só que, pelos sentimentos de agora, não era mais sensível um vínculo firme com o país onde nascera; porque quem assume uma causa perde as raízes em nome de um sucesso incerto .  O marchar por uma indicação, um dedo apontado para um lugar que não se sabe onde vai dar.  Lembrou de Antônio Machado " Caminhante , os caminhos não existem , os caminhos se fazem ao caminhar. "  Era assim que estava se sentido .  Certamente seguindo para um caminho novo , e sem retorno possível . 

"Talares ... o que vem a ser  talares ... ?   Eu não sei do  que este senhor está falando ..."    Pensou Brzil .  " Mas desconfio  que  coisa boa não é ".  Continuou o brasileiro .

" Ele disse agora que  é um alfaiate ; que veio tirar as medidas das vestes talares . As sua medidas para as vestes talares ,  Sr.  Alencar ! " Respondeu o porteiro . 

" Mas Sr. Nielsen , pergunte-lhe o que vêm a ser as tais vestes talares .  Eu desconheço qualquer necessidade de que eu precise de alguma vestimenta  especial  . Muito menos das  "vestes talares"  oferecidas por tal senhor . "

" Senhor ,  fique tranquilo .  Mesmo assim pergunto-lhe : não seria melhor que o senhor descesse até aqui para  falar  com ele   pessoalmente  ...? "

Saiu do elevador e viu o homem que o esperava. Estava certo de que iria encontrar de novo o Humphrey  Bogart, mas enganou-se .  Era um senhor com calças e colete cinzas que usava  uma almofadinha encimando uma pulseira de metal no pulso, à qual estavam espetados diversos alfinetes. Era baixinho para a altura  média dos suecos;  calvo em cima da cabeça , mas com cabelos  na  altura das têmporas, com óculos de armação inglesa, dourada .

"Senhor, venho a pedido do Dr. Björn B . Eu sou o alfaiate dele , e também faço as vestes talares de muitas pessoas que vão fazer sustentação oral  na Academia de Ciências: defender as suas teses  em  plenário. O Dr. Björn  pediu que lhe avisasse que os custos de tal encomenda serão assumidos pela Academia . Que o senhor não  se preocupasse com essa parte ; mas que,  sem as vestes talares o senhor não será recebido pela Comissão  . "

Brzil escorou-se na guarda da lareira  e  - mesmo com diversas pessoas a olhar-lhe -  respirou tão profundamente quanto foi  possível respirar naquelas circunstâncias  ...

" Tudo bem , vamos subir para a tomada das  minhas  medidas ... "

 



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