A chegada ao hotel era sempre tensa. Parava primeiro a uns cinquenta metros da porta do Bakfickan e, encostado na parede, dava uma olhada geral. Depois parava a cerca de vinte metros para uma nova olhada, sempre em busca de que alguém da Imigração estivesse por ali, de campana. O motivo das paradas era evidente: se desconfiasse de algo, desapareceria. Dessa vez não foi preciso. Quando chegou à porta de entrada, mas ainda com o corpo do lado de fora do edifício, deu uma mirada geral no lobby do hotel. Até ali, tudo bem; entrou sem que nada de anormal tivesse acontecido .
Seu medo seria exagerado ? " Em verdade , não ! "
Ele sabia que aquele quase auto-terrorismo acontecia com os cucarachas, nos Estados Unidos ; com os worms pelo Reino Unido afora; enfim, em cada país um título mais depreciativo. Ainda que no caso dele se tratasse de uma especialidade, porque a sua intenção não era a de vir ganhar dinheiro trabalhando na Suécia .
A possibilidade dele tirar emprego de um sueco era nenhuma. O que queria é "descobrir", no mais amplo sentido do termo os muito segredos do Nobel. Mesmo assim, tinha suficiente juízo para saber que Imigração nenhuma, dentre todas elas, haveria de distinguir um viajante do outro .
Foi quando o telefone tocou justamente quando ia para o banheiro. Nunca alguém tinha-lhe chamado ao telefone do hotel , desde que viera para o Bakfickan. E isto não era bom.
" Alô ! , o que é ? "
" Mr. Brzil, aqui embaixo tem um senhor que deseja falar-lhe ... "
" De que se trata ? "
" Ele diz que sua visita refere-se às talares ... "
O nome "Talares" não chegava a ser estranho para Brzil. Deveria ser um lugar com denominação sueca ? " - passou a dar voltas ao próprio cérebro, como num acelerador de partículas ... " Talares , meu Deus ... o que é isto ? ... logo agora que tudo ia tão bem .... sim, Talares deve ser o nome do local, da prisão para onde levam os que são apreendidos pela Imigração. Não, certamente não seria bem uma prisão ; lembrou . É que os ali detidos não chegavam a ser acusados de um delito, de um crime propriamente dito. Na Austrália também era assim. " Bateram à porta do quartinho no Kings Cross e levaram-me a força. Sem algemas, mas a força, para a Villa Wood. Sim, Talares é a Villa Wood daqui ! Menos mal que não chegaram a incluir o meu nome na lista negra de pessoas devolvidas compulsoriamente a seus países . "
Se na Austrália aquela experiência foi válida , em razão dele ainda estar na casa dos vinte ; na Suécia era diferente. Aqui, ele tinha uma missão determinada que, concluída, faria com que ele voltasse para o Brasil; só que, pelos sentimentos de agora, não era mais sensível um vínculo firme com o país onde nascera; porque quem assume uma causa perde as raízes em nome de um sucesso incerto . O marchar por uma indicação, um dedo apontado para um lugar que não se sabe onde vai dar. Lembrou de Antônio Machado " Caminhante , os caminhos não existem , os caminhos se fazem ao caminhar. " Era assim que estava se sentido . Certamente seguindo para um caminho novo , e sem retorno possível .
"Talares ... o que vem a ser talares ... ? Eu não sei do que este senhor está falando ..." Pensou Brzil . " Mas desconfio que coisa boa não é ". Continuou o brasileiro .
" Ele disse agora que é um alfaiate ; que veio tirar as medidas das vestes talares . As sua medidas para as vestes talares , Sr. Alencar ! " Respondeu o porteiro .
" Mas Sr. Nielsen , pergunte-lhe o que vêm a ser as tais vestes talares . Eu desconheço qualquer necessidade de que eu precise de alguma vestimenta especial . Muito menos das "vestes talares" oferecidas por tal senhor . "
" Senhor , fique tranquilo . Mesmo assim pergunto-lhe : não seria melhor que o senhor descesse até aqui para falar com ele pessoalmente ...? "
Saiu do elevador e viu o homem que o esperava. Estava certo de que iria encontrar de novo o Humphrey Bogart, mas enganou-se . Era um senhor com calças e colete cinzas que usava uma almofadinha encimando uma pulseira de metal no pulso, à qual estavam espetados diversos alfinetes. Era baixinho para a altura média dos suecos; calvo em cima da cabeça , mas com cabelos na altura das têmporas, com óculos de armação inglesa, dourada .
"Senhor, venho a pedido do Dr. Björn B . Eu sou o alfaiate dele , e também faço as vestes talares de muitas pessoas que vão fazer sustentação oral na Academia de Ciências: defender as suas teses em plenário. O Dr. Björn pediu que lhe avisasse que os custos de tal encomenda serão assumidos pela Academia . Que o senhor não se preocupasse com essa parte ; mas que, sem as vestes talares o senhor não será recebido pela Comissão . "
Brzil escorou-se na guarda da lareira e - mesmo com diversas pessoas a olhar-lhe - respirou tão profundamente quanto foi possível respirar naquelas circunstâncias ...
" Tudo bem , vamos subir para a tomada das minhas medidas ... "
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Marcadores
abriram
acariciavam-se
acaso
Adhemar
África
ajoelhar-se
alcance
Alegrete.
alemão
alma
Almerinda
amizades
amor
anônima
antítese
apartamento
apresentação
Aramis
arataca
Argentina
argumentos
arranjado
asas
Athos
atracar
atrevimento
Austrália
autor
aviso
aziaga
balzaquiana
banco
bandido
Banho
barrigas-verdes
Becerra
Becerras
Bicicleta
bienvenidos
binóculo
biógrafo
blusa
Boca de Ouro
Boca do Monte
Bóldedalma
Boleto
bolso
borbotões
bordel
Brasília
Brown Cow Bank
bruxuleante
Bubi
cabaret
cabeça
cabelos
Caçapava
cachorro
cadeado
cadeia
calado
calça de baixo
cama
campeia
canalha
capa-e-espada
capa-pretas
capital
capítulo 1
capítulo 12
capítulo 13
capítulo 14
capítulo 15
capítulo 16
capítulo 17
capítulo 18 A
capítulo 18 B
capítulo 19
capítulo 2
capítulo 20
capítulo 21
capítulo 22
capítulo 23
capítulo 24
capítulo 3
capítulo 4
capítulo 47
capítulo 48
capítulo 49
capítulo 5
capítulo 50
capítulo 51
capítulo 52
capítulo 53
capítulo 54
capítulo 55
capítulo 55 R2
capítulo 56
capítulo 57
capítulo 58
capítulo 59
capítulo 6
capítulo 60
capítulo 62
capítulo 63
capítulo 64
capítulo 65
capítulo 66
capítulo 67
capítulo 68
capítulo 69
capítulo 70
capítulo 71
capítulo 72
capítulo 73
capítulo 74
capítulo 75
capítulo 76
capítulo 77
capítulo 78
capítulo 79
capítulo 80
capítulo 81
capítulo 82
capítulo 94
capítulo 95
capítulo 96
capítulo 97
carancho
Carlão
Carlos Gardel
Carmem
casamento
casariam-se
castrava
Caverá
cerveja
cervejaria
champanhe
Chatô
chefatura de polícia
cidadezinha
ciências humanas
classe
Claudia Cardinalle
Colcabamba
Com Chaveco
complacente
comportadamente
confidenciou
confraria
confusão
consumaria
Coração
corazón
corredor
Correio do Norte
crise.
Curunilha
cusco
D ´Artagnan
D´Artagnan
D´Orsay
datilografia
declama
dedicação
democraticamente
desculpa
desembarque
destino
determinar
detetive
Deus
devastação
diário de bordo
dinheirama
dinheiro
Dionísio
Dirceu
disfarçou
Dona Almerinda
Dona Flora
Dona Julietinha
Dona Marica
Dotô
Doutor
Elizabeth Taylor
Emagrecido
embolsar
empreitada
Encargo
enganando
enrodilharam
equívoco
Ernesto
ERP
esbaforida
escolha
escritos
escuridão
espalhar
esquerdo
estafermo
estância
estancieiro
este blog
estudos
Eunuco ou Hermafrodita?
Europa
evidente
F100
fazendeiros
fechadura
Federal
ficção
filosófico
fim
final B
fineza
fita
flores
fofocas
fortuna
Fortunas
frigorificação
fronteira
fronteiriço
furgão
futuro
galena
gaudério
Gauguin
gente
ghost writer
Gian
Giancarlo
Giancarlo Petrucci
gran- puta
grávida
gritando
Gualter
Guapos da Fronteira
guarda-chuva
Guilain
guri
herança
hipotesis
História
honra
horizonte
Hulha
imaginação
independentes
índio maula
intensamente
internacionales
interrupção
Ipanema
irmandade
italiano
J. Proudhon
Joaquim
jogos de Eros
Jorge Luis Borges
jornalista
José Amaral
Judas
Julietinha
junção
ladrão
Lagoa da música
lágrimas
Lampião
lembrar
Leonel
liberação
lições
Lisboa
literária
Livro
lógica
lolitas
Londres
Lotto
Lua de Mel
madrugada
madura
mafiosos
Maranhão
marido
Mastroiani
matador
Mecenas
Mediterrâneo
memórias
menino
Mercedes
mesa
Milczarek
missão
moça
moças
molestado
molhados
monastério
Mosqueteira
Mosqueteiro
mosqueteiros
mulher
mundo
naba
Namorada
namorado
navio
negócio
nosotros
novo-rico
novos mosqueteiros
NRBZ
nudez
O Cruzeiro
Oficial
oficial italiano
Old Parr
olvidastes
Oriental
Pá
pagos
paixão
palavra
Paniagua
Paraguai.
parente
Paris
pastor
patrimônio
Paulo
Paulo Becerra
pecuniárias
Pedro
pentear
pernambucano
perseguição
Pio XII
Pipoquinha
pistoleiro
Pituca
plagas
plata
platônica
Polaquinha
polaquinha.
portão
Porthos
Porto Alegre
português
Portunhol
povo assassino.
prazo
Prendoca
primeira
Professor Pery
promessa
propriedade
pulgas
Pulo Becerra
Punta del Leste
quadradinha
quebra-cabeças
quéra
Quita
raça
raros
rataca
Recife
relógio
remessas
Renguiá
República Oriental
reunião
Rio
Rio de Janeiro
Rio Grande
roleta
Roma
RPGS
Rússia
Salustiano
San Martin
Santa Maria
Sapiran
segredos
segurança
Sem Chaveco
Serra
sessões
Seu Salim
Severino
Sevilha
silêncio
Silvério
sonhar
Sul
Taquarembó
Tchê
te amo
tenente
teorias
tesouro
Thaiti
Toscana
traído
trampa
tranquila
transposto
travesseiro
Três Mosqueteiros
única
urdida
urso-panda
Uruguay
Valéria
Vaticano
Velho Testamento
verdade
vereador
viagem
Vigo
Vinícius de Morais
Vinicius Gullar
Violão
Vira-Latas
vitória
Zé Manél
Nenhum comentário:
Postar um comentário