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domingo, 8 de junho de 2014

O premio . 22

Seu tempo de permanência na Escandinávia expirou . A partir de agora, Brzil era clandestino na Suécia. Nem Johan, tampouco Björn B, poderiam avaliar aquela sensação de, a qualquer momento, poder ser preso e deportado; e sem ter conseguido realizar o sonho. Lembrou que, pelo menos por hipótese, se  acontecesse dele ser preso , bastaria ligar para sua amiga Silvia e pedir ajuda. Ela intercederia, talvez  resolvendo tudo em minutos. Ou mesmo, pedir à Björn B que "quebrasse o galho" ; que  falasse com alguém importante  para fazer que o policial  da Imigração deixasse-o  em paz . O problema , para tanto,  era  recorrente :  Brzil jurou que passaria ao largo dos "jeitos"; que ele pensava ser só de brasileiros. Não foi por pouco que, antes de viajar para a Suécia, fizera retiro espiritual de uma semana no Zu- Lai . Tudo para reforçar dentro de si a determinação de  não vir a cair na tentação dos atalhos ante as leis; boas ou más, certas ou erradas, mas vigentes. Se o Nobel viesse; se o Nobel fosse  dado  a um brasileiro, haveria de ser limpo, sem lobbys, sem  jeitinhos. "Sim, o meu Nobel haverá de ser o mais justo de todos os Prêmios Nobel até então concedidos.", pensou. Não seria tão somente um Prêmio Nobel, haveria de ser a redenção de seu país  ante o preconceito de tantos quantos diziam  que ele não era sério.  Por isso, por não admitir jeitinhos, Brzil tinha que passar por aquilo, chegar agora ao Santa-Fé como alguém que não fosse propriamente um habitante daquele prédio; como veio a saber, um  tradicional reduto de imigrantes ilegais.

Brzil olhou para as proximidades do portão do Santa Fé e viu um homem parado bem perto do poste de luz. Vestia um capote cinza e chapéu de feltro;  "um Humphrey Bogart viking  !! " pensou. Olhou de novo , e ainda uma vez mais. Concluiu; mesmo sem ver-lhe a cara, por estar com a gola do capote levantada, que aquele era ninguém menos do que o oficial da Imigração que lhe procurara no Grande Hotel. Tudo porque nos grupos de imigrantes ilegais como os do Santa Fé sempre têm dedo-duros; os tais espíritos de porco que denunciam anonimamente  para a imigração seus vizinhos de quarto, até mesmo seus próprios conterrâneos. E com ele não fora diferente: "caguetaram-me ! " , pensou lentamente. Mas pouco depois reagiu:  "Não, tudo menos a paranoia. Eu não posso ficar assim, sempre em estado de terror da Imigração. Até porque  eu nem cheguei a ver a cara dele. Além disto, este cara pode estar  aí, duro de frio; embora a sua dureza também possa ser de tesão, de tanto esperar a amante com quem daria uma rapidinha naqueles  velhos randez-vouz de paredes encardidas nos edifícios de quinta categoria do centro de Estocolmo  ...  é claro que pode  nem ser o fiscal da Imigração ...  "

Brzil criou coragem, foi quando dirigiu-se à porta, virou a chave e subiu rapidamente as escadas até o seu quarto no terceiro andar. Já com o coração desacelerando apertou o botão que fez a mola soltar a cama que ficava junto da parede e assentar no chão.  Atirou-se nela e pensou:  " Acalme-se  Brzil ...    por que entrar em  paranoias se as coisas estão dando tão certo ? "   Ainda deitado, pensou em Brugges ... sim, que linda fora a viagem à Brugges,  comera chocolates, tomara cerveja com batatas fritas,  andou de barquinho pelos canais ... tudo imaginário  .... é que, quando sobrava  tempo, ele viajava pelo Google, visitando lugares, para ele, de verdade.  Lugares  que sempre quisera  conhecer. Foi interrompido por alguém que batia à porta. Certamente era  Everardo, o uruguaio, que olhara a luz por debaixo da porta, querendo saber das novidades . 

Levantou-se da cama e  abriu  a  porta sem sequer  olhar  no  visor ... a única visita que recebia de vez em quando era a de Everardo. Não era. O coração disparou de novo quando viu saltar  da fresta  da porta  a imagem da  mão  com a carteirinha de policial  sendo-lhe ostensivamente mostrada. Sim, enganara-se.  Não era Everardo. Era o Oficial da Imigração da Suécia .

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