domingo, 13 de julho de 2014
O premio - 48
" Doutor Robben , a que vem tão gentil oferta ? "
" Já que insiste , vamos lá . Por diversas pessoas fui informado que você está perplexo com o fato do Brasil nunca ter ganhado um só Prêmio Nobel ... "
" Perplexidade já não tenho mais. Perplexidade é um sentimento fugaz. Ninguém fica perplexo por anos a fio. E eu estou nisto há anos, Dr. Robben. Perplexidades a parte, o que preciso agora é saber o motivo de um país com a inteligência , e a criatividade existentes no Brasil , nunca ter recebido o prêmio. Este é o ponto: saber o motivo de sermos os Nobel-less do planeta "
Foi quando ambos passaram a rir mais e mais . Tudo aquilo por Ildefoso ter acabado de criar uma nova expressão idiomática que sintetizava a percepção dos brasileiros pelo esquecimento dos suecos e dos noruegueses: " Nobel-less". Os "sem- Nobel ". Os que não têm direito à honrarias. Em meio às risadas - sendo que as de Robben eram para valer, mas as de Brzil no máximo cautelosas , os novos amigos aproveitaram para - com mais um brinde - festejar o encontro. Com o álcool fazendo com que anfitrião abrisse o bico sobre o que sabia do Nobel. No começo de maneira comedida, para logo depois abrir-se de vez .
"Não quero ser precipitado, mas posso garantir que tenho meios de melhorar, e muito, as chances de determinadas candidaturas ao Nobel. Mesmo assim, ressalvo que não posso saber com exatidão quais sejam os motivos de um determinado país, qualquer um, jamais ter ganhado o prêmio. Sinceramente, acho que isto é impossível de se descobrir. Mas, seguindo caminhos óbvios, posso esclarecer este assunto por outros meios : o de que a alguém seja dada a possibilidade de influenciar no processo - e disto tenho certeza - é claro que, até por mera objeção, os que não dispõem de qualquer tipo de influência pró ficam para trás. Permita-me explicar : é assim como um barco receber vento forte e na direção certa , com os demais permanecendo na calmaria . Mas, repito , que essa conclusão nasce somente da minha lógica, eis que - objetivamente - eu jamais soube que se tenha feito, de uma forma direta e oficializada, algo para impedir que "a" ou "b" fossem os escolhidos."
"No caso brasileiro, só restam duas alternativas ao juri do Nobel: Ou os juízes são desinformados; ou, comem milho na mão de pessoas influentes." Disse Ildefonso quase perdendo a calma de que tanto precisava naquele momento.
Mas , aos poucos , Brzil chegava onde queria :
"Dr. Robben, sejamos diretos. Se o senhor quer dinheiro para fazer lobby para o meu país, desde já adianto-lhe que o trabalho que faço é solitário, independente e carente de quaisquer recursos econômicos. Dá-se por minha conta e risco. E mais; não disponho de verba de representação, ou qualquer outra, tenha o título que tiver."
Embora essas afirmações pareçam desinteressadas; o certo é que com elas Brzil quis incentivar Robben a falar mais sobre o tipo de influência que ele tinha quanto às premiações. Com elas
Brzil fez questão de limitar sua impossibilidade de contratar o lobby, somente por não ter dinheiro para pagar. Todavia, deixou a porta aberta para Robben oferecer seus serviços a leite de pato .
Tudo porque já tinha conhecimento de que alguns premiados foram beneficiados por determinado tipo de amizades, que no fundo consistiam no que é denominado comumente de "lobby" .
O que Robben não sabia é que Ildefonso já desconfiava de que aquela forma de aparelhamento do colegiado (que era feita de graça e em prol de amigos do lobista, ou de amigos dos seus amigos ) , de alguma forma já fazia parte da tradição.
E o empresário holandês foi em frente :
" Como, Sr. De Alencar; como uma pessoa com a fortuna que eu honestamente amealhei poderia solicitar alguma recompensa financeira de você, meu novo amigo; você que - ainda que eu possa estar enganado - evidencia ser uma pessoa de poucos recursos financeiros ? Sinto muito, mas o que o senhor está mencionando não é lógico, nem pode parecer verdadeiro. "
Pelas contas de Brzil, o holandês engolira o anzol. E ele sabia que tinha que aproveitar o momento, dando ainda mais linha ao peixe .
Foi quando Ildefonso aprofundou seus ataques contra às peças de Robben: " Confesso que não entendi. Se não é por dinheiro, então por qual motivo o senhor poderia gastar seu precioso tempo com as articulações da premiação ?
"É que vocês, latinos sul-americanos, desconhecem algo que muitas vezes tem mais valor do que a própria grana. É a amizade, o desejo de fazer que as pessoas do meu próprio clã sejam-me gratas para sempre. Depois que se conquista certa grandeza de valores fungíveis, daquilo que vocês no Brasil chamam de grana; deste ponto em diante a moeda é outra. Trata-se de valorizar aqueles que elegeram-se mutuamente amigos. Estruturar uma sociedade de pessoas que pensam igualmente. Viver-se dentro dos limites possíveis que o termo "sociedade" possa atingir. E é isto que estou agora oferecendo-lhe: que faça parte do meu rol de amigos. Esteja certo de que tal oferta é algo de valor inestimável. Lembro agora de quando aluguei uma plataforma à Petrobrás escutei um provérbio bem brasileiro, que reconhece o valor de uma verdadeira amizade: "Mais vale amigo na praça do que dinheiro na Caixa". O certo é que quando eu simpatizo com uma pessoa chego as raias de fazer-lhe o bem até mesmo à sua revelia. Certa vez um amigo explicou que estava decepcionado pelo seu trabalho não ter sido agraciado. Ao dizer das possibilidades do lobby que eu poderia incrementar em seu favor o cara respondeu que não queria ser premiado em razão de uma intervenção externa à organização do Nobel. Mesmo assim, foi premiado no ano seguinte ! Pois bem, a oferta que lhe faço agora; de que nós sejamos verdadeiramente amigos, nasceu das notícias a mim contadas pela Srta. Kari Kristiensen; - que, por sua vez foi informada pelo Doutor Björn B. Foram eles que perceberam os seus méritos, Brzil; e a lealdade que tem à sua causa. Foi o que me garantiu que o senhor dispõe das virtudes necessárias para ser um dos meus amigos. "
" E por falar na Srta . Kari Kristiensen, ela parece que é a rocha mais alta dos fiordes noruegueses ... "
"Por detrás daquele distanciamento todo esconde-se uma personalidade muito sensível. Acredite, Kari é uma bela pessoa.
E ela sabe muito bem que existem muitas pessoas fissuradas por ter um Nobel. Posso garantir que esta fixação no prêmio não chega a ser um privilégio seu. Não fique pensando que é o único que encasquetou em querer um Prêmio Nobel para seu país. Ano após ano muitas são as pessoas que vêm aqui; todos com belíssimas folhas de trabalhos, belíssimas teses, mas certos de que somente a sua obra, somente o seu currículo, podem não ser suficientes para vencer a premiação . "
"Mas se são muitos, qual seria o escolhido para a sua atividade lobista ? "
"Brzil, creio que chegamos ao "point of no return"; minha experiência diz que você vai ser um dos nossos. Então, já o tenho como um irmão. Pois bem, saiba que eu mantenho um conselho particular de informantes graduados - a denominação correta é: " graduados plenos " - que, em havendo empate nos níveis de amizade, eles - os "graduados plenos" - auxiliam-me a escolher dentre os amigos, ou dos amigos dos amigos, quais estão mais aptos a receber os benefícios de nossa influência . "
Brzil continuava achando que era muito cedo para repelir a oferta de Robben. E jogou mais uma casca de banana .
"Perdão, estes "graduados plenos" funcionam como seus assessores , estou certo ? "
"É isto mesmo, os "graduados plenos" vêm a ser meus assessores diretos. E são eles, nos quais confio de forma absoluta, que vão me dizer qual a obra, dentre as que me são trazidas, que deve ser assumida por nós . "
" Pela experiência que tenho com estas situações , também acho que o senhor corre riscos de ser escutado por terceiros indesejados , de ter seus e.mails interceptados ... "
"Este risco não acontece comigo, Brzil . E não acontece porque - para tais assuntos - eu ainda estou na era pré -postal . "
" Ainda estou na era pré-postal ? "
"Explico: como você sabe, aqui na Escandinávia todos vão à saunas; banhos públicos onde as pessoas só entram despidas , tenham o sexo que tiverem. Foi por aí que re- entronizei o costume que chamo "boca no ouvido ". Ou seja: quando eu quero falar algo para um "graduado pleno" eu - simplesmente - marco uma reunião numa sauna, onde - evidentemente - ninguém pode trazer um gravador escondido, simplesmente por não ter onde esconde-lo. Ou seja: toda a comunicação é feita "boca ao ouvido" , inexistindo qualquer chance de que as orientações dadas aos meus assessores sejam gravadas para uma hipotética e futura comprovação."
"Bom, mas isto seria factível em Oslo, em seus arredores. Mas, nos tempos de hoje as pessoas estão em distâncias que não podem ser vencidas assim, facilmente ... é aí que entra a necessidade da telefonia, dos e.mails ... "
"Também pensei nisto. Estás vendo aquele helicóptero ali estacionado. Na época do Nobel trago-o em regime de alerta total, pronto para, a qualquer momento, partir para um lugar, da Escandinavia - região onde exerço meu trabalho solidário - em qualquer ponto onde as reuniões de sauna possam acontecer. Ou seja, quanto à comunicação , não só estamos numa era pré- Graham Bell; mas, também, numa era anterior ao correio postal propriamente dito, aquela do homem a cavalo anunciando sua passagem pela vila para entregar cartas escritas a mão. Brzil, nisto tudo, só existe comunicação oral, e ao vivo. Nem mesmo telefone feito com barbante e duas latas . "
Foi quando Robben deu mais uma boa gargalhada . Mas Ildefonso apenas sorriu .
"Sinceramente, jamais eu pensei que isto pudesse ainda estar acontecendo ... " Emendou. "Mas ainda tenho uma séria dúvida, Doutor Hansen: Parece-me evidente que, ao não dar conta de fazer você mesmo a avaliação pessoal - aquela que deveria ser feita pela sua própria pessoa - das muitas teses que participam dessa pré escolha, o senhor está transferindo para terceiros o poder real de tal, digamos esquema. Mesmo com os cuidados em não ser pego fazendo explicitamente seu lobby, mesmo assim estamos diante da possibilidade de que os seus "graduados plenos " venham a se corromper, eis que se o senhor não precisa mais de dinheiro , os " graduados plenos " certamente anseiam pelo vil metal . "
"Sobre isto, a minha opinião é que em todas as relações humanas chega-se a um ponto em que só nos resta confiar no outro - ainda que nem sempre o queiramos - em outras pessoas. Nem todos os cuidados do mundo podem evitar que - em algum momento - sejamos obrigados a confiar em outro ser humano. E eu, sabendo disto, faço sempre uma triagem ultra cuidadosa dos meus graduados plenos, além de promover reavaliações de rotina sobre como andam suas vidas. É o máximo que posso fazer. Mas fique tranquilo Brzil, em muito anos de atuação, nunca tive uma só traição. Pelo menos que viesse dos meus assessores de lobby. " E deu mais uma gargalhada..
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