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sexta-feira, 11 de julho de 2014

O premio - 47


Entrada do Instituto Norueguês do Premio Nobel da Paz - Em Oslo .  Foto tirada por  Ildefonso de Alencar .


A viagem de caminhão até Oslo correu tranquila. Os dois primeiros dias foram para conhecer a cidade. Quanto à reunião para a "Exposição de motivos sobre a falta da outorga do Prêmio Nobel da Paz para a Sra. Zilda Arns"  - este o título dado pela  Srta. Kari Kristiansen à audiência requerida por Brzil - ela foi marcada para  a terça-feira, às 4:00 p.m.  Na oportunidade, mas en passent, Brzil  também mencionaria outros nomes - como o dos Irmãos Villas Bôas; e também o nome do Marechal Rondon, que dizia  - contrariando o General Custer, por exemplo  -  que "morreria se preciso fosse; mas matar um índio, jamais ".         "E mesmo assim, nunca teve um Prêmio Nobel"  ... pensou o Ildefonso.  "  Sim, foram muitos os brasileiros; que foram desprezados ... "

Brzil, apesar de respeitar a premiação do Sr. Barack Obama,  perguntava-se ... ". E Dona Zilda Arns, que deixou  a vida cuidando de cidadãos haitianos no próprio território centro-americano , depois de ter entregue boa parte da sua existência em cuidados aos pobres brasileiros ... ? "

Aliás, até agora Brzil não sabia os motivos do prêmio da paz ser entregue à Barack Obama, no momento em que foi . " Este é um exemplo de que, quando a premiação vai para alguém menos merecedor do que outrem, nestes casos o Instituto do Nobel tem que reparar o que aconteceu por ação dos lobbys. " Refletiu Ildefonso .   

Às duas e meia saiu do hotel, que fica na Saint Olavs gate 26; e foi  andando no sentido oeste , do Instituto onde seria recebido. 

Muitas eram as dúvidas, as incertezas no seu espírito ; embora que respirar os novos ares da Noruega fizessem-lhe um bem enorme ; mesmo assim nunca esquecia de que - até agora - só conseguira confirmar os mesmos indícios com os quais desembarcara há meses na Escandinávia. De certo, de realidade mesmo, do que relativo  às  diversas linhas de investigação ... nada se confirmara   - além, é claro -  das desconfianças que há tanto lhe atormentavam.

Enquanto caminhava, os pensamentos borboleteavam na cabeça.  Passavam agora pela insegurança que sempre marcou a sua vida.

"se os nórdicos têm suas existências  protegidas pelo Estado; eu, como clandestino, fico  ao largo de quaisquer  regalias escandinavas."    " comigo é no osso do peito".  O que queria dizer-lhe , é  que tinha mesmo de suportar toda a carestia daqueles países somente com um sub-emprego no IFK Varnamo. Mas não se apavorava  ... tinha certeza que um dia a vitória chegaria para compensar  todos os sacrifícios que vinha enfrentando desde que saíra do Brasil.  " Quem sabe ... ? "

Chegou com meia hora de antecipação ao Instituto Norueguês para o Nobel da Paz, onde  tudo  já estava organizado para a audição. Foi recebido pela Srta. Kristiansen, e logo percebeu que o pessoal -  dentre eles os três Conselheiros que compunham a banca  do "The Norwigan Nobel Institute" -  foi-lhe bem  menos reverente do que o da Academia de Ciências da Suécia. E também menos atenciosos ;  no estrito sentido que o termo pode ter: o de alguém dedicar-se a perceber o outro .

Não só a Srta. Kari Kristiansen, mas também a própria Comissão, estiveram  sempre distantes, formais ... impessoais. 

Mas Brzil  não quis impressionar-se negativamente com isto. "Deve ser o jeito de ser deste pessoal do Instituto do Nobel da Paz. "

Mesmo assim desconfiou: " Pode ser que isto aqui seja  só para cumprir tabela".   Ildefonso usava o  "só para cumprir tabela"  para aqueles jogos de futebol de final de campeonato , quando nenhum dos times têm chance alguma de algo melhorar  na classificação final do campeonato ;  por isto,  os futebolistas jogavam sem qualquer empenho ou ambição futura e entravam no campo de jogo só pela honra da firma ; por serem filiados da Federação de Futebol.  "Só para cumprir a tabela", repetiu . 

Sim ,  a  palestra no Instituto do Nobel da Paz fora  marcada tão somente para cumprir a agenda solicitada por Björn B  à Senhorita Kristiansen.  Foi quando concluiu que aquele dia passou em branco para o seu plano: "a vinda à Noruega  foi em vão ..."

Mas logo depois arrependeu-se:  " ... não é bem assim ! Se um dos meus objetivos era poder gravar nas paredes do Instituto, com a voz do brasileiro que sou, a nossa irresignação  ... se assim eu fiz, Deus do céu; como posso dizer que este  dia foi perdido ?
Por isto tenho mais é que festejar  !  Festejar por ter dado mais um passo  !  "

Mesmo com a missão do dia cumprida, a  jornada reservaria emoções bem mais intensas .  É que algo estranho aconteceu .
Brzil, depois que saiu do prédio do Nobel da Paz , notou, pelo rabo do olho, que um homem seguia-lhe como se quisesse abordá-lo.

Apressou o passo, no que foi copiado pelo perseguidor , que ficou   lado a lado  com ele; mas quando já  estava  prestes a dar-lhe o bote Brzil decidiu surpreende-lo. 

"Pronto ! ; mesmo tendo chegado de caminhão à Oslo, ainda assim, a Imigração me achou. Égua, caralho ... , puta que pariu ...  !! ". Pensou, e repetiu;   - baixinho - mas aflito. O certo é que tais perorações Ildefonso só brandia em momentos extremos. E era o máximo a que se admitia. 

Não podendo andar mais rápido do que já fazia, Brzil estancou de repente; e num misto de medo e coragem gritou ameaçadoramente; mas em Português ? : "O que você quer comigo, seu filho da puta !"

Na mesma hora que falava, pensou: " Meu grito vai afugentá-lo, principalmente porque não deve falar uma só palavra de português."  

Já tivera experiência semelhante na Austrália quando, prestes a ser agredido por um maluco, gritou bem alto uma série de palavrões em Português, o que fez com que o seu quase agressor estancasse. Muito possivelmente pelo exotismo dos sons do português. O maluco deveria ter pensado: "este cara está prestes a me cravar uma faca ". E o deixou em paz.

Só que na Noruega enganou-se totalmente, porque o filho da puta não só compreendeu o que falava , como - também -  respondeu num Espanhol bem razoável: " Se o senhor quer mesmo ganhar um Prêmio Nobel para o Brasil , siga-me agora ! "

Tais palavras caíram como um raio na cabeça de Brzil. Mas o instinto de investigador vindo da leitura dos fascículos do Sherlock Holmes, falou mais alto. Ildefonso não recuou.  Pelo contrário, mudou completamente de ânimo,  passando a abrir um sorriso de zoreia a zoreia, como diziam seus velhos amigos: " É claro que eu quero o Nobel para o meu país ... mas como você descobriu isso ? "

O falso espanhol titubeou, mas o brasileiro não deixou a bola tocar no chão ... e  foi  para o tudo ou nada:  "A propósito, meu chapa; o que devo fazer para alcançar a honraria  ?  "

" basta que me sigas;  me acompanhando tudo estará resolvido para você. Se topar a parada, o seu país tropical abençoado por Deus agora vai ter um Prêmio Nobel  ... ! " 

"E esta agora ? " - pensou  Brzil ... ", ainda por cima o cara vem com versos de Jorge Ben ...  "país  tropical abençoado por Deus "   ... .  Bom ...   perdido por um, perdido por dez  ...  vou dar mais linha pro peixe  ... "    Continuou pensando.  

"  aonde você for eu vou ! " disse Brzil; com um sorriso aberto para o desconhecido. E assim foram , até chegar ao cais de Oslo .  


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