Era voz corrente na Academia de Ciências da Suécia que o brasileiro tinha um pé na canoa da realidade - representada pela boa atuação como técnico do juvenil do IFK Varnamo - mas o outro pé estava na canoa de um plano maluco: contestar frontalmente a Academia de Ciências da Suécia. Complicando, ainda mais, havia o fato de Brzil estar ilegal na Suécia; e, assim mesmo, não admitir que pedisse ajuda anormal a quem poderia - talvez - "resolver" o problema. Uma das piores consequências disso era não poder dispor de um cartão de crédito. Mais do que ninguém Björn sabia que nesta época é impossível viver sem aquele retângulo de plástico no bolso. Mas por admirar a determinação do brasileiro, Björn B admirava-o. E , por isso , queria aplainar seu caminho, limar as arestas que pudessem revelar-lhe abruptamente o auto-engano em que Bjorn achava que Brzil vivia. Foi por isto que Björn não revelou a verdade sobre quem pagaria as suas despesas a serem feitas em Oslo, levando-lhe a crer que seria a Academia Sueca de Ciências; mas, na verdade, o próprio Björn B é quem as pagaria .
Foi por querer que Brizl desse continuidade ao seu exótico plano que Björn concordou em encaminhar o brasileiro à sua amiga Kari Kristiansen, que trabalhava no The Norwegian Nobel Institute. Num longo telefonema explicou-lhe tudo o que acontecia. Disse-lhe que, apesar da excentricidade explicitada na tese de Brzil; assim mesmo ele conseguira que conselheiros da Academia de Ciências pelo menos ouvissem suas reclamações. Mas, deixou claro à norueguesa, que isto não deveria obriga-la a tolerar o brasileiro além do que poderia ser aceitável de uma reclamação feita por um cidadão norueguês. Que bastaria que ela percorresse o caminho lógico, ainda que - se possível - dentro da realidade possível para a percepção do brasileiro; talvez com palavras de quem trata com uma pessoa sem a objetividade própria dos nórdicos. E, talvez, imprópria aos sul-americanos. Para ser claro, Björn B concordava com muitos : ... " ele o Don Quixote do século vinte e um".
A própria Kari foi quem fez a reserva do hotel, o escolhido foi o Smarthotel, na Saint Olavs gate 26. Björn comprou a passagem aérea e mandou entregá-la para Brzil , mas sem que este soubesse a origem pagadora, naturalmente. Viajaria no dia 30 de Julho. E chamou Johan Svensson para perguntar quanto tinha sido o prêmio pago pelo IFK Varnamo. O rapaz respondeu que ampliaram a quantia para 60.000 coroas em reconhecimento ao esforço do brasileiro. Na verdade, pela promessa ela seria umas 58.000 coroas.
" Mas eles já entregaram o dinheiro ? " Perguntou o Björn .
" Sim , ele já recebeu . "
"Que bom. Brzil terá no bolso as suas 60.000 coroas, ganhas pelos seus mérito , para algum passeio que queira fazer em Oslo ... "
" Perdoe-me, Dr. Björn. Sou obrigado a informá-lo que Brzil ofereceu-me dez por cento do seu premio como recompensa pela ajuda que lhe prestei ... "
"Mas você já recebia um salário do clube; estou certo ? E mesmo assim aceitou participar no dinheiro dele ? "
" Não tive como recusar. A insistência foi grande. Ao final, eu não quis ofende-lo. "
Björn sacudiu a cabeça, em sinal de desaprovação do que ouvia, e despediu-se de Johan Svensson .
sábado, 21 de junho de 2014
quinta-feira, 19 de junho de 2014
O premio - 36
Björn chamou-o de novo à Academia . Dessa vez num horário incomum: às nove horas da manhã .
"- Assim como no tênis, " Björn sorriu levemente ao começar a dizer esta frase "... as personalidades que vêm à Academia defender suas ideias têm direito de, antes do combate, reconhecer o campo da luta. Este é o local em que você, Ildefonso, usará seus argumentos ... "
" Doutor Björn B ... "
Björn adiantou a mão aberta em direção à face de Brzil ... "Não ; agora não sou doutor. Sou seu amigo, Ildefonso. Aquele que aprendeu com suas quase intermináveis explicações, plenas de meandros, pelo menos para um sueco como eu; foi que entendi qual era o sentimento que ainda nutria por minha tia Ingrid B "
"Se é assim, se eu fui o instrumento para, de alguma forma, clarear a sua vida, eu saúdo a nossa nova amizade . "
Brzil sentiu que deveria quebrar aquele clima de quase confissão católica vinda do sueco: " Björn ... confesso que neste momento minha atenção voltou-se para algo que chega a ser pueril. Tudo por eu ser um observador atento aos relógios que as pessoas usam no pulso. Percebi, em antigas fotos, que Che Guevara usava um Rolex. Já Bin Laden sempre trazia um Casio de plástico preto . Mas vejo agora que você dispensou o magnífico Pathek Philippe que reluzia em seu pulso , substituído que foi por este de agora, que deve custar uns quarenta dólares, se tanto ... "
"Li os documentos que você trouxe à Academia. Todos eles, de uma forma ou de outra, ajudaram-me a diferenciar o que de fato seja importante. Um relógio só deve ter importância pela possibilidade de nos mostrar as horas com alguma exatidão. No final, um Pathek de cem mil euros, e um destes que trago agora, conseguem o mesmo resultado: medem igualmente o tempo. "
" Concordo com você , e isto me dá a esperança de conseguir da Academia a mesma compreensão . "
"Brzil ( confesso que não conseguirei chamá-lo pelo seu verdadeiro nome , que eu sei que é Ildefonso )
é sobre isto que eu quero falar-lhe. Meu aviso é para que você largue suas esperanças sobre a possibilidade de acontecer um milagre. Um milagre que - de uma forma ou outra - leve a Academia a explicar-se ; muito menos , a desculpar-se . Muitas críticas foram levantadas ao longo desses cem anos de concessão dos premios . Mas nosso norte , a permanente interpretação sobre a justeza de nossas escolhas é , obviamente , de que somos uma instituição privada , uma fundação . Veja que não chega a ser lógico que de um processo em que só existe uma vontade como determinante ( sim , porque a escolha e outorga do premio é um ato eminentemente unilateral ) surja uma reclamação tecnicamente possível , um ato positivo a ser logicamente contestado ; isto porque quaisquer fatos que emerjam desta Casa jamais chegarão a consistir um direito , ainda que subjetivamente possam ser tachados de injustos . "
" Agradeço por seus conselhos, principalmente porque não estava obrigado a prestá-los. Só isto já é comovente ; mas se queres uma resposta , eu te digo que elas não mudam em nada a minha determinação . "
"Disto estou certo. Mas desde já aviso: de nada valerão as suas intervenções. Você será ouvido, até mesmo solenemente, por diversos senhores embecados que, ao final, prometerão uma resposta formal. Uma semana depois receberá uma carta com palavras que tenderão ao desconexo. E tudo terminará assim . "
Antes de responder, no lapso de tempo em que seu cérebro organizava a resposta, Brzil lembrou que Björn dera ao final de sua fala a piscadela com o olho esquerdo, só que desta vez ela foi mais rápida do que antes. Também deu tempo para lembrar que, pelas suas análises anteriores, Björn só piscava daquele jeito quando aquilo que falava era - no fundo - algo favorável ao seu interlocutor. Mas tudo aquilo poderia ser, ou era mesmo, uma conjectura idiota da sua parte, pensou Brzil.
" Quanto a isto, Björn, eu diria que o futuro a Deus pertence .
A propósito, eu gostaria que o amigo me contasse como é feita a escolha do premio ? "
"Bom, milhares de pessoas são convidadas através de cartas para darem sugestões dos nomes que acreditam merecer o premio. As cartas são mandadas no mês de setembro, que servirão para a escolha da premiação do ano seguinte. Daí vem a lista dos indicados. Depois, entra-se numa espécie de cidadela de muros muito altos, que pretendem livrar quaisquer influências que possam interferir no julgamento. Em fevereiro encerra-se a fase de coleta de nomeações. O resultado deste filtro é uma lista finalizada. Daí vai sair o escolhido. No mês de agosto os conselheiros permanentes promovem mais uma análise dos pré-selecionados, para em outubro levarem uma relação para o escrutínio do Comitê do Nobel. Logo depois o eleito é apregoado. Já em dezembro acontece a cerimônia de entrega do premio. "
"Agradeço pela aula, Dr. Björn B . "
"- Assim como no tênis, " Björn sorriu levemente ao começar a dizer esta frase "... as personalidades que vêm à Academia defender suas ideias têm direito de, antes do combate, reconhecer o campo da luta. Este é o local em que você, Ildefonso, usará seus argumentos ... "
" Doutor Björn B ... "
Björn adiantou a mão aberta em direção à face de Brzil ... "Não ; agora não sou doutor. Sou seu amigo, Ildefonso. Aquele que aprendeu com suas quase intermináveis explicações, plenas de meandros, pelo menos para um sueco como eu; foi que entendi qual era o sentimento que ainda nutria por minha tia Ingrid B "
"Se é assim, se eu fui o instrumento para, de alguma forma, clarear a sua vida, eu saúdo a nossa nova amizade . "
Brzil sentiu que deveria quebrar aquele clima de quase confissão católica vinda do sueco: " Björn ... confesso que neste momento minha atenção voltou-se para algo que chega a ser pueril. Tudo por eu ser um observador atento aos relógios que as pessoas usam no pulso. Percebi, em antigas fotos, que Che Guevara usava um Rolex. Já Bin Laden sempre trazia um Casio de plástico preto . Mas vejo agora que você dispensou o magnífico Pathek Philippe que reluzia em seu pulso , substituído que foi por este de agora, que deve custar uns quarenta dólares, se tanto ... "
"Li os documentos que você trouxe à Academia. Todos eles, de uma forma ou de outra, ajudaram-me a diferenciar o que de fato seja importante. Um relógio só deve ter importância pela possibilidade de nos mostrar as horas com alguma exatidão. No final, um Pathek de cem mil euros, e um destes que trago agora, conseguem o mesmo resultado: medem igualmente o tempo. "
" Concordo com você , e isto me dá a esperança de conseguir da Academia a mesma compreensão . "
"Brzil ( confesso que não conseguirei chamá-lo pelo seu verdadeiro nome , que eu sei que é Ildefonso )
é sobre isto que eu quero falar-lhe. Meu aviso é para que você largue suas esperanças sobre a possibilidade de acontecer um milagre. Um milagre que - de uma forma ou outra - leve a Academia a explicar-se ; muito menos , a desculpar-se . Muitas críticas foram levantadas ao longo desses cem anos de concessão dos premios . Mas nosso norte , a permanente interpretação sobre a justeza de nossas escolhas é , obviamente , de que somos uma instituição privada , uma fundação . Veja que não chega a ser lógico que de um processo em que só existe uma vontade como determinante ( sim , porque a escolha e outorga do premio é um ato eminentemente unilateral ) surja uma reclamação tecnicamente possível , um ato positivo a ser logicamente contestado ; isto porque quaisquer fatos que emerjam desta Casa jamais chegarão a consistir um direito , ainda que subjetivamente possam ser tachados de injustos . "
" Agradeço por seus conselhos, principalmente porque não estava obrigado a prestá-los. Só isto já é comovente ; mas se queres uma resposta , eu te digo que elas não mudam em nada a minha determinação . "
"Disto estou certo. Mas desde já aviso: de nada valerão as suas intervenções. Você será ouvido, até mesmo solenemente, por diversos senhores embecados que, ao final, prometerão uma resposta formal. Uma semana depois receberá uma carta com palavras que tenderão ao desconexo. E tudo terminará assim . "
Antes de responder, no lapso de tempo em que seu cérebro organizava a resposta, Brzil lembrou que Björn dera ao final de sua fala a piscadela com o olho esquerdo, só que desta vez ela foi mais rápida do que antes. Também deu tempo para lembrar que, pelas suas análises anteriores, Björn só piscava daquele jeito quando aquilo que falava era - no fundo - algo favorável ao seu interlocutor. Mas tudo aquilo poderia ser, ou era mesmo, uma conjectura idiota da sua parte, pensou Brzil.
" Quanto a isto, Björn, eu diria que o futuro a Deus pertence .
A propósito, eu gostaria que o amigo me contasse como é feita a escolha do premio ? "
"Bom, milhares de pessoas são convidadas através de cartas para darem sugestões dos nomes que acreditam merecer o premio. As cartas são mandadas no mês de setembro, que servirão para a escolha da premiação do ano seguinte. Daí vem a lista dos indicados. Depois, entra-se numa espécie de cidadela de muros muito altos, que pretendem livrar quaisquer influências que possam interferir no julgamento. Em fevereiro encerra-se a fase de coleta de nomeações. O resultado deste filtro é uma lista finalizada. Daí vai sair o escolhido. No mês de agosto os conselheiros permanentes promovem mais uma análise dos pré-selecionados, para em outubro levarem uma relação para o escrutínio do Comitê do Nobel. Logo depois o eleito é apregoado. Já em dezembro acontece a cerimônia de entrega do premio. "
"Agradeço pela aula, Dr. Björn B . "
terça-feira, 17 de junho de 2014
O premio - 35
A chegada ao hotel era sempre tensa. Parava primeiro a uns cinquenta metros da porta do Bakfickan e, encostado na parede, dava uma olhada geral. Depois parava a cerca de vinte metros para uma nova olhada, sempre em busca de que alguém da Imigração estivesse por ali, de campana. O motivo das paradas era evidente: se desconfiasse de algo, desapareceria. Dessa vez não foi preciso. Quando chegou à porta de entrada, mas ainda com o corpo do lado de fora do edifício, deu uma mirada geral no lobby do hotel. Até ali, tudo bem; entrou sem que nada de anormal tivesse acontecido .
Seu medo seria exagerado ? " Em verdade , não ! "
Ele sabia que aquele quase auto-terrorismo acontecia com os cucarachas, nos Estados Unidos ; com os worms pelo Reino Unido afora; enfim, em cada país um título mais depreciativo. Ainda que no caso dele se tratasse de uma especialidade, porque a sua intenção não era a de vir ganhar dinheiro trabalhando na Suécia .
A possibilidade dele tirar emprego de um sueco era nenhuma. O que queria é "descobrir", no mais amplo sentido do termo os muito segredos do Nobel. Mesmo assim, tinha suficiente juízo para saber que Imigração nenhuma, dentre todas elas, haveria de distinguir um viajante do outro .
Foi quando o telefone tocou justamente quando ia para o banheiro. Nunca alguém tinha-lhe chamado ao telefone do hotel , desde que viera para o Bakfickan. E isto não era bom.
" Alô ! , o que é ? "
" Mr. Brzil, aqui embaixo tem um senhor que deseja falar-lhe ... "
" De que se trata ? "
" Ele diz que sua visita refere-se às talares ... "
O nome "Talares" não chegava a ser estranho para Brzil. Deveria ser um lugar com denominação sueca ? " - passou a dar voltas ao próprio cérebro, como num acelerador de partículas ... " Talares , meu Deus ... o que é isto ? ... logo agora que tudo ia tão bem .... sim, Talares deve ser o nome do local, da prisão para onde levam os que são apreendidos pela Imigração. Não, certamente não seria bem uma prisão ; lembrou . É que os ali detidos não chegavam a ser acusados de um delito, de um crime propriamente dito. Na Austrália também era assim. " Bateram à porta do quartinho no Kings Cross e levaram-me a força. Sem algemas, mas a força, para a Villa Wood. Sim, Talares é a Villa Wood daqui ! Menos mal que não chegaram a incluir o meu nome na lista negra de pessoas devolvidas compulsoriamente a seus países . "
Se na Austrália aquela experiência foi válida , em razão dele ainda estar na casa dos vinte ; na Suécia era diferente. Aqui, ele tinha uma missão determinada que, concluída, faria com que ele voltasse para o Brasil; só que, pelos sentimentos de agora, não era mais sensível um vínculo firme com o país onde nascera; porque quem assume uma causa perde as raízes em nome de um sucesso incerto . O marchar por uma indicação, um dedo apontado para um lugar que não se sabe onde vai dar. Lembrou de Antônio Machado " Caminhante , os caminhos não existem , os caminhos se fazem ao caminhar. " Era assim que estava se sentido . Certamente seguindo para um caminho novo , e sem retorno possível .
"Talares ... o que vem a ser talares ... ? Eu não sei do que este senhor está falando ..." Pensou Brzil . " Mas desconfio que coisa boa não é ". Continuou o brasileiro .
" Ele disse agora que é um alfaiate ; que veio tirar as medidas das vestes talares . As sua medidas para as vestes talares , Sr. Alencar ! " Respondeu o porteiro .
" Mas Sr. Nielsen , pergunte-lhe o que vêm a ser as tais vestes talares . Eu desconheço qualquer necessidade de que eu precise de alguma vestimenta especial . Muito menos das "vestes talares" oferecidas por tal senhor . "
" Senhor , fique tranquilo . Mesmo assim pergunto-lhe : não seria melhor que o senhor descesse até aqui para falar com ele pessoalmente ...? "
Saiu do elevador e viu o homem que o esperava. Estava certo de que iria encontrar de novo o Humphrey Bogart, mas enganou-se . Era um senhor com calças e colete cinzas que usava uma almofadinha encimando uma pulseira de metal no pulso, à qual estavam espetados diversos alfinetes. Era baixinho para a altura média dos suecos; calvo em cima da cabeça , mas com cabelos na altura das têmporas, com óculos de armação inglesa, dourada .
"Senhor, venho a pedido do Dr. Björn B . Eu sou o alfaiate dele , e também faço as vestes talares de muitas pessoas que vão fazer sustentação oral na Academia de Ciências: defender as suas teses em plenário. O Dr. Björn pediu que lhe avisasse que os custos de tal encomenda serão assumidos pela Academia . Que o senhor não se preocupasse com essa parte ; mas que, sem as vestes talares o senhor não será recebido pela Comissão . "
Brzil escorou-se na guarda da lareira e - mesmo com diversas pessoas a olhar-lhe - respirou tão profundamente quanto foi possível respirar naquelas circunstâncias ...
" Tudo bem , vamos subir para a tomada das minhas medidas ... "
Seu medo seria exagerado ? " Em verdade , não ! "
Ele sabia que aquele quase auto-terrorismo acontecia com os cucarachas, nos Estados Unidos ; com os worms pelo Reino Unido afora; enfim, em cada país um título mais depreciativo. Ainda que no caso dele se tratasse de uma especialidade, porque a sua intenção não era a de vir ganhar dinheiro trabalhando na Suécia .
A possibilidade dele tirar emprego de um sueco era nenhuma. O que queria é "descobrir", no mais amplo sentido do termo os muito segredos do Nobel. Mesmo assim, tinha suficiente juízo para saber que Imigração nenhuma, dentre todas elas, haveria de distinguir um viajante do outro .
Foi quando o telefone tocou justamente quando ia para o banheiro. Nunca alguém tinha-lhe chamado ao telefone do hotel , desde que viera para o Bakfickan. E isto não era bom.
" Alô ! , o que é ? "
" Mr. Brzil, aqui embaixo tem um senhor que deseja falar-lhe ... "
" De que se trata ? "
" Ele diz que sua visita refere-se às talares ... "
O nome "Talares" não chegava a ser estranho para Brzil. Deveria ser um lugar com denominação sueca ? " - passou a dar voltas ao próprio cérebro, como num acelerador de partículas ... " Talares , meu Deus ... o que é isto ? ... logo agora que tudo ia tão bem .... sim, Talares deve ser o nome do local, da prisão para onde levam os que são apreendidos pela Imigração. Não, certamente não seria bem uma prisão ; lembrou . É que os ali detidos não chegavam a ser acusados de um delito, de um crime propriamente dito. Na Austrália também era assim. " Bateram à porta do quartinho no Kings Cross e levaram-me a força. Sem algemas, mas a força, para a Villa Wood. Sim, Talares é a Villa Wood daqui ! Menos mal que não chegaram a incluir o meu nome na lista negra de pessoas devolvidas compulsoriamente a seus países . "
Se na Austrália aquela experiência foi válida , em razão dele ainda estar na casa dos vinte ; na Suécia era diferente. Aqui, ele tinha uma missão determinada que, concluída, faria com que ele voltasse para o Brasil; só que, pelos sentimentos de agora, não era mais sensível um vínculo firme com o país onde nascera; porque quem assume uma causa perde as raízes em nome de um sucesso incerto . O marchar por uma indicação, um dedo apontado para um lugar que não se sabe onde vai dar. Lembrou de Antônio Machado " Caminhante , os caminhos não existem , os caminhos se fazem ao caminhar. " Era assim que estava se sentido . Certamente seguindo para um caminho novo , e sem retorno possível .
"Talares ... o que vem a ser talares ... ? Eu não sei do que este senhor está falando ..." Pensou Brzil . " Mas desconfio que coisa boa não é ". Continuou o brasileiro .
" Ele disse agora que é um alfaiate ; que veio tirar as medidas das vestes talares . As sua medidas para as vestes talares , Sr. Alencar ! " Respondeu o porteiro .
" Mas Sr. Nielsen , pergunte-lhe o que vêm a ser as tais vestes talares . Eu desconheço qualquer necessidade de que eu precise de alguma vestimenta especial . Muito menos das "vestes talares" oferecidas por tal senhor . "
" Senhor , fique tranquilo . Mesmo assim pergunto-lhe : não seria melhor que o senhor descesse até aqui para falar com ele pessoalmente ...? "
Saiu do elevador e viu o homem que o esperava. Estava certo de que iria encontrar de novo o Humphrey Bogart, mas enganou-se . Era um senhor com calças e colete cinzas que usava uma almofadinha encimando uma pulseira de metal no pulso, à qual estavam espetados diversos alfinetes. Era baixinho para a altura média dos suecos; calvo em cima da cabeça , mas com cabelos na altura das têmporas, com óculos de armação inglesa, dourada .
"Senhor, venho a pedido do Dr. Björn B . Eu sou o alfaiate dele , e também faço as vestes talares de muitas pessoas que vão fazer sustentação oral na Academia de Ciências: defender as suas teses em plenário. O Dr. Björn pediu que lhe avisasse que os custos de tal encomenda serão assumidos pela Academia . Que o senhor não se preocupasse com essa parte ; mas que, sem as vestes talares o senhor não será recebido pela Comissão . "
Brzil escorou-se na guarda da lareira e - mesmo com diversas pessoas a olhar-lhe - respirou tão profundamente quanto foi possível respirar naquelas circunstâncias ...
" Tudo bem , vamos subir para a tomada das minhas medidas ... "
segunda-feira, 16 de junho de 2014
O premio - 33
Björn chamou o brasileiro à Academia de Ciências para informá-lo das datas em que ele teria que explicar as obras de cada um dos autores afirmados por ele como indevidamente esquecidos pelas premiações do Nobel .
"Confirmo, Sr. Brzil, que a Academia sentiu-se particularmente atingida pela sua desconfiança de que o nosso júri não seja absolutamente justo, totalmente isento; infenso, mesmo, às pressões indevidas. Embora esta não seja a primeira vez que recebemos contestações, esta é a mais direta, a mais bem fundamentada e, por isto, mais desafiadora para nós. Diante dessa acusação, decidiu-se pela admissibilidade de sua defesa, principalmente porque foram analisadas uma a uma das obras, dos nomes trazidos por você, constatando-se que essas personalidades estiveram mesmo niveladas em importância às que foram premiadas com o Nobel. Diante de tais argumentos foi criada uma comissão que aceitará ouvir a defesa preparada pelo senhor.
A sessão começará às nove horas, da terça feira, dois de setembro; devendo ser concentrada numa única oportunidade. Conforme seu aviso, em Economia o senhor defenderá a tese de que o prêmio deveria ter ido para o grupo de economistas que resolveram o problema da inflação brasileira. Além destes avisos , peço-lhe que guarde sigilo sobre o que acontecer na oportunidade ."
" Dr. Björn B, só o fato de que serei recebido por tal comissão nomeada pela Academia de Ciências já é um alento para quem chegou à Suécia há seis meses, tendo na mala só a esperança de chegar a debater; além da a certeza interior de que a Suécia, e seus cidadãos, amam - antes de tudo - a Justiça. E, certamente, tudo farão para recompor o equilíbrio de suas balanças . "
Apertaram-se as mãos e Brzil dirigiu-se à porta de saída quando foi novamente abordado por Björn :
" Brzil ... aprovamos também o patrocínio de sua viagem à Oslo. Bastará que você nos informe a data que pretende ir, que faremos as reservas necessárias . "
"Agradeço muito, Dr. Björn. Apesar de ter dinheiro para meu projeto em Oslo, mesmo assim , eu aceito o seu patrocínio, também por perceber que a Academia de Ciências da Suécia faz esta oferta de coração aberto. Aceito sim, Dr. Björn B ! "
"Confirmo, Sr. Brzil, que a Academia sentiu-se particularmente atingida pela sua desconfiança de que o nosso júri não seja absolutamente justo, totalmente isento; infenso, mesmo, às pressões indevidas. Embora esta não seja a primeira vez que recebemos contestações, esta é a mais direta, a mais bem fundamentada e, por isto, mais desafiadora para nós. Diante dessa acusação, decidiu-se pela admissibilidade de sua defesa, principalmente porque foram analisadas uma a uma das obras, dos nomes trazidos por você, constatando-se que essas personalidades estiveram mesmo niveladas em importância às que foram premiadas com o Nobel. Diante de tais argumentos foi criada uma comissão que aceitará ouvir a defesa preparada pelo senhor.
A sessão começará às nove horas, da terça feira, dois de setembro; devendo ser concentrada numa única oportunidade. Conforme seu aviso, em Economia o senhor defenderá a tese de que o prêmio deveria ter ido para o grupo de economistas que resolveram o problema da inflação brasileira. Além destes avisos , peço-lhe que guarde sigilo sobre o que acontecer na oportunidade ."
" Dr. Björn B, só o fato de que serei recebido por tal comissão nomeada pela Academia de Ciências já é um alento para quem chegou à Suécia há seis meses, tendo na mala só a esperança de chegar a debater; além da a certeza interior de que a Suécia, e seus cidadãos, amam - antes de tudo - a Justiça. E, certamente, tudo farão para recompor o equilíbrio de suas balanças . "
Apertaram-se as mãos e Brzil dirigiu-se à porta de saída quando foi novamente abordado por Björn :
" Brzil ... aprovamos também o patrocínio de sua viagem à Oslo. Bastará que você nos informe a data que pretende ir, que faremos as reservas necessárias . "
"Agradeço muito, Dr. Björn. Apesar de ter dinheiro para meu projeto em Oslo, mesmo assim , eu aceito o seu patrocínio, também por perceber que a Academia de Ciências da Suécia faz esta oferta de coração aberto. Aceito sim, Dr. Björn B ! "
O premio - 32
Lars, dentre todos os jovens do time treinado por Brzil, era o que tinha mais qualidades futebolísticas. Ele era aquele menino com as feições mais distanciadas dos padrões escandinavos. Sutilmente, Brzil foi aumentando as conversas com o rapaz. Até que um dia , disse-lhe: " Lars, eu gostaria de conhecer seu pai. Conversar com ele, contar o quanto eu prezo você, pelos belos gols que tem nos brindado . "
Não demorou muito para que Erik, o pai de Lars, viesse ao centro de treinamento do IFK .
"Senhor Erik , desde já peço desculpas por fazer-lhe estas perguntas que tenho dentro de mim . É que no ano de 1958 a seleção brasileira foi campeã do mundo aqui em seu país, tendo na ponta direita Garrincha um dos seus maiores expoentes . Pois bem , eu vejo no futebol de Lars muitas semelhanças com o maior ponta direita que o mundo já viu jogar ... "
"Professor Brzil , eu já sei onde você quer chegar ... " respondeu Erik com um sorriso nos lábios ; sinal de que não ficara magoado com a pergunta ... . " Saiba, senhor professor , que é isto mesmo que você está pensando. Sim, eu sou filho do Garrincha, e muito me orgulho disto . Trago na minha perna esquerda o sinal da minha estirpe: sou mesmo filho do astro brasileiro e, por conseguinte, Lars é seu neto, e muito me comove o fato de o senhor ter descoberto em meu filho qualidades de seu genial avô . "
" Dizemos em meu país que aqueles três minutos, em 1958 ; com o seu pai na ponta direita do Brasil, vitimaram mais russos do que todas as guerras enfrentadas pela Russia ; juntas . "
Erik abriu um sorriso e abraçou Bzril, um hábito que não é comum na Suécia . Com isso , talvez tenha querido afirmar que também se sentia um pouco brasileiro .
"Senhor Erik, a partida final do campeonato juvenil será no próximo domingo. Gostaria de ter o senhor a incentivar-nos.
" Conte comigo, Sr. Brzil . "
Não demorou muito para que Erik, o pai de Lars, viesse ao centro de treinamento do IFK .
"Senhor Erik , desde já peço desculpas por fazer-lhe estas perguntas que tenho dentro de mim . É que no ano de 1958 a seleção brasileira foi campeã do mundo aqui em seu país, tendo na ponta direita Garrincha um dos seus maiores expoentes . Pois bem , eu vejo no futebol de Lars muitas semelhanças com o maior ponta direita que o mundo já viu jogar ... "
"Professor Brzil , eu já sei onde você quer chegar ... " respondeu Erik com um sorriso nos lábios ; sinal de que não ficara magoado com a pergunta ... . " Saiba, senhor professor , que é isto mesmo que você está pensando. Sim, eu sou filho do Garrincha, e muito me orgulho disto . Trago na minha perna esquerda o sinal da minha estirpe: sou mesmo filho do astro brasileiro e, por conseguinte, Lars é seu neto, e muito me comove o fato de o senhor ter descoberto em meu filho qualidades de seu genial avô . "
" Dizemos em meu país que aqueles três minutos, em 1958 ; com o seu pai na ponta direita do Brasil, vitimaram mais russos do que todas as guerras enfrentadas pela Russia ; juntas . "
Erik abriu um sorriso e abraçou Bzril, um hábito que não é comum na Suécia . Com isso , talvez tenha querido afirmar que também se sentia um pouco brasileiro .
"Senhor Erik, a partida final do campeonato juvenil será no próximo domingo. Gostaria de ter o senhor a incentivar-nos.
" Conte comigo, Sr. Brzil . "
domingo, 15 de junho de 2014
O premio - 31
Quando Brzil abandonou o Santa Fé saiu do prédio de costas. Andando para trás mesmo. Essa técnica ele aprendeu com as histórias de Lampião, o Rei do Cangaço, facínora que aterrorizou o nordeste brasileiro no início do século vinte. Quando fugia das volantes, Lampião vestia as alpercatas voltadas para trás; invertendo-as nos pés; para que, quem fosse seguir o rastro de suas pisadas, entendesse erradamente o sentido para o qual Lampião de fato se dirigia. Ildefonso pensou: "se saio aos poucos, e de costas; quem porventura estiver me vendo vai interpretar como se eu estivesse entrando no Santa Fé. E se eu notar qualquer estranhamento, bastará inverter a direção dos meus passos - tornando a caminhar para dentro do Edifício - para que o intruso conclua que eu estou levando a mala para dentro do edifício. "
Este era o nível do medo de Brzil. Quase paralisado pela possibilidade de que a Imigração sueca pudesse arrestá-lo antes que seu objetivo desse certo. Tudo porque , por enquanto , o plano ainda estava cru .
Sem que fosse visto , Brzil saiu calmamente do Santa Fé .
Pesquisara dois hotéis ; o Hellsten , que ficava no número 68 da Luntmakargatan Vasastan era pequeno e tinha uma lanchonete bem próxima , e o outro era o Bakfickan, na Râdmansgatan 69 , que era próximo da casa de Silvia. Escolheu o Bakfickan .
Este era o nível do medo de Brzil. Quase paralisado pela possibilidade de que a Imigração sueca pudesse arrestá-lo antes que seu objetivo desse certo. Tudo porque , por enquanto , o plano ainda estava cru .
Sem que fosse visto , Brzil saiu calmamente do Santa Fé .
Pesquisara dois hotéis ; o Hellsten , que ficava no número 68 da Luntmakargatan Vasastan era pequeno e tinha uma lanchonete bem próxima , e o outro era o Bakfickan, na Râdmansgatan 69 , que era próximo da casa de Silvia. Escolheu o Bakfickan .
quinta-feira, 12 de junho de 2014
O premio - 30
Diferente do que nas vezes anteriores, Björn B vestia suíte completa. Roupas negras, a contrastar com sua muito alva cabeleira. Mais formal do que nunca, apertou a mão de Brzil.
"Senhor Ildefonso de Alencar, peço-lhe que me entregue o material que contém expressamente a fundamentação da sua tese. Caso seja nele encontrado o nexo afirmado, o senhor será convocado para sustentar a sua proposição perante a banca que - se for assim - será nomeada para ouvi-lo. "
Brzil, que ao contrário de Björn vestia-se com grande simplicidade, entregou a mala de documentos com uma carta de apresentação, tudo redigido em Sueco.
Björn correu os olhos identificando o idioma. "Não seria necessário que os textos viessem em Sueco. Bastaria-nos em Inglês. Mesmo assim, agradeço o seu esforço em fazê-lo em nosso idioma."
" Mandei traduzir assim, porque existem foros em que é exigido o idioma pátrio. Na dúvida ..."
"Aviso-lhe de que a Academia Sueca de Ciências entende a presente entrega como um ato oficial de representação. Agora peço que o senhor, em breves palavras, decline os nomes de quem entende como preterido . "
"Ainda na especialidade literatura ; procurei demonstrar que a obra do poeta João Cabral de Melo Neto, poeta já falecido, foi mais relevante do que quase todos os poetas premiados por esta Academia Sueca.
Jorge Amado foi outro belíssimo escritor; ele retratou como ninguém as populações carentes da Bahia; sem, contudo, deixar escapar o espírito brejeiro da nacionalidade, tão bem retratado em Dona Flor e seus dois maridos, obra que encantou o mundo, também em sua versão cinematográfica. Embora a Academia tivesse premiado com o Nobel tantos autores com temas nacionais, correlatos mesmo aos de Jorge Amado; inexplicavelmente Amado foi sempre esquecido pela Academia Sueca. A dúvida está em que somente ele - em sua estatura - foi olvidado. "
E Érico Veríssimo ? O que contou em "O tempo e o vento " a saga da ocupação do sul do Brasil" ? Por que a Academia olvidou-se dele por anos a fio mesmo também sendo um brasileiro a merecer o prêmio maior da literatura mundial ?
Também a obra do poeta, compositor musical inexcedível, e dos maiores escritores; a obra de Francisco Buarque de Hollanda não é somente importante para os brasileiros, ainda que este pormenor, de ser - ou não - uma criação tida como universal, de há muito consista em matéria muito bem balanceada pelos juízes do Nobel. Só que para os brasileiros tal entendimento nunca valeu .
E Ariano Suassuna , do Auto da Compadecida ; porque foi Ariano olvidado , se dispunha - também mais do que quem quer que fosse - dos predicados para ser escolhido ? Por que não foi ?
Também Ferreira Gullar, poeta e escritor, com obra poética sensível e exemplar sempre esteve nivelado aos melhores do mundo. Seu reconhecimento pela premiação maior dignificaria a poesia e o Brasil. Mas ele nunca foi escolhido .
João Ubaldo Ribeiro é outro formidável escritor, com obra também voltada às realidades existenciais do povo brasileiro. Suas singularidades e méritos de nossa unidade territorial. Ele também merece, e muito , a premiação . Mas , também nunca foi lembrado .
Para o Nobel da Paz era óbvia a obra de Dona Zilda Arns. Mas tivemos outros nomes do mesmo porte dessa Humanista que se foi credora do reconhecimento escandinavo . Sem que se possa tecer comparações com os demais escolhidos; é absolutamente certo que ela, no exemplo, na dedicação e no amor ao próximo não foi menor do que qualquer um deles. Quem apequenou-se ao ignorar Dona Zilda foi o próprio Instituto Norueguês para a escolha do Nobel da Paz ."
"Amigo Brzil, vejo que você antecipou para mim a defesa que fará à Comissão. Mesmo assim, observo que eu nada posso prometer. E, para ser sincero, vejo como impossível - por ser impróprio à nossa Instituição - qualquer tipo de retratação por eventuais - digamos - esquecimentos. Confirmo que, quanto ao prêmio da Paz, ele só pode ser analisado em Oslo."
"Fui avisado , desde o início do campeonato, de que , se o IFK chegasse pelo menos entre os dois primeiros colocados , eu ganharia um bônus . Meu plano é usar essa reserva para ir à Oslo ; eis que já estamos na final."
"Espero que nessas finais seu time conquiste o primeiro lugar. Mas, por fim, pergunto: qual é a sua pretensão, o seu pedido em tudo isto, Senhor Ildefonso de Alencar ?", concluiu Björn.
"Eu estarei pacificado quando souber os motivos pelos quais a Academia de Ciências da Suécia sempre ignorou os brasileiros." respondeu Brzil .
"Tudo farei para tranquilizar seu espírito, amigo Brzil." Foi como se despediram .
"Senhor Ildefonso de Alencar, peço-lhe que me entregue o material que contém expressamente a fundamentação da sua tese. Caso seja nele encontrado o nexo afirmado, o senhor será convocado para sustentar a sua proposição perante a banca que - se for assim - será nomeada para ouvi-lo. "
Brzil, que ao contrário de Björn vestia-se com grande simplicidade, entregou a mala de documentos com uma carta de apresentação, tudo redigido em Sueco.
Björn correu os olhos identificando o idioma. "Não seria necessário que os textos viessem em Sueco. Bastaria-nos em Inglês. Mesmo assim, agradeço o seu esforço em fazê-lo em nosso idioma."
" Mandei traduzir assim, porque existem foros em que é exigido o idioma pátrio. Na dúvida ..."
"Aviso-lhe de que a Academia Sueca de Ciências entende a presente entrega como um ato oficial de representação. Agora peço que o senhor, em breves palavras, decline os nomes de quem entende como preterido . "
"Ainda na especialidade literatura ; procurei demonstrar que a obra do poeta João Cabral de Melo Neto, poeta já falecido, foi mais relevante do que quase todos os poetas premiados por esta Academia Sueca.
Jorge Amado foi outro belíssimo escritor; ele retratou como ninguém as populações carentes da Bahia; sem, contudo, deixar escapar o espírito brejeiro da nacionalidade, tão bem retratado em Dona Flor e seus dois maridos, obra que encantou o mundo, também em sua versão cinematográfica. Embora a Academia tivesse premiado com o Nobel tantos autores com temas nacionais, correlatos mesmo aos de Jorge Amado; inexplicavelmente Amado foi sempre esquecido pela Academia Sueca. A dúvida está em que somente ele - em sua estatura - foi olvidado. "
E Érico Veríssimo ? O que contou em "O tempo e o vento " a saga da ocupação do sul do Brasil" ? Por que a Academia olvidou-se dele por anos a fio mesmo também sendo um brasileiro a merecer o prêmio maior da literatura mundial ?
Também a obra do poeta, compositor musical inexcedível, e dos maiores escritores; a obra de Francisco Buarque de Hollanda não é somente importante para os brasileiros, ainda que este pormenor, de ser - ou não - uma criação tida como universal, de há muito consista em matéria muito bem balanceada pelos juízes do Nobel. Só que para os brasileiros tal entendimento nunca valeu .
E Ariano Suassuna , do Auto da Compadecida ; porque foi Ariano olvidado , se dispunha - também mais do que quem quer que fosse - dos predicados para ser escolhido ? Por que não foi ?
Também Ferreira Gullar, poeta e escritor, com obra poética sensível e exemplar sempre esteve nivelado aos melhores do mundo. Seu reconhecimento pela premiação maior dignificaria a poesia e o Brasil. Mas ele nunca foi escolhido .
João Ubaldo Ribeiro é outro formidável escritor, com obra também voltada às realidades existenciais do povo brasileiro. Suas singularidades e méritos de nossa unidade territorial. Ele também merece, e muito , a premiação . Mas , também nunca foi lembrado .
Para o Nobel da Paz era óbvia a obra de Dona Zilda Arns. Mas tivemos outros nomes do mesmo porte dessa Humanista que se foi credora do reconhecimento escandinavo . Sem que se possa tecer comparações com os demais escolhidos; é absolutamente certo que ela, no exemplo, na dedicação e no amor ao próximo não foi menor do que qualquer um deles. Quem apequenou-se ao ignorar Dona Zilda foi o próprio Instituto Norueguês para a escolha do Nobel da Paz ."
"Amigo Brzil, vejo que você antecipou para mim a defesa que fará à Comissão. Mesmo assim, observo que eu nada posso prometer. E, para ser sincero, vejo como impossível - por ser impróprio à nossa Instituição - qualquer tipo de retratação por eventuais - digamos - esquecimentos. Confirmo que, quanto ao prêmio da Paz, ele só pode ser analisado em Oslo."
"Fui avisado , desde o início do campeonato, de que , se o IFK chegasse pelo menos entre os dois primeiros colocados , eu ganharia um bônus . Meu plano é usar essa reserva para ir à Oslo ; eis que já estamos na final."
"Espero que nessas finais seu time conquiste o primeiro lugar. Mas, por fim, pergunto: qual é a sua pretensão, o seu pedido em tudo isto, Senhor Ildefonso de Alencar ?", concluiu Björn.
"Eu estarei pacificado quando souber os motivos pelos quais a Academia de Ciências da Suécia sempre ignorou os brasileiros." respondeu Brzil .
"Tudo farei para tranquilizar seu espírito, amigo Brzil." Foi como se despediram .
Assinar:
Postagens (Atom)
Marcadores
abriram
acariciavam-se
acaso
Adhemar
África
ajoelhar-se
alcance
Alegrete.
alemão
alma
Almerinda
amizades
amor
anônima
antítese
apartamento
apresentação
Aramis
arataca
Argentina
argumentos
arranjado
asas
Athos
atracar
atrevimento
Austrália
autor
aviso
aziaga
balzaquiana
banco
bandido
Banho
barrigas-verdes
Becerra
Becerras
Bicicleta
bienvenidos
binóculo
biógrafo
blusa
Boca de Ouro
Boca do Monte
Bóldedalma
Boleto
bolso
borbotões
bordel
Brasília
Brown Cow Bank
bruxuleante
Bubi
cabaret
cabeça
cabelos
Caçapava
cachorro
cadeado
cadeia
calado
calça de baixo
cama
campeia
canalha
capa-e-espada
capa-pretas
capital
capítulo 1
capítulo 12
capítulo 13
capítulo 14
capítulo 15
capítulo 16
capítulo 17
capítulo 18 A
capítulo 18 B
capítulo 19
capítulo 2
capítulo 20
capítulo 21
capítulo 22
capítulo 23
capítulo 24
capítulo 3
capítulo 4
capítulo 47
capítulo 48
capítulo 49
capítulo 5
capítulo 50
capítulo 51
capítulo 52
capítulo 53
capítulo 54
capítulo 55
capítulo 55 R2
capítulo 56
capítulo 57
capítulo 58
capítulo 59
capítulo 6
capítulo 60
capítulo 62
capítulo 63
capítulo 64
capítulo 65
capítulo 66
capítulo 67
capítulo 68
capítulo 69
capítulo 70
capítulo 71
capítulo 72
capítulo 73
capítulo 74
capítulo 75
capítulo 76
capítulo 77
capítulo 78
capítulo 79
capítulo 80
capítulo 81
capítulo 82
capítulo 94
capítulo 95
capítulo 96
capítulo 97
carancho
Carlão
Carlos Gardel
Carmem
casamento
casariam-se
castrava
Caverá
cerveja
cervejaria
champanhe
Chatô
chefatura de polícia
cidadezinha
ciências humanas
classe
Claudia Cardinalle
Colcabamba
Com Chaveco
complacente
comportadamente
confidenciou
confraria
confusão
consumaria
Coração
corazón
corredor
Correio do Norte
crise.
Curunilha
cusco
D ´Artagnan
D´Artagnan
D´Orsay
datilografia
declama
dedicação
democraticamente
desculpa
desembarque
destino
determinar
detetive
Deus
devastação
diário de bordo
dinheirama
dinheiro
Dionísio
Dirceu
disfarçou
Dona Almerinda
Dona Flora
Dona Julietinha
Dona Marica
Dotô
Doutor
Elizabeth Taylor
Emagrecido
embolsar
empreitada
Encargo
enganando
enrodilharam
equívoco
Ernesto
ERP
esbaforida
escolha
escritos
escuridão
espalhar
esquerdo
estafermo
estância
estancieiro
este blog
estudos
Eunuco ou Hermafrodita?
Europa
evidente
F100
fazendeiros
fechadura
Federal
ficção
filosófico
fim
final B
fineza
fita
flores
fofocas
fortuna
Fortunas
frigorificação
fronteira
fronteiriço
furgão
futuro
galena
gaudério
Gauguin
gente
ghost writer
Gian
Giancarlo
Giancarlo Petrucci
gran- puta
grávida
gritando
Gualter
Guapos da Fronteira
guarda-chuva
Guilain
guri
herança
hipotesis
História
honra
horizonte
Hulha
imaginação
independentes
índio maula
intensamente
internacionales
interrupção
Ipanema
irmandade
italiano
J. Proudhon
Joaquim
jogos de Eros
Jorge Luis Borges
jornalista
José Amaral
Judas
Julietinha
junção
ladrão
Lagoa da música
lágrimas
Lampião
lembrar
Leonel
liberação
lições
Lisboa
literária
Livro
lógica
lolitas
Londres
Lotto
Lua de Mel
madrugada
madura
mafiosos
Maranhão
marido
Mastroiani
matador
Mecenas
Mediterrâneo
memórias
menino
Mercedes
mesa
Milczarek
missão
moça
moças
molestado
molhados
monastério
Mosqueteira
Mosqueteiro
mosqueteiros
mulher
mundo
naba
Namorada
namorado
navio
negócio
nosotros
novo-rico
novos mosqueteiros
NRBZ
nudez
O Cruzeiro
Oficial
oficial italiano
Old Parr
olvidastes
Oriental
Pá
pagos
paixão
palavra
Paniagua
Paraguai.
parente
Paris
pastor
patrimônio
Paulo
Paulo Becerra
pecuniárias
Pedro
pentear
pernambucano
perseguição
Pio XII
Pipoquinha
pistoleiro
Pituca
plagas
plata
platônica
Polaquinha
polaquinha.
portão
Porthos
Porto Alegre
português
Portunhol
povo assassino.
prazo
Prendoca
primeira
Professor Pery
promessa
propriedade
pulgas
Pulo Becerra
Punta del Leste
quadradinha
quebra-cabeças
quéra
Quita
raça
raros
rataca
Recife
relógio
remessas
Renguiá
República Oriental
reunião
Rio
Rio de Janeiro
Rio Grande
roleta
Roma
RPGS
Rússia
Salustiano
San Martin
Santa Maria
Sapiran
segredos
segurança
Sem Chaveco
Serra
sessões
Seu Salim
Severino
Sevilha
silêncio
Silvério
sonhar
Sul
Taquarembó
Tchê
te amo
tenente
teorias
tesouro
Thaiti
Toscana
traído
trampa
tranquila
transposto
travesseiro
Três Mosqueteiros
única
urdida
urso-panda
Uruguay
Valéria
Vaticano
Velho Testamento
verdade
vereador
viagem
Vigo
Vinícius de Morais
Vinicius Gullar
Violão
Vira-Latas
vitória
Zé Manél