Bogart disse-lhe que, se não comparecesse prontamente ao edifício da Imigração, poderia ser detido para o "convite de adeus ". Se isto acontecesse viriam pessoas ao seu quarto que dariam pouco tempo para que fizesse as malas, apreenderiam seu passaporte e conduziriam-lhe a uma sala do aeroporto onde esperaria o próximo voo da companhia da qual tinha passagem de volta; entregando-o em mãos para o comandante já dentro do avião; sem chance de poder conversar com alguém em Estocolmo, e só depois do avião levantar voo que o passaporte lhe seria devolvido. Porém, Bogart logo amenizou um pouco a ameaça: " Na verdade, a Suécia não fará o que de pior poderia acontecer-lhe . Isto porque aquele procedimento não era uma deportação propriamente dita. Assim, você poderá até vir a solicitar , desde que estando no Brasil; a sua volta. Até mesmo a imigração para a Suécia. Aí sim " - completou o policial: " o senhor entraria pela porta da frente . "
Mesmo assim , Bogart deixou claro que, em solo sueco , Brzil não teria chance de regularizar sua situação .
Com medo , e certo de que Björn B enganou-se ao dizer que nada lhe aconteceria ; assim mesmo Brzil omitiu-se de comparecer ao edifício da Imigração . Algo dizia dentro do brasileiro que ele estava entrando nas cenas culminantes de sua saga , e que se não fosse pego pela Imigração nos próximos dias , tudo o que podia fazer pela premiação já estaria consumado . Ou então , nos próximos dias , já teria conhecido o esquema - se ele existisse , é claro - que condenava o Brasil a jamais conquistar um Premio Nobel .
Mas se isto fosse certo . Se esta premonição , de que estava nos momentos decisivos de sua viagem , representava alguma verdade , Ildefonso teria que acelerar as providências , quaisquer que fossem elas . Se não o tempo escoaria em branco .
Por tudo aquilo , decidiu marcar uma conversa com Björn B ; pediria que ele aceitasse que fosse logo ouvido pela Academia ; para , enfim , poder mostrar as provas, os livros , os documentos - traduzidos que foram , no Brasil , para o idioma Sueco . Mesmo porque , era ali , naquelas traduções , que estava todo o dinheiro do apartamento que vendera em São Paulo . Sim , a reunião com Björn era o que tinha de mais urgente .
Ao contrário do assunto da Imigração ; quanto ao seu trabalho tudo ia as mil maravilhas . " Como é bom eu poder treinar estes garotos ! " pensou em voz alta. Um deles chamava ainda mais a sua atenção pela grande habilidade que tinha com a bola. E não é que ele parecia ser metade sueco , metade brasileiro ? , principalmente porque tinha os olhos muito mais escuros do que os comuns no país . Já na perna esquerda o menino tinha uma ligeira deformidade , o que não chegava a impedir em nada a grande habilidade que o menino tinha para o futebol . Pelo contrário .
Treinar os meninos funcionava para ele assim como uma transfusão direta de juventude na veia . E , na maior cara de pau , pôs em campo , como se fossem suas , as táticas que escutava dos comentaristas esportivos no Brasil . E , por incrível que pareça , elas começaram a funcionar naquele campeonato juvenil ; ainda que - quando assumira o time - o IFK estivesse despencando na tabela de classificação . Mesmo assim Brzil conseguia recuperá-lo a cada semana que passava .
As vitórias vindas eram muitas e a fama do brasileiro se alastrava .
segunda-feira, 9 de junho de 2014
domingo, 8 de junho de 2014
O premio . 22
Seu tempo de permanência na Escandinávia expirou . A partir de agora, Brzil era clandestino na Suécia. Nem Johan, tampouco Björn B, poderiam avaliar aquela sensação de, a qualquer momento, poder ser preso e deportado; e sem ter conseguido realizar o sonho. Lembrou que, pelo menos por hipótese, se acontecesse dele ser preso , bastaria ligar para sua amiga Silvia e pedir ajuda. Ela intercederia, talvez resolvendo tudo em minutos. Ou mesmo, pedir à Björn B que "quebrasse o galho" ; que falasse com alguém importante para fazer que o policial da Imigração deixasse-o em paz . O problema , para tanto, era recorrente : Brzil jurou que passaria ao largo dos "jeitos"; que ele pensava ser só de brasileiros. Não foi por pouco que, antes de viajar para a Suécia, fizera retiro espiritual de uma semana no Zu- Lai . Tudo para reforçar dentro de si a determinação de não vir a cair na tentação dos atalhos ante as leis; boas ou más, certas ou erradas, mas vigentes. Se o Nobel viesse; se o Nobel fosse dado a um brasileiro, haveria de ser limpo, sem lobbys, sem jeitinhos. "Sim, o meu Nobel haverá de ser o mais justo de todos os Prêmios Nobel até então concedidos.", pensou. Não seria tão somente um Prêmio Nobel, haveria de ser a redenção de seu país ante o preconceito de tantos quantos diziam que ele não era sério. Por isso, por não admitir jeitinhos, Brzil tinha que passar por aquilo, chegar agora ao Santa-Fé como alguém que não fosse propriamente um habitante daquele prédio; como veio a saber, um tradicional reduto de imigrantes ilegais.
Brzil olhou para as proximidades do portão do Santa Fé e viu um homem parado bem perto do poste de luz. Vestia um capote cinza e chapéu de feltro; "um Humphrey Bogart viking !! " pensou. Olhou de novo , e ainda uma vez mais. Concluiu; mesmo sem ver-lhe a cara, por estar com a gola do capote levantada, que aquele era ninguém menos do que o oficial da Imigração que lhe procurara no Grande Hotel. Tudo porque nos grupos de imigrantes ilegais como os do Santa Fé sempre têm dedo-duros; os tais espíritos de porco que denunciam anonimamente para a imigração seus vizinhos de quarto, até mesmo seus próprios conterrâneos. E com ele não fora diferente: "caguetaram-me ! " , pensou lentamente. Mas pouco depois reagiu: "Não, tudo menos a paranoia. Eu não posso ficar assim, sempre em estado de terror da Imigração. Até porque eu nem cheguei a ver a cara dele. Além disto, este cara pode estar aí, duro de frio; embora a sua dureza também possa ser de tesão, de tanto esperar a amante com quem daria uma rapidinha naqueles velhos randez-vouz de paredes encardidas nos edifícios de quinta categoria do centro de Estocolmo ... é claro que pode nem ser o fiscal da Imigração ... "
Brzil criou coragem, foi quando dirigiu-se à porta, virou a chave e subiu rapidamente as escadas até o seu quarto no terceiro andar. Já com o coração desacelerando apertou o botão que fez a mola soltar a cama que ficava junto da parede e assentar no chão. Atirou-se nela e pensou: " Acalme-se Brzil ... por que entrar em paranoias se as coisas estão dando tão certo ? " Ainda deitado, pensou em Brugges ... sim, que linda fora a viagem à Brugges, comera chocolates, tomara cerveja com batatas fritas, andou de barquinho pelos canais ... tudo imaginário .... é que, quando sobrava tempo, ele viajava pelo Google, visitando lugares, para ele, de verdade. Lugares que sempre quisera conhecer. Foi interrompido por alguém que batia à porta. Certamente era Everardo, o uruguaio, que olhara a luz por debaixo da porta, querendo saber das novidades .
Levantou-se da cama e abriu a porta sem sequer olhar no visor ... a única visita que recebia de vez em quando era a de Everardo. Não era. O coração disparou de novo quando viu saltar da fresta da porta a imagem da mão com a carteirinha de policial sendo-lhe ostensivamente mostrada. Sim, enganara-se. Não era Everardo. Era o Oficial da Imigração da Suécia .
Brzil olhou para as proximidades do portão do Santa Fé e viu um homem parado bem perto do poste de luz. Vestia um capote cinza e chapéu de feltro; "um Humphrey Bogart viking !! " pensou. Olhou de novo , e ainda uma vez mais. Concluiu; mesmo sem ver-lhe a cara, por estar com a gola do capote levantada, que aquele era ninguém menos do que o oficial da Imigração que lhe procurara no Grande Hotel. Tudo porque nos grupos de imigrantes ilegais como os do Santa Fé sempre têm dedo-duros; os tais espíritos de porco que denunciam anonimamente para a imigração seus vizinhos de quarto, até mesmo seus próprios conterrâneos. E com ele não fora diferente: "caguetaram-me ! " , pensou lentamente. Mas pouco depois reagiu: "Não, tudo menos a paranoia. Eu não posso ficar assim, sempre em estado de terror da Imigração. Até porque eu nem cheguei a ver a cara dele. Além disto, este cara pode estar aí, duro de frio; embora a sua dureza também possa ser de tesão, de tanto esperar a amante com quem daria uma rapidinha naqueles velhos randez-vouz de paredes encardidas nos edifícios de quinta categoria do centro de Estocolmo ... é claro que pode nem ser o fiscal da Imigração ... "
Brzil criou coragem, foi quando dirigiu-se à porta, virou a chave e subiu rapidamente as escadas até o seu quarto no terceiro andar. Já com o coração desacelerando apertou o botão que fez a mola soltar a cama que ficava junto da parede e assentar no chão. Atirou-se nela e pensou: " Acalme-se Brzil ... por que entrar em paranoias se as coisas estão dando tão certo ? " Ainda deitado, pensou em Brugges ... sim, que linda fora a viagem à Brugges, comera chocolates, tomara cerveja com batatas fritas, andou de barquinho pelos canais ... tudo imaginário .... é que, quando sobrava tempo, ele viajava pelo Google, visitando lugares, para ele, de verdade. Lugares que sempre quisera conhecer. Foi interrompido por alguém que batia à porta. Certamente era Everardo, o uruguaio, que olhara a luz por debaixo da porta, querendo saber das novidades .
Levantou-se da cama e abriu a porta sem sequer olhar no visor ... a única visita que recebia de vez em quando era a de Everardo. Não era. O coração disparou de novo quando viu saltar da fresta da porta a imagem da mão com a carteirinha de policial sendo-lhe ostensivamente mostrada. Sim, enganara-se. Não era Everardo. Era o Oficial da Imigração da Suécia .
sexta-feira, 6 de junho de 2014
No Monastério de Bodedalma - 29
Acreditem !
Mas acreditem mesmo ! se assim quiserem .
Bodedalma tinha um plano de saúde universal que monitorava seu organismo desde Santa Bárbara . Ao pressentirem que Sua Bodência , Primeira e Única , corria riscos ultra-severos de vida despacharam desde a Califórnia um drone resgatador turbinado , equipado para manter a vida a qualquer preço .
Sim , a qualquer preço porque , além de tudo , Bodedalma tinha um cartão de crédito cujo limite era de um trilhão de dólares . Só ele , Warren Buffet , Bill Gates e Vladimir Putin dispunham de tal limite ; embora o cartão deste último estivesse suspenso .
O drone penetrou no salão celestial e num piscar de olhos resgatou Bodedalma - que ainda respirava; executando in itinere todos os atos cirúrgicos preservadores de vida, ainda que os médicos estivessem mesmo em Santa Bárbara .
Três horas depois do resgate o drone aportou no pátio do Hospital e de dentro de suas entranhas foi retirado Bodedalma . Respirando .
Manduca assumiu todos os poderes do Monastério , seguindo os rituais previstos para a eventualidade de que o Inefável fosse afastado do poder pela violência .
Quanto ao Mondongo , este acionou o alarme geral de risco de vida e morte a um só tempo .
Mas acreditem mesmo ! se assim quiserem .
Bodedalma tinha um plano de saúde universal que monitorava seu organismo desde Santa Bárbara . Ao pressentirem que Sua Bodência , Primeira e Única , corria riscos ultra-severos de vida despacharam desde a Califórnia um drone resgatador turbinado , equipado para manter a vida a qualquer preço .
Sim , a qualquer preço porque , além de tudo , Bodedalma tinha um cartão de crédito cujo limite era de um trilhão de dólares . Só ele , Warren Buffet , Bill Gates e Vladimir Putin dispunham de tal limite ; embora o cartão deste último estivesse suspenso .
O drone penetrou no salão celestial e num piscar de olhos resgatou Bodedalma - que ainda respirava; executando in itinere todos os atos cirúrgicos preservadores de vida, ainda que os médicos estivessem mesmo em Santa Bárbara .
Três horas depois do resgate o drone aportou no pátio do Hospital e de dentro de suas entranhas foi retirado Bodedalma . Respirando .
Manduca assumiu todos os poderes do Monastério , seguindo os rituais previstos para a eventualidade de que o Inefável fosse afastado do poder pela violência .
Quanto ao Mondongo , este acionou o alarme geral de risco de vida e morte a um só tempo .
O premio - 21
O convite veio do IFK Varnamo, para que ele dirigisse , como "técnico convidado" , o seu time de juvenis.
Ao aceitar o convite , Brzil teve a mesma seriedade que observava nos técnicos brasileiros, quando eram contratados : " Agradeço pela oportunidade, Doutor Björn. Aceito o cargo e prometo que conseguirei pelo menos um título de campeão para os juvenis do IFK Varnamo". Era o que Björn queria ouvir .
Johan Sven Svensson - que era estudante universitário - seria seu intérprete junto ao time do IFK, eis que já compreendia mais ou menos o idioma falado por Brzil. Quarenta por cento de Inglês, trinta de Espanhol, vinte de Sueco e dez de Português. Por isto, o IFK Varnamo também aceitou pagar as horas que Johan trabalhasse como tradutor e professor de Sueco do técnico brasileiro. Tudo porque o trabalho na Academia de Ciências era um partime, sobrando-lhe tempo livre para ganhar aquele dinheiro extra. E, também, porque seu supervisor na Academia era Björn. Como vemos, tudo conspirava em favor de Brzil ; que, além de adaptar-se rapidamente à vida da Suécia, com o emprego criara alma nova. Mesmo assim, duvidando de tantas coisas boas acontecendo em tão pouco tempo; Brzil disse à Björn que, sendo de turista o visto conseguido por ele no Brasil, é certo que não estava apto para trabalhar na Suécia. Por isso, preocupava-se agora quanto à Imigração. Björn respondeu: "- Esqueça a Imigração, Brzil. Esqueça o visto que está no seu passaporte. Já conversei com meus amigos do Varnamo. Eles não irão pedir-lhe o passaporte. Tudo porque também para o IFK Varnamo oxigenar suas equipes de base com um técnico sul-americano ... ; e eles já sabem que você é um artista da bola vindo do país do futebol." Ainda bem que Björn não especificou de qual bola Brzil seria um artista. A de futebol é que não era. Dito isto, Björn B voltou a piscar, quase imperceptivelmente, sempre só com o olho esquerdo. Apesar de ficar atento ao cacoete, Brzil já não mais se preocupava com ele. Só que por pelo menos uma vez flagrou-se repetindo o cacoete de Bjorn, Mas ele sabia que era comum que as pessoas , por alguns momentos , copiassem os tiques do outro .
Mesmo assim desconfiou - pelas piscadelas passadas - de que ela era desferida por Björn quando a notícia a ser dada por ele era algo de bom para o seu interlocutor. Chegou a esta conclusão ao recordar das piscadinhas anteriores. Poderia estar enganado - mas pelo que se lembrava - Björn só tinha piscado com o olho esquerdo quando ia dar uma boa notícia ao brasileiro. Ou então Brzil estava à frente de mera coincidência; se fosse assim, as piscadas aconteciam aleatoriamente. " Sei lá ", disse para si próprio encerrando o assunto . Mas prometeu que ficaria muito mais atento às piscadas solitárias do olho esquerdo de Björn B .
Foi Björn, com os dirigentes do IFK Varnamo, que conseguiram para ele um pequeníssimo flat próximo à sede do clube. Tinha cama, mesa, pia e um pequeno fogão - além de uma pequena geladeira. Ficava num terceiro lance de escadas, sem elevador. Quanto ao banheiro, ele era coletivo, no final do corredor de dez quartinhos , todos iguais.
O prédio tinha um nome latino: "Santa Fé". E Brzil descobriu logo que ali morava outro sul-americano, um uruguaio de nome Everardo, dono de humor corrosivo, como todos os uruguaios têm.
O adiantamento recebido do Varnamo permitiu que Brzil pagasse toda conta atrasada do Hotel Central; único obstáculo para que pudesse andar de cabeça erguida em qualquer lugar de Estocolmo.
Ao aceitar o convite , Brzil teve a mesma seriedade que observava nos técnicos brasileiros, quando eram contratados : " Agradeço pela oportunidade, Doutor Björn. Aceito o cargo e prometo que conseguirei pelo menos um título de campeão para os juvenis do IFK Varnamo". Era o que Björn queria ouvir .
Johan Sven Svensson - que era estudante universitário - seria seu intérprete junto ao time do IFK, eis que já compreendia mais ou menos o idioma falado por Brzil. Quarenta por cento de Inglês, trinta de Espanhol, vinte de Sueco e dez de Português. Por isto, o IFK Varnamo também aceitou pagar as horas que Johan trabalhasse como tradutor e professor de Sueco do técnico brasileiro. Tudo porque o trabalho na Academia de Ciências era um partime, sobrando-lhe tempo livre para ganhar aquele dinheiro extra. E, também, porque seu supervisor na Academia era Björn. Como vemos, tudo conspirava em favor de Brzil ; que, além de adaptar-se rapidamente à vida da Suécia, com o emprego criara alma nova. Mesmo assim, duvidando de tantas coisas boas acontecendo em tão pouco tempo; Brzil disse à Björn que, sendo de turista o visto conseguido por ele no Brasil, é certo que não estava apto para trabalhar na Suécia. Por isso, preocupava-se agora quanto à Imigração. Björn respondeu: "- Esqueça a Imigração, Brzil. Esqueça o visto que está no seu passaporte. Já conversei com meus amigos do Varnamo. Eles não irão pedir-lhe o passaporte. Tudo porque também para o IFK Varnamo oxigenar suas equipes de base com um técnico sul-americano ... ; e eles já sabem que você é um artista da bola vindo do país do futebol." Ainda bem que Björn não especificou de qual bola Brzil seria um artista. A de futebol é que não era. Dito isto, Björn B voltou a piscar, quase imperceptivelmente, sempre só com o olho esquerdo. Apesar de ficar atento ao cacoete, Brzil já não mais se preocupava com ele. Só que por pelo menos uma vez flagrou-se repetindo o cacoete de Bjorn, Mas ele sabia que era comum que as pessoas , por alguns momentos , copiassem os tiques do outro .
Mesmo assim desconfiou - pelas piscadelas passadas - de que ela era desferida por Björn quando a notícia a ser dada por ele era algo de bom para o seu interlocutor. Chegou a esta conclusão ao recordar das piscadinhas anteriores. Poderia estar enganado - mas pelo que se lembrava - Björn só tinha piscado com o olho esquerdo quando ia dar uma boa notícia ao brasileiro. Ou então Brzil estava à frente de mera coincidência; se fosse assim, as piscadas aconteciam aleatoriamente. " Sei lá ", disse para si próprio encerrando o assunto . Mas prometeu que ficaria muito mais atento às piscadas solitárias do olho esquerdo de Björn B .
Foi Björn, com os dirigentes do IFK Varnamo, que conseguiram para ele um pequeníssimo flat próximo à sede do clube. Tinha cama, mesa, pia e um pequeno fogão - além de uma pequena geladeira. Ficava num terceiro lance de escadas, sem elevador. Quanto ao banheiro, ele era coletivo, no final do corredor de dez quartinhos , todos iguais.
O prédio tinha um nome latino: "Santa Fé". E Brzil descobriu logo que ali morava outro sul-americano, um uruguaio de nome Everardo, dono de humor corrosivo, como todos os uruguaios têm.
O adiantamento recebido do Varnamo permitiu que Brzil pagasse toda conta atrasada do Hotel Central; único obstáculo para que pudesse andar de cabeça erguida em qualquer lugar de Estocolmo.
terça-feira, 3 de junho de 2014
O premio - 20
Brzil, que dava com sucesso os primeiros passos no idioma Sueco, ou pelo menos no dialeto que mantinha com Johan , telefonou-lhe :
"Tudo bem ? o Dr. Björn B perguntou se eu quero ser auxiliar de técnico num time de futebol . "
"Que bom. Então nem será necessário eu continuar procurando um trampo para você; passarei hoje às oito para saber mais do seu emprego. E comemorar ! "
"Tudo bem, acho que agora sim; já estou empregado ! "
"Vai dar certo ! quem espera sempre alcança ! "
"Obrigado por suas palavras, Johan; elas são uma janela de sol na noite sueca . "
"Tudo bem ? o Dr. Björn B perguntou se eu quero ser auxiliar de técnico num time de futebol . "
"Que bom. Então nem será necessário eu continuar procurando um trampo para você; passarei hoje às oito para saber mais do seu emprego. E comemorar ! "
"Tudo bem, acho que agora sim; já estou empregado ! "
"Vai dar certo ! quem espera sempre alcança ! "
"Obrigado por suas palavras, Johan; elas são uma janela de sol na noite sueca . "
segunda-feira, 2 de junho de 2014
O premio . 19
Björn B deixou um recado para que Brzil comparecesse à Academia às quatorze horas da quinta-feira.
" ... é chegada a hora das provas " ; pensou Ildefonso.
Colocou a mala em cima da cama, abriu-a, conferiu um por um dos papéis, recolocando-os de novo na mesma mala e na mesma ordem que estavam antes. No horário certo, vestiu uma roupa bem formal, pegou a mala e dirigiu-se ao ponto de ônibus .
Às quatorze horas entrou no prédio ; pedindo para ser anunciado.
Estendeu o braço ao dirigente trocando com ele um forte aperto de mãos: "Brzil, vejo que você está muito melhor do que na última vez que nos vimos ! Mas para que esta mala ? "
" Dr. Björn B, aqui trago as provas de que meu país está sendo objeto do preconceito contra a sua produção intelectual. "
"Não foi por isto que chamei você. Muitos estão falando lá pelo Central que estás com as diárias do hotel atrasadas. Mas que serias bom em futebol; tudo porque consegues manter no ar, chutando ... equilibrando pequenas bolas, ou laranjas mesmo, por muitos minutos. Assim, concluíram que se você faz isto com uma laranja, imagine-se o que não faça com uma bola de futebol oficial . Gostaria de ver como se sai ensinando outras pessoas no trato com a bola de futebol. Com as boas amizades que tenho nos clubes esportivos, posso interceder em seu favor. Pergunto: você aceitaria ser ajudante de técnico, ou mesmo técnico de times inferiores, pelo pagamento de um salário que possibilite pelo menos uma simples manutenção de seus gastos ? "
No sufoco em que estava, o cérebro de Ildefonso limitou-se a examinar o quanto ele estava necessitado daquilo; mas sem desconfiar sobre como o Doutor Björn B adivinhara as suas necessidades .
"Se esta ajuda subtender que eu estou aqui para realizar o meu plano; que é o de saber os motivos da constante discriminação do meu país na eleição do Premio Nobel, se for assim, eu aceito de bom grado qualquer trabalho, Doutor Björn."
Björn pegou Brzil pelo braço e disse em bom italiano: " Brzil ... primo mangire , doppo filosfare !" e deu uma piscadinha com o olho esquerdo .
"Isto é verdade, mas preciso de um emprego só para ganhar um fôlego financeiro para - enfim - poder comprovar a minha tese . "
Björn fechou a cara e respondeu: "Em que áreas você pretende argumentar com esta imensa mala ? "
"Pretendo contestar as preterições nas áreas de Economia, Literatura; e no Premio da Paz . "
" Mas o Premio da Paz é com a Noruega ... "
" Então falaremos - quando o senhor me abrir a oportunidade - sobre Economia e Literatura . Mas depois irei à Noruega contestar o Prêmio da Paz . "
"Chamarei os responsáveis pelas triagens dos candidatos nas áreas mencionadas e depois convocarei você para conversarmos sobre a sua sustentação oral. Quanto ao emprego, penso que ele está praticamente certo". Despediram-se com mais uma piscada do olho esquerdo de Björn B .
" ... é chegada a hora das provas " ; pensou Ildefonso.
Colocou a mala em cima da cama, abriu-a, conferiu um por um dos papéis, recolocando-os de novo na mesma mala e na mesma ordem que estavam antes. No horário certo, vestiu uma roupa bem formal, pegou a mala e dirigiu-se ao ponto de ônibus .
Às quatorze horas entrou no prédio ; pedindo para ser anunciado.
Estendeu o braço ao dirigente trocando com ele um forte aperto de mãos: "Brzil, vejo que você está muito melhor do que na última vez que nos vimos ! Mas para que esta mala ? "
" Dr. Björn B, aqui trago as provas de que meu país está sendo objeto do preconceito contra a sua produção intelectual. "
"Não foi por isto que chamei você. Muitos estão falando lá pelo Central que estás com as diárias do hotel atrasadas. Mas que serias bom em futebol; tudo porque consegues manter no ar, chutando ... equilibrando pequenas bolas, ou laranjas mesmo, por muitos minutos. Assim, concluíram que se você faz isto com uma laranja, imagine-se o que não faça com uma bola de futebol oficial . Gostaria de ver como se sai ensinando outras pessoas no trato com a bola de futebol. Com as boas amizades que tenho nos clubes esportivos, posso interceder em seu favor. Pergunto: você aceitaria ser ajudante de técnico, ou mesmo técnico de times inferiores, pelo pagamento de um salário que possibilite pelo menos uma simples manutenção de seus gastos ? "
No sufoco em que estava, o cérebro de Ildefonso limitou-se a examinar o quanto ele estava necessitado daquilo; mas sem desconfiar sobre como o Doutor Björn B adivinhara as suas necessidades .
"Se esta ajuda subtender que eu estou aqui para realizar o meu plano; que é o de saber os motivos da constante discriminação do meu país na eleição do Premio Nobel, se for assim, eu aceito de bom grado qualquer trabalho, Doutor Björn."
Björn pegou Brzil pelo braço e disse em bom italiano: " Brzil ... primo mangire , doppo filosfare !" e deu uma piscadinha com o olho esquerdo .
"Isto é verdade, mas preciso de um emprego só para ganhar um fôlego financeiro para - enfim - poder comprovar a minha tese . "
Björn fechou a cara e respondeu: "Em que áreas você pretende argumentar com esta imensa mala ? "
"Pretendo contestar as preterições nas áreas de Economia, Literatura; e no Premio da Paz . "
" Mas o Premio da Paz é com a Noruega ... "
" Então falaremos - quando o senhor me abrir a oportunidade - sobre Economia e Literatura . Mas depois irei à Noruega contestar o Prêmio da Paz . "
"Chamarei os responsáveis pelas triagens dos candidatos nas áreas mencionadas e depois convocarei você para conversarmos sobre a sua sustentação oral. Quanto ao emprego, penso que ele está praticamente certo". Despediram-se com mais uma piscada do olho esquerdo de Björn B .
domingo, 1 de junho de 2014
O premio - 18
Johan Svensson foi à Academia num momento em que certamente encontraria Björn B .
" Bom dia , doutor Björn ... "
Só de ve-lo Björn abriu um largo sorriso. É que ele não o chamava de Johan, mas sim de Sven Svensson. E tal encontro de sons semelhantes ( Sven Svensson ) ocasionava um resultado linguístico no mínimo peculiar ... Sven Svensson ... E Björn sempre divertia-se com a brincadeira que fazia com o nome de Johan .
"Bom dia, Sven Svensson ... que bons ventos o trazem ... "
"Vou ser direto, doutor Björn. Tenho um amigo brasileiro que veio para o nosso país por motivos pessoais. Posso garantir que é sangue bom ... Embora o conheça há pouco tempo; algo me diz que ele é do bem ... "
" Como é o nome do moço ? "
"Dei um apelido ao cara que prontamente pegou . É o próprio nome de sua origem, do país de onde vem ... Brzil . "
"Tudo bem. E o que se passa com o tal senhor Brzil ? "
"Sei que tem um plano a cumprir em nosso país; mas disto pouco sei. Mas vi que ele é muito afiado em futebol. Pode ficar por muitos minutos fazendo malabarismos com algo parecido com uma bola. Uma laranja por exemplo . "
"Bom, mas o que eu posso fazer para o seu amigo ? "
"É que acabou o dinheiro que ele trouxe. Daí que o senhor Lennart está prestes a jogá-lo na rua pela falta de pagamentos ao Hotel. Pelo que me falou, tem toda a competência para ser um bom técnico de futebol, nem que seja de times de adolescentes, crianças mesmo ... ; pelo seu relacionamento no meio esportivo - quem faltaria a um pedido de Björn B ? - vim pedir que interceda em favor de Brzil, que precisa de dinheiro - por pouco que seja - e um lugar para morar. Quem sabe, em alojamentos de ginásio de esportes ... ? '
" Johan Sven Svensson ... sempre me mantive à distância de brasileiros ... e não sou apenas eu que penso assim na Suécia; mas, um pedido seu, um pedido de quem tanto me ajuda nos contatos com os eleitores; tem importância para mim. Diga para o Brzil vir falar comigo na quinta-feira à tarde. Vou ver o que posso fazer por seu amigo."
"Dr. Björn ... um último pormenor. Pelo que conheço do meu amigo, ele não gostaria de saber desta solicitação que lhe faço. Parece que ele não quer valer-se de atalho algum; do que ele chama de jeitinho. Quem sabe o senhor ligaria para o Central e diria que sua fama de futebolista já ultrapassou os limites do hotel ? Que está sabendo que um clube esportivo precisa agora de um técnico de futebol, se for o caso. É que a amizade compreende estes cuidados, e sinto que meu amigo está muito sensibilizado ... "
"Não se preocupe ... eu saberei conduzir a conversa. Ele não perceberá nada dos cuidados que lhe preocupam, estimado Sven. "
" Bom dia , doutor Björn ... "
Só de ve-lo Björn abriu um largo sorriso. É que ele não o chamava de Johan, mas sim de Sven Svensson. E tal encontro de sons semelhantes ( Sven Svensson ) ocasionava um resultado linguístico no mínimo peculiar ... Sven Svensson ... E Björn sempre divertia-se com a brincadeira que fazia com o nome de Johan .
"Bom dia, Sven Svensson ... que bons ventos o trazem ... "
"Vou ser direto, doutor Björn. Tenho um amigo brasileiro que veio para o nosso país por motivos pessoais. Posso garantir que é sangue bom ... Embora o conheça há pouco tempo; algo me diz que ele é do bem ... "
" Como é o nome do moço ? "
"Dei um apelido ao cara que prontamente pegou . É o próprio nome de sua origem, do país de onde vem ... Brzil . "
"Tudo bem. E o que se passa com o tal senhor Brzil ? "
"Sei que tem um plano a cumprir em nosso país; mas disto pouco sei. Mas vi que ele é muito afiado em futebol. Pode ficar por muitos minutos fazendo malabarismos com algo parecido com uma bola. Uma laranja por exemplo . "
"Bom, mas o que eu posso fazer para o seu amigo ? "
"É que acabou o dinheiro que ele trouxe. Daí que o senhor Lennart está prestes a jogá-lo na rua pela falta de pagamentos ao Hotel. Pelo que me falou, tem toda a competência para ser um bom técnico de futebol, nem que seja de times de adolescentes, crianças mesmo ... ; pelo seu relacionamento no meio esportivo - quem faltaria a um pedido de Björn B ? - vim pedir que interceda em favor de Brzil, que precisa de dinheiro - por pouco que seja - e um lugar para morar. Quem sabe, em alojamentos de ginásio de esportes ... ? '
" Johan Sven Svensson ... sempre me mantive à distância de brasileiros ... e não sou apenas eu que penso assim na Suécia; mas, um pedido seu, um pedido de quem tanto me ajuda nos contatos com os eleitores; tem importância para mim. Diga para o Brzil vir falar comigo na quinta-feira à tarde. Vou ver o que posso fazer por seu amigo."
"Dr. Björn ... um último pormenor. Pelo que conheço do meu amigo, ele não gostaria de saber desta solicitação que lhe faço. Parece que ele não quer valer-se de atalho algum; do que ele chama de jeitinho. Quem sabe o senhor ligaria para o Central e diria que sua fama de futebolista já ultrapassou os limites do hotel ? Que está sabendo que um clube esportivo precisa agora de um técnico de futebol, se for o caso. É que a amizade compreende estes cuidados, e sinto que meu amigo está muito sensibilizado ... "
"Não se preocupe ... eu saberei conduzir a conversa. Ele não perceberá nada dos cuidados que lhe preocupam, estimado Sven. "
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