"Não Silvia, não é assim. Acho que se esqueceu de como nos beijávamos em São Paulo. Em vez de soprar você tem que juntar seus lábios nos meus; e sugá-los. Veja, é como eu estou tentando fazer com os seus ... "
Ao mesmo tempo que isto acontecia, Brzil notou que alguém mexia em seus bolsos, como querendo roubar-lhe algo ... , pouco a pouco foi percebendo o que em verdade acontecia. Depois de apalpar os bolsos, a pessoa pegou algo que Brzil tinha neles ...
E foi vendo que, quem fazia aquilo, quem soprava na sua boca não era Silvia, mas sim o Dr. Björn B; o mesmo que procurara em seus bolsos os smart translators e - com eles nas mãos - fazia com que as engenhocas gritassem agudamente em seus ouvidos:
"seu maluco, seu louco ... você quer morrer de frio ..."
Quanto aos pretensos beijos de Silvia, eles eram, na verdade, a respiração boca a boca aplicada por Björn B para que Brzil recobrasse os sentidos.
Foi quando lembrou-se de Saint Exupery: "você é responsável por aquilo que cativa". Agora, salvo que fora pelo Dr Björn B, só restava-lhe a esperança de que o burocrata da Academia de Ciências passasse a ajudar-lhe na realização do seu sonho: um Nobel para o Brasil ! Ou, pelo menos, para que lhe desvendasse o mistério do vazio de prêmios para o Brasil .
quarta-feira, 14 de maio de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
O premio - 11
"Todos
na família sabiam que o modelo que posou para a efígie da Taça Jules Rimet de Futebol era a minha
querida tia Ingrid B, de beleza estonteante. Mesmo assim silenciamos ante o fato dela ter sido derretida por ladrões, quando estava na posse de vocês, brasileiros !
Foi quando Brzil percebeu que uma lágrima, só uma, teimava em sair do olho de Björn, deixando claro o quanto ele considerava a Tia Ingrid B. Mas Björn se recompôs; e reiniciou uma conversação quase normal com Brzil: " A propósito, como é o seu nome; qual é a sua graça, Senhor ? "
Foi quando Brzil percebeu que uma lágrima, só uma, teimava em sair do olho de Björn, deixando claro o quanto ele considerava a Tia Ingrid B. Mas Björn se recompôs; e reiniciou uma conversação quase normal com Brzil: " A propósito, como é o seu nome; qual é a sua graça, Senhor ? "
"Meu nome de família é Alencar. Ildefonso de Alencar. O Ildefonso veio em
razão de que minha região estava dentro da área do Tratado de Santo Ildefonso,
de 1777. Creio que se fosse aqui na Europa, eu me chamaria Alencar de
Ildefonso. Ou, "o Alencar que nasceu na região do Tratado de Santo
Ildefonso". Só que desde que cheguei à Suécia que me chamam de Brzil.
Que é a pronúncia daqui para o nome do meu país".
"Se
o senhor me permitir, usarei o "Brzil", que facilitará a nossa comunicação. Isto posto, devo dizer-lhe, Mr. Brzil, que nem os troféus
amealhados em todas as guerras; nem todos os obeliscos trazidos de longe para
a Europa; nem as estátuas gregas, as esculturas incas por aqui
aportadas; alcançaram a glória contida na conquista definitiva pelo seu país da Taça Jules Rimet. Mesmo assim, repito, ela foi derretida por ladrões que
o seu país não conseguiu deter; ainda que ali estivesse a lindíssima face da tia
Ingrid B; bem como seu belo corpo vestido de seda finíssima ! "
Nesse
momento Brzil notou que Björn B nutria um sentimento estranho por sua tia Ingrid; e pensou: "tudo bem que a Copa do Mundo até que poderia ser o mais
significativo dos troféus esportivos da era moderna.
Mas daí a compará-lo à estátua da Vitória, que conheci no Louvre ... aos
obeliscos egípcios que pontuam mundo afora ... até aí vai um enorme exagero
do Dr. Björn B."
Continuou
Björn: "Como eu vinha dizendo-lhe, o problema foi o derretimento do pequeno troféu; eis que a importância das obras primas está na soma dos olhares de quem, através dos
tempos, enxergou nela a perfeição materializada. Mr. Brzil, a importância está nos que
quiseram possuir para sempre a Taça Jules Rimet dentro de suas fronteiras,
como propriedade do seu país; isto tudo foi o que fez da verdadeira Copa do Mundo o que ela
foi um dia: o objeto mais cobiçado dentre todos os da Terra. E lembrar que o seu país
conquistou a glória de poder detê-la para sempre ... para sempre até que
fosse derretida por ladrões. Assim, o que existe dentro de mim não é um
preconceito inexplicável contra os brasileiros. E veja que, além do motivo falado; deve existir repulsa nos jovens brasileiros, ao perceberem o vazio que deve existir no salão onde hão de
guardar as lembranças das suas glórias nacionais: falta-lhes algo muito maior
do que qualquer Premio Nobel: falta-lhes a Taça Jules Rimet. Sou, como muitos suecos, um
esportista; e posso garantir-lhe que o fato de o seu País não ter sabido
cuidar da pequena estátua em ouro de Tia Ingrid consiste - a meu ver - num
motivo justo para que vocês continuem recebendo da minha pessoa o tratamento
que tiveram até aqui. Bom, o meu tempo para o
senhor esgotou-se. Tenha um bom dia, Sr. Brzil !", disse isto
estendendo a mão espalmada para a despedida .
Brzil,
naquele lapso de tempo percebeu qual era o sentimento que o Dr. B possuía pela
tia. Sim, "Björn deveria ter uma fixação infantil, ou - talvez pior -
infanto-juvenil ... freudiana ... sei lá ". Pensou.
"Sei que,
com tão pouco tempo, nada poderei fazer pela relação psicótica - paranoica,
sei lá ... - que o Dr. Björn B tem pela sua tia ..." . Pensou Brzil,
sabendo que teria que responder-lhe algo imediatamente.
"Um
momento Mr. Björn B. Só mais um momento por favor ! Sinto muito por tudo isto, principalmente pela importância da Taça para a sua prezada família: mas pode
ser que nem tudo esteja perdido: devo informar-lhe que - por uma feliz
providência - foi tirado do molde uma fidelíssima cópia em gesso.
Repito, uma cópia extremamente exata do maravilhoso troféu. E a Kodak, com o
mais nobre dos objetivos, presenteou-nos; presenteou o Brasil com tal réplica.
Até a gradação do ouro contido na estatueta é a mesma do hipotético
original: dezoito quilates."
"Impossível isto acontecer Mr. Brzil. E tal impossibilidade não chega a ser
decorrente de eventual inexatidão da cópia por você mencionada. Ela pode ser
perfeita, mas não estão ali coladas as emoções; aqueles olhares boquiabertos
a mirar-lhe. O que falta-lhe é a "originalidade pelo menos ficta".
Ou o senhor acha que na Gioconda existe hoje uma, uma só pincelada de tinta
juntada à tela por Leonardo Da Vinci ? Posso garantir-lhe que não ! É óbvio
que, de tinta pintada pelo Mestre, de há muito nada mais existe ali, tal é a
inexorabilidade que o tempo exerce na destruição de uma obra qualquer. Mas, se
não é verdadeira a originalidade ali impressa ; a originalidade ficta permanece
íntegra avalizando estar aquela obra fresca como na primeira hora de toda a sua
vida . É por isto que sua iconicidade permanece intocada. O que importa é que
todos pensem, acreditem pelos tempos afora que tudo o que está na tela foi
feito pelo gênio. Mr. Brzil, isto é o que foi diluído no derretimento da
Copa Jules Rimet: a originalidade que só está no ícone - nele e em nada mais.
O que os brasileiros - ou mesmo os estrangeiros que forem ao Rio de Janeiro
poderão admirar é nada mais do que uma cópia. Uma Taça Jules Rimet cover.
Também de puro ouro; mas cover. "
Björn foi
em frente, na intenção de livrar-se de Ildefonso: "Mr. Brzil, reitero agora o "bom dia" que lhe ofereci há pouco: Bom
dia Mr. Brzil ! " Estendeu a mão que foi apertada pelo brasileiro, que
respondeu quase misteriosamente .
"Bom dia, Mr. Björn B. Obrigado por não ter dito adeus ! "
Com a
cabeça zunindo, Brzil escolheu ir andando pela rua, até o Hotel Central mesmo
não sabendo se seu coração aguentaria gerar - no gelo todo que era aquela rua -
a energia necessária para manter-lhe vivo. Mas de uma coisa estava certo:
caso sobrevivesse agora, ele continuaria na luta para levar para o Brasil - se não um premio Nobel - pelo menos os motivos do tratamento ignóbil que os suecos vinham dedicando ao Brasil.
Não foi preciso andar muito tempo para perceber que, de forma incontrolada, contorcia-se de frio, para logo depois perder os sentidos.
Não foi preciso andar muito tempo para perceber que, de forma incontrolada, contorcia-se de frio, para logo depois perder os sentidos.
O premio - 10
O aperto de mão do Dr. Björn foi muito firme . "Só aceitei recebe-lo pelo pedido ter sido feito por quem foi ... " disse secamente .
Dr. Björn B tinha os cabelos totalmente embranquecidos , que caíam-lhe sobre os ombros, como se fossem de uma Monalisa sueca. Mas só os cabelos poderiam lembrar algo de feminino, o restante da figura era enxuta e musculosa .
"Mesmo assim, eu agradeço por ter-me recebido, Dr. Björn B. Permita-me perguntar sobre o motivo de o senhor, caso eu não viesse apresentado por pessoa de linhagem tão nobre, não aceitar receber- me ? "
"Vou ser franco. Mesmo existindo possibilidade de o senhor ser a melhor pessoa do mundo , mesmo assim, devo confessar-lhe que eu não morro de amores por brasileiros " .
"Mas Dr. B, nós todos, seres humanos, temos que lutar contra uma flor negra que teima em vicejar todas as manhãs dentro de nós. É a flor negra do preconceito. O preconceito que estende a qualidade de alguns indivíduos para toda a universalidade deles. Quando o senhor disse" eu não morro de amores pelos brasileiros ", certamente quis dizer: "Eu não simpatizo com alguns brasileiros, por estes terem-me feito um grande mal." Mas se não lutarmos dia e noite contra o monstro do preconceito, ele pode tomar conta dos nossos cérebros. E o pior, logo depois ele domina os nossos corações, Mr. Björn B ! Dr. Björn, eu vim quase do Polo Sul, para este quase Polo Norte certo de que encontraria alguém de boa fé para receber-me aqui. Tudo porque acredito que não pode existir motivo suficiente para afastar o Brasil, durante tanto tempo, da honraria contida num Premio Nobel; qualquer um deles. O certo é que me preparei mentalmente como um cruzado para o momento de fazer esta pergunta à Academia de Ciências: "qual o motivo dos suecos e noruegueses, desprezarem as artes brasileiras, Dr. Björn B." Björn que já tinha uma desculpa na ponta da língua, respondeu prontamente .
Dr. Björn B tinha os cabelos totalmente embranquecidos , que caíam-lhe sobre os ombros, como se fossem de uma Monalisa sueca. Mas só os cabelos poderiam lembrar algo de feminino, o restante da figura era enxuta e musculosa .
"Mesmo assim, eu agradeço por ter-me recebido, Dr. Björn B. Permita-me perguntar sobre o motivo de o senhor, caso eu não viesse apresentado por pessoa de linhagem tão nobre, não aceitar receber- me ? "
"Vou ser franco. Mesmo existindo possibilidade de o senhor ser a melhor pessoa do mundo , mesmo assim, devo confessar-lhe que eu não morro de amores por brasileiros " .
"Mas Dr. B, nós todos, seres humanos, temos que lutar contra uma flor negra que teima em vicejar todas as manhãs dentro de nós. É a flor negra do preconceito. O preconceito que estende a qualidade de alguns indivíduos para toda a universalidade deles. Quando o senhor disse" eu não morro de amores pelos brasileiros ", certamente quis dizer: "Eu não simpatizo com alguns brasileiros, por estes terem-me feito um grande mal." Mas se não lutarmos dia e noite contra o monstro do preconceito, ele pode tomar conta dos nossos cérebros. E o pior, logo depois ele domina os nossos corações, Mr. Björn B ! Dr. Björn, eu vim quase do Polo Sul, para este quase Polo Norte certo de que encontraria alguém de boa fé para receber-me aqui. Tudo porque acredito que não pode existir motivo suficiente para afastar o Brasil, durante tanto tempo, da honraria contida num Premio Nobel; qualquer um deles. O certo é que me preparei mentalmente como um cruzado para o momento de fazer esta pergunta à Academia de Ciências: "qual o motivo dos suecos e noruegueses, desprezarem as artes brasileiras, Dr. Björn B." Björn que já tinha uma desculpa na ponta da língua, respondeu prontamente .
domingo, 27 de abril de 2014
O premio - 9
Chegara a quarta-feira. Já nas cercanias do campo de futebol, ouviu Johan chamar: " Brzil , Brzil , Brzil ... "
Johan, de olhos arregalados, reagiu prontamente aos amigos ... "se ele faz isso com uma laranja ... com uma bola oficial ele deve arrasar ! "
Firmado estava o sofisma proposto pelo brasileiro: que Johan partisse de sua premissa verdadeira ( por ser Brzil um bom malabarista de laranjas ) chegasse a uma conclusão falsa; que ele fosse também um dos bons com bolas de futebol oficiais .
Era claro que "Brzil" era ele. Cumprimentou Johan abraçando-o, e apertou as mãos dos seus colegas, que se aproximaram, querendo saber se ele jogava mesmo futebol. Pegou a laranja que trazia no bolso da jaqueta e começou a fazer as embaixadas, para ele, costumeiras: Variava a força dada na esfera fazendo-a ora ir baixinho, ora alta, até mesmo cabeceando-a, para depois conseguir que ela parasse nas costas e escorregasse devagar até o calcanhar; para, então, trazê-la para a frente, vindo a morrer no peito do pé direito .
Johan, de olhos arregalados, reagiu prontamente aos amigos ... "se ele faz isso com uma laranja ... com uma bola oficial ele deve arrasar ! "
Firmado estava o sofisma proposto pelo brasileiro: que Johan partisse de sua premissa verdadeira ( por ser Brzil um bom malabarista de laranjas ) chegasse a uma conclusão falsa; que ele fosse também um dos bons com bolas de futebol oficiais .
Mas o que de melhor poderia acontecer naquele dia ... aconteceu . Ele ganhara um nome em sueco : Brzil !
Ao chegar ao hotel , Brzil lembrou que sua técnica de malabarismos com laranjas já não era a mesma e decidiu que tinha que voltar praticar os antigos passos para desenferrujar as articulações , oxidadas por tantos anos de inatividade circense .
Jogou a laranja para uma altura suficiente e, com o pé direito, fez com que ela desse uma volta em seu eixo; mesmo que fazer aquilo tenha sido -um dia- algo banal; agora a laranja teimava em bater no lado errado do pé , caindo no chão .
Ensaiou por mais um bom tempo; o suficiente para perder a noção e quanto tempo ficou naquilo .
Maravilhosamente, a habilidade foi voltando. Mesmo assim, aquele passe em que a bola chegava às costas, abaixo do pescoço para mansamente ali ficar este ele não conseguia concluir com perfeição. Como dizia, não estava "limpo". Só ficaria "limpo" quando, depois de paralisada, a laranja, obedecendo a um golpe dado com as costas, pulasse para a frente para cair em cima do pé direito, quando então o show recomeçaria .
Treinou, treinou até ficar exausto. Até que no final conseguiu o movimento todo, tão limpo quanto era possível ser depois de três décadas sem fazê-lo. Morto de cansaço, atirou-se na cama e dormiu por muitas horas.
Ao chegar ao hotel , Brzil lembrou que sua técnica de malabarismos com laranjas já não era a mesma e decidiu que tinha que voltar praticar os antigos passos para desenferrujar as articulações , oxidadas por tantos anos de inatividade circense .
Jogou a laranja para uma altura suficiente e, com o pé direito, fez com que ela desse uma volta em seu eixo; mesmo que fazer aquilo tenha sido -um dia- algo banal; agora a laranja teimava em bater no lado errado do pé , caindo no chão .
Ensaiou por mais um bom tempo; o suficiente para perder a noção e quanto tempo ficou naquilo .
Maravilhosamente, a habilidade foi voltando. Mesmo assim, aquele passe em que a bola chegava às costas, abaixo do pescoço para mansamente ali ficar este ele não conseguia concluir com perfeição. Como dizia, não estava "limpo". Só ficaria "limpo" quando, depois de paralisada, a laranja, obedecendo a um golpe dado com as costas, pulasse para a frente para cair em cima do pé direito, quando então o show recomeçaria .
Treinou, treinou até ficar exausto. Até que no final conseguiu o movimento todo, tão limpo quanto era possível ser depois de três décadas sem fazê-lo. Morto de cansaço, atirou-se na cama e dormiu por muitas horas.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
O premio - 8
Johan Svensson, este era o nome do novo amigo que acabava de conhecer na casa de lanches onde agora comia um hamburguer. Na verdade, seu nome era Johan Sven Svensson, segundo ele detalhou logo depois .
Pelo alto preço do lanche, concluiu que as refeições normais seriam ainda mais caras. Preocupou-se ao ver que de agora em diante só poderia comer sanduíches; se comesse comida de verdade, seu dinheiro acabaria logo. "Preciso é arranjar trabalho." Pensou.
Ao saber que Ildefonso chegara do Brasil, Johan confidenciou que estava triste porque um dia tivera planos de - por alguma forma - chegar à copa do futebol no Brasil. Mas isso se a Suécia, ou pelo menos algum país escandinavo, tivesse se classificado para a Copa.
"É que eu sou jogador amador de futebol. Aliás, por aqui todos dizem que os brasileiros jogam futebol muito bem. E você ? "
"No Brasil nunca decepcionei jogando bola; e o time onde jogo atualmente é campeão da liga de futebol de Osasco. Você já ouviu falar em Osasco ? "
Disse-o numa tentativa quase que desesperada de conseguir um amigo. Mas não era verdade. O que Ildefonso tinha; era, tão somente, uma grande habilidade em bater quase que infinitamente com o peito do pé na "bola", sem deixá-la cair ao chão. Assim , como um artista de circo. Mas jogar bola para valer, e em campo de futebol oficial, nisso ele era de uma mediocridade exemplar.
Num momento, Ildefonso percebeu que Johan perdera a noção da diferença de idade que os separava. Tudo pelo encanto só proporcionado pelo futebol ; mundo em que a fama dos brasileiros jamais fora ultrapassada na Suécia. Se bem que Ildefonso era mesmo "bom de bola". Ou melhor, "bom de bolinha". Com elas , - modéstia à parte - ele era um artista.
Foi quando Ildefonso voltou a animar Johan: "Mas você ainda pode ir ao Brasil; quem sabe torcendo pela Holanda ! "; mas Sven deu de ombros, afastando a hipótese: "Não pretendo sequer assistir aos jogos, mas se tivesse que torcer para algum time, eu torceria para o o Uruguai ... "
"É uma ótima escolha. Um país pequeno mas com grande tradição em futebol. Acho que é por isto que você escolheria - ou melhor, escolherá, estou certo - o Uruguai para ser o seu segundo time, certamente por ser pequeno, mas já ter ganhado diversas vezes a Copa ."
"Não ... é porque liberaram a marijuana por lá ... Mas se você joga tão bem futebol; pode jogar no meu time ... ? "
"Cheguei ontem, mas logo que esteja recuperado da viagem posso treinar no seu time, por que não ? E você, o que faz ? "
"Sou estudante, e trabalho na Academia Real de Ciências ... mas trabalho em casa. "
" Onde vocês jogam ? "
" Amanhã treinaremos no Gunnar Nilsson ... "
"A que horas ? "
"Às nove. Posso dizer que levarei um brasileiro para o nosso time ? "
"Tudo bem ... vou lá visitar vocês ... mas acho que amanhã ainda estarei cansado. Foram muitas horas de voo. Mas algo do meu futebol eu poderei mostrar, certamente. "
Disse isso pensando em levar uma laranja no bolso. Já vivera outras ocasiões em que a confusão com que de fato jogasse futebol levou-o a constrangimentos. Mas sabia que sempre poderia fazer umas embaixadas com a laranja que levaria no bolso. Sua pretensão era, desde já, enraizar o quanto fosse possível, a amizade com Johan Sven; e não por causa dele trabalhar na academia do Nobel; mas porque, ainda que tivesse chegado há pouco tempo, já sentia falta de ter pelo menos um amigo.
Pelo alto preço do lanche, concluiu que as refeições normais seriam ainda mais caras. Preocupou-se ao ver que de agora em diante só poderia comer sanduíches; se comesse comida de verdade, seu dinheiro acabaria logo. "Preciso é arranjar trabalho." Pensou.
Ao saber que Ildefonso chegara do Brasil, Johan confidenciou que estava triste porque um dia tivera planos de - por alguma forma - chegar à copa do futebol no Brasil. Mas isso se a Suécia, ou pelo menos algum país escandinavo, tivesse se classificado para a Copa.
"É que eu sou jogador amador de futebol. Aliás, por aqui todos dizem que os brasileiros jogam futebol muito bem. E você ? "
"No Brasil nunca decepcionei jogando bola; e o time onde jogo atualmente é campeão da liga de futebol de Osasco. Você já ouviu falar em Osasco ? "
Disse-o numa tentativa quase que desesperada de conseguir um amigo. Mas não era verdade. O que Ildefonso tinha; era, tão somente, uma grande habilidade em bater quase que infinitamente com o peito do pé na "bola", sem deixá-la cair ao chão. Assim , como um artista de circo. Mas jogar bola para valer, e em campo de futebol oficial, nisso ele era de uma mediocridade exemplar.
Num momento, Ildefonso percebeu que Johan perdera a noção da diferença de idade que os separava. Tudo pelo encanto só proporcionado pelo futebol ; mundo em que a fama dos brasileiros jamais fora ultrapassada na Suécia. Se bem que Ildefonso era mesmo "bom de bola". Ou melhor, "bom de bolinha". Com elas , - modéstia à parte - ele era um artista.
Foi quando Ildefonso voltou a animar Johan: "Mas você ainda pode ir ao Brasil; quem sabe torcendo pela Holanda ! "; mas Sven deu de ombros, afastando a hipótese: "Não pretendo sequer assistir aos jogos, mas se tivesse que torcer para algum time, eu torceria para o o Uruguai ... "
"É uma ótima escolha. Um país pequeno mas com grande tradição em futebol. Acho que é por isto que você escolheria - ou melhor, escolherá, estou certo - o Uruguai para ser o seu segundo time, certamente por ser pequeno, mas já ter ganhado diversas vezes a Copa ."
"Não ... é porque liberaram a marijuana por lá ... Mas se você joga tão bem futebol; pode jogar no meu time ... ? "
"Cheguei ontem, mas logo que esteja recuperado da viagem posso treinar no seu time, por que não ? E você, o que faz ? "
"Sou estudante, e trabalho na Academia Real de Ciências ... mas trabalho em casa. "
" Onde vocês jogam ? "
" Amanhã treinaremos no Gunnar Nilsson ... "
"A que horas ? "
"Às nove. Posso dizer que levarei um brasileiro para o nosso time ? "
"Tudo bem ... vou lá visitar vocês ... mas acho que amanhã ainda estarei cansado. Foram muitas horas de voo. Mas algo do meu futebol eu poderei mostrar, certamente. "
Disse isso pensando em levar uma laranja no bolso. Já vivera outras ocasiões em que a confusão com que de fato jogasse futebol levou-o a constrangimentos. Mas sabia que sempre poderia fazer umas embaixadas com a laranja que levaria no bolso. Sua pretensão era, desde já, enraizar o quanto fosse possível, a amizade com Johan Sven; e não por causa dele trabalhar na academia do Nobel; mas porque, ainda que tivesse chegado há pouco tempo, já sentia falta de ter pelo menos um amigo.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
O premio - 7
Leu no envelope que tinha as armas da família de Silvia :
"Dr. Björn B .
"Kungliga Vetenskapsakademien "
Björn B ... o nome não lhe era totalmente estranho ...
No outro dia foi à Academia, na verdade um vetusto edifício do início do século passado. "É que todos estes edifícios do começo do século XX eram quase iguais; colunas à frente da entrada que suportavam uma laje avançada sob a qual os senhores desciam dos coches com suas madames ... quase todos os prédios obedeciam a esta arquitetura ... ". Pensou.
Com muito cuidado perguntou à atendente na recepção do edifício: " Do you speak English ? "
A moça balbuciou algo que, pelo balançar lateral da cabeça, deixou claro que nada queria falar de Inglês. Se não tivesse trazido os smart translators, estaria mal na foto desde o começo do jogo. "
Meio que pedindo desculpas retirou os translators da bolsa e falou através deles à atendente: "Eu estou procurando o senhor Björn B, que - pelo que sei - é funcionário desta Academia ... "
A moça desarmou o semblante ao escutar, em sueco, o que se originava, na boca de Ildefonso, no idioma Português. E passou a mirá-lo com admiração. Ele estendeu-lhe - balbuciando um pardon - o outro aparelho , que ainda tinha na mão, mostrando o botão verde que ela deveria premir quando falasse.
Foi o que fez: "O Dr. Björn não está, e só voltará amanhã à tarde ". O som da voz traduzida para o português era algo metálico, mas os smart translators saíram-se muito bem em sua estreia. A tradução, vinda do sueco para o português, era totalmente compreensível, fato que causou imensa satisfação interior: "já posso comunicar-me com os suecos em sua língua ( ! ! ) ", comemorou consigo mesmo. Estendeu o envelope, entregando-o à moça: "Por gentileza: marque uma reunião com o doutor Björn B; se possível, para a tarde de amanhã ."
"Dr. Björn B .
"Kungliga Vetenskapsakademien "
Björn B ... o nome não lhe era totalmente estranho ...
No outro dia foi à Academia, na verdade um vetusto edifício do início do século passado. "É que todos estes edifícios do começo do século XX eram quase iguais; colunas à frente da entrada que suportavam uma laje avançada sob a qual os senhores desciam dos coches com suas madames ... quase todos os prédios obedeciam a esta arquitetura ... ". Pensou.
Com muito cuidado perguntou à atendente na recepção do edifício: " Do you speak English ? "
A moça balbuciou algo que, pelo balançar lateral da cabeça, deixou claro que nada queria falar de Inglês. Se não tivesse trazido os smart translators, estaria mal na foto desde o começo do jogo. "
Meio que pedindo desculpas retirou os translators da bolsa e falou através deles à atendente: "Eu estou procurando o senhor Björn B, que - pelo que sei - é funcionário desta Academia ... "
A moça desarmou o semblante ao escutar, em sueco, o que se originava, na boca de Ildefonso, no idioma Português. E passou a mirá-lo com admiração. Ele estendeu-lhe - balbuciando um pardon - o outro aparelho , que ainda tinha na mão, mostrando o botão verde que ela deveria premir quando falasse.
Foi o que fez: "O Dr. Björn não está, e só voltará amanhã à tarde ". O som da voz traduzida para o português era algo metálico, mas os smart translators saíram-se muito bem em sua estreia. A tradução, vinda do sueco para o português, era totalmente compreensível, fato que causou imensa satisfação interior: "já posso comunicar-me com os suecos em sua língua ( ! ! ) ", comemorou consigo mesmo. Estendeu o envelope, entregando-o à moça: "Por gentileza: marque uma reunião com o doutor Björn B; se possível, para a tarde de amanhã ."
terça-feira, 22 de abril de 2014
O premio - 6
Os olhares dos amigos foram ficando ternos. Sinal de que não tinham se esquecido totalmente. Foi quando Silvia entregou-lhe uma carta para a pessoa que, segundo ela, era quem organizava a escolha do premio. Para, logo depois, perguntar por quanto tempo ele ficaria em Estocolmo.
"Tudo depende de como as coisas acontecerem . Poderei ficar uns dois ... três meses; ou - quem sabe ? - a vida toda. O certo é que - por minha vontade - não voltarei ao Brasil sem pelo menos saber os motivos do ostracismo vindo da Academia Sueca de Ciências para o meu país." Respondeu com um sorriso nos lábios.
"Lembro que estse quixotismo vem de longe. Lembra quando na descida para o estádio do Pacaembu você entrou numa briga de garotos para defender um deles que sequer conhecia, acabou com um olho roxo ? " Recordou Silvia .
"Lembro até a rua em que isto aconteceu: era a Edgar de Souza. Mas agora não é uma questão de eu ser, ou não, uma pessoa contestadora. A meu ver não podemos continuar sendo o único país com nossas dimensão sem a láurea de um - de pelo menos um - Premio Nobel ... "
"Vejo que isto parece ser algo importante, talvez doloroso; mas só para você. Eu, com a origem que tenho, nunca dei conta de tal lacuna na premiação ... "
"E se você tivesse se dado conta, teria tentado fazer algo para mudar a injustiça ? "
"Bom, aqui não é como no Brasil ... não existe a possibilidade de dar-se um jeito. Assim, ainda que eu até pudesse entristecer-me, nada poderia fazer, eis que o assunto pertence à Fundação do Nobel. "
Neste momento entrou na sala a secretária de Silvia. Foi quando os amigos se despediram com um aperto de mãos, mas combinaram que voltariam a conversar. Ildefonso percebeu que o aperto de mão de Silvia ganhou mais emoção, fazendo com que seu coração batesse mais rápido.
"Tudo depende de como as coisas acontecerem . Poderei ficar uns dois ... três meses; ou - quem sabe ? - a vida toda. O certo é que - por minha vontade - não voltarei ao Brasil sem pelo menos saber os motivos do ostracismo vindo da Academia Sueca de Ciências para o meu país." Respondeu com um sorriso nos lábios.
"Lembro que estse quixotismo vem de longe. Lembra quando na descida para o estádio do Pacaembu você entrou numa briga de garotos para defender um deles que sequer conhecia, acabou com um olho roxo ? " Recordou Silvia .
"Lembro até a rua em que isto aconteceu: era a Edgar de Souza. Mas agora não é uma questão de eu ser, ou não, uma pessoa contestadora. A meu ver não podemos continuar sendo o único país com nossas dimensão sem a láurea de um - de pelo menos um - Premio Nobel ... "
"Vejo que isto parece ser algo importante, talvez doloroso; mas só para você. Eu, com a origem que tenho, nunca dei conta de tal lacuna na premiação ... "
"E se você tivesse se dado conta, teria tentado fazer algo para mudar a injustiça ? "
"Bom, aqui não é como no Brasil ... não existe a possibilidade de dar-se um jeito. Assim, ainda que eu até pudesse entristecer-me, nada poderia fazer, eis que o assunto pertence à Fundação do Nobel. "
Neste momento entrou na sala a secretária de Silvia. Foi quando os amigos se despediram com um aperto de mãos, mas combinaram que voltariam a conversar. Ildefonso percebeu que o aperto de mão de Silvia ganhou mais emoção, fazendo com que seu coração batesse mais rápido.
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cama
campeia
canalha
capa-e-espada
capa-pretas
capital
capítulo 1
capítulo 12
capítulo 13
capítulo 14
capítulo 15
capítulo 16
capítulo 17
capítulo 18 A
capítulo 18 B
capítulo 19
capítulo 2
capítulo 20
capítulo 21
capítulo 22
capítulo 23
capítulo 24
capítulo 3
capítulo 4
capítulo 47
capítulo 48
capítulo 49
capítulo 5
capítulo 50
capítulo 51
capítulo 52
capítulo 53
capítulo 54
capítulo 55
capítulo 55 R2
capítulo 56
capítulo 57
capítulo 58
capítulo 59
capítulo 6
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