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domingo, 27 de abril de 2014

O premio - 9

Chegara a quarta-feira. Já nas cercanias do campo de futebol, ouviu Johan chamar: " Brzil , Brzil , Brzil ... "

Era claro que "Brzil" era ele.  Cumprimentou Johan abraçando-o,  e apertou as mãos dos seus colegas, que se aproximaram, querendo saber se ele jogava mesmo futebol. Pegou a laranja que trazia no bolso da jaqueta e começou a fazer as embaixadas, para ele, costumeiras:  Variava a força dada na esfera fazendo-a ora ir baixinho, ora alta, até mesmo cabeceando-a, para depois conseguir  que ela parasse nas costas e escorregasse devagar até o  calcanhar; para, então, trazê-la para a frente, vindo a morrer no  peito do pé direito .

 Johan, de olhos arregalados, reagiu  prontamente aos amigos ... "se ele faz isso com uma laranja ... com uma bola oficial  ele deve arrasar ! "

Firmado estava o sofisma proposto pelo brasileiro: que Johan   partisse de sua premissa verdadeira  ( por ser Brzil um bom malabarista de laranjas ) chegasse a uma conclusão falsa; que ele fosse também um dos bons com bolas de futebol oficiais .    
Mas  o que de melhor poderia  acontecer naquele dia ... aconteceu . Ele ganhara  um nome em sueco : Brzil !

Ao chegar ao  hotel ,  Brzil lembrou que sua técnica de malabarismos com laranjas já não era a mesma e decidiu que tinha  que voltar praticar os antigos passos para  desenferrujar as articulações , oxidadas  por tantos anos de inatividade  circense .

Jogou a laranja para uma altura suficiente e, com o pé direito,  fez com que ela desse uma volta em seu eixo; mesmo que fazer aquilo tenha sido  -um dia-  algo banal; agora a laranja teimava em bater no lado errado do pé , caindo no chão .

Ensaiou  por mais um bom tempo; o suficiente para perder  a noção e  quanto tempo ficou naquilo .

Maravilhosamente, a habilidade foi voltando. Mesmo assim, aquele passe em que a bola chegava às costas,  abaixo do pescoço  para mansamente ali ficar  este ele não conseguia concluir com perfeição. Como dizia,  não estava "limpo". Só ficaria "limpo" quando, depois de paralisada, a laranja, obedecendo a um golpe dado com as costas, pulasse para a frente para cair em cima do pé direito, quando então o show recomeçaria .

Treinou, treinou até ficar exausto. Até que no final conseguiu o movimento todo, tão limpo quanto era possível ser depois de três décadas sem fazê-lo. Morto de cansaço, atirou-se na cama e dormiu por muitas horas.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O premio - 8

Johan Svensson, este era o nome do novo amigo que acabava de conhecer na casa de lanches onde agora comia um hamburguer. Na verdade, seu nome era Johan Sven Svensson, segundo ele detalhou logo depois . 

Pelo alto preço do lanche, concluiu que as refeições normais  seriam ainda  mais caras. Preocupou-se ao ver que de agora em diante só poderia comer sanduíches; se comesse comida de verdade, seu dinheiro acabaria logo. "Preciso é arranjar trabalho."  Pensou. 

Ao saber que Ildefonso chegara do Brasil, Johan confidenciou que estava triste porque um dia tivera planos de - por alguma forma - chegar à copa do futebol no Brasil. Mas isso se a Suécia, ou pelo menos algum país escandinavo, tivesse se classificado para a Copa.

"É que eu sou jogador amador de futebol. Aliás, por aqui todos dizem que os brasileiros jogam futebol muito bem.  E você ? "

"No Brasil nunca decepcionei jogando bola; e o time onde jogo atualmente é campeão da liga de futebol de Osasco. Você já ouviu falar em Osasco ? "  

Disse-o numa tentativa quase que desesperada de conseguir um amigo. Mas não era verdade. O que Ildefonso tinha; era, tão somente, uma grande habilidade em bater quase que infinitamente com o peito do pé na "bola", sem deixá-la cair ao chão. Assim ,  como um artista de circo. Mas jogar bola para valer, e em campo de futebol oficial,  nisso ele era de uma mediocridade exemplar.

Num momento, Ildefonso percebeu que Johan perdera a noção da diferença de idade que os separava. Tudo pelo encanto só proporcionado pelo futebol ; mundo em que a fama dos brasileiros  jamais fora ultrapassada na Suécia. Se bem que Ildefonso era mesmo "bom de bola". Ou melhor, "bom de bolinha".  Com elas , -  modéstia à parte -  ele era um artista.

Foi quando Ildefonso voltou a animar Johan: "Mas você ainda pode ir ao Brasil; quem sabe torcendo pela Holanda ! "; mas Sven deu de ombros, afastando a hipótese: "Não pretendo sequer assistir aos jogos, mas se tivesse que torcer para algum time, eu torceria para o o Uruguai ... "

"É uma ótima escolha. Um país pequeno mas com grande tradição em futebol. Acho que é por isto que você escolheria  - ou melhor, escolherá, estou certo  -  o Uruguai  para ser o seu segundo time, certamente por ser pequeno, mas já ter ganhado diversas vezes a Copa ."

"Não ... é porque liberaram a marijuana por lá  ... Mas se você joga tão bem futebol; pode jogar no meu time ... ? "

"Cheguei ontem, mas logo que esteja recuperado da viagem posso treinar no seu time, por que não ?  E você, o que faz ? "

"Sou estudante, e trabalho na Academia Real de Ciências ... mas trabalho em casa. "

" Onde vocês jogam ? "

" Amanhã treinaremos no Gunnar Nilsson ... "

"A que horas  ? "

"Às nove. Posso dizer que levarei um brasileiro para o nosso time  ? "

"Tudo bem  ...  vou lá visitar vocês ...  mas acho que amanhã ainda estarei cansado. Foram muitas horas de voo. Mas algo do meu futebol eu poderei mostrar, certamente. "

Disse isso pensando em levar uma laranja no bolso. Já vivera outras ocasiões em que a confusão com que de fato jogasse futebol levou-o a constrangimentos. Mas sabia que sempre poderia fazer umas embaixadas com a laranja que levaria no bolso. Sua pretensão era, desde já, enraizar o quanto fosse possível, a amizade com Johan Sven; e não por causa dele trabalhar na academia do Nobel;  mas porque, ainda que tivesse chegado há pouco tempo, já sentia falta de ter pelo menos um amigo.




quarta-feira, 23 de abril de 2014

O premio - 7

Leu no envelope que tinha as armas da  família de  Silvia  :

"Dr. Björn B . 

"Kungliga Vetenskapsakademien "

 Björn B ... o nome não lhe era totalmente estranho   ...

No outro dia foi à Academia, na verdade um vetusto edifício  do início do século passado. "É que todos estes edifícios do começo do século XX  eram quase iguais; colunas à frente da entrada que suportavam uma laje avançada sob a qual os senhores desciam dos coches com suas madames ... quase todos os prédios obedeciam a esta arquitetura ... ".  Pensou.

Com muito cuidado perguntou à atendente na recepção do edifício: " Do you speak English ? "

A moça balbuciou algo que, pelo balançar lateral da cabeça, deixou claro que nada queria falar de Inglês. Se não tivesse trazido os smart translators, estaria mal na foto desde o começo do jogo. "

Meio que pedindo desculpas retirou os translators da bolsa e falou através deles à atendente: "Eu estou procurando o senhor Björn B, que - pelo que sei - é funcionário desta Academia ... "

A moça desarmou o semblante ao escutar, em sueco, o que se originava, na boca de Ildefonso, no idioma Português. E passou a mirá-lo com admiração. Ele estendeu-lhe  - balbuciando um pardon  -  o outro aparelho , que ainda tinha na mão, mostrando o botão verde que ela deveria premir quando falasse.

Foi o que fez: "O Dr. Björn não está, e só voltará amanhã à tarde ". O som da voz traduzida para o português era algo metálico, mas os smart translators saíram-se muito bem em sua estreia. A tradução, vinda do sueco para o português, era  totalmente compreensível, fato que causou imensa satisfação interior:  "já posso comunicar-me com os suecos em sua língua ( ! ! ) ", comemorou consigo mesmo. Estendeu o envelope, entregando-o à moça:  "Por gentileza: marque uma reunião com o doutor Björn B; se possível, para a tarde de amanhã ."

terça-feira, 22 de abril de 2014

O premio - 6

Os olhares dos amigos foram ficando ternos. Sinal de que não tinham se esquecido totalmente. Foi quando Silvia entregou-lhe uma carta para a pessoa que, segundo ela, era quem organizava a escolha do premio. Para, logo depois, perguntar por quanto tempo ele ficaria em Estocolmo.  

"Tudo depende de como as coisas acontecerem . Poderei ficar uns dois ... três  meses; ou - quem sabe ? -  a vida toda. O certo é que - por minha vontade - não voltarei ao Brasil sem pelo menos saber os motivos do ostracismo vindo da Academia Sueca de Ciências para  o meu país." Respondeu com um sorriso nos lábios.


"Lembro que estse quixotismo vem de longe. Lembra quando  na descida para o estádio do Pacaembu você entrou numa briga de garotos para defender um deles que sequer conhecia, acabou com um olho roxo ? "   Recordou Silvia .

"Lembro até a rua em que isto aconteceu: era a Edgar de Souza. Mas agora não é uma questão de eu ser, ou não, uma pessoa contestadora. A meu ver não podemos continuar sendo o único país com nossas dimensão sem a láurea de um - de pelo menos um - Premio Nobel  ... "

"Vejo que isto parece ser algo importante, talvez doloroso; mas  só  para você. Eu, com a origem que tenho, nunca dei conta de tal lacuna na premiação ... "

"E se você tivesse se dado conta, teria tentado fazer algo para mudar a injustiça ? "

"Bom, aqui não é como no Brasil ... não existe a possibilidade de  dar-se um jeito. Assim, ainda que eu até pudesse entristecer-me, nada poderia fazer, eis que o assunto pertence à Fundação do Nobel. "

Neste momento entrou na sala a secretária de Silvia. Foi quando os amigos se despediram com um aperto de mãos, mas combinaram que voltariam a conversar. Ildefonso percebeu que o aperto de mão de Silvia ganhou mais emoção, fazendo com que seu coração batesse mais rápido.



sexta-feira, 18 de abril de 2014

O cadeado de bolinha azul - 5 . Final

Com a toalha a mulher fez uma trunfa na cabeça ,  à la Carmem Miranda ,  mas seu corpo estava em completa nudez .  E ele sempre tivera uma grande vontade por mulheres nuas , saindo do banho  com trunfas na cabeça  .

Pegou-a nos braços e deitou-a no lugar mais próximo ,  o sofá da sala

.......

"Nem na nossa noite de núpcias você me pegou no colo ... "

" Eu sei , eu sei ,  então hoje paguei a dívida ... "

" É , antes tarde do que nunca ...  e a sua reunião ,  como é que cai ficar ... "

" Agora nada importa , o que vale é que estamos aqui ,  revivendo  ...  renascendo ... "

"  Eu sempre acreditei que poderíamos reconstruir um passado que nós dois queríamos que voltasse ... "

"  Sim , faremos aquelas viagens sempre adiadas ,  vamos à Chapada  Diamantina , com seus lagos azuis que só conhecemos por fotos ,  vamos  ao sul do Chile ,  à Cuba - sim temos que ir antes que Fidel embarque , depois tudo vai mudar ,  e Lisboa , eu tenho muitas saudades  de  Lisboa  apesar de nunca ter ido por lá ... "

" Foi preciso um desencontro ... este drama do cadeado de bolinha azul - o velho - para que você me descobrisse ,  não foi ... "

" E por falar nisto ... eu acho que esqueci de novo a senha do cadeado de bolinha azul velho ... "

Fim




quarta-feira, 16 de abril de 2014

O cadeado de bolinha azul - 4

Ao ver a mulher quase molhada esqueceu   por pouco tempo  o cadeado de bolinha azul . Sequer olhou para a tomada .  Foi dizendo meio sem jeito ...  " não sei o que tenho hoje ,  lembro de  uma coisa e  esqueço da próxima . "

" Pois é ... depois que você trouxe os cadeados de bolinha dos Estados Unidos não liga para mais nada ... "

" Não é bem assim ... sabe como é ... a crise paira no ar ... entra pelos pulmões ... infiltra-se no sangue ... "

Mesmo sem fixar o olhar percebeu a região pubiana da mulher e  ficou meio indeciso ... tinha a reunião , o contrato ...  mas o cheiro de sabonete  misturavam-se  com outros  novos odores ...  tudo foi se esmaecendo em seu cérebro , perdendo importância rapidamente ...



segue


sábado, 12 de abril de 2014

O premio - 4

Desceu em Arlanda. Cansado, foi direto para o Hotel Central, na Vasagatan. Esse é o nome da rua do hotel; que lhe pareceu nome de remédio: Vasagatan  500 mg ... nada mal para denominar um remédio para as cardiovascularidades. "E chega de pensamentos preconceituosos com o idioma sueco ! "      " Sim ! dizem que existe uma percepção físico-sensorial que capta tudo que sai de um coração - ou mesmo, de um cérebro - que não esteja totalmente voltado para fazer o bem - inclusive no que seja relativo às especificidades dos fonemas suecos. Qualquer tipo de maldade, de ironia, porventura introduzida no cérebro, no pensamento de alguém ... poderia ser captada extrassensorialmente pelas pessoas que teria que procurar em nome do Brasil. E, sendo assim, qualquer pensamento negativo, por menor que fosse, poderia levar ao fracasso o projeto que visava, como um dos objetivos a cumprir, trazer um Prêmio Nobel. Pelo menos um. Não  ! ! o idioma Sueco é lindo, e muitos dos seus fonemas são até mais belos do que as sonoridades inglesas, francesas, ou espanholas ! "

Soube que Vasagatan era um logradouro em honra a Gustav Vasa - um dos reis da Suécia.  "posso até estar errado; mas se Vasa é o nome do rei homenageado, gatan bem deve significar avenida, ou rua ... sei lá ... ; Vasagatan ....  500 miligramas ... Não ! Isso não !! "

Logo que chegasse de verdade, pediria à Silvia que marcasse uma reunião com uma pessoa tão decisiva no processo anual de escolha dos Premios Nobel, quanto lhe fosse possível fazê-lo.

Os motivos da reivindicação teriam que estar na ponta da língua: não era mais compreensível, além de ser injusto, que o Brasil não tivesse um cidadão seu premiado com a maior de todas as honrarias:  O Nobel !

Certamente Silvia responderia, ainda que com palavras polidas: " E eu, Silvia, o que tenho a ver com que o Brasil nunca tenha tido um Nobel ... ?  "

Como disse Gabeira, sempre temos que ter uma história ( "o mais verossímil possível ", Ildefonso concluiu por si mesmo ) devidamente pré-estudada, para responder a uma pergunta que nos parece desde já inexorável .

Sem saber por que, lembrou-se que Gabeira já dirigira composições de metrô em Estocolmo " ... a vida é pequena ... e o mundo dá voltas ... daqui há pouco poderia estar num vagão que foi guiado pelo próprio Gabeira, em carne e osso."

E ensaiou: "Veja, Silvia - permita-me tratá-la assim -  já que era como eu a chamava  na nossa puberdade - acho que não me fiz entender bem ... não é que eu queira de imediato arrancar  um Premio Nobel para o Brasil ... "

Mas Idelfonso discordou de seu próprio ensaio:  "Na nossa puberdade, não !  que puberdade  não é um termo para  um reencontro depois de quase cinquenta anos de distanciamento. Ficaria melhor "infância". Não, infância também não. No ouvido soava como o revés de puberdade ... melhor adolescência . "

" ...  permita-me tratá-la assim, pois era como nos chamávamos na nossa adolescência ..." repetiu para si. Ficaria mesmo com adolescência, porque não doía no ouvido.

E continuou ensaiando :

"....  quanto ao Prêmio Nobel, o que preciso saber agora, é o por quê da Academia nunca ter agraciado o nosso país  -  ... perdoe-me ... ao meu país - com essa honorabilidade   ... "

"Não, honorabilidade também doía no ouvido  ; o melhor seria honraria: "Mas, quanto ao Premio Nobel, o que eu preciso saber  agora, é o porque da Academia nunca ter agraciado o meu País com a honraria."      "Ficou melhor assim  ..." 

Bom, mas agora teria que liberar os neurônios ... precisava descansar. As demais respostas seriam ensaiadas no segundo dia de Estocolmo ... por força do hábito premiu o botão do controle da TV  ... só dava para perceber que o programa era um telejornal sueco ...  pouco a pouco foi adormecendo ...



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