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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

8 - No monastério de Bódedalma -

No terceiro dia de estada no monastério o peregrino foi novamente admitido ao Grande Salão de Bodedalma I  ; só que cometeu um erro que poderia ter-lhe custado a vida : na espera do Inefável ousou sentar-se no grande sofá ,  que tinha uns dez metros de comprimento ,  o qual Bódedalma  proibia terminantemente que  qualquer  traseiro , além do próprio ,  ali se abancasse .
Naquele momento uma voz poderosa , ultra-intensa  e super agressiva ocupou todo o volume do grande salão universal :  " Porque pusestes teu cu sujo em meu sofá  celestial ? "      disse o mandão , ao mesmo tempo que- disparava um raio de  sua pistola elétrica que  , mesmo  sendo de baixa intensidade ,  acertou exatamente no ponto visado por Bódedalma , chamuscando  a barriga  de Mondongo ?  "

Depois de soltar um grito lancinante ,  o peregrino ,   respondeu choramingando :

"ora por que ?    Não existe por aqui qualquer proibição de alguém sentar-se a teu lado , e como o que não é proibido é tacitamente permitido ,  eu  tomei a liberdade de pretender abancar-me o  mais próximo possível  de Vossa Sapiência ... "

" Você , como todos os nacionais deste país sempre confiando tão somente em normas escritas, em regulamentos, códigos ... ;  pergunto: e as diferenças sócio-culturais absorvíveis pelos costumes, pelas percepções que se sustentam no ambiente, ou mesmo no ar,  que  -  pela natural  compreensão do que seja certo ou errado, normal ou agressivo  aos costumes - é o único  elemento passível de nos igualar . Pergunto-lhe ,  pó de cupim :  e  toda esta aura que me diferencia de você ; tudo isto de nada serve ?   Toda esta ambientação  excludente  não é  bastante  para que te ponhas no teu lugar  independentemente  de qualquer outro aviso , seja ele escrito ou verbal ?   E , por fim ,  a estética que nos separa , nem ela  chega  a  fazer com que guardes  a distância  intuitível  que deve existir entre nós ? "

" Sim ,  Inteligência Rara  ; tens razão ,  mas mesmo assim a minha possibilidade de diferenciação do que seja real ,  daquilo que não o é ,   a minha pobre  capacidade  de poder separar o joio do trigo  na balança da personalidade  não chegou ao ponto de compreensão independente de normas escritas , ou mesmo verbais  expressas , e por isto peço-lhe o mais profundo dos perdões ... "

" Tudo bem , o momento é de conciliação e paz  ... estás perdoado ! "

" Então posso continuar perguntando ? "

" Digamos que sim ... "

" Lá vai !  ....   se és sozinho ,  se vives nesta ermida ,  se tens tão somente um castelão a servir-te ,  como podes ter carcomido esta cadeia de montanhas para nelas cravar a quantidade imensa de contadores  que permitem  que  desfrutes  concomitantemente do tempo e da razão ? "

- Segue -

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