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sábado, 10 de agosto de 2013

79 - Julietinha e o Oficial do Vapor - Final B

Naquele  momento ,  fronteiriço  entre o dormir e o  estar desperto ,  Silvério , o chefe dos Capa-Pretas  ,  esticou o braço na altura de onde deveria estar a  concha de Aramis . Já era hábito que no despertar os amantes renovassem  os votos da paixão que os unia com uma  reiteração matinal do seu intenso amor  .  Não foi preciso  uma segunda tentativa de apalpar sua amada para que , num estalo ,   percebesse  a traição  da  uruguaia .  Não , não era uma intuição .  A  cama  , vazia  da amante , era um sinal claro de que aquela vida que Silvério vivera até  ali tinha se acabado .

Lembrou-se que uma das exigências que os corruptos fizeram ao montar o time de capa-pretas que guardaria os valores em suas realocações para o paraíso fiscal  era que os guardas fossem solteiros .  Achavam  , tais pessoas , que sendo solteiro o homem que escoltaria os valores teria ,  na possibilidade de precisar resistir a  um assalto , muito mais  desprendimento  para  arriscar verdadeiramente sua vida na defesa dos bens que jurou  transportar .

Assim , quis o destino que os três capa-pretas desfrutassem agora ,  que a montanha de dólares batera as asas para outros donos ,  da possibilidade única para as suas sobrevivências :  desaparecerem  na poeira da estrada que os trouxera até o Boca de Ouro .

Nos demais quartinhos do bordel , as moças permaneceram com seus companheiros , era  a confirmação  de que quem traíra fora Aramis .

Na  mesinha  do pequeno quarto uma folha de papel  com a bela letra de Aramis :  " La mujer tiene alas en la punta del corazón " .   Silvério  leu  e chorou como nunca tinha chorado em toda a sua vida .


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

78 - Julietinha e o Oficial do vapor . Final B

No meio da madrugada - e pouco depois de  D´Artagnan  aliviar  o  furgão original  -  Pituca e Aramis escorregaram ladeira abaixo  o furgão  deles .  Pouco a pouco , muito devagar mesmo,   o carro foi ganhando alguma velocidade - mas só pela lei da gravidade -  na descida  da baixada .  Os pretensos sócios - Pituca e Aramis -   rezavam para que nenhum dos capa-pretas aparecesse  na porta , certamente  de  arma na mão , provavelmente  dando tiros na direção  daqueles  que furtavam  a  que  seria  a maior das remessas de dólares -  estimava-se que estariam ali vinte milhões deles  -  que  , em princípio , deveriam estar guardados pelos Capa Pretas   até  que fossem  entregues à  agência  cisplatina do banco  nos Alpes .

Enfim Pituca colocou a  segunda marcha  para  com ela  dar o tranco no carro  que fez  o motor  pegar .   Ainda que olhasse no retrovisor  -  e como ele  olhava !  -   o estancieiro nada via , só  a escuridão  do  momento  mais escuro da madrugada . Além disto ,  ele também nada ouvia , sinal evidente de que os Capa-Pretas  dormiam  não  representando  perigo algum  para quem  fugiu  com  , ou  melhor , sem  a carga   dólares .  Pituca e Aramis  deram altas gargalhadas  ao  pensarem  como os guardas  despertariam . Será que  entrariam em choque  ?
Era provável ;   muito provável  ,  que  eles queimariam as próprias  naves para  - então -  estabelecerem-se  naqueles pampas, porque se voltassem para o Rio de Janeiro os  espertos ,  os  que  furtaram  os dólares    que  acabaram  de  vazar ladeira abaixo ,  os construtores de Brasilia   não perdoariam  aqueles  capa-pretas que  sempre foram pagos  regiamente  pelo serviços que prometeram  fazer  com total  dedicação .

Mas foi  o amor ,  a paixão  por  àquelas belas gauchas que  modificou  o caráter  dos seguranças , vindo-se  mais uma vez confirmar o dito popular daquelas plagas  que diz que mais puxa um  par de pentelhos do que uma junta de boi  brazino .

Como acontece com os muito ricos , Pituca não chegou a perceber que o dinheiro que ofereceu à Aramis era insignificante .  Tudo porque sabia que  Aramis era do Taquarembó  -  um pueblo perdido  no interior  da República  Oriental  -  também conhecida como república cisplatina .  Pela sua forma de ver a vida , as pessoas ,  e o mundo ,    Pituca  pensou que Aramis  se  emocionaria tanto ,   ao ver em suas mãos cem mil dólares  , que  não se daria conta  da  relatividade  entre  os valores  que restariam para  cada um dos hipotéticos sócios .  Ele ganharia - caso os vinte milhões de dólares viessem a ser confirmados -  ,  duzentas vezes o que  caberia  á  Aramis .

O certo  é que  Pituca  nunca  desconfiou  que isto  poderia  o seu  plano  ao fracasso .  E , certamente , ajudou  no seu  fracasso  .  Imaginemos que  Pituca dividisse  meio a meio  os  vinte milhões  . Provavelmente , nem assim Aramis  trairia  Os Mosqueteiros . Provavelmente .

Amanhecia quando - por dentro daquela estância de Pituca - chegaram à Rivera .

Aramis despediu-se de  Pituca ,  ficando  certo que daí há duas horas encontrariam-se  no  saguão do hotel  , ficando implícito que a sua hipotética parte seria-lhe paga neste encontro .

O dinheiro de Brasilia tornou-se  agora a esperança  de  Pituca  entrar numa bolada federal .






segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Azul da Índia .

A reunião já estava marcada há quatro meses ,  mas ele  não dera importância para o inverno de Moscou .  Mas era inverno  em Moscou .

Ainda sem  pensar no problema , deixou para  pintar os cabelos   -  já  com uns sessenta  por cento de brancos  -   no hotel .

No elevador  ele e o indiano de enorme turbante azul  sorriram um para o outro  arriscando  um good mornig  também recíproco.

O frio lá fora não tinha precedentes para eles ;  mesmo assim pediu para a mulher passar a tintura . Contou  os minutos e foi para o banho.  Segundos depois  faltou energia elétrica .

 " Comunistas filhos da puta ! "   vociferou .   Desesperou-se :  as  luzes de emergência se acenderam  mas o chuveiro do banheiro  que  era  igual aos do  Brasil :  não  tinha  um  reservatório  de água quente sendo , cada um  deles , um aquecedor  independente , e  gelado .    Sem energia  , a água  instantaneamente foi  para quase zero grau .

A reunião ,   o cabelo empapado de tinta marrom  ... água a zero grau ..... .

 Chegou  na  reunião de turbante azul .


quarta-feira, 31 de julho de 2013

77 - Julietinha e o Oficial do vapor - final B

Se olhassemos com uma lente que pegasse a amplitude do plano dos Mosqueteiros veria-se que boa parte dele estava fechado .  Tudo vinha acontecendo como fora previsto .  Pituca veio mesmo conversar com Aramis , que mostrou-se hábil na dissimulação de que estaria absolutamente comprometida com o estancieiro , inclusive mostrando-se muito feliz pelo prêmio que receberia .  Mesmo assim , alguns problemas permaneciam .   Um dos seguranças , dos Capa-Pretas , não bebia álcool .  A questão agora  -   de Pituca e Aramis - era como embebeda-lo .  Aramis  lembrou  que , apesar  de  beber somente sucos de frutas  ,  sobressaia a fama dele ser muito interessado em sexo - nas suas formas mais , digamos , originais e excêntricas .   Pelo menos foi o que confidenciou Prendoca , que era  a moça que  atendia  o vigilante .
Foi quando Pituca sugeriu que um sonífero fosse jogado no suco que o  homem beberia .   Aramis lembrou-se  que D´Artagnan certamente não concordaria com o artifício , eis que o alívio de excessos pecuniários  só admitia  meios naturais para a  requisição deles .  Também lembrou-se que  Prendoca segredou que por mais de uma vez o amante sugerira que ela chamasse  outras meninas para  participarem  de sexo a três , ou quantas mais quisessem  divertir-se com  a orgia .  

Pituca exultou   , dizendo que  :   " Contratarei  desde já  moças dispostas a  tudo que  passar pela  cabeça do quéra ! "     Prendoca , mais  duas , teriam a missão  mantê-lo  totalmente  envolvido  no bacanal .

Fechando mais um pouco o foco :   D ´Artagnan  ,  sabendo que  o  acesso de carros ao  Boca de Ouro  ( que , aliás , estava de há muito tempo fechado  para  funcionamento exclusivo  dos planos de Pituca )   concluiu que  o pequeno caminhão adquirido por  Athos deveria chegar com o motor desligado .  Logo a seguir  , já com os  Capa-Pretas anestesiados  pela atuação das prostitutas ,     D ´ Artagnan   se apossaria da chave do caminhão , onde estava o dinheiro , deixando  a chave do caminhão  falso  para  que , em breves minutos ,  fosse  furtado por Pituca , que também  as chaves entregues por  Aramis .  A  Mosqueteira  informaria  o Pituca  da hora  prevista para ele chegar  , momento em que os  seguranças  estariam fora de combate .

D ´ Artagnan ,  por sua vez , também   desceria  a  rua  com o motor  apagado  ,  vindo a  ligá-lo somente quando  o  ruído do motor  já não pudesse ser  ouvido pelos seguranças .

Aramis seguiria com Pituca , que  tomaria  a direção da República Oriental onde - ainda que fosse feriado  - teria  Don Paniagua  a esperar-lhe , com  funcionários de sua estrita confiança ,  prontos para conferir , receber  e dar recibo do depósito .

Don Paniagua  dissera à  Pituca que tão logo o depósito fosse noticiado , e  desde que o  telex passado por  Paniagua fosse  recebido no paraíso fiscal , tudo isto resultaria em  que tudo estivesse  praticamente consumado :  Sim ,  o dinheiro estando  lá na Europa  já seria  , praticamente ,  uma  propriedade de Pituca ; que mesmo assim , perguntou ao banqueiro :

" Vou ser franco , Don Paniagua ... não gostei do senhor ter usado duas vezes o tal de "praticamente "  Minha pergunta  é :  e quando eu serei  teórica - além de praticamente - totalmente dono do dinheiro ? "

" Usted solamente será dueño de la plata  , en toda la plenitud del termo ,  después que se passar um dia , um dia de veinte e quatro horas pasadas  , um dia  después del  dinero estar  em mis manos ,  niño Pituca . "

Por tal aviso , Pituca soube que o dinheiro seria verdadeiramente seu  somente depois de  dormir por vinte e quatro horas  com os banqueiros .  Naquele  momento  o dinheiro seria definitivamente propriedade sua , nada mais podendo ser feito por quem quer que fosse para modificar tal estado de propriedade .

Aramis  despediria-se de Pituca na entrada de  Rivera , e desapareceria no interior  do  país . A moça  seguiria para o pueblo onde nascera ;  totalmente distanciado de qualquer novidade que  pudesse ser  filtrada ,  de Rivera  para o pueblo  .  Além disto , em  po ali  ninguém sabia da profissão de Aramis  .

Sim ,  o tesouro  seria sepultado em  trigo , dentro de um grande silo , onde o pequeno caminhão hibernaria temporariamente .  Até mesmo as marcas dos pneus do verdadeiro carro  transportador seriam  apagadas , confundidas ,  de forma a impossibilitar a quem  que - por  remota possibilidade - ali passasse ,  mesmo que fosse  no outro dia ,  pudesse perceber  qualquer  marca do carro pagador desaparecido  .

Logo para o outro dia ,  D Ártagnan - com suas amizades  aos  gaúchos daquele  fim de mundo ,  já   programara  a chegada de quatro grandes carretas de trigo  a ser depositado no silo ,  que - por sinal - já  estava limpo ,  tão somente com o pequeno caminhão  que  , não por acaso , ficaria  exatamente  onde a esteira despejaria o cereal .

Os Mosqueteiros sabiam que riscos  sempre existiriam .  Mas esta alternativa de esconderijo  foi a escolhida  porque concluiu-se que  nenhum dos que se sentiriam prejudicados poderiam reclamar a perda  do tesouro ;   para quem quer que fosse ,  na República Oriental ,  ou mesmo no Brasil .

Restaria  aos Mosqueteiros  a  missão de ocultação do alívio de realizações pecuniárias ,  até que a toda  a areia  passasse pelo buraco da ampulheta .


domingo, 28 de julho de 2013

Dúvida Cruel .

Prezados 30 leitores !

Confesso que bateu de novo aquela dúvida de que só sou lido pelos computadores e olheiros dos Big Brothers .  Sim ,  no plural mesmo . Isto porque  - de longe - a minha maior audiência está  nos Estados Unidos e  .... na Rússia .   Os dois lugares em que , segundo a grande imprensa ,  mais  se valem das "escutas" computadorizadas .  Mas , se assim  for  ,  será que pelo menos meus textos passam  pelos computadores . Ou , por outra , será que eles despertam algum interesse , pelo menos dos computadores espiões ?

Será que as máquinas  cospem o meu texto  impresso na caixa dos de  alto risco , os que ,  em papel ,  vão para  que  algum agente de óculos de vidro grosso o leiam ?

E se isto acontecer , será que o agente de óculos de fundo garrafa acha alguma graça neles ?

Será - caros perseguidores humanos -  que o que eu escrevo  é  mesmo lido por um ser humano ?  Nos Estados Unidos , ou  na Russia ?

Não sei porque lembrei agora daquele lusitano de nome Manoel  que  ao ser chamado  pelo amigo Joaquim  para que constatasse  que sua mulher estava entrando num motel com outro ,  aduziu  ao amigo : " Esta dúvida  é que me mata ...  o que eles estão a fazer lá dentro ? "

Mas  uma coisa é certa : já perdi todos os amigos que , de uma forma ou de outra , descobriram estas minhas poucas e mal traçadas linhas ( bota mal traçadas nisto ! )  .   Nenhum  deu continuidade normal à amizade :   " Ele é um canalha e eu não sabia ... "         " Não é que ele é um comunista disfarçado de americanólogo "      " Quem diria ...  ele que parecia  ser uma pessoa tão legal ... "

O pior : troquei amigos de verdade , de carne e osso ,  daqueles que emprestam o ombro  para as horas difíceis , os que  já pagaram tantas cervejas  ( um deles , um dos amigos que perdi , dividia pastel  daquela pastelaria chinesa que fica em frente do Correio Central  ... e sabem por que ?    porque não tínhamos dinheiro no bolso para comprar dois pastéis )  . Amigo  que , na hora da pior dureza  ficava em casa para emprestar-me os sapatos para eu ir a uma entrevista para um  novo emprego  .  Foi eles que eu perdi !

Perdi todos . Todos eles .  Uns pela dúvida estética ( puxa , mas como o cara escreve mal ! ) .  Outros pela certeza  política  ( enfim descobri que o cara é melancia : verde por fora , mas vermelho por dentro ) .  E outros simplesmente  por  motivos  que não consegui  identificar .

Nem mesmo os amigos que eu tinha no estrangeiro arriscam um alô ! ("e se a ASN está na cola do cara ? " )

Todos trocados por quem  ?        Ou melhor  : todos eles trocados por que  ?

Como sempre , eu me respondo :  Trocados pelos computadores  espias de Tio Sam .  Ou pelos contra-espias  do Kremlin !

E eu , que só queria  tentar  a sorte como  escrivinhador ...


PS : Absolutamente imperdível a crônica  "Orégano " do Mestre  Luis Fernando Veríssimo que trata deste mesmo tema .   Agora sei - com  um milhão de desculpas ao  LFV  -   porque rezei tanto para que o cara não fosse  prematuramente comer capim pela raiz :  foi para  não perder as  suas crônicas .

76 - Julietinha e o oficial do vapor - final B

D - Artagnan  , ao  voltarem  do almoço na reunião de Santa Maria ,  fez mais  uma  preleção aos Mosqueteiros  , o que ele chamava de  "base moral  para os atos de alívio "  .

" Não pensem  , Mosqueteiros , que  vocês serão os primeiros a porem em prática esta espécie de  obtenção de propriedade  numa de suas  formas de aquisição originária .  Não , muitos outros já o fizeram através dos séculos .  Daí eu ter que , agora , fazer uma distinção  entre  o que diz o aforismo " Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão "  e  o alívio que vamos em breves dias praticar.  Embora nos seus aspectos religiosos o  dito popular  sirva para uma expiação prévia de algo - o roubo -  defeso , eis que proibido pela  leis da Santa Madre Igreja ; por isto  é preciso diferenciar , separar mesmo ,  o joio do trigo . Companheiros , neste  balaio  , o  roubo é o joio  ;   mas  o trigo ...  o trigo  é o justo ,  é o  natural  alívio de excessos de realizações pecuniárias .   A propósito : um  exemplo recente , mas que já  se tornou um clássico , deu-se quando um dos mais grandes  maiorais  de Brasilia - agora mesmo , com a construção da nova capital  -  usou  daquilo que a gíria chama de  "laranja"  , para  ampliar suas realizações excessivas .
Tal  Maioral  (  por sinal , de graduação máxima na hierarquia  de tais peixes grandes )  tinha  um preposto ,  uma terceira pessoa de sua absoluta confiança ; repito : um laranja .  Sabe-se que o Maioral  recebeu um edifício  , de muitos andares ,  naquilo  que chama  de  "dação em pagamento" , só que de origem  corrupta . Ganhou  , como parte de pagamento de uma excessiva  realização pecuniária , um prédio numa das ruas mais valorizadas do Bairro de Ipanema ,  no Rio de Janeiro .   Mas como o nome do Maioral não podia aparecer  na  transação ,  pediu para o terceiro de sua confiança  receber como se fosse seu o imóvel ,  no que foi atendido pelo preposto sem maiores indagações . Tudo  sob o juramento tácito de  que o edifício ficasse às ordens do Maioral ,  inclusive para eventual transferência do domínio a quem ele mandasse .  E não é que o preposto morreu logo depois e , vindo um terceiro moço de recados  informar - a mando do Maioral -  à viúva que  ele queria que o imóvel fosse transferido a outro preposto .  Mas  a viúva respondeu que desconhecia qualquer acordo ou combinação de seu finado marido com quem quer que fosse ; e , que para todos os fins  , o imóvel pertencia ao marido ,  mas também a ela própria , eis que casados em regime de comunhão universal de bens .  É claro que o Maioral teve que comer com casca e tudo o fruto servido pela viúva . Pergunto-lhes , corajosos  Mosqueteiros : o que fez a viúva ?  Como pode ser classificado o ato praticado pela senhora ? "

Foi  Athos o primeiro a responder : " Ela  praticou  um alívio de excessos de realizações " .  O que foi confirmado pelos demais mosqueteiros com um balançar afirmativo  de cabeça  muito bem  explicitado .

"Certo , Mosqueteiro Athos !   a viúva  agiu como nós deveremos agir :  sem violência - eis que o uso da força bruta  descaracteriza o alívio , que  jamais pode ser confundido com qualquer outra forma de aquisição da propriedade .  Obter  propriedade  pela força  caracteriza o roubo .  Mas  consegui-la  - quando excessiva -  pelo alívio ,  aí  tem-se  - seguramente -  uma forma lícita de adquirir  o que foi  obtido  - aí sim - de forma  ilícita ,  criminosa  mesmo .  E , para concluir , pergunto : por que  o objeto dos alívios  tem que - antes - serem  tisnados pelo crime , pela ilicitude ?   "

D´Artagnan não demorou a  ,  ele próprio ,  responder :  " Porque também a obtenção da propriedade tem condicionantes a serem respeitadas . E se isto não acontecer de forma criteriosa ,  e - além disto  - ela  for excessiva ,   pode  ser  -  tranquilamente -  aliviada .  "   Concluiu  D ´Artagnan  sob  aplauso dos companheiros.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

75 - Julietinha e o Oficial do vapor - Final B

Em reunião , os Novos Mosqueteiros decidiram que haveria    a cada dois dias ,  e por telefone ,  a  coleta das novidades aliviantes .  Os esgrimistas  daqueles pampas  usariam  os aparelhos  comunitários  que a empresa de telefonia colocara nas ruas  que permitiam  o recebimento de ligações   por  quem estivesse por perto deles. Com este meio , D´ Artagnan  saberia  as novidades  e  daria  as novas diretrizes aos colegas.

De agora  para frente  o  mais importante  seria que  todos se recordassem de suas experiências de vida para que as soluções dos problemas  tivessem  base na realidade de cada um dos Mosqueteiros .

Foi para  incentivarem-se mutuamente que marcaram  a  reunião de  Santa Maria ,  uma cidade situada bem no centro do estado .  Naquela  reunião ,  D ´Artagnan  mostrou  o progresso nos planos ,  por ele denominado ,  agora  oficialmente ,  de  " Plano Geral do Alívio de Excessos de Realizações Pecuniárias " .

Por sua vez ,  o primeiro mosqueteiro  refletiu interiormente sobre o amadurecimento mental por que passavam  todos os outros . Mesmo os de origem mais humilde  agora raciocinavam  com grande lógica , o que vinha confirmar o que ele já desconfiara ;  que  a exclusividade na  singeleza de idéias - ma maioria das vezes -  é  própria  do  ambiente de pobreza que cada um vive .  A proximidade - ainda que como potência -  da pecúnia ; a possibilidade de que cada uma daquelas pessoas  viesse a - em breve - tornar-se  alguém de  posses  fazia com que cada um deles  raciocinasse como gente das altas finanças .    Mas , é claro ,  a correção deste  pensamento a que chegara  D Ártagnan  só seria  comprovada com o sucesso do  alívio de  excessos  pecuniários que estava em curso .

Athos  informou  que , ainda  que usando seus últimos recursos ,  compraria na República Oriental  um pequeno caminhão totalmente  idêntico  ao que os Capa Pretas chegavam com os dólares .  Como Athos dispunha de  um derradeiro dinheiro no exterior , e sendo a República Oriental um paraíso fiscal , isto facilitaria  a compra .  Outro ponto importante :  Athos  compraria o caminhão em nome de um terceiro , na verdade tal  estratégia era algo comum  entre os comerciantes do lado de lá da fronteira .  Muito brasileiros faziam negócios , abriam contas bancárias ,  compravam bens com nomes chamados por eles mesmos de "frios" .  Era um costume já pacificado nos usos e costumes locais . 

Por sua vez ,  Aramis disse que o seu acompanhante costumava dedicar  as duas primeiras horas de seus encontros para os jogos de amor ,  só depois deles entregava-se  à bebida ,  tomando dois , quase três copos de uísque ,  passando logo a dormir  com sono completamente  profundo nas próximas  três  horas .  A  jovem propôs   - a título de ideia possível de ser  executada  -  o  artifício usado por  um cliente seu , um jovem - quase menino - que  , apesar de ter pouquíssimos recursos ,  queria  dispor de seus serviços amorosos . O jovem combinou o preço ,  chegando a mostra-lhe o dinheiro com que , certamente , honraria  o contratado .   Já no leito , o rapaz pôs o dinheiro da paga debaixo do travesseiro .   Tudo aconteceu normalmente , tendo mesmo Aramis tecido algum elogio  ao cliente.  Admitido  a permanecer  no leito ,   o soldado , que por sinal  cumpria  o  tempo de serviço militar obrigatório ,  avisou que teria que ir embora muito  cedo . Assim foi ,  o  sol  ainda não se levantara quando o jovem propôs  - e foi aceito por Aramis -  um  novo enlace -  , agora  matinal .  Logo depois vestiu-se  apressadamente  e saiu  quase correndo em direção ao quartel ;  mas não sem antes puxar  pelo lado  de fora da janela o  fio  que amarrara ao dinheiro do hipotético pagamento .  Ao acordar , a moça  tateou , procurando  o dinheiro embaixo do travesseiro do freguês ,  mas nada encontrou .  Revistou  o quarto , quando notou  a janela  estrategicamente entreaberta .    Foi ao lado de fora e encontrou  o fio de linha  jogado ao chão ,  sendo ele  a prova  que  permitiu que ela  descobrisse  a trama  do gentil  soldadinho .
Concluindo ,   Aramis informou que fora  despertada  para aquela solução do recruta  pelo hábito do seu  Capa Preta  que , assim como soldado,   guardava  a chave do caminhão de dólares embaixo  do próprio travesseiro.  Sendo assim , ela lembrou-se que também  os Mosqueteiros poderiam  valerem-se da criatividade do recruta . Ela bem que poderia dar  um jeito de amarrá-la a um barbante para que D Artagnan , ou mesmo Porthos , puxassem- nas  para fora do quarto .

D ´Artagnan achou  a ideia muito  criativa .  E disse que seria levada em conta na elaboração final do plano.

Neste momento interromperam  a reunião para almoçarem .
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