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quarta-feira, 22 de maio de 2013

48 - Julieitinha e o oficial do vapor. Final B .

O tiro dado em Severino sangrou muito ; mas costurado , logo o pistoleiro ficou novo.  Pelo menos por fora . Por dentro  estava  acabado .

- Por que vosmecê  não acabou de vez com minha raça ?   Por que deixou  para mim o  fim  do trabalho ?

- Prá começá , índio velho ,  tenho que dizer que te devo  desculpas .  Tudo porque vistes de perto  a corcunda da  foice nas costas  , sentistes o bafo de sua boca ,  mas não te entregastes .  Se bem que tivestes sorte  ,  porque se me pegas mal dos  bofes  tinhas entregue a alma aos teus protetores  naquele  mesmo  momento ...

- Quem cuida de minha alma é  Padim Ciço ...  o mesmo da de  Lampião . Só  que não acredito na tal da  sorte que vosmecê  me alude ... se o sinhô não sabia ... eu já recebi a paga pela sua vida ... e  o sinhô tá aí ,  vivinho  como  antes de eu cruzá o  seu caminho ...  isso quer dizer o quê ?

- Já sei , já sei ....  um de nós tem de se ir ... ;   mas com as mesmas ganas  que eu quis dar uma lição ao  atrevimento  ,  eu  digo agora que te  perdoei ,  e  farei o que estiver ao meu alcance para que aproveites este changui  que te dou para que deixes esta vida  de pistoleiro de aluguel ...

-  Dotô ...  ninguém  é assim  tão dono do seu destino  ... e  minha história não começa em mim ...  vem  de familia ...    do  escravo  Belarmino ,  agrilhoado que  estava ,  cortou o próprio pé prá escapá do cativeiro .... e  escapou ....  voltando o capenga  prá  matá o seu dono ... . E  matou .    Desde  lá  nenhum dos  Belarmino  quebrou  a  palavra ...  esse sou eu  Dotô ,   o  Severino  dos Belarmino ...   o  Severino  Belarmino .

- Mas não tá morto quem peleia ,  indio velho !   Eu  proponho o seguinte :  Não me custa tanto assim ir ao norte e procurar o teu  mandante .  Então te pergunto : E se eu me arreglar com ele , isto te libera deste desígnio de que um de nós dois tenha que  ir desta para a melhor ?

- Neste caso , se meu patrão em pessoa me liberar da tarefa eu tô livre do  mandado ...

- Pois tá feito o trato .  Quanto à polícia,  tu digas que és  meu grande amigo ,  que entrastes já meio fora de hora no meu pátio ...  que fostes confundido com ladrão ...  mas que és amigo de verdade  .  Fica tranquilo que eles não perguntarão  demasiado  .

Poucos dias depois Paulo pegou o avião para Recife .






sábado, 18 de maio de 2013

47 - Julietinha e o oficial do vapor - Final B .

Te cagaste tchê !

"Te cagastes filho de uma gran- puta  !"    bradava  Paulo com todas as suas forças .

Pituca  percebera  , com o pressentimento e a sorte própria dos Becerras , que estava sendo seguido , tocaiado  por alguém ,  e este alguém era nada menos do que Severino Cara da Morte .

Logo no anoitecer Severino ,  ao voltar  à frente da casa de Paulo  dos  Becerras ,  alegrou-se em perceber que as luzes estavam acesas ,  com  som de radio como sinal  de que Paulo poderia  ,  que Paulo deveria com certeza estar ali , a poucos   instantes de sua hora .

Num plano urdido pelo próprio  Pituca , ele introduziu  o cunhado Pedro  dentro da cena ; na casa,   pronto para abrir a porta ao bater de Severino .  Só que o fazia puxando de uma certa distância , com um cabo de guarda-chuva , o trinco da porta.

Não  se passaram  mais do que três segundos.  Depois de Severino transpor o portão e tocar a campainha , para que -  ainda que não avistasse  o alvo -  entrasse no patio interno  já com o revólver engatilhado para o serviço  .

Como uma fera Paulo - que estava  postado  no  carro  e à  frente do portão -   com o  38   na mira  dispara  um tiro  na bunda de Severino que , com o impacto cai de bruços soltando o revólver que voa  a quase três metros de distância .

Pituca  não deixa  por menos : bota o pé   - com bota de fole  e tudo -   no pescoço do pistoleiro , gritando  : Tê cagaste tchê !   Tê cagastes !!

A bem da verdade ,  Severino  era um cabra  de coragem que  sempre prometera para si mesmo que se circunstância semelhante se passasse ,  ele jamais se borraria nas calças ,  como  ofensivamente brandia  Paulo Becerra .  A desonra maior não se consumaria . O valente  Severino Cara da Morte morreria  , e disto já estava mais do que convencido ,  mas sem  se borrar nas calças.

Tudo porque naquele meio uma das maiores vergonhas era temer a morte ao ponto de ,  no  momento final , sujar as  próprias calças de excrementos.

Além disto ,  o grito de Paulo era de vitória  ,  de  vingança ,  era  algo como  :  "tú  ,  que pensavas que ias  me matar  agora está aí , submetido .  Veja como eu sou mais hábil e mais esperto do que tu ,  que estás com a cara no chão " .   Isto era ,  sintetizado nas  duas palavras : " te cagastes ! "

Se a submissão do pistoleiro era  bem-vinda ,  o mesmo não acontecia com a morte dele . A última coisa que os cunhados queriam  era que  Severino Cara da Morte viesse a morrer  . Tudo porque  já não havia ódio no coração de Paulo Becerra   .

Pedro saltou de dentro da sala e precipitou-se para Severino que perdia muito sangue . " Beba , beba água".   Quanto à Pituca ,  este já  ligara o carro  e  começava  a  levantar  Severino : " Te aquiete , tchê  , te aquiete  que tua hora ainda não chegou . "

Logo estavam no hospital , com o pessoal correndo com Severino para estancar  a sangria .

"Mas Doutor Paulo Becerra , este homem foi baleado , e eu vou  informar a polícia ".  Disse-lhe o médico . "


N.d.A.  :  os gaúchos daquela região expressam a segunda pessoa verbal ora com "s"  ( "te cagastes" , por exemplo )  ;  ora sem o "s"   ( "te cagaste" ) . Ambas refletem o modo de falar regional. A aposição do "s" é , na região , misteriosa . É clássica a observação de que os gaúchos dali chegam à padaria e compram :  "um pão "  . Ou  "dois pão "   .... "nove pão"  ... "dez pão" . Por um destes mistérios da linguística  , quando compram onze unidades , dizem sempre :  " ... quero onze pães " .  





quinta-feira, 9 de maio de 2013

Aos órfãos de Pedro e Julietinha .

Prezados

Como vocês devem ter notado eu estou fazendo uma reforma  na novela , até encontrar a  bifurcação  onde posso desenvolver o novo final , que traz Pedro como uma pessoa íntegra .

Então , todos os capítulos retirados - até  onde encaixa o novo final - voltarão  ao blog  novamente : "acoplados "  no texto mencionado .

Regards !

terça-feira, 7 de maio de 2013

A volta de " Julietinha e o Oficial do vapor "

Prezadíssimos !

Pois é , tive um pequeno contratempo : simplesmente escrevi quatro  capítulos desde o ponto  que  deixei um gancho, onde a história ainda pode  bifurcar-se    [   quando ainda  existe  oportunidade e tempo para Pedro , o jornalista ,  integrar-se na história da forma tranquila que ele - confesso agora -  sempre  foi  ... um cara sensível , romântico , preocupado com os humildes ,  que nunca se rendeu ao vil metal ... enfim o verdadeiro Pedro ( vamos e venhamos , este outro era a antítese , o avesso do verdadeiro Pedro que nunca se vendeu para quem quer que fosse  ) ]    e neste ponto -  repito , com quatro capítulos prontos para mandar para o mundo ....  apertei  o botão errado e exclui , em vez de clicar no botão "publicar" .

Assim é que vou reescrever (  vai ser mais rápido , eis que o  caminho já está feito nos neurônios )  e  mandarei  logo que estejam  prontos .

Por fim , devo confessar que foi difícil para mim escrever o final anterior  [ o que a Julietinha  foi  para  os finalmentes   de forma equivocada  ,  eis  que sempre apreciei muito  a sinceridade que ambos personagens  ( Pedro e Julietinha )  guardavam um para o outro . ]

Mas , como dizia Paulo , o estancieiro irmão de Julietinha : " Não está morto quem peleia ! "
tudo farei  para termos  um final digno de "Julietinha e o Oficial do Vapor " .

Como disse um dia o inefável Silvio Santos : Vocês merecem !

sábado, 13 de abril de 2013

Aos amantes de Julietinha ( e também , do Oficial do vapor ) .

Prezados !

Imagino que vocês estejam saudosos da Julietinha ,  do Paulo , da Valéria , do Pedro ,  do Gian  e  do Paolo ( este , um aproveitador das sobras que ficaram ao longo do caminho do Giancarlo ) .

Pois bem , como prometi , vai começar logo logo  um novo final de tal folhetim , agora com um Pedro super-herói .

Para tanto vou ter que rasgar o que escrevi ,  quando  Pedro tornou-se  um reles beberrão ( se não fosse assim , como  levar Julietinha a quebrar a jura de fidelidade eterna  feita  por ela  no altar mor  da Igreja Auxiliadora  de  Boca do Monte ? ) .

Não percam !   Breve : a volta de  Julietinha e o oficial ( ou seriam , "os oficiais"  ?  )    do vapor     -  que depois virou navio !

Regards !

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Julietinha e o oficial do vapor . 52 - FIM

"O que ela vem perguntando ?"   Disse o Primeiro Oficial à camareira .
 " O que ela quer mesmo saber é se o senhor é Gianpaolo  ou  Giancarlo . "

" Se é assim , conte a verdade , de novo . "

Tal diálogo , entre os dois tripulantes ,  não causaria surpresa alguma a quem porventura o escutasse  ( e, principalmente,   o  assistisse )  ,  não fosse um -  não mais do que um -   reticente piscar do olho esquerdo de Petrucci  .  Assim mesmo , tal   hipotético observador iria se perguntar  se aquela piscadela  (  - que , convenhamos -  tem a simbologia universal de  quem camufla uma mentiria  )  bem poderia ser um tique nervoso , como devem ter milhões de pessoas na face da Terra a piscar um olho só , ainda que mentiras não estejam querendo sugerir .


" Buon diorno Signora  Giulietinha .... Signora Giulietinha .... buon giorno ! "   ...  repetiu a camareira  para a  estancieira que dormitava ao sol  da  manhã ... "

" Olá Rafella , buon giorno para você  também ! "

" Eu tenho algo para dizer que talvez lhe interesse .... "

" O que é , Rafaella ...., porque este segredo todo ? "

" É que eu descobri qual dos dois  "  G "  é o Primeiro Oficial ? "

"Como é ?    Por Deus , diga logo o que você descobriu .... "

" Eu soube , com certeza , que o Oficial Petrucci  trata-se  de Giancarlo Petrucci . "

Com o coração aos pulos ,  a moça emudeceu , embora seus olhos se voltassem de maneira brusca para  todos os  diversos  pontos  cardeais das vistas .

" Você tem certeza do que me falou agora  ? "

"Tenho mais certeza de que se trata de Giancarlo  do que eu me chamo Rafaella . "

" Obrigada , muito obrigada Rafaella . Não deixe de dar uma passada na minha suite para eu agradecer-lhe ainda mais pelo que agora me dizes . "

" Não será preciso outro agradecimento sobre o que eu revelei  agora  ;  basta que eu venha a saber que  (   nem que tenha sido por um  só  momento  ) que  a senhora  chegou  a  ser  uma mulher verdadeiramente feliz ... "



Julietinha surpreendeu-se ao saber que o atalho por que a levara  ontem  ao  convés   passava pelos corredores das cabines dos tripulantes graduados .

Com o marido no salão de jogos  ,  a morena de Boca do Monte  , vestiu-se  - mais uma vez -  da maneira mais sensual que podia  compor-se   - só que de saltos  baixos -   e foi  para onde sabia   que  Giancarlo  estaria acomodado ;  sob  a  promessa  interior  de que  não  exitaria  em bater em sua porta

Uma surpresa  :  á  distância de  apenas um  passo do ninho do italiano  a porta abriu-se  antes dela  ali chegar  ,  não sendo necessário  diminuir-se  moralmente  por bater naquela porta .  Até  neste detalhe Gian fora um cavalheiro , deixando  claro que não era só ela  quem  esperava  ansiosamente por aquele momento.    Gian envolveu-a num abraço apertado , e ,  num piscar de olhos,  colocou-a  para dentro da cabine .

Desta vez nada de diferente  dos  encontros apaixonados em cabines apertadas , de trens ou navios al mare  e a paixão até então  recolhida  a  , digamos , tão  somente dentro de  seus  corações , explodiu  em carícias que , como disse um poeta ... foram infinitas enquanto duraram .

E duraram até às duas e meia  da madrugada , eis que o cassino fechava sempre às três.

O navio voltou à Barcelona . Foi quando Julietinha sugeriu à Pedro que tivesse  uma tarde sozinha  para comprar lembranças para as amigas , os parentes .  Ele  concordou , dizendo que queria conhecer bares de  comidas típicas da Catalunha .  E , como sempre , beber algumas copas de bom vinho .

Dentro da bela estancieira um prazer a mais . O de saber que o que acontecera tempos atrás , em que Gian não tinha chegado a penetrar nos sonhos de Julietinha ,  agora  tudo acontecera muito mais do que em  suas melhores expectativas .  Ocorre que  a jovem senhora não tinha por Giancarlo somente desejos  ardentes . Ela aprendera a admirá-lo como pessoa , talvez mais bonita por fora do que por dentro . E ela  saber agora que ele tinha recuperado totalmente a sua condição de homem , de amante completo - e não apenas distanciado dos atos de amor propriamente ditos -  trouxe para Julietinha uma calma que há muito tempo não conseguia ter.

Na verdade o que Julietinha fez foi procurar uma igreja  que tivesse a luzinha vermelha acesa , aquelas que identificam  a presença de um confessor .  E a encontrou .  Ajoelhou-se  e , com a confiança das
verdadeiras  católicas   contou tudo ao padre ;  dizendo também  que estava certa de que o que tinha feito não chegava a ser  um pecado ;  abrindo  toda a história trazida na ponta da língua : de que o tempo entre ela e Giancarlo  fora  (  infelizmente para seu marido )   al revés  .  Mas que - apesar da ressalva -   ela e Giancarlo tinham direito pleno - pelo menos por uma única vez -  de se  acostarem , como de fato  aconteceu  .  Sim ,  se fossem à bíblia , se procurassem nos arquivos secretos do Vaticano , lá haveria de estar registrado pelo menos um precedente de que uma entrega naquelas circunstâncias extremas não poderia ser capitulada de pecado .

Foi quando o confessor - com  um evidente sotaque italiano - falou-lhe com uma tranquilidade própria dos monges ....

" Quem  pede perdão sou eu , Senhora Julietinha .... "

" Santo  Deus , como agora este Padre ,  falando este Espanhol capenga,  sabe o meu nome ? "   ( pensou  a  signora ) .

Novamente  o padre interrompeu seus pensamentos :  " Perdão senhora , mas deve haver um engano nisto tudo ; o  que - pressinto  -   no cambiará  o  que eu , em nome de Deus , poderei fazer para aliviar a sua alma ...  pero  ,  eu é que sou  Giancarlo Petrucci  - il vero ! -   ,  aquele  que  -  logo depois de conhece-la naquelas  circunstâncias  -   ... retirou-se  para servir de forma integral ao Senhor.  Prego , Signora , pero  Giancarlo era el mio nombre  civile  , ahora  soy  Fratello  Francesco ...  " .

FIM


  N.d .  A  :   O verso  "que seja infinito enquanto dure "   é de Vinícius de Morais .

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Julietinha e o oficial do vapor -51

Pelo menos em seus  pensamentos noturnos  Julietinha já  resolvera  que se algo acontecesse entre ela e Giancarlo , fosse o que fosse ,   não seria propriamente uma quebra da promessa de fidelidade feita a Pedro no altar da igreja de Nossa Senhora  Auxiliadora  , em Boca do Monte .  Deus haveria de compreender que   o ocorrido teria sido  tão somente uma  acomodação do tempo  assim como os  ajustes  feitos de vez em quando até  pela própria Igreja .   Algo de que  os dois , ela e Gian ,  já  teriam  direito  adquirido e   recíproco ,   desde há muito tempo e ,  se ainda não  posto ,  fora  tão somente  por um detalhe  sem  tanta   importância , que agora , talvez daqui a pouco , já faria parte de um passado a esquecer  . Falhar  todos nós um dia falhamos ,  o que passou ....  passou .   O  direito de  se  encontrarem  afastava  qualquer outra jura que com  ele  conflitasse  com   a paixão ainda não  consumada   que  sobrevivera  , ainda que de  forma latente , como bulbos adormecidos no inverno gelado.

Era claro que tal  exceção  só valiam para paixões verdadeiramente antigas , eis que a desculpa carecia de uma posse distanciada.

Estes pensamentos tomavam seu cérebro , e tanto que  agora  não causavam mais  dúvidas .  Agora só faltava  um nada  para  que  os  destinos  os aproximassem  tanto  que os seus cheiros desaparecessem    tornando  impossível  a cada um de negar-se ao que  mais  ansiavam :   acariciar-se até que as mais  recônditas  fibras de seus corpos  penetrassem-lhes o quanto possível .

E a cada poesia que lia , que lembrava , ou  declamava para si própria , mais Julietinha  se convencia de que se o encontrasse , se se encantasse num estalido   perdidamente por Giancarlo , assim mesmo ,  traindo Pedro ela não  estaria  .

Eram umas onze  horas do penúltimo dia , o decimo quarto  , com  Pedro  de há muito no cassino ,  quando a cabine ficou pequena para ela .  Num salto levantou-se da cama  com os cabelos assim mesmo e buscou o caminho mais curto para o vento do convés,  do que agora precisava muito , mal sabendo que aquele atalho passava justo por outra cabine de alguém igualmente insone , igualmente aflito,    por  espera igualmente cruel .

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